Índice de Capítulo

    Ola, queridos leitores! A obra vai entrar em hiato por um tempo, pouquinho, mas jaja volto, ainda estou escreveno!

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    ‘’A Ruina Verde. 

    Dizem que há muito, muito tempo atrás, um Grænfadir vagou pelo mundo; um soberano do verde. Chamavam-no de Caminhante Verde, pois, por onde ele passava, a vida florescia.

    Seu caminhar parecia simples. Ainda assim, bastava que ele cruzasse uma terra estéril para que ela despertasse. Grama brotava sob seus passos, árvores se erguiam onde antes houvera poeira e rios claros nasciam onde o solo estivera seco por gerações. Campos que antes tinham sido mortos se transformavam em paraísos de verde profundo, cheios de flores e vida abundante.

    À medida que os anos passavam, o nome do Caminhante Verde se espalhou por todo o continente de Óbygdheim. E assim, as histórias de seus milagres chegaram aos ouvidos do grande soberano do oeste; o governante das areias, conhecido entre seu povo como o Grande Sol.

    Esse soberano, cansado das guerras intermináveis que seus povos travavam pelos poucos oásis, acreditou ter encontrado uma resposta para seu sofrimento. Se o Caminhante Verde podia trazer vida às areias, pensou ele. Então, o deserto enfim conheceria paz e prosperidade.

    Movido por essa esperança, o Grande Sol partiu pessoalmente em busca do Grænfadir. Quando enfim o encontrou, ajoelhou-se diante dele e implorou por sua ajuda, mas o Caminhante Verde recusou. Ele disse que não era seu dever interferir nos assuntos do deserto. Também disse que toda terra carrega seu próprio destino.

    O soberano voltou no dia seguinte. Deixando o orgulho de lado, ele começou a seguir o Caminhante por estradas, colinas e vales. Dia após dia, renovava sua súplica, implorando que ele trouxesse vida às areias, e assim seguiu por muito tempo.

    Até que enfim, cansado de ouvir as súplicas do Grande Sol ou, talvez, movido pela persistência daquele homem, o Caminhante Verde cedeu, indo ao deserto. E, onde seus pés tocavam a areia, milagres nasciam. As dunas se tornaram rios, florestas coloriram horizontes que antes haviam sido vazios de vida e preenchidos por oceanos de areia. O lugar antes chamado de Deserto da Morte passou a ser conhecido como a Terra da Vida e, entre o Caminhante e o Grande Sol, nasceu uma verdadeira amizade.

    Por um tempo, o deserto prosperou, mas o coração humano raramente conhece a medida das próprias ambições. Libertos da fome e da sede, os homens logo encontraram novas razões para lutar. As pequenas disputas por oásis se transformaram em guerras por poder.

    Os rios foram banhados em sangue e envenenados. A grama se encheu de ossos. As árvores foram derrubadas e queimadas para erguer muralhas e máquinas de guerra. Em meio àquele caos, o Grande Sol foi traído.

    Assassinado.

    Quando o Caminhante Verde soube de sua morte, algo dentro dele se partiu. O coração que antes espalhara vida tornou-se pesado e escuro. Então, ele retirou do deserto tudo o que lhe concedera.

    Os rios secaram, as flores morreram e o verde tornou-se areia outra vez. No lugar onde o Grande Sol havia sido enterrado, o Caminhante ergueu um último oásis. Ali, ele infundiu seu próprio megin. Era uma tumba dedicada ao único amigo que encontrara em sua longa jornada.

    O Caminhante Verde jamais deixou aquele lugar. E aqueles que, movidos por ganância ou curiosidade, se aproximaram do oásis buscando suas águas, encontraram apenas a morte. Seus corpos se tornaram parte do solo e, assim, alimentaram a tumba do Sol para sempre.

    À medida que as gerações passavam, o belo oásis intocado recebeu um novo nome entre os povos do deserto: 

    A Ruína Verde.

    “Seus corpos se tornaram parte do solo…” A frase permaneceu na mente de Hrafn por um tempo, pois quem sabe houvesse mais na cor com a qual foi abençoado. 

    Ou talvez seja apenas uma fábula.

    Com um suspiro cansado, ele fechou o livro e deixou as pontas dos dedos repousarem por um momento sobre a capa gasta. As páginas ainda guardavam um velho cheiro de poeira, chá e fumaça, coisas de Saga. Por um breve instante, Hrafn teve a impressão absurda de que ela poderia arrancar o livro de suas mãos, chamá-lo de tolo e dizer que ele não enxergava. Que nenhuma história séria deveria ser lida com uma cara tão condenada, e talvez houvesse verdade nisso, mas esperança? Disso ele tinha pouca.

    Doi a bunda.

    Já estavam a cavalo havia dois dias. Hrafn começava a suspeitar de que a sela foi inventada por alguém que odiava gente pobre. Conforme os ricos viajavam em pequenas carruagens cercados por servos, os outros ganhavam um cavalo da Hird, poeira na cara e a estrada à frente. Ele também tinha comprado por conta própria uma espada. Seu peso era honesto e, quando sua mão tocava o pomo, algo dentro dele se aquietava. Mas bastava um olhar para trás, para a estrada de sal ficando cada vez mais distante, para o aperto voltar.

    “Voroirs!”, chamou o mesmo hersir que estava presente na cerimônia, aquele que Hrafn agora sabia ser um hersir graças a Sigrid. “Pararemos aqui por hoje”, ordenou.

    Logo, sacos de sal foram abertos, tendas erguidas e fogueiras preparadas. Em pouco tempo, o acampamento inteiro estava quase montado e disposto. Então, eles traçaram além da estrada um fino anel de sal rosado. Havia conforto em vê-lo e preocupação também, pois bastava uma linha sobre a terra para lembrar a todos ali que, fora das muralhas, a diferença entre ordem e carnificina podia ser a largura de um dedo.

    “Estamos condenados”, veio uma voz de um dos iniciados próximos.

    Ele reconheceu o rapaz. Ele fora um dos que cavalgavam à frente do grupo quando partiram, com peito inflado de orgulho, sempre avançando como se já tivesse vencido alguma coisa. Agora parecia à beira de vomitar o próprio medo.

    Parece que alguém finalmente entendeu.

    Hrafn tomou um gole da sopa que lhe haviam dado e inclinou levemente a cabeça, curioso para ver como seu agora irmão Fylkirn desenvolveria aquela súbita iluminação.

    “Não há necessidade de tanto desespero, meu caro. Alguns de nós certamente terão tempos difíceis, admito.”

    A resposta veio de outro jovem, sentado com a postura relaxada. E havia algo na maneira como mantinha as costas retas e o queixo erguido. Algo estudado, certamente caro, um nobre ou próximo o bastante de um. “Mas antes de tudo,” ele disse, “qual é o seu nome?”

    “Briorn”, respondeu o rapaz.

    “Veja… Briorn, os bem-abençoados como nós,” o outro prosseguiu, abrindo um sorriso confiante, “se sairão melhor do que a maioria, meu amigo.”

    “Sim!”, acrescentou uma garota. “Olhem em volta! Nunca vi tantos voroirs juntos, e nós somos fylkirns agora!”

    Murmúrios de concordância se espalharam aqui e ali, menos porque realmente acreditavam nisso e mais porque precisavam acreditar em alguma coisa.

    “Talvez”, respondeu o suposto nobre, deixando o olhar passear pelo grupo com um desdém ao mesmo tempo leve e evidente, como se a palavra digno não lhes caísse bem a todos. Então seus olhos pousaram em Hrafn e algo pareceu lhe ocorrer. Então, ele se levantou e caminhou até ele. “Você aí, garoto, não é aquele primeiro? O verde, se não me engano?”

    Hrafn apenas assentiu e tomou outra colher de sopa, mais interessado na comida do que no homem diante dele.

    “Durante minha educação,” anunciou o jovem, fazendo a palavra educação soar como um título, “aprendi muitas coisas que você talvez não saiba.”

    Hrafn continuou comendo, e o silêncio pareceu incomodar o outro. “E sinto que talvez eu não tenha boas notícias para você, ‘irmão’.”

    Ele não ficou surpreso. Já sabia. Não tivera o luxo da instrução formal, mas sua família, Saga especialmente, alimentava uma afeição quase fanática por histórias, e muitas dessas ensivanam mais do que mestres pagos em prata ensinam.

    “Bem… verde, não é?”, insistiu o jovem, e o sorriso falso começou a rachar nas bordas. “Só tente não morrer de alguma maneira vergonhosa antes de amadurecer.”

    Hrafn então ergueu os olhos e o encarou diretamente. O jovem não era alto nem baixo. Tinha a pele macia de alguém que nunca levantara nada mais pesado do que um tinteiro e pálida demais. O cabelo do sujeito também era bem arrumado, melhor do que o de muitas mulheres que ele se lembrava de ter visto nas docas. Suas roupas, por sua vez, exibiam tantas cores que quase feriam os olhos.

    “Hm”, murmurou Hrafn. Então tirou a espada da cintura, ainda na bainha. “Aqui, pegue”, disse ele, lançando a arma na direção do jovem.

    O outro tentou agarrá-la no ar por reflexo, mas o peso inesperado lhe roubou o equilíbrio e ele caiu sentado no chão com a espada escapando de suas mãos como se o tivesse rejeitado. Risadas se espalharam pelo acampamento em seguida, com até alguns servos sendo forçados a disfarçar as suas. O jovem levou alguns segundos para compreender a extensão total do ridículo em que se encontrava e, quando entendeu, seu rosto de porcelana ficou vermelho como sangue. Mas a presença de voroirs por perto o impediu de ordenar que seus servos fizessem qualquer coisa.

    “Me lembrarei de você”, disse ele.

    Hrafn ignorou e voltou à sopa. Se o jovem realmente fosse nobre, talvez isso tivesse sido uma preocupação alguns dias antes. Mas agora, ele estava a caminho de Sahirid sob a proteção da Hird; o resto importava menos. Depois disso não houve mais intrigas. A tensão pairando sobre todos era grande demais para deixar pequenas vaidades florescerem por muito tempo. Hrafn não era diferente, e depois de terminar a refeição, ele improvisou um lugar para dormir. 

    Mas acabou não conseguindo. Toda vez que olhava para a escuridão trazida pela ausência da Estrela, tinha a estranha e desagradável sensação de que algo dentro dela estava olhando de volta para ele.

    Por fim, desistiu e resolveu caminhar pelo acampamento, onde alguns poucos jovens ainda permaneciam acordados perto das fogueiras, falando baixo demais ou alto demais, conforme o medo os fazia tagarelas ou mudos. Nas bordas, os Voroirs em vigília estavam quase engolidos pelas sombras, sendo mais presença do que figura. E, a cada passo de Hrafn, seus olhos tentavam inventar formas nas sombras além do sal, conforme troncos se tornavam membros e pedras se transformavam em figuras agachadas. Mas não havia nada ali. Talvez por isso mesmo o medo crescia mais; a escuridão sempre encontrava maneiras mais eficientes de mastigar a coragem. 

    Foi então que encontrou a figura familiar que procurava, falando com alguém que lhe parecia vagamente conhecido também. Sigrid estava sentada ao lado da outra garota perto de uma das fogueiras, com ambas observando as chamas dançarem. “Sigrid?”, chamou Hrafn, aproximando-se.

    Mas antes que qualquer resposta pudesse alcançá-lo, um som súbito rasgou a noite. “Voroirs!”, ouviu gritar. A voz do hersir já lhe era familiar agora; a urgência nela não.

    Então a trombeta soou.

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