Índice de Capítulo

    Ola, queridos leitores! A obra vai entrar em hiato por um tempo, pouquinho, mas jaja volto, ainda estou escreveno!

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    Edvard observava o novo senhor largado sobre o sofá da sala de estar, esparramado tão completamente quanto um homem podia estar sem, de fato, cair no chão. Às vezes o jovem falava sozinho; em outras, produzia apenas murmúrios indecifráveis, como se estivesse discutindo consigo mesmo. E, pelo pouco que Edvard conseguia captar, o debate parecia acalorado.

    Ele se sentia satisfeito e amargo com a nova designação. Ser entregue a um fylkirn que havia se tornado voroir antes mesmo de lhe ensinarem como ser um era, em teoria, um destino promissor, mas a cor do jovem o desagradava, e o braço faltando, ainda mais. Não por pena, Edvard tinha pouco uso para a pena, mas porque gostava de simetria, correção e formas inteiras. Ainda assim, era o que lhe havia sido dado, e ele sempre fazia bom uso do que lhe era dado.

    “É um prazer conhecê-lo, elevado voroir”, disse por fim, varrendo os pensamentos insubordinados para longe.

    Deu um passo à frente e se curvou em um ângulo reto, nem mais nem menos que o necessário. Quando ergueu o rosto de novo, o novo senhor o olhava desconfiado, assim como já de pé, mais rápido do que se esperaria de alguém mutilado tão recentemente.

    “Peço perdão se eu interrompi sua linha de pensamento”, disse, oferecendo outra reverência. “Meu nome é Edvard e fui designado para instruí-lo da melhor forma possível”, concluiu, voltando à postura ereta, reto como uma flecha.

    O jovem permaneceu em silêncio por mais alguns momentos, mas algo havia mudado em seus olhos. A desconfiança deu lugar a outra expressão, algo enviesado que deu a Edvard um mau pressentimento antes mesmo que Hrafn sorrisse pelo canto da boca. Se não soubesse melhor, poderia tê-lo tomado por um bruxo. “Não se preocupe”, disse o jovem por fim. “É só que eu não estou acostumado com…”

    “Servo ou mordomo servirá, Lorde Hrafn”, completou Edvard prestativamente. “É uma honra para mim servir no desenvolvimento de um voroir.” concluiu ele.

    E o silêncio voltou, conforme seu novo senhor parecia mais uma vez afundado em algum debate interno. Ele moveu o ombro direito por reflexo e uma careta veio logo depois, como se ainda se surpreendesse ao lembrar que não havia membro ali. Então, passou a mão esquerda pelos cabelos. “Só Edvard está bom”, disse.

    “Imagino que esteja com fome, meu senhor”, respondeu Edvard. “Espero que haja algo de seu agrado.” Caminhou até o carrinho coberto por um pano escuro, retirou o tecido com um gesto limpo e ergueu a tampa de um dos pratos de prata.

    O cheiro de carne assada, gordura quente e especiarias se espalhou pelo ambiente. “Comida?”, perguntou Hrafn, virando aquele olhar estranho na direção do carrinho.

    Edvard bateu palmas uma vez e duas criadas apareceram pela porta lateral do salão. Já estavam esperando, como deveriam estar. Aproximaram-se em silêncio e trabalharam em silêncio, abrindo a mesa, dispondo a prata, pão e taças, tudo na ordem correta com a discrição que ele exigia. O novo senhor observou a operação com um desconforto que tentou esconder e em que falhou. Nem sequer deixou que uma das criadas prendesse o guardanapo em seu pescoço.

    Logo a mesa estava posta; logo as criadas se retiraram. “Isto não é demais para um iniciado?”, perguntou Hrafn.

    “Sim”, Edvard ajustou o monóculo. “É.”

    A resposta pairou entre os dois. O que viria em seguida, normalmente, seria uma explicação; Edvard a teria dado com competência, como sempre fizera. Mas escolheu não fazê-lo porque queria testar o jovem. Queria saber se o que tinha diante de si era apenas um aleijado ou um aleijado e um idiota. O pensamento talvez soasse insubordinado a ouvidos mais delicados, mas Edvard o considerava apenas prático. Conhecer bem o material com o qual se trabalhava era parte do trabalho.

    Hrafn alisou o ombro direito ausente com a mão esquerda. “Entendo”, disse.

    A satisfação aqueceu Edvard por dentro, embora mal tocasse seu rosto. “Exatamente, meu senhor”, respondeu. “Você é um voroir agora.”

    “Vai levar tempo”, disse Hrafn. “Mas eu vou me acostumar.”

    Depois disso, houve pouco além do som de talheres e mastigação. Edvard se permitiu observar. A carne havia sido cortada antes de vir à mesa, como era óbvio que deveria ter sido. Teria sido um erro grosseiro não prever a necessidade em um caso tão particular. Ainda assim, pelo que conseguia ver, Hrafn teria encontrado um jeito de lidar com aquilo mesmo sem tal cuidado. A habilidade que demonstrava com a mão esquerda era rápida demais, ao menos para alguém que apenas recentemente foi forçado a usá-la como sua única.

    Incomum.

    “Vejo que pensaram em tudo”, comentou o jovem depois de algum tempo.

    “Como dita o dever, meu senhor”, respondeu Edvard.

    Hrafn soltou um som curto pelo nariz, não exatamente riso ou tampouco desprezo; era algo entre os dois. Quando terminou de comer, limpou a boca com o pano do jeito errado, e Edvard sentiu a pequena fisgada de irritação que sempre sentia após uma quebra na ordem. 

    “O que vem agora?”, perguntou Hrafn.

    “Muitas coisas, meu senhor”, respondeu Edvard. “A primeira delas será uma escolha de armas.”

    “Faz sentido”, disse Hrafn. “É um trabalho violento.”

    “Perspicaz, meu senhor”, respondeu. Bateu palmas uma vez mais, chamando as criadas para retirarem a mesa. “Entre as muitas intrínsecas das honradas funções de um voroir ou…” Hesitou por um instante; a palavra seguinte pareceu quase rejeitada por sua própria língua. “Trabalho, como você prefere chamar, de fato inclui violência.”

    “Muita dela”, disse Hrafn.

    Então, para horror imediato de Edvard, o jovem estendeu a mão para um dos pratos que já estavam sendo levados e pegou uma coxa de frango diretamente com os dedos, levando-a à boca como um menino de cozinha.

    “Isso não é aconselhável, meu senhor. Comer à mesa dessa forma-”

    “Sim, imagino”, interrompeu Hrafn enquanto mordia, mastigava e então engolia. “Mas eu apostaria um braço que você vai se acostumar.”

    Edvard caiu em silêncio. A piada sobre a mutilação o atingiu em cheio; ele não esperava por ela. Entre pessoas de posição, esse tipo de coisa raramente era tocado; nobres bem-nascidos evitariam o assunto. A perda de um membro era uma vergonha a ser vestida com dignidade e silêncio, não algo a ser trazido à mesa junto com a carne. Toda fraqueza entre a alta sociedade e o clero era vergonha, talvez acima de tudo entre eles, mas seu senhor parecia não compartilhar desse entendimento. Isso, pensou Edvard, talvez fosse mais difícil de corrigir do que a grosseria.

    “Vamos, Ed”, disse Hrafn, levantando-se antes mesmo que a mesa tivesse sido inteiramente retirada. “Vamos pegar minha arma.”

    Edvard sentiu algo muito próximo de uma contração no rosto ao ouvir a abreviação. “Meu senhor, eu—”

    “Sim, sim, imagino”, cortou Hrafn, repetindo com irritante facilidade a própria fórmula que já parecia ter aprendido a usar contra ele. Havia humor na voz e havia cansaço também. É algo a mais que Edvard ainda não sabia medir.

    Observou o jovem voroir atravessar o aposento com aquela desconfortável combinação de desequilíbrio e firmeza. Hrafn ainda não se movia como um homem inteiro, mas tampouco se movia como alguém derrotado. Edvard ajustou o monóculo mais uma vez. Servir e educar aquele homem até que se erguesse à altura da posição que agora lhe pertencia seria, sem dúvida, um trabalho árduo. Talvez árduo o bastante para valer seu esforço.

    Olá, querido leitor,

    Se você chegou até aqui, imagino que esteja gostando, o que é ótimo. Eu sempre escrevi aquilo que eu gostaria de ler, então sempre me sinto contente em saber que mais pessoas compartilham desse gosto, caro leitor.

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    Meus mais sinceros agradecimentos,

    Jhonata R. Jordan

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