Capítulo 12 – Hrafn – O Pequeno Mar
“Porra, isso é enorme!”, disse Briorn. Então tornou a olhar para cima, como se a muralha tivesse crescido mais um pouco só para contrariá-lo. “Digo, enorme pra caralho.”
Hrafn sorriu de canto. O sujeito parecia mesmo ter encontrado alguma coisa dentro de si no dia do ataque. Talvez uma desculpa para latir mais alto.
De um jeito ou de outro, talvez fosse para melhor.
E, no fim, ele até que não achava a presença dele tão ruim assim. Falava demais, xingava demais, ria alto demais, mas era sincero. Parecia o tipo de homem que não conseguiria mentir nem se tentasse. Hrafn gostava de gente assim. Lembravam-no do pai.
“Imagino que pra você seja”, disse, com toda a provocação preguiçosa que havia em sua voz.
Incomodar Briorn vinha se tornando um passatempo decente.
E um bem fácil. Irritar o bruto exigia menos esforço do que montar num cavalo com um braço só.
“Hm?”, fez Briorn, virando a cabeça devagar, quase como se desafiasse Hrafn a repetir a ofensa para que ele pudesse explodir com a consciência limpa.
Não que fosse necessário.
“Você é todo engraçado, não é, aleijado?”
“Briorn!”, interveio Sigrid, como sempre, numa tentativa de conter o fogo antes que ele se alastrasse.
“Tá bom”, disse ele. “Tá bom!” Bufou como um menino pego roubando pão.
Isso já era impressionante o bastante. Hrafn entendia que Briorn não pediria desculpas. O sujeito era como sua bênção: bruto como pedra, teimoso como a terra, incapaz de ceder sem se sentir roubado.
Não que ele se importasse.
Estava ocupado demais tentando trotar sem parecer um idiota.
Cavalgar vinha sendo um estorvo sem o braço. A sela pesava diferente agora. O equilíbrio mudara. Segurar as rédeas, ajustar o corpo, conter os solavancos do animal — tudo parecia exigir dele uma atenção nova, irritante e constante. Ainda assim, ia se acostumando. Adaptar-se era mais fácil com a força de um voroir, mesmo a de um como ele.
O ar trazia cheiro de cavalo suado, graxa velha, lã úmida e sal. Atrás deles, a floresta ainda seguia por um trecho, escura e cerrada. À frente, porém, a mata já rareava, cedendo terreno à pedra, ao vento e à escala impossível da obra humana.
O muro ia se aproximando. Ou parecia. Hrafn o observava havia tempo, embora fosse quase impossível fazer outra coisa.
“Quão alto vocês acham que é?”, perguntou Sigrid, o pescoço erguido, uma mão protegendo os olhos da luz.
Era uma pergunta válida. A coisa era tão alta que o olho recusava o número. Parecia grande demais para caber em medida humana.
“Eu apostaria um braço que tem uns cinquenta metros”, respondeu Hrafn com humor.
O cinismo sempre lhe servira bem. Não ia perdê-lo por um braço. Sobretudo um que já estava perdido.
“Hrafn!”, reclamou Sigrid.
E claro que ela o repreendeu. Era gentil demais.
Mas Briorn não compartilhava da mesma bondade. Soltou uma gargalhada sem pudor, daquelas que dobravam o corpo. “Que cara desgraçado”, xingou ele, puxando de volta o fôlego.
Sigrid grunhiu em aborrecimento e ergueu as duas mãos, como se desistisse de ambos de uma vez. Talvez tivesse percebido que tentar endireitar os dois era trabalho para uma vida inteira.
Talvez seja pra melhor.
A ideia divertiu Hrafn.
Thora, por outro lado, encolheu-se ainda mais no cavalo. O que era estranho. Hrafn podia chamá-la de conhecida, ao menos.
Tinham se falado o bastante em Brinegard para que ele soubesse que ela era mais espirituosa do que aquilo, mais rápida de língua também. Quase tão boca-suja quanto Briorn, às vezes.
Agora parecia menor dentro das próprias roupas.
Mas talvez tivesse mudado.
Ele próprio mudara com o tempo.
A caravana seguiu em frente. Os mantos dos viajantes batiam com o vento. Nas carroças, o pano encerado protegia barris e baús, e em algumas delas ainda se viam manchas antigas de lama seca e sangue mal lavado.
O muro, que sempre parecia perto, começava a ficar maior. E não importava o quanto andassem, ainda parecia faltar um mundo até alcançá-lo.
Hrafn se sentira assim poucas vezes na vida: pequeno. Minúsculo, até. Doía-lhe o pescoço olhar para cima, e aquilo era apenas o começo.
O coração também apertou quando chegou perto da ponte e olhou para baixo.
Ali havia algo mais.
Algo de que ouvira falar, mas em que não teria acreditado sem ver.
O cheiro do mar o atingiu primeiro. Forte demais. Muito mais forte do que deveria ser.
Fazia sentido, até certo ponto; Sahirid fora fundada perto do mar, não colada ao oceano como Brinegard, mas próxima o bastante para senti-lo. Ainda assim, a maresia ali era outra coisa. Era espessa, viva, tão presente quanto nas docas onde ele trabalhara.
Quanto ao motivo.
Um rio circular cercava a cidade. Não — rio era pouco. Aquilo era quase um mar cavado ao redor de Sahirid. A cidade se erguia acima do nível da água, e em volta dela abria-se um abismo inundado, fundo e escuro, alimentado por algum canal que Hrafn não conseguia enxergar dali.
As águas batiam nas paredes de pedra, e a cor escura dizia muito sobre a profundidade.
Havia movimento ali, vivo demais.
Ele sentia.
A água se mexendo incomodava sua bênção; roçando as margens, empurrando, puxando, respirando contra a pedra.
Hrafn teve de fazer um esforço consciente para fechar a mente ainda mais, recolher-se por dentro. Não conseguiu muito.
Mal sustentava o estado fechado em que andava desde o ataque; apertá-lo ainda mais era como tentar cerrar uma mão já quebrada.
“Legal. Isso sim é do caralho”, disse Briorn. Então lançou um olhar suspeito para Hrafn. “Pra todas as pessoas”, concluiu às pressas, defendendo-se do veneno que ainda nem viera.
“Nessa eu tenho que concordar”, respondeu Hrafn.
Não havia piada em sua voz. Diante daquilo, seria difícil brincar.
Mas a impressão tinha certo prazo, e a caravana precisava continuar andando.
A ponte era larga o bastante para deixar as carruagens passarem sem qualquer aperto. Quando atravessaram os portões, Hrafn teve, por um momento, a impressão de que o interior entregava menos do que os muros prometiam.
O círculo externo ainda era feito de madeira escurecida pelo fogo, pedra barata e telhados apertados uns contra os outros, assim como Brinegard.
Havia oficinas abertas para a rua, bancas de venda, carroças, gente desviando de gente, servos curvados sob fardos, crianças rápidas demais e cães magros farejando lama.
Coisa de cidade.
Então a rua dobrou, e a água apareceu de novo.
Não um cais aberto, como em Brinegard. Ali a água entrava cidade adentro. Corria entre as casas em canais estreitos e escuros, batendo devagar em degraus de pedra gastos pelo sal. Portas se abriam quase sobre ela. Pequenas embarcações balançavam presas a argolas de ferro. Em certos trechos, a rua deixava de ser rua e virava apenas uma faixa de pedra entre parede e canal, estreita o bastante para dois homens se roçarem ao passar.
O cheiro era pior ali dentro.
Peixe, lodo, alcatrão, corda molhada, sal e fumaça. Tudo agarrado às pedras como se nunca saísse de verdade.
Pontes baixas de arco curto costuravam uma margem à outra. De algumas janelas pendiam panos coloridos e redes. De outras, apenas sombras.
Acima das cabeças, os beirais quase se tocavam em certos pontos, fechando a luz e fazendo a cidade parecer mais funda do que alta.
Aquilo não tinha o caos aberto das docas de Brinegard.
Tinha outra coisa.
Por toda parte havia gente. Barqueiros empurrando cascos com varas curtas. Artesãos de avental escuro e braços queimados de forno. Mercadores falando com as mãos. Mulheres passando por passarelas de pedra com as saias levantadas. E, entre todos eles, voroirs.
Sempre fáceis de notar.
Pela postura. Pela armadura. Pela forma como o espaço parecia se abrir um pouco antes da passagem deles.
“Isso é incrível”, disse Sigrid.
Os olhos dela brilhavam.
Hrafn entendia. Para ela, aquilo devia parecer o centro do mundo. Para ele, era mais como se alguém tivesse pegado algumas cidades portuárias, apertado tudo até doer, erguido pedra por cima e deixado o mar entrar pelas frestas.
Ainda assim, havia grandeza ali. Na escala e movimento de todas as coisas.
A caravana não demorou a começar a se desfazer. Grupos foram sendo puxados para direções diferentes por ordem de função, origem ou algum critério que Hrafn não se deu ao trabalho de adivinhar. Nenhum voroir veio até eles. Provavelmente tinham coisa melhor a fazer do que cuidar de recém-chegados.
Quem veio guiá-los foi um servo.
E isso lembrou Hrafn de algo.
Algo que lhe arrancou um sorriso quase inteiro, quase honesto — coisa rara nele.
Estava na hora de receber alguns privilégios.

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