Capítulo 136: Encantos de Quioto
28 de maio de 2024, terça-feira.
A pousada se escondia numa rua estreita de Quioto, longe do fluxo turístico. O portão de madeira rangeu baixo quando Victor o empurrou, e o som pareceu se dissolver no jardim interno, onde a luz matinal e quente projetava sombras sobre pedras úmidas e no pequeno lago.
Aki caminhava devagar, os olhos atentos a cada detalhe — o cheiro suave de madeira antiga, o tatame visível além das portas de correr, o ar calmo e úmido, apesar do calor.
— É… — ela murmurou, encantada com a vista. — Parece muito divertido. É um ótimo lugar para a Elegance Affairs ter contrato. Pessoalmente é ainda mais lindo!
Victor sorriu, sentindo o mesmo. Não era só luxo moderno. Era um lugar acolhedor, tranquilo, longe da correria da cidade grande.
— Nossa reunião será às 14:00. Até lá, vamos nos divertir.
Após o check-in discreto, foram guiados até o quarto, passando por um corredor relativamente estreito com paredes de madeira. Quando a funcionária se despediu com uma reverência suave, o lugar ficou em silêncio absoluto. Victor deslizou a porta de correr, interrompendo aquela calmaria com um rangido suave.
O quarto se abriu diante deles.
Tatames perfeitamente alinhados, futons ainda recolhidos, uma mesa baixa ao centro com utensílios para se preparar um chá. Do outro lado, uma ampla janela revelava um pequeno jardim privativo, onde folhas se moviam lentamente com o vento noturno. Mais ao fundo, parcialmente escondida por uma divisória de madeira, estava a banheira de madeira — o ofurô do casal.
Um perfume floral e suave envolvia todo o ambiente, além da majestosa paisagem ao fundo do jardim, sendo o Monte Kurama. Verde, majestoso, imponente. O acabamento do quarto em tons claros era acolhedor e a temperatura podia ser regulada, além de alguns gadgets estrategicamente organizados para dar protagonismo ao interior clássico.
Esse detalhe de combinar a tecnologia atual com o clima clássico e tradicional era um dos diferenciais que fazia a pousada “Encantos de Quioto” ser como era. Reconhecida pela sua beleza, mas sem perder a conveniência tecnológica.
Aki respirou fundo, quando pisou descalça no tatame do quarto. Era tão agradável e, de certa forma, nostálgico, de um jeito que ela não sabia explicar, mesmo nunca estando em Quioto antes.
Victor também estava surpreso. Pelas fotos era um quarto bonito. Pessoalmente, era algo deslumbrante. Ele acompanhou Aki e lhe deu a mão, puxando-a para o pequeno jardim privado para uma visão panorâmica do lugar.
— Que lugar lindo! É como uma pintura… — comentou, quase hipnotizada. O vento soprava e bagunçava as mechas de seu cabelo que estavam mais soltas.
— Eu concordo. Posso fazer um comentário? — perguntou, em tom despretensioso, olhando-a nos olhos.
— Claro. O que é? — O sorriso em seu rosto fez o coração de Victor acelerar. Lindo. Tão lindo quanto a própria paisagem dali.
— Mesmo que toda essa paisagem… — gesticulou amplamente, como se pudesse englobar toda a extensão que os olhos podiam ver. — fosse cem ou mil vezes mais bonita… ainda não se compara com você. Você é a obra de arte mais linda que existe. Uma pintura perfeita com um par de jóias âmbar e uma luz salvadora no lugar do sorriso.
Aki não esperava aquelas palavras… até cogitou que ele faria alguma brincadeira ou talvez um elogio, mas aquilo foi exponencialmente maior do que ela imaginou. Seu coração bateu tão forte que temeu que ele ouvisse. Involuntariamente, ela enroscou uma mecha de cabelo nos dedos e tentou desviar o olhar, seu rosto queimando e nitidamente ruborizado.
Nem mesmo chamá-lo de bobo, como geralmente fazia para aliviar a tensão, foi possível. Tudo pareceu embaralhar e as palavras não saíram de sua boca. Victor segurou seu rosto gentilmente, forçando-o com delicadeza para que seus olhares se cruzassem.
— Eu não estou exagerando, nem mentindo….
A sensação prazerosa de ver aquela reação enchia o coração dele de um calor impossível de descrever. O que ele julgava ser tão lindo que não podia se comparar, parecia se elevar cem vezes, somente por aquela reação.
Não era um sentimento constrangedor, nem um sentimento nebuloso, muito menos algo incompreensível, como era antes. Os dois, naquele momento, sabiam exatamente o que estavam sentindo. Um amor quente, forte e inquebrável, a paixão ardente entre um homem e uma mulher.
— Eu… — Aki tentou dizer, porém, sem sucesso.
“Victor! Olha como você me deixa! Eu não sei o que dizer!”
A japonesa sentia quase uma angústia em não conseguir responder aquelas palavras tão lindas e gentis. Então, com um turbilhão de pensamentos passando pela mente em questão de instantes, não achou outra solução.
Ela se jogou nos braços dele, depositando um beijo apaixonado nos lábios dele. Mesmo que não tivesse experiência amorosa antes, também não era alguém boba. E experimentar aqueles sentimentos de forma física já havia se tornado algo desejável.
Sem palavras, sem enrolação. Tudo foi respondido com um gesto de quem ama de forma intensa, voltando para dentro do quarto para continuarem demonstrando o amor de forma física.
…
Já era por volta das onze horas, quando decidiram dar uma caminhada nos arredores e fazer a “Trilha do Bambu”.
Minutos depois, ainda no quarto, Aki ajustava um chapéu de palha claro diante do espelho. O sol de Quioto entrava pelas janelas com intensidade suficiente para aquecer o ambiente, anunciando um dia realmente quente.
— Assim está bom? — ela perguntou, virando levemente o rosto para Victor.
— Está perfeita. — respondeu, sincero.
Antes que ela pudesse se afastar, ele pegou o frasco de protetor solar que estava sobre a mesa baixa.
— Ei… vem cá. — disse, num tom calmo. — O sol hoje não está para brincadeira.
Aki riu baixinho, mas não negou, ficando de costas para ele e tirando um pouco de pano da frente. Victor colocou um pouco do creme nas mãos e começou a espalhar com cuidado pelos ombros dela, descendo pelos braços de forma lenta, quase distraída demais para quem só estava “passando protetor”.
— Você sempre leva isso tão a sério… — ela comentou, fechando os olhos por um instante, aproveitando o momento de cortesia.
— Alguém precisa cuidar de você. — respondeu, simples, com um tom de brincadeira.
Ela virou o rosto, encarando-o por cima do ombro, com um sorriso brincalhão.
— Eu gosto quando é você, afinal. — E riram.
Ele terminou de espalhar o protetor, limpou as mãos e ajustou a aba do chapéu novamente.
— Pronto. — disse. — Vamos?
— Claro! Estou muito empolgada!
Saíram de mãos dadas e pouco depois, caminhando lado a lado pelos arredores da pousada, deixaram para trás o clima reservado do quarto e entraram em um caminho onde o verde dominava tudo. À medida que avançavam pela Trilha do Bambu, os sons da natureza se intensificavam, como o farfalhar suave das folhas altas balançando com o vento.
Os bambus se erguiam imponentes, formando um corredor natural que filtrava a luz do sol, criando sombras alongadas e um jogo de claros e escuros no chão de terra batida. O ar ali era diferente até mesmo do da pousada. Mais natural, mais fresco.
Aki caminhava devagar, observando tudo com atenção, às vezes erguendo o rosto para acompanhar a altura quase infinita dos bambus.
— São… — murmurou. — enormes… majestosos, eu diria…
Victor a observou por alguns segundos antes de responder.
— São incríveis. A natureza é realmente impressionante.
Ela acenou, concordando.
E seguiram assim, lado a lado e com passos tranquilos. Fizeram todo o percurso e voltaram em alguns longos minutos, já famintos. Foram até o restaurante e se serviram de uma comida saborosa e regional.
Descansaram um pouco no quarto e logo mais fizeram a reunião com o senhor Oyaka, dono da pousada. Victor havia levado toda a papelada com propostas e explicações, que havia preparado durante o espaço de tempo que tiveram nesses últimos dois dias, inclusive no dia anterior, antes da viagem, quando tiveram que ir até a Elegance Affairs, a pedido do chefe Akashi, para acertar algumas coisas pessoalmente.
O casal cumprimentou todos os colegas de trabalho que viram, recebendo elogios pela performance nos últimos eventos e também brincadeiras dos mais íntimos, como Kazuya e Helsing, perguntando quando eles voltariam para o trabalho de meros mortais.
Sayuri e Yumi também não perderam a oportunidade de fazer algum comentário brincalhão e malicioso, mas foram retrucadas facilmente citando Natsu e Fuyu. Ambas ficavam visivelmente coradas falando dos irmãos da Aki.
Victor aproveitou que estava lá e teve uma conversa profissional com Koda, onde debateram alguns assuntos gerais e Victor explicou seu plano, perguntando qual a opinião dele sobre isso.
Koda, embora tenha levantado algumas considerações, aprovou completamente a ideia que Victor teve, elogiando-o pela perspicácia e decisão madura. E também prometeu dar cobertura para ele nesse tempo e mostrou predisposição em algum possível debate com Jeanne.
Ao anoitecer de segunda-feira, estavam em casa com todas as coisas já arrumadas, prontos para a aventura que se iniciaria no dia seguinte. Foram dormir cedo.
Na noite da terça-feira, após a trilha e a reunião, ambos estavam visivelmente cansados. Depois do jantar, Aki voltou ao quarto primeiro, pois Victor ainda precisava ter uma breve conversa com o senhor Oyaka.
Já em particular, Aki tomou um banho relaxante, se trocou e deitou na cama, no intuito de apenas relaxar um pouco. Entretanto, adormeceu, sem perceber que estava caindo no sono.
Quando o brasileiro retornou ao quarto, logo que abriu a porta de correr, percebeu a garota adormecida e seus olhos a contemplaram por mais tempo do que pensou.
— Tão fofa dormindo… — comentou, quase para si mesmo. Ele ajeitou o lençol sobre ela e fez o mesmo, se banhando primeiro e deitando em seguida, descansando para o próximo dia, que seria muito divertido. Não antes de dar um beijo de boa noite na bochecha da namorada, que já dormia profundamente.

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