Ola, queridos leitores! A obra vai entrar em hiato por um tempo, pouquinho, mas jaja volto, ainda estou escreveno!
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Capítulo 11. Thora. Sempre com medo
Thora estava com medo, o que não era novidade. O estranho era a culpa; o medo lhe era íntimo. A culpa, nem tanto.
Desta vez vieram juntos, e ela passou quase toda a jornada em silêncio. Os outros cavalgavam um pouco à frente, conversando de vez em quando. Normalmente ela também estaria falando, gostava disso. Acima de tudo, gostava de conversar com Sigrid. Havia também o garoto novo, Briorn, que depois de ajudar a salvar Hrafn e Sigrid, simplesmente se enfiou no grupo, como se sempre tivesse pertencido àquele lugar.
Já ela estava sem graça, pois duas noites antes ela estava apavorada. Ainda se lembrava do caído se lançando contra Hrafn, daquela coisa assustadora, e Sigrid avançando corajosamente mesmo assim. Lembrava-se de Briorn também, pequeno e berrando, mas avançando. E lembrava-se de si mesma.
Correndo.
Claro que correu. Quem não correria? Ela era rápida, leve e logo fez o que sempre fazia quando o medo mostrava os dentes. Então, se escondeu. Encontrou o espaço mais apertado que pôde sob uma carroça e dobrou o corpo ali, como se se tornar menor pudesse torná-la invisível para o mundo.
“Não é tão ruim assim,” disse Hrafn, ajustando os ombros.
“Você não tem um maldito braço, porra!” Briorn rebateu.
Era estranho vê-los discutindo, mais estranho ainda perceber que de algum modo se entendiam. Hrafn parecia calmo demais para alguém mutilado tão recentemente. Briorn, irritadiço como parecia ser, ficou ofendido em nome dele. O amigo de Sigrid disse antes que estava quase feliz por ter perdido o braço, e Briorn reagiu como se aquilo fosse blasfêmia. Desde então, os dois vinham debatendo o absurdo ao longo da estrada. Thora não gostava daquela conversa, não por causa da discussão em si, mas porque seus olhos sempre voltavam ao ombro de Hrafn, que terminava sem um braço.
“Eles certamente se entendem,” sussurrou Sigrid, surgindo ao seu lado com diversão na voz.
“C-certamente,” respondeu Thora.
Ela tentou soar leve, mas sua voz saiu tremendo, conforme seus olhos foram de novo para o lado direito de Hrafn. Queria ir até ele e pedir desculpas, dizer que sentia muito, confessar que talvez, se também tivesse lutado, ele ainda estaria inteiro, mas não conseguia. Temia a resposta e temia seu olhar, também havia algo pior, o pedido de desculpas seria uma mentira. Porque, se pudesse voltar àquela noite, faria tudo de novo, correria de novo e se escondendo de novo, tremendo e chorando baixinho, rezando para que as coisas rasgassem a carne de alguma outra pessoa antes dela.
“Não fique assim. Estamos quase em Sahirid,” disse Sigrid, apertando sua mão e dando-lhe uma pequena sacudida, como se pudesse balançar os maus pensamentos para fora.
“Sim,” respondeu Thora. A ideia de muralhas ajudava. Mesmo assim, a palavra saiu fraca.
Ela não compartilhava do entusiasmo de Sigrid e não era corajosa como ela, nem descarada como Briorn ou dura como Hrafn. Era apenas alguém que sentia medo, e até nisso parecia pior do que os outros.
Hrafn também tinha medo. Thora sabia reconhecê-lo. Passara tempo demais observando o medo dentro de si para não vê-lo nos outros. Sabia como o medo movia os ombros, como ensinava os olhos a nunca permanecerem quietos, fazendo alguém evitar virar as costas por tempo demais. Hrafn fazia tudo isso, mas havia uma diferença entre eles: enquanto ela se dobrava, ele endurecia.
“Como você acha que será o treino?” perguntou Sigrid, mais por necessidade de mudar de assunto do que por curiosidade de verdade.
Thora viu o corpo de Hrafn reagir antes que sua voz viesse. Um ajuste mínimo nos ombros, os olhos correndo um pouco mais rápido. “Hm,” disse ele. “Imagino que será doloroso.”
Thora não gostou daquela resposta. Tinha medo da dor. Quem não tinha?
“Ah, que se foda. A gente aguenta,” gabou-se Briorn. “Nós matamos um maldito caído, não matamos?”
“Bem, nos—” começou Sigrid.
“—a coisa era uma bestinha feia,” Briorn cortou, como sempre. “Toda torta, nojenta. Vocês viram como eu acabei com ela? Eu sou incrível pra caralho.”
O que se seguiu foi um espetáculo lamentável de Briorn, menor do que todos eles e mais largo nos ombros do que parecia razoável, começando a dar socos no ar, torcendo o corpo e chutando inimigos imaginários com um entusiasmo que só faria sentido se o mundo inteiro tivesse sido feito para assisti-lo. Sigrid riu. Thora quase riu também. Hrafn abriu a boca, talvez para soltar alguma breve crueldade, do tipo que parecia lhe custar menos esforço do que a gentileza, mas então todos pararam. Não apenas os quatro; a caravana inteira desacelerou, pois ao longe, enfim, erguia-se Sahirid.
Seu cavalo bateu o casco contra o chão, inquieto, e ela precisou apertar as rédeas. O primeiro pensamento que lhe veio não foi alívio; foi medo. Que tipo de coisa existia além das fronteiras conhecidas para forçar a Hird a construir algo assim? Que horror fazia pedra e sal se erguerem tão alto?
Ela continuou olhando para Sahirid como alguém olha para uma porta fechada, certa de que há algo do outro lado, mas sem saber se de fato deseja vê-lo. Seu futuro estava ali, maior do que jamais ousaria imaginar, maior do que qualquer medo doméstico ou qualquer pequena mentira.
Ela ficou muito tempo olhando para aquela cidade imensa, antiga e imponente, imaginando se algo a estava esperando lá dentro. Quem sabe, talvez algum lugar fundo o bastante para enterrar o medo e deixá-lo ali, trancado entre sal e pedra, em vez de continuar carregando-o dentro do peito como se fosse seu nome.

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