Capítulo 137: Fontes termais
29 de maio de 2024, quarta-feira.
Logo quando acordaram, tomaram um café da manhã reforçado e partiram da pousada, agora rumo a Beppu. Dessa vez, o destino era o “Paraíso das Águas”. O caminho foi longo, mais de oito horas de viagem, chegando lá por volta das dezesseis horas.
— Finalmente chegamos! — Aki se jogou na cama, de barriga para baixo, já dentro do quarto.
— Foi uma viagem cansativa. — Victor comentou, sentando-se ao seu lado. — Ainda dá tempo de aproveitarmos uma fonte termal. Vamos?
— Claro! — respondeu, animada.
Em pouco tempo, já estavam na entrada de uma das piscinas naturais mais movimentadas do local, apesar disso, não estava cheio, tanto pelo horário quanto pelo dia. Se despediram e cada um seguiu para a sua respectiva ala. Aki para o lado feminino e Victor para o lado masculino.
…
Aki afundou o corpo lentamente na fonte termal, sentindo a água quente envolver cada centímetro de sua pele como um toque prolongado e intencional. O vapor subia em ondas suaves, colando-se ao corpo, deixando o ar denso, quase pesado.
Um suspiro escapou de seus lábios.
O calor fazia seu corpo reagir de forma imediata — a pele sensível, os músculos relaxados demais, a respiração um pouco mais profunda do que deveria. Aki já estava com seus pontos cabelos presos firmemente no topo da cabeça, então apoiou os braços na borda de pedra, inclinando-se levemente para frente, permitindo que a água deslizasse por seu colo antes de se perder novamente sob a superfície.
Sentia-se de uma forma… exposta…
Não porque alguém estivesse ali — estava sozinha — mas porque o próprio corpo parecia mais presente do que nunca. Cada curva parecia ganhar consciência. Cada sensação, amplificada. Essa era a mágica das fontes termais.
Ela fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás, deixando o pescoço livre, vulnerável. Pequenas gotas escorriam lentamente pela pele aquecida, seguindo caminhos que ela sentia mais do que via. O contraste entre o ar fresco tocando o rosto e a água quente envolvendo o corpo fazia seu coração bater num ritmo mais lento… e mais pesado.
Aki deslizou a mão pela própria lateral, quase sem perceber o gesto. Os dedos percorreram a pele lisa, quente, sensível demais ao toque. Um arrepio correu por sua espinha — não de frio. Estava tentando, curiosamente, descobrir mais sobre seu corpo ali, sozinha.
A sensibilidade fazia seu corpo todo se arrepiar. Apesar do calor, sentia como se algo gelado atravessasse seu estômago. Aquela sensação era… incrível.
Mas então, de repente, sua mente foi invadida por flashes e imagens de uma pessoa que havia mudado o seu mundo. Victor.
Um sorriso sincero surgiu nos seus lábios, enquanto recolhia sua mão. Lembrou do olhar dele, que a deixava extasiada em certos momentos. O par de olhos escuros lhe enchia de uma sensação diferente.
Sem nunca ter experimentado antes certas sensações, achava que era apenas algo banal. Porém, desde o dia em que conheceu Victor intimamente, descobriu uma coisa que nunca havia pensado antes: a sensação de estar completa. O sentimento que florescia fisicamente e transbordava o coração de calor e paixão.
Ela abraçou a si mesma, sabendo que estava com o rosto ruborizado — e não era somente pela água quente. “Victor… eu esperei tanto e acho que valeu a pena…”
O vapor tornava tudo difuso. O mundo ali parecia restrito àquela fonte, àquele corpo aquecido, àquela sensação crescente que ela fingia não perceber.
— Isso é culpa dele… — murmurou em voz baixa, quase um sussurro perdido no ar.
Mas não havia reprovação em seu tom. A água continuava quente demais e seu corpo, desperto demais. Seus pensamentos… perigosamente direcionados a um sentimento recém descoberto e muito poderoso.
O devaneio levou alguns minutos… mais do que ela havia percebido. A ponta dos dedos já estavam enrugadas, quando se deu conta que havia passado um bom tempo.
— Preciso voltar… — comentou para si, levantando-se e enrolando na toalha que estava ali, lhe esperando.
…
Victor entrou na fonte termal da ala masculina em passos lentos e calculados, deixando o corpo afundar pouco a pouco na água quente. O calor subia, encobrindo parcialmente o ambiente de pedra e madeira escura por uma energia invisível, mas real. Assim que a água alcançou o peito, ele soltou o ar que nem percebeu estar prendendo.
O cansaço da viagem começou a ceder quase imediatamente. A tensão nos ombros diminuiu, os músculos relaxaram, e por alguns segundos ele apenas ficou ali, em silêncio, ouvindo o som baixo da água e sentindo o calor atravessar a pele de forma confortável.
Fechou os olhos.
A imagem de Aki veio sem ser convidada. O sorriso contido num rosto cuidadosamente moldado pela natureza, com duas jóias âmbar cravadas nele. Os lábios eram de um tom perfeitamente harmonioso com o tom de pele claro. Os fios de cabelos pretos que caiam sobre aquela moldura, como rabiscos artísticos. Seu corpo aqueceu um pouco mais.
O jeito como ela ficava levemente sem graça quando recebia elogios. O jeito curioso e divertido de ver as coisas — e assim o alcançou.
Victor apoiou os braços na borda e deitou sobre eles. O vapor tornava tudo turvo, quase etéreo, como se aquele momento estivesse fora do tempo e os pensamentos pudessem moldar a realidade.
Ele pensou no caminho que haviam percorrido até ali. Desde quando chegou ao Japão e a viu pela primeira vez. Ainda com o passado o engolindo na escuridão, não percebia seus detalhes deslumbrantes. Não havia percebido como seus olhos eram lindos e chamativos, nem como o sorriso dela era como uma luz-guia.
Tudo que aconteceu no último ano e o que viveram recentemente. Os momentos bons e difíceis. Brincadeiras e trabalho. Dificuldades e reconstruções. O medo constante de perder tudo que rodeava sua mente quase incessantemente… e a certeza cada vez mais sólida de que não queria mais estar sozinho.
O Japão já não era apenas o cenário de seu recomeço e de onde queria se esconder do mundo. Agora era o lugar onde ele tinha encontrado um lar, alguém que era o centro disso tudo, o seu alicerce.
Ela… era o centro disso tudo. Aki.
Um pensamento específico atravessou sua mente, mais pesado, mais carregado. Como se pudesse tocá-lo.
A lembrança recente de uma conversa reservada — palavras ditas sinceramente e com muita convicção. Olhares sérios, mudando de preocupação para aprovação. Conselhos que não foram imposições e sim, formas de mostrar carinho e confiança.
Victor abriu os olhos lentamente. Tudo ainda parecia distorcido, graças ao calor abundante. A água quente tocava seu corpo, mas era outra coisa que aquecia seu peito. Aquele calor não era externo.
Ele sabia. Suspirou. Afundou o corpo até ficar somente com o nariz pra cima de fora e algumas borbulhas estouraram.
Sabia que não era mais uma questão de “se”. Agora era apenas “quando”. Com a oportunidade certa e o momento certo. Não havia decidido muitos detalhes, mas uma coisa era crível: Ele estaria ao lado de Aki, a amaria e a faria feliz, não importa o que tivesse que fazer.
“Nada que eu fizer é o suficiente para retribuir por ter me salvado das trevas onde eu estava afundado, Aki…”
Divagou.
Um sorriso discreto surgiu em seus lábios.
— Você nem imagina… — murmurou, quase inaudível, como se falasse com o vapor à sua frente, respondendo às suas próprias lembranças.
…
— Isso é sério?! — Shouto exclamou, surpreso, o óculos deslizou discretamente pelo nariz.
— Eu nem acredito! — Hana respondeu, surpresa e sorridente.
— Isso é absolutamente o que eu quero, senhor Shouto e senhora Hana.
— Podem nos chamar agora de sogros, não é, querido? — Hana buscou o olhar de aprovação do marido, que assentiu.
— Victor, não se esqueça da nossa “reunião” hoje, para bebermos. O Natsu também vai participar. Quero celebrar algo lá.
— Tem algo a ver com o que acabamos de conversar? — Victor perguntou, curioso, despretensioso.
— Quem sabe? Haha. — A risada rara do Yamada fez Hana se surpreender, percebendo que o cônjuge estava verdadeiramente feliz com o ocorrido.
…
Mais um tempo se passou e ele não sabia dizer quanto. Levantou-se, usando a toalha para se cobrir e se dirigir ao vestiário.
Se encontraram no quarto de casal, com Victor chegando primeiro que Aki. Algum tempo depois, ela chegou e ele estava deitado, de olhos fechados, repousando.
Ele a recebeu com um beijinho na bochecha e depois foram comer. De volta ao cômodo de descanso, começaram a conversar. Aki perguntou para onde iriam na próxima viagem e ele desconversou, mudando de assunto.
Conforme a noite avançava, o calor ainda era forte, embora o quarto fosse climatizado. E ali havia um onsem particular, privado, com uma vista incrível para as montanhas ao fundo.
— Ei, você quer entrar um pouco… bom… agora… nós dois… juntos… — Victor convidou, escolhendo as palavras.
Apesar do tempo que estavam juntos e até morando sob o mesmo teto, não tinham ainda entrado na banheira juntos — e até justificável, já que a da casa de Victor era pequena.
Como uma curiosidade pulsante, ele desejou aquele momento com a namorada. Apesar disso, também tinha um breve receio que ela fosse ficar desconfortável.
Aki se surpreendeu pelo convite, com várias imagens passando por sua cabeça em questão de instantes. Ela sorriu: — Claro, vamos!
Mesmo que tivesse sido tomada por uma timidez, também não queria perder aquele momento. Seus desejos de antes, quando estava sozinha na fonte termal feminina, ainda gritava em seu peito.
Se trocaram, ficando com pouca roupa, enrolados em uma toalha cada. O vapor ainda pairava no ar quando Victor deslizou a porta do onsen privativo,
A água quente refletia a luz suave das lanternas, criando ondulações douradas na superfície. O espaço era silencioso, relativamente grande e com uma vista panorâmica dos arredores, sendo possível vislumbrar as majestosas montanhas no horizonte.
Aki entrou logo atrás dele, usando apenas a roupa leve que escolhera para aquele momento. Lembrava um conjunto de biquíni, mas com a parte inferior sendo quase um minishort. Seus passos eram contidos e tímidos, e mesmo assim, cheia de expectativa e nervosismo.
“Estamos mesmo fazendo isso…”
Os dois pensaram algo do tipo, enquanto se acomodavam. Victor, apenas com uma espécie de short, entrou e se acomodou. Ela o seguiu e entrou na água devagar, soltando um suspiro baixo quando o calor envolveu suas pernas e depois o corpo inteiro.
— Eu… — começou, mas parou por um instante, como se procurasse as palavras certas. — Estou tão feliz que não sei como explicar.
Victor se apoiou na borda, observando-a. O vapor tornava seus traços ainda mais suaves, e o brilho nos olhos dela parecia maior do que o reflexo da água.
— Desde pequena eu queria vir a Beppu… — continuou, com um sorriso quase infantil. — Essas fontes sempre pareceram algo incrível, como um desejo. E agora eu estou aqui… com você. Você tornou isso possível para mim. Obrigada, Victor.
Ela se aproximou e o abraçou, envolvendo-o com cuidado, como se tivesse medo de quebrar aquele momento. O contato da pele aquecida, a água envolvendo os dois, fez o coração de Victor bater mais forte.
Ele passou os braços ao redor dela, firme e protetor.
— Tudo o que eu faço por você ainda é pouco. — disse baixo. — Você me salvou de um lugar onde eu nem sabia mais como sair. Comparado a isso… nada é demais. Eu quem deveria estar te agradecendo.
Aki ergueu o rosto, tocando o dele com a ponta do nariz, sentindo as bochechas corando.
— Bobo… — murmurou, antes de selar os lábios nos dele num beijo lento, profundo, carregado de sentimento que não conseguia colocar em palavras.
Quando se afastaram, ainda próximos demais para fingir neutralidade, ela sorriu de um jeito travesso.
— Então… — inclinou levemente a cabeça. — Agora você pode me contar. Para onde vamos na viagem internacional?
Victor arqueou uma sobrancelha, fingindo indiferença.
— Segredo.
— Nem com um beijo?
— Nem com dois. — respondeu, divertido.
Ela fez um biquinho de falsa indignação.
— Hm… então vou ter que usar outros métodos.
Aki começou a se aproximar ainda mais, os gestos pequenos, provocadores. Beijos rápidos no canto da boca, no maxilar, mordiscadas leves, como se testasse os limites dele, enquanto insistia nas perguntas e ele, rindo, as respondia negativamente.
— Não adianta… — Victor disse, embora a voz estivesse perigosamente próxima de falhar. — Eu não vou falar.
Ela parou por um instante, respirou fundo… e o rosto corou intensamente.
— Então… — disse, num tom quase sussurrado. — Vou usar minha cartada final.
Com mãos trêmulas, mas decididas, ela se desfez da pouca roupa que ainda usava. O gesto foi tímido, quase inseguro, mas não havia arrependimento. Não havia motivos para isso. Com Victor, com ele, sim, ela estava segura e convicta. .
— E… — Aki desviou o olhar por um segundo. — Agora? Agora pode me falar? — tentou usar um tom provocador, mas a voz quase falhou. Estava muito ansiosa.
Victor não respondeu com palavras. Ele a puxou para si num movimento firme, urgente, os lábios se encontrando com intensidade. O beijo foi diferente dos anteriores daquela noite — mais profundo, mais carregado, como se algo tivesse sido finalmente liberado.
“Eu também te quero, Victor! Muito!” Aki pensava.
Entre respirações descompassadas e carícias, eles saíram do onsen quase tropeçando, rindo baixo, se beijando pelo caminho até o quarto. As mãos exploravam, descobriam, confirmavam sentimentos já conhecidos e que explodiram naquele momento. Os desejos, sensações e intenções florescidos.
Quando deitaram na cama, o mundo ficou pequeno demais para conter o que sentiam. Todos os sentidos florescidos, intensos. Os toques que trocavam, o cheiro que sentiam, o gosto dos beijos e da pele, a visão que contemplavam e os sons que ouviam um do outro. Esse era o quinteto perfeito para aquele momento.
Naquela noite, longe de qualquer pressa ou inquietação, eles se completaram — como um homem e uma mulher. Como um casal decidido.
…
Mais tarde, deitados lado a lado, ainda envoltos pelo calor do momento, Aki se virou para ele, apoiando o queixo em seu peito.
— E então… — sorriu, esperta. — Agora eu mereço saber?
Victor riu, passando os dedos pelos cabelos dela.
— Foi uma ótima estratégia. — admitiu. — Mas se eu contar agora, estraga tudo.
Ela fez um muxoxo.
— O que pode ser tão surpresa assim?
Ele beijou a testa dela, com carinho.
— Você vai descobrir. — respondeu simplesmente.
Aki fechou os olhos, satisfeita.
“Eu queria tanto saber, mas… assim está bom…”

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