Índice de Capítulo

    Ola, queridos leitores! A obra vai entrar em hiato por um tempo, pouquinho, mas jaja volto, ainda estou escreveno!

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    O Hesir, Leif, estava grato.

    Dadas as circunstâncias, isso poderia parecer loucura. Seu braço esquerdo pendia quebrado ao lado do corpo, e costelas fora do lugar mordiam sua carne a cada respiração mais funda. Seu olho esquerdo, agora cego, roubava-lhe metade da noite e tornava o retorno ao acampamento mais lento do que deveria ter sido. A profanação que o deixou neste estado era rápida demais para o próprio tamanho e forte demais para que algo assim tivesse sido permitido pelo mundo. Ainda assim, ela caiu. Leif venceu, e isso bastava para manter seus pés em movimento.

    Pois seus homens viveriam, os plebeus viveriam e, assim; a Hird permanece.

    Logo avistou o acampamento e, mesmo de longe, com a visão arruinada e a noite devorando formas, ele viu o bastante para saber que o trabalho não estava terminado. Leif então investiu, com sua chegada sendo marcada por violência. O primeiro caído mal teve tempo de virar a cabeça, quando ele o alcançou por trás, o machado atravessou a coluna e peito em um único golpe curto. Um segundo tentou lançar a cauda pontuda contra ele, mas ele torceu o torso, deixando a ponta raspar em ferro e couro, e esmagou a base do pescoço da criatura com a parte larga da lâmina. O terceiro veio maior, erguendo-se sobre as patas traseiras.  Leif entrou na investida e abriu a garganta da coisa de um lado ao outro.

    Sua presença sozinha bastou para reacender o que restava de ordem. Os voroirs que, um instante antes, estavam lutando com o desespero de homens tentando manter fechada uma porta que cedia, encontraram novo fôlego ao vê-lo. “A Hird permanece!”, gritou ele, tão alto quanto seus pulmões feridos permitiam.

    “O Véu guarda!”, responderam os voroirs.

    Uma resposta que veio junto com o som de metal entrando em carne, e Leif não perdeu tempo com perguntas. A formação estava se estabilizando outra vez sob a vontade renovada, então ele avançou mais fundo pelo acampamento. Onde corpos estavam espalhados entre rodas de carroça, tendas rasgadas e manchas de sangue que brilhavam negras sob a luz vacilante do fogo. Se a Estrela fosse misericordiosa, pensou ele, pouco daquele sangue seria dos fylkirn.

    Foi então que o viu; um iniciado atlético preso no exato instante entre viver e morrer. Uma ponta óssea, maior que o próprio braço do rapaz, estava indo em direção ao seu peito. Leif mediu a distância, mas, mesmo arrancando o máximo do pouco que lhe restara, não o alcançara a tempo. O pensamento o deixou amargo por dentro. Cada iniciado morto aqui era menos um guerreiro abençoado para lutar contra a noite no futuro.

    Até que percebeu algo estranho. Os olhos do rapaz se moviam errado dentro das órbitas. Não em pânico cego, eles moviam-se rápido e com clareza, absorvendo tudo em um ritmo que não pertencia a um corpo comum. Leif estreitou seu único olho útil e, então, o rapaz se moveu. Apesar de não ser veloz, Leif conhecia velocidade, e aquilo não era isso. O movimento do rapaz era lento o bastante para parecer falho, mas preciso em um grau absurdo, ridículo até, conforme encontrou o único espaço possível entre morte e continuidade. Pagando por isso. 

    Seu braço direito foi arrancado quase até a escápula quando o rapaz torceu o corpo para escapar do golpe principal e, ao mesmo tempo, enterrou a espada na criatura. Ele não a matou, nem chegou perto, mas atrasou a besta. Isso bastou para Leif, que já estava sobre a criatura. Seu machado desceu em um arco brutal e a partiu, o corpo aberto caiu em duas metades desiguais no sal e na lama, com Leif observando o que restara do caído por um instante. Então, deixou seu olhar pousar por mais um momento sobre o rapaz mutilado.

    Promissor.

    “Pela Hird!”, gritaram alguns dos voroirs quando a última resistência começou a se quebrar. Ele admirou seu espírito, mas não compartilhava de seu triunfo. Havia corpos demais no chão para que aquela vitória tivesse gosto limpo.

    O que veio em seguida foi o trabalho frio do depois. 

    Em alguns minutos, ele estava olhando uma mulher caída perto de um fogo apagado, tão morta quanto às chamas. Abençoada pelo azul, Leif a reconheceu. Ela concluiu o treinamento de voroir um ano antes e servira sob seu comando desde então. Ainda jovem, promissora e firme em campo. Morreu salvando cinco plebeus: uma boa mulher, uma morte tola. Ela valia cem daqueles que havia salvado, talvez viesse a valer muito mais se a Estrela tivesse concedido tempo. Agora isso não importava mais.

    Leif sustentou o pensamento apenas por tempo suficiente para reconhecê-lo. Então, o empurrou para baixo. “Queimem os corpos”, ordenou. “E tragam-me um relatório das perdas.”

    Ele sabia que não havia utilidade em se deter no que não podia ser desfeito. Logo os corpos, ou o que restava deles, começaram a ser reunidos. Foram arrastados pela lama e o frio da noite até um ponto comum. Suas armaduras foram removidas com cuidado onde ainda havia algo a remover. Quanto aos caídos, a luz da Estrela lidaria com eles ao amanhecer, lavando a sua existência blasfema da terra e dando às coisas boas no mundo um novo fôlego sob as vinte horas de sua bênção.

    “Relatório!”, chamou um Voroir, aproximando-se. O homem tentava não olhar para o corpo quebrado do hersir mais do que as maneiras permitiam. Ele mesmo também não estava inteiro; havia novos buracos onde não deveria haver buracos.

    “Prossiga”, respondeu Leif. Sua voz permaneceu grave e forte, só um pouco mais arrastada do que deveria.

    “Sim, elevado Hesir”, disse ele. “As mortes somam dezenas. A maioria foi no centro, plebeus sem treinamento. Deses, vinte e três morreram ao todo. Entre os guerreiros comuns tivemos trinta perdas, assim como três fylkirn elevados e… quatro Voroirs.”

    A última parte saiu mais pesada. Leif cerrou a mandíbula e assentiu uma vez. “Isso é tudo, irmão”, disse, dispensando o homem com um gesto curto.

    Não havia muito mais a elaborar, ele entendia o bastante do que havia acontecido, e a vergonha de perder tantos não seria lavada pelo lamento, apenas pela força. Sendo melhor e mais poderoso, guardando o sangue novo como era seu papel. Até o dia em que estivesse quebrado demais para cumpri-lo. Ou até o dia em que eles próprios estivessem prontos para guardar qualquer coisa por conta própria.

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