Capítulo 135: Novo plano
25 de maio de 2024, sábado.
Victor mal havia fechado o portão de grade quando percebeu a silhueta na varanda.
A luz branca da lâmpada de led externa da casa contrastava com a noite escura, recortando a figura de Aki parada, imóvel, próximo à escada que dava acesso à porta. Ela segurava o celular com força nas mãos, o corpo levemente curvado para frente. O som abafado de um soluço atravessou o silêncio do quintal.
O coração dele acelerou e ele largou os passos contidos e foi até ao encontro dela rapidamente.
— Victor… — A voz embargada o preocupou.
— Aki… O que aconteceu?
Ela virou o rosto devagar. Seus olhos estavam vermelhos, marejados, e as bochechas úmidas denunciavam que já chorava há algum tempo. Mesmo assim, quando o encarou, havia algo firme ali… talvez dor, talvez dúvidas…
— Eu… — a voz falhou, e ela respirou fundo antes de continuar. — Eu confio em você, Victor. De verdade. Eu te amo. — apertou o celular contra o peito por um instante. — E por isso eu sei que deve existir uma explicação… mas o que eu vi é muito difícil de não ficar com raiva.
Ele sentiu um frio percorrer a espinha.
— Aki, me diz… o que foi que você viu? — perguntou, com cuidado, pensando bem nas palavras que saíam de sua boca.
Ela hesitou por um segundo, depois destravou o celular e virou a tela na direção dele.
A primeira imagem mostrava os dois sentados no bar, copos sobre a mesa. A iluminação baixa, o enquadramento preciso — próximo o suficiente para parecer íntimo, distante o bastante para esconder o contexto.
Victor engoliu em seco e permaneceu em silêncio, analisando a situação.
A segunda foto fez seu estômago revirar.
Jeanne estava nos braços dele, a cabeça perigosamente próxima ao seu rosto, num ângulo que congelava o instante exato antes de um beijo que nunca aconteceu.
— Isso não… — ele começou, mas a terceira imagem surgiu.
Jeanne beijando seu rosto.
Depois outra.
E mais uma, com Victor segurando-a, ela envolvida em seu pescoço e os lábios colados no seu rosto.
Aki deslizou o dedo pela tela e, sem dizer nada, ergueu a mão livre e apontou para o próprio rosto dele — mais especificamente, para a bochecha.
— Olha. — disse, num sussurro trêmulo e inseguro.
Victor levou a mão ao rosto, confuso, e então ativou a câmera frontal do celular. A imagem refletida confirmou o que ele temia.
Uma marca tênue, mas inconfundível, de batom vermelho ainda estava ali.
O sangue ferveu.
Por dentro, Victor sentiu a raiva subir como uma explosão silenciosa. O rosto de Jeanne veio à mente, o sorriso provocador, a insistência, o beijo forçado. Os punhos se fecharam involuntariamente.
“Essa mulher…”
Mas antes que qualquer palavra saísse de sua boca, ele se aproximou de Aki e a puxou para um abraço firme, protetor. Ela hesitou por meio segundo — e então cedeu, enterrando o rosto no peito dele.
— Aki… — disse baixo, junto ao cabelo dela. — Isso é exatamente o que a Jeanne quer. Ela está tentando te provocar. Tentar nos colocar um contra o outro. Como ela fez no passado…
Ela apertou a camisa dele com força.
— Eu sei… — murmurou, a voz pesada. — É por isso que dói tanto. Porque eu sei que você não faria isso comigo… mas as fotos…
— Foram manipuladas. — afirmou, sem hesitar. — Eu bebi um drink, sim. Um. Só isso. Mais por educação e para manter o perfil… — afastou-se um pouco para encará-la nos olhos. — Mas nada aconteceu daquele jeito. Eu virei o rosto. Eu me afastei. E quando ela passou dos limites, eu fui embora.
Aki respirava de forma irregular, tentando conter o soluço involuntário.
— Então… — ela engoliu em seco. — Então por que essas fotos existem?
Victor passou a mão pelo rosto, sentindo novamente a marca de batom, agora com nojo.
— Porque ela queria exatamente isso. Um recorte. Um ângulo. Um instante congelado sem contexto. — seus olhos escureceram. — E eu prometo pra você… isso não vai ficar assim. Eu vou ter uma última conversa com a Jeanne. Definitiva.
Ele segurou o rosto de Aki com cuidado, os polegares enxugando suas lágrimas.
— Olha pra mim. — pediu. — Eu estou aqui. Com você. Sempre estive. E sempre vou estar.
Ela o encarou por alguns segundos longos, como se procurasse qualquer rachadura naquela convicção. Não encontrou. Embora não fosse esse o motivo do silêncio.
Aki assentiu lentamente e o abraçou de novo, dessa vez com menos tensão — ainda machucada pela situação, mas não quebrada. Não respondeu com palavras.
Ela simplesmente se jogou nos braços dele, envolvendo-o com força, como se temesse que, se soltasse, ele pudesse desaparecer. O rosto se apertou contra o peito de Victor, e o som abafado de sua respiração irregular denunciava o turbilhão de emoções que ainda lutava para se acalmar.
— Eu te amo muito… — disse, a voz trêmula, quase quebrada. — Eu não quero te perder.
Victor sentiu o peso e, ao mesmo tempo, a preciosidade daquela confissão. Naquele instante, estava pensando em como responder, mas não teve tempo:
— Você foi o único que me entendeu de verdade… — continuou ela, erguendo o rosto apenas o suficiente para falar, mas sem se afastar ou o encarar diretamente. — O único que conseguiu me enxergar como eu realmente sou… Quando estou com você… meu coração bate tão rápido que parece que vai explodir.
Respirou fundo, tentando organizar os pensamentos, sem sucesso imediato.
— Seus braços são… tão aconchegantes. E o seu sorriso… — um pequeno riso nervoso escapou, mesmo entre lágrimas. — Às vezes me deixa até sem reação. É como se eu ficasse hipnotizada.
Nitidamente, suas bochechas estavam completamente coradas e ela sabia, mas ignorou esse sentimento. Se abrir daquela forma tirou um peso de seus ombros. E Victor sentiu o peito se aquecer de uma forma quase dolorosa.
Passou a mão com cuidado pelos cabelos dela, num gesto lento e carinhoso, apoiando o queixo sobre o topo da cabeça de Aki.
— Aki… — murmurou. — Me desculpa. Eu odeio ter feito você chorar.
Ela negou com a cabeça imediatamente, apertando-o um pouco mais.
— Não foi culpa sua. — respondeu com firmeza. — Nada disso foi. Eu só… precisava ouvir de você. Precisava sentir que estava tudo bem. De você…
Ele sorriu de leve.
— Vai ficar. — afirmou. — Eu prometo que vou resolver isso da melhor forma possível.
Ela se afastou apenas o suficiente para encará-lo, franzindo levemente o cenho.
— Como? — perguntou, genuinamente confusa. — O que você vai fazer?
Victor sustentou o olhar dela por alguns segundos.
— Agora não. — respondeu com suavidade. — Eu não quero te preocupar com isso. Só confia em mim, tudo bem?
Aki hesitou por um instante… então assentiu.
— Tá… — disse, respirando fundo. — Eu confio em você.
Ele sorriu, dessa vez de forma mais clara, e puxou-a novamente para um abraço, mais calmo, mais seguro.
— É só isso que eu preciso. — murmurou. — Vamos dormir. Amanhã a gente resolve.
…
26 de maio de 2024, domingo.
Ainda era cedo, no dia seguinte, quando Victor estava sentado à mesa, com o notebook aberto e digitando um relatório para o chefe Akashi. Nele, incluiu algumas informações úteis, além de detalhar todos os ocorridos na reunião da Ecotour.
Contou ainda sobre o possível novo contrato com o Senhor Ronald McTrumph e a sua rede de hotéis “Diamond Prestigie Hotels”, ou DPH. Relatou ainda sobre outros possíveis contratos, incluindo com a World Trails, além de outras informações. No final, adicionou o seu nome e o de Aki.
Enquanto revisava as informações, Aki chega na sala e o vê trabalhando, tão cedo. “É, ele não muda”, ela pensou, sorrindo.
Se aproximou dele e lhe deu um beijo na bochecha, desejando-lhe um bom dia. Ele retribuiu e logo explicou o que estava fazendo. Quando ela leu o documento, protestou, mais especificamente na parte que estava com o seu nome.
— Não precisa colocar o meu nome. Você conseguiu todos esses contatos e possíveis novos contratos sozinho. Eu vou fazer outro relatório…
Victor abaixou a tela do computador portátil, levantou-se e abraçou a sua namorada. Um abraço quente e confortável.
— Não seja boba. Você foi a peça mais importante para que eu conseguisse isso. Você não percebe, mas me dá força e coragem para certas decisões. Então, o mérito também é seu. Além disso, você mandou bem no discurso e manteve contato com o pessoal. Você foi demais!
Ela corou e agradeceu. Entraram no assunto de Jeanne e Victor finalmente lhe contou o plano.
— Podemos mesmo fazer isso? — Aki indagou, surpresa.
— Creio que sim. Só falta a aprovação do chefe Akashi. É um plano maravilhoso ou não? — Victor deu uma breve risada.
— Parece meio doido. Isso sim. — respondeu, com falso desdém e rindo em seguida.
…
Os dois prepararam um chá para eles enquanto arrumavam o café da manhã para todos. Beberam o chá, discutindo sobre o plano. No fim, Victor finalizou o relatório e enviou ao chefe junto com um pedido um pouco ousado.
A ideia dele era uma série de viagens a negócio, para resolverem os contratos pendentes que arrumaram na reunião da Ecotour — e, enquanto isso, viajava com Aki para esfriar a cabeça. Victor revelou alguns lugares para Aki, como Quioto e Beppu. Porém, ainda deixou um suspense no ar sobre a última viagem que fariam.
Entretanto, para o chefe, explicou toda a rota que faria e os dias necessários para resolver tudo, além de pedir permissão para tomar decisões radicais sobre os contratos. No fim, a família de Aki acordou e tiveram uma manhã animada, com uma pequena surpresa.
— Seja bem-vindo, querido, oficialmente à nossa família! — Hana exclamou, animada e sorridente, abraçando Victor, que ficou sem jeito.
— É isso aí! Agora é o nosso irmão Victor! — Natsu e Fuyu gritaram em um coro, como se tivesse combinado.
— Oba! Que notícia boa! Agora o Victor é meu irmãozão de verdade! — Haru pulou nele em um abraço, mas em resposta, ele comentou:
— Não seja boba, Haru. Nós somos irmãos de verdade, desde que você me deu isso. — Ele ergueu o próprio punho, mostrando a pulseira de fita com detalhes de cerejeira.
Eles riram, enquanto Shouto estava mais calado, apenas observando, mas com um semblante nitidamente feliz.
Conversaram por bastante tempo, quando Victor recebeu uma ligação do chefe Akashi, se retirando para atender. Quando resolveu, voltou e chamou Aki. Contou sobre a ligação e os dois comemoraram, com um abraço rápido e escondido no cômodo ao lado.
— Precisamos voltar para Tóquio para acertarmos as coisas.
— Certo. Vamos embora à tarde.
E assim, seguiu a manhã toda, até o almoço e depois foram embora, sem imprevistos.
Durante as horas finais na casa dos Yamada, Victor e Aki não perderam a oportunidade de cutucar Natsu e Fuyu, falando sobre Sayuri e Yumi. Da mesma forma, Aki já vinha comentando com as duas amigas sobre os irmãos, sempre fazendo comentários ambíguos em momentos oportunos.
Victor também conversou com Haru, que perguntou algumas coisas sobre o futuro dele com Aki, cheia de curiosidade no olhar. O brasileiro lhe respondeu todas as perguntas.
Talvez inconscientemente, como um instinto paterno ou de irmão mais velho, Victor enxergava em Haru uma criança inocente e que ele gostava muito, a qual ele precisava proteger e ajudar. Embora soubesse os limites sociais e familiares, como não ser um parente de sangue, também não recuava desses momentos.
Aki admirava esse espírito de Victor, protetor, acolhedor e sempre participava desses momentos, fazendo Victor enxergar nela também esse instinto materno e de irmã mais velha.
Natsu e Fuyu, nesses momentos, ficavam muito enciumados, mesmo que Haru sempre se divertisse das suas reações exageradas quando ela tentava se justificar. Os pais contemplavam todas essas cenas, vendo a união dos filhos.
E, ao final do dia, Victor e Aki já estavam em casa, prontos para mais uma aventura que se iniciaria em breve.
— O chefe Akashi aprovou toda a ideia. Então, vamos arrumar nossas coisas?! — Victor exclamou, animado, quando abraçou Aki e os dois caíram no sofá, iniciando um beijo apaixonado, agora a sós, em casa, sem ninguém para interrompê-los.
“A gente não vai arrumar as coisas?” Aki pensou, logo que eles caíram no sofá, mas rindo internamente. “Mas isso fica para depois…” Foi o último pensamento dela, antes de fechar os olhos e se entregar ao momento romântico, envolvendo Victor com seus braços.

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