Índice de Capítulo

    Ola, queridos leitores! A obra vai entrar em hiato por um tempo, pouquinho, mas jaja volto, ainda estou escreveno!

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    Com Eirik, eram quatro. Também havia os cavalos, mas eles seriam de pouca ajuda atrelados à carroça como estavam, mais úteis para suportar o peso da carga do que para qualquer fuga.

    “Quão certa você está sobre esta estrada?” Eirik perguntou, ansioso.

    “Se eu digo que esta é a estrada”, Yrsa respondeu sem olhar para trás, “então esta é a estrada.”

    “Covarde”, Sten disse. “Talvez, se você falar menos, não traga má sorte pra gente.”

    À frente, Haldor soltou um som de aprovação com as mãos firmes nas rédeas. Mas Eirik não se sentiu nem um pouco melhor. Coisas demais já tinham dado errado.

    “Maldita Hird”, Haldor resmungou. “Com a moeda que cobram para usarmos as estradas, que lucro sobra?”

    Todos acenaram, pois compartilhavam da mesma raiva. Foi por isso que concordaram com o plano de Yrsa quando ela falou de uma trilha de contrabandistas, tão antiga quanto esquecida e segura o bastante, sem pedágio e sem inspeção. Um bom risco, eles haviam pensado. O grupo ficou tão animado com a ideia que encheu duas carroças de mercadorias com tudo que renderia o dobro da moeda em Vardheim, amarrou uma atrás da outra e carregou ambas até o limite. A carga se ergueu tão alto que Eirik e Sten tiveram de se empoleirar no topo, enquanto Yrsa e Haldor guiavam os cavalos.

    Yrsa tinha jurado que era uma terra morta, com pouca vida para interessar à noite. Logo seria seguro, mas Eirik já não tinha tanta certeza, e a ganância cobrara seu preço; o engate entre as carroças havia quebrado no meio da jornada, e eles perderam o dia improvisando um reparo. Agora seguiam noite adentro, quando já deveriam ter chegado.

    “Fiquem quietos, tenham foco”, Yrsa disse. “A escuridão nos ronda.”.

    Ela estava certa, e pelas horas que se seguiram, houve apenas o som oco de couro batendo em couro. Era Eirik. Nervoso como estava, batia os dedos contra o cinto, nas correias e bainhas, qualquer pedaço de couro ao alcance enquanto o som o distraía. Não era sua primeira viagem, mas ele nunca havia ido além das muralhas com um grupo tão pequeno, nem jamais deixou para trás as estradas sagradas.

    Ele era um homem de sorte. A noite nunca lhe mostrou os dentes. Ainda assim, tinha crescido ouvindo histórias sobre as criaturas que viviam na escuridão. “Porra, para com essa merda”, Haldor rosnou, virando-se para trás.

    Eirik sabia que o homem nunca havia gostado dele. Nenhum deles gostava, na verdade, mas, infelizmente, ele precisava da moeda. Pensou em responder xingando de volta e mandar Haldor ir se foder, mas então viu, lá no horizonte, a Estrela surgindo. Ainda levaria tempo, mas surgiria. O alívio foi tão grande que ele engoliu a resposta.

    “C-corvos”, Sten gaguejou, com uma voz assustada.

    “Fale pra fora”, Haldor disse, irritado por não ter ouvido. “Mulherzinha.”

    “Armas”, Yrsa ordenou.

    E Haldor puxou suas machadinhas sem hesitação, com Yrsa sacando sua espada. Já Eirik não foi tão decisivo. Ele primeiro se virou para onde Sten estava olhando. Lá havia um bando de corvos entre as árvores, acompanhando o grupo pela lateral, e mais chegavam a cada instante, pousando em galhos sem um som, cruzando o ar sem que se ouvisse um bater de asas. Uma sensação ruim se enroscou dentro dele. 

    Então os cavalos pararam. Haldor tentou forçá-los adiante, em direção à luz que surgiria, mas os animais não responderam. 

    “Mas que-“

    “Silêncio”, Yrsa advertiu, descendo da carroça.

    Ela olhou para a floresta como se temesse que a própria escuridão pudesse ouvi-la. “Andem devagar e não façam barulho.” Então acrescentou: “A Estrela está surgindo.”

    O lembrete trouxe algum alívio ao grupo. Yrsa sempre soubera o que dizer aos seus. “Você sabe o que eles são?” Sten sussurrou para Haldor.

    “Com certeza não são apenas corvos.”

    Após isso, ninguém ouviu nada além de passos cautelosos, a respiração fria do fim da noite e o som de seus próprios corações martelando contra as costelas, conforme continuavam olhando para os corvos, mas as aves não pareciam interessadas neles. Apenas observavam, imóveis.

    “Eu… eu sinto muito”, Sten balbuciou.

    Antes que Eirik entendesse o que estava ouvindo, Sten cravou sua adaga na parte de trás da garganta de Haldor. “Eu sinto muito, sinto muito”, ele repetia.

    “Que por-“, Eirik tentou dizer, ainda preso ao choque.

    Mas a lâmina de Yrsa atravessou suas entranhas por trás antes que ele pudesse terminar. A dor que veio era tão profunda que mal parecia dor. Então, veio a sensação da espada sendo puxada de lado, rasgando suas tripas, derramando sua vida sobre a terra fria.

    Enquanto o que veio em seguida o aterrorizaria até mesmo na morte.

    Caído na lama e em seu próprio sangue, Eirik viu Yrsa lentamente passar a espada pela própria garganta, sorrindo enquanto fazia isso. Já Sten enfiou a adaga em si mesmo na barriga, como se quisesse cavar alguma coisa para fora do próprio corpo. Ele continuou naquilo em sons abafados, cada golpe mais fraco que o anterior, até que a força deixou seu braço, e sua mão ficou lenta, encharcada no próprio sangue. E o silêncio que se seguiu ao fim deles foi preenchido pelo grasnar dos corvos.

    O som inundou a floresta, áspero e jubiloso, quase humano em sua crueldade, como se estivessem rindo deles e de sua miséria.

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