Edvard observava o novo senhor largado no sofá da sala, tão espalhado quanto um homem podia estar sem de fato cair no chão.

    Às vezes o rapaz falava sozinho. Em outras, produzia apenas murmúrios indecifráveis, como se debatendo consigo mesmo. E, pelo pouco que podia captar, o debate parecia acalorado.

    Já estava ali havia boa meia hora, de mãos postas à frente do corpo, imóvel como cabia a alguém de sua posição. Esperava desde que o jovem voroir fora conduzido até o aposento. Na verdade, esperava desde muito antes disso. Tudo já estava pronto, como ditava seu papel. A sala, o banho, as roupas, a refeição, a prata, o linho, a ordem correta das pequenas coisas.

    Impecável.

    Como devia ser para receber um voroir.

    Ele estava contente e amargo com o novo desígnio.

    Ser entregue a um fylkirn que se tornara voroir antes mesmo de ser ensinado a sê-lo era, em tese, um destino promissor. Havia prestígio em moldar alguém assim. Havia propósito, havia futuro.

    Mas a cor do rapaz o desagradava.

    A ausência do braço, mais ainda.

    Não por pena. Edvard tinha pouca serventia para pena. Mas porque gostava de simetria, de correção, de formas inteiras. Um homem que começava quebrado costumava exigir do mundo ajustes inconvenientes.

    Ainda assim, era o que lhe fora dado.

    E ele fazia bom uso do que lhe era dado.

    “É um prazer conhecê-lo, elevado voroir”, disse ele enfim, varrendo para longe os pensamentos insubordinados.

    Deu um passo à frente e curvou-se num ângulo de noventa graus. Nem mais, nem menos.

    Quando tornou a erguer o rosto, o novo senhor já estava de pé.

    Rápido.

    Mais rápido do que se esperava de alguém recém-mutilado.  

    Geralmente não cabia a Edvard falar antes de seu senhor, antes de ser solicitado. Mas temia que a comida esfriasse demais. Temia também não ser notado tão cedo, caso mantivesse o silêncio.

    O jovem voroir continuou apenas olhando para ele. Não falou. Parecia tentar entender alguma coisa, e isso bastou para que um detalhe óbvio lhe ocorresse.

    Boa parte dos voroir nascera comum.

    Comum de status, não só de bênção.

    Edvard passara a vida inteira servindo nobres, altos clérigos e gente acostumada a ser servida antes mesmo de aprender a falar direito. Era fácil esquecer que, de tempos em tempos, um homem era arrancado de baixo e atirado para cima com armadura e prerrogativas.

    Esquecer disso era um erro.

    Edvard não gostava de erros.

    “Peço perdão se interrompi seu raciocínio”, disse, oferecendo outra reverência, um pouco menos funda desta vez. “Meu nome é Edvard. Fui designado para instruí-lo com o melhor de minhas habilidades.”

    Voltou à postura ereta, reto como uma seta.

    O rapaz seguiu em silêncio por mais alguns instantes. Mas alguma coisa mudara em seus olhos. A desconfiança dera lugar a outro tipo de expressão. Algo enviesado. Algo que fez Edvard sentir um pressentimento ruim antes mesmo de Hrafn sorrir de canto.

    Se não soubesse melhor, poderia tê-lo tomado por um bruxo.

    “Não se preocupe”, disse o jovem, por fim. “Eu só não estou acostumado com…”

    “Servo ou mordomo servirá, senhor Hrafn”, completou, prestativo. “É uma honra para mim poder servir no desenvolvimento de um voroir.”

    O silêncio voltou. Seu novo senhor parecia, mais uma vez, mergulhado em algum debate interno.

    Mexeu o ombro direito por reflexo. A careta veio logo depois, como se ainda se surpreendesse ao lembrar que não havia membro algum ali. Então passou a mão esquerda pelos cabelos.

    “Apenas Edvard está bom”, disse.

    “Imagino que o senhor esteja com fome”, respondeu ele. “Espero que haja algo de seu agrado.”

    Caminhou até o carrinho coberto por um pano escuro, removeu o tecido com um gesto limpo e ergueu a tampa de uma das panelas de prata.

    O cheiro de carne assada, gordura quente e especiarias se espalhou pelo cômodo.

    “Comida?”, perguntou Hrafn, e felizmente voltou aquele olhar estranho para o carrinho.

    Edvard bateu palmas uma vez.

    Duas criadas surgiram pela porta lateral do salão. Já estavam à espera, como deviam estar. Aproximaram-se em silêncio e trabalharam em silêncio, abrindo a mesa, dispondo a prata, o pão, as taças, os pratos aquecidos, os molhos, o pano para o colo, tudo na ordem correta, tudo com a discrição que ele exigia.

    O novo senhor acompanhou a operação com um desconforto que tentou esconder e não conseguiu.

    Nem sequer deixou que uma das criadas lhe prendesse o pano ao pescoço.

    Logo a mesa estava posta, logo as criadas se retiraram.

    “Isto não é muito para um iniciado?”, perguntou Hrafn.

    Edvard ajustou o monóculo.

    “Sim”, disse. “É.”

    A resposta ficou no ar entre os dois.

    O que viria depois, seria uma explicação. Edvard a daria com competência, como sempre fizera. 

    Mas decidiu não fazê-lo, queria testar o rapaz.

    Queria saber se havia diante de si apenas um aleijado ou um aleijado e um idiota.

    O pensamento podia soar insubordinado a ouvidos mais delicados. Edvard o considerava apenas prático. Conhecer bem a matéria com que trabalhava era parte do trabalho. E havia poucas coisas que o importassem mais do que cumprir o próprio propósito com precisão.

    Hrafn alisou o ombro direito ausente com a mão esquerda.

    “Entendo”, disse.

    A satisfação aqueceu Edvard por dentro, embora mal tocasse seu rosto.

    “Exatamente, senhor”, respondeu. “É um voroir agora.”

    Podia trabalhar com aquilo.

    Um homem incapaz de compreender uma deixa tão simples seria um senhor exaustivo de servir.

    “Levarei tempo”, disse Hrafn. “Mas vou me acostumar.”

    Depois disso houve pouco além do som dos talheres e da mastigação.

    Edvard se permitiu observar.

    A carne fora cortada antes de chegar à mesa, como era evidente que devia ser. Teria sido erro grosseiro não prever a necessidade em um caso tão particular. Ainda assim, pelo que podia notar, Hrafn teria encontrado forma de se virar mesmo sem esse cuidado. 

    A habilidade que demonstrava com a mão esquerda era rápida demais para alguém recém-forçado a usá-la como única.

    Incomum.

    “Vejo que pensaram em tudo”, comentou o rapaz depois de algum tempo.

    “Como dita o dever, senhor”, respondeu Edvard.

    Hrafn soltou um ruído curto pelo nariz. Não chegava a ser riso. Também não era desprezo. Alguma coisa entre os dois.

    Quando terminou, limpou a boca com o pano.

    Do jeito errado.

    Edvard sentiu a pequena fisgada de irritação que sempre sentia diante de uma quebra de ordem.

    “O que vem a seguir?”, perguntou Hrafn.

    “Muitas coisas, senhor”, respondeu, controlando-se para não corrigir de imediato a maneira imprópria como o pano fora usado. “A primeira delas será uma escolha de armas.”

    “Faz sentido”, disse Hrafn. “É um trabalho violento.”

    “Perspicaz, senhor”, respondeu.

    Bateu palmas outra vez, chamando as criadas para retirar a mesa.

    “Dentre os muitos meandros das funções honradas de um voroir, ou…” Ele hesitou por um instante. A palavra seguinte quase pareceu rejeitada pela própria língua. “Trabalho, como o senhor prefere chamar, inclui, de fato, violência.”

    “Muita dela”, disse Hrafn.

    Então, para horror imediato de Edvard , o rapaz estendeu a mão para um dos pratos que já iam sendo levados e apanhou uma coxa de frango diretamente com os dedos.

    Levou-a à boca como um menino de cozinha.

    Era um erro gritante.

    Edvard não gostava de erros.

    “Isso não é aconselhável, senhor. Comer à mesa dessa forma—”

    “Sim, imagino”, interrompeu Hrafn.

    Mordeu, mastigou, engoliu.

    “Mas aposto um braço que você vai se acostumar.”

    O sorriso que veio com a frase era leve.

    O golpe, não.

    Edvard ficou em silêncio.

    A piada sobre a mutilação o acertara com tudo. Não esperava por aquilo. Entre gente de posição, esse tipo de coisa raramente era tocado. Nobres bem-nascidos evitavam o assunto. A falta de um membro era uma vergonha a ser vestida com dignidade e silêncio, não algo a ser trazido à mesa junto da carne.

    Toda fraqueza, entre a alta sociedade e o clero, era vergonha.

    Talvez sobretudo entre eles. 

    Seu senhor parecia não partilhar desse entendimento.

    Isso, pensou, podia ser mais difícil de corrigir do que a grosseria.

    “Vamos, Ed”, disse Hrafn, pondo-se de pé antes mesmo que a mesa estivesse inteiramente limpa. “Vamos pegar minha arma.”

    Edvard sentiu algo muito próximo de uma contração no rosto ao ouvir a abreviação.

    “Senhor, eu—”

    “Sim, sim, imagino”, cortou Hrafn, repetindo com irritante facilidade a fórmula que já parecia ter aprendido a usar contra ele.

    Havia humor na voz. Havia cansaço também. E alguma outra coisa que Edvard ainda não sabia medir.

    Observou o jovem voroir atravessar o aposento com aquela combinação desconfortável de desequilíbrio e firmeza. 

    Hrafn ainda não se movia como um homem inteiro, mas tampouco se movia como alguém vencido.

    Edvard ajustou o monóculo uma vez mais.

    Servir e educar aquele homem até que estivesse à altura da posição que agora lhe pertencia seria, sem dúvida, uma tarefa árdua.

    Talvez árdua o bastante para merecer seu esforço.

    Olá, querido leitor,

    Se você chegou até aqui, imagino que esteja gostando, o que é ótimo. Eu sempre escrevi aquilo que eu gostaria de ler, então sempre me sinto contente em saber que mais pessoas compartilham desse gosto, caro leitor.

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    Novos capítulos todos os dias!

    Meus mais sinceros agradecimentos,

    Jhonata R. Jordan

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