Índice de Capítulo

    Ola, queridos leitores! A obra vai entrar em hiato por um tempo, pouquinho, mas jaja volto, ainda estou escreveno!

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    “Porra, isso é enorme!” disse Briorn. Então olhou para cima de novo, como se a muralha tivesse crescido mais um pouco só para contrariá-lo. “Quero dizer, enorme pra caralho.”

    O jovem verde sorriu pelo canto da boca. O homem realmente parecia ter encontrado algo dentro de si no dia do ataque. Uma desculpa para latir mais alto talvez, de um jeito ou de outro, parece que foi para melhor. E no fim, Hrafn não achava sua presença tão ruim.

    “Imagino que seja, para você,” disse, com toda a provocação preguiçosa que havia em sua voz. Irritar Briorn estava se tornando um passatempo decente, e fácil o bastante. Incomodar o bruto exigia menos esforço do que montar num cavalo com um braço só.

    “Hmm?” grunhiu Briorn, virando a cabeça devagar, quase como se desafiasse Hrafn a repetir a ofensa para poder explodir com a consciência limpa, não que fosse necessário.“Você é engraçadão mesmo, não é, aleijado?”

    “Briorn!” cortou Sigrid, tentando conter o fogo antes que se espalhasse.

    “Tudo bem,” disse ele. “Tudo bem!” Bufou.

    O homem era como sua bênção, áspero e teimoso como a terra, incapaz de ceder sem se sentir roubado. Não que Hrafn se importasse, estava ocupado demais tentando trotar sem parecer um idiota. Cavalgar tinha se tornado um incômodo sem o braço, a sela pesava diferente agora e o equilíbrio havia mudado, Tudo parecia exigir dele uma atenção redobrada, ainda assim estava se acostumando, pois adaptar-se era mais fácil com a força de um voroir.

    Atrás deles, a floresta ainda seguia por um trecho escura e densa, já à frente, porém, os bosques se rareavam, cedendo terreno ao vento e à escala impossível da obra humana. A muralha continuava se aproximando, Hrafn a observava havia algum tempo, embora fosse quase impossível fazer outra coisa.

    “Quão alta acha que é?” perguntou Sigrid, pescoço erguido com uma mão protegendo os olhos da luz.

    Era uma pergunta justa. A coisa era tão alta que o olho rejeitava um número, parecia grande demais para caber em medida humana. “Eu apostaria um braço que tem uns cinquenta metros,” respondeu Hrafn com humor

    “Hrafn!” protestou Sigrid.

    Mas Briorn não compartilhava da mesma bondade. Soltou uma gargalhada descarada, do tipo que faz o corpo se dobrar. “Que cara desgraçado,” xingou, puxando o ar de volta.

    Sigrid resmungou de irritação e ergueu ambas as mãos, como se já tivesse percebido que tentar endireitar qualquer um deles era trabalho para uma vida inteira. 

    A caravana seguiu em frente, e a muralha, que sempre pareceu estar próxima, começava a crescer mais. Hrafn só se sentira assim poucas vezes na vida, pequeno e minúsculo até. Seu pescoço doía de tanto olhar para cima, e aquilo era apenas o começo. Seu coração também apertou quando chegou perto da ponte e olhou para baixo, porque havia algo mais ali, algo de que ouvira falar, mas em que não teria acreditado sem ver. 

    O cheiro do mar chegou a ele primeiro, muito mais forte do que tinha qualquer direito de ser. Fazia sentido até certo ponto, porque Sahirid fora fundada perto do mar, apesar de não colada ao oceano como Brinegard, mas perto o bastante para senti-lo. Mas o ar marinho ali era outra coisa, era espesso e tão presente quanto nas docas onde ele trabalhava.

    Quanto à razão; um rio circular cercava a cidade, talvez rio fosse uma palavra pequena demais. Era quase um mar recortado ao redor de Sahirid, a cidade se erguia acima do nível da água e ao redor dela se abria um abismo inundado, fundo e escuro, alimentado por algum canal que Hrafn não conseguia ver dali. As águas batiam nas muralha, e ele conseguia sentir a vida na água se movendo, conforme isso perturbava sua bênção, roçando as margens, empurrando e respirando contra a pedra.

    “Isso é grande, isso é grande pra caralho,” disse Briorn. Então lançou a Hrafn um olhar cauteloso. “Para todo mundo, quero dizer,” acrescentou depressa, se defendendo de um veneno que nem tinha vindo ainda.

    “Nisso eu tenho que concordar,” respondeu Hrafn. Não havia piada em sua voz, diante daquilo teria sido difícil fazer uma. Mas as impressões tinham prazo de validade, e a caravana precisava continuar andando. 

    E quando cruzaram os portões, Hrafn teve por um momento a impressão de que o interior oferecia menos do que as muralhas haviam prometido. O anel externo ainda era feito de madeira escurecida pelo fogo, pedra e telhados apertados uns contra os outros, muito parecido com Brinegard. 

    Então a rua dobrou e a água apareceu de novo. Não um porto aberto como em Brinegard, aqui a água entrava na própria cidade, corria entre as casas em canais estreitos e escuros, tocando de leve em degraus de pedra gastos pelo sal, pequenas embarcações balançavam presas a argolas de ferro. Em alguns trechos a rua deixava de ser rua e se tornava apenas uma faixa de pedra entre muralha e canal, estreita o bastante para que dois homens se roçassem ao passar um pelo outro.

    O cheiro era pior do lado de dentro, fedia a peixe e sal; tudo se agarrava à pedra como se nunca realmente fosse embora. Também havia gente em toda parte, barqueiros empurrando cascos com varas curtas, artesãos de aventais escuros e braços queimados por fornalhas, mercadores falando com as mãos. E entre todos eles, voroirs, sempre fáceis de notar pela armadura ou pela maneira como o espaço parecia se abrir um pouco antes que passassem.

    “Isto é incrível,” disse Sigrid. 

    Ele sorriu, entendendo que para ela aquilo deveria parecer o centro do mundo. Para ele, era mais como se alguém tivesse pego algumas cidades portuárias, espremido tudo junto até doer, erguido pedra por cima e deixado o mar entrar pelas frestas, mas ele admitiria que havia grandeza ali. Ao menos na escala e no movimento de todas as coisas. 

    A caravana não demorou a começar a se desfazer. Grupos foram puxados em direções diferentes de acordo com função ou algum critério que Hrafn não se deu ao trabalho de adivinhar. Nenhum voroir veio na direção deles, provavelmente tinham coisas melhores a fazer do que cuidar dos recém-chegados. Quem veio guiá-los foi um servo e isso lembrou ele de algo que lhe arrancou um sorriso quase sincero, o que era raro nele.

    Era hora de receber alguns privilégios.

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