Se as chamas atingissem Naoko, o resultado seria fatal. O fogo se aproximava dela rapidamente. Ela sentiu que se a alcançassem, seria sua última luta.

    Eis que um estrondo foi ouvido. O piso foi se levantando e rachando. Assim, um enorme bloco de terra se ergueu do chão numa velocidade inimaginável. Posicionado à frente de Naoko, criou um muro que bloqueou as chamas e protegeu a jovem.

    Ofegante, Seki estava suando frio, pupilas dilatadas e coração acelerado. Abaixado, uma de suas mãos se apoiava num dos joelhos, enquanto a outra estava firme no solo. Ele foi o responsável por impedir que as chamas de Yesenia atingissem sua amiga.

    “Deu certo… mesmo com toda essa água, a terra está firme”, pensou enquanto os batimentos cardíacos voltavam ao normal, aliviado.

    “Ela que não pense que esse bloqueio vai me parar”, pensou Yesenia, franzindo sua testa, indignada com a interrupção. Suas mãos começaram a formar novas chamas, ainda mais intensas que as anteriores.

    Cristais foram lançados ao longe e um pouco de sangue espirrou. Havia acertado em cheio a bochecha esquerda de Yesenia, que já estava com as antigas marcas de queimadura. O ferimento era pequeno, mas fundo o suficiente para o sangue escorrer pelo rosto.

    Surpreendida, ela virou o rosto e olhou para trás, encarando Minami e Akiko, que estavam juntas.

    — Akiko, você chamou a atenção dela — disse Minami, escondendo-se atrás de Akiko. Ela sentia medo com o olhar da mulher, e isso se retratava em sua voz baixa, tentando passar desapercebida.

    — Não era minha intenção, só queria dar um susto — explicou Akiko, que dava alguns passos para trás, igualmente assustada, procurando não entrar em confronto direto.

    A batalha entre Yukino e Heidi acontecia em paralelo. Com respiração pesada, Yukino mostrava sinais de cansaço, mas continuava atenta para qualquer golpe que pudesse surgir.

    “Droga, ela some completamente na água.” Esperando por sinais claros, Yukino notou uma mini perturbação na água. Sem hesitar, mirou a palma de sua mão e atacou com gelo.

    Ao congelar, o movimento se mostrou disforme, sem forma humana.

    “Foi só uma distração”, pensou, olhando para a pedra de gelo.

    Mas a distração funcionou, e debaixo de Yukino, uma camada espessa de água surgiu, agarrando suas mãos. Ela gritou de susto, mas não conseguiu se soltar, a pressão estava forte demais.

    Seki voltou sua atenção à outra batalha. Chegando junto a ele estava Miyu, que correu rapidamente em direção à confusão, estava preocupada, chamando por sua amiga.

    Yesenia agora tinha seu foco na dupla Minami e Akiko. Tomada pela ira, não pensou duas vezes, ergueu sua mão e desferiu um golpe de chamas poderoso na direção das duas.

    Chorando de pavor, correram em direção contrária. Minami estava um pouco hesitante sobre qual caminho tomar. Akiko, atrás dela, dava leves empurrões para fazê-la sair da linha de fogo.

    — Minami, corre, não temos chance! — pedia Akiko, desesperada, as lágrimas escorriam de seu rosto.

    — Tá… e agora? — Minami caminhava, mas parecia cansada, sua mente se mostrava com a pressão da luta.

    No segundo pavimento, Adonis havia feito um vão generoso e agora conseguia entender a movimentação que estava acontecendo no pátio.

    — Yesenia! — murmurou, suas sobrancelhas arqueadas denunciavam sua preocupação.

    Sua mão se esticou em direção à área externa do colégio. Todo o fogo que havia sido jogado em direção à Akiko e Minami foi rapidamente desviado até a palma de sua mão.

    “O fogo sumiu!” Yesenia olhou confusa para aquilo. Ela se perguntava quem poderia ser capaz de tal feito. Foi quando ela olhou para cima e deu de cara com seu companheiro.

    Não demorou muito para que ela entendesse o que havia acontecido. O rapaz se espantou com o olhar vazio da mulher e sentiu medo de seus próximos movimentos.

    — Ado… — gritou, sem concluir o nome, pois, naquele momento, uma quantidade massiva de água se levantou por detrás dela.

    Yesenia se virou, mas foi tarde demais. A massa de água a envolveu em uma espécie de bolha gigante, prendendo-a. A alta densidade não permitia nem ao menos que ela encostasse os pés no chão. 

    Sua boca se abria, mas seus gritos eram mudos. A bolha abafava todo o som. Seus movimentos não surtiam efeito, pois ela não conseguia alcançar as paredes da bolha.

    Também presa pela água, Yukino tentava a todo custo soltar suas mãos. Mesmo dando tudo de si, parecia impossível escapar daquela armadilha.

    Heidi utilizava a água de maneira a manter uma grande pressão, pressionando Yukino e, consequentemente, dificultando a fuga.

    Foi então que vinhas apareceram e abraçaram Yukino. A força das plantas ainda não era o suficiente para ajudar a jovem a escapar, mas ajudava que ela não fosse engolida por completo pela água.

    Seki novamente usou sua Potentia de terra. Desta vez, manteve suas mãos no ar, apontadas para onde a batalha entre Yukino e Heidi acontecia.

    Todo o chão começou a tremer. Embaixo de Yukino, o piso se rachava e aos poucos era engolido. Até que finalmente uma área do chão se abriu, era grande o suficiente para escoar uma grande quantidade de água.

    Yukino se assustou, mas as vinhas de Miyu haviam revelado sua real utilidade. Não era para puxar, Seki e Miyu estavam trabalhando juntos num plano para enfraquecer a Potentia de água rival.

    Conforme a água escorria, Heidi foi revelando sua forma humana mais uma vez, mas desta vez sem a possibilidade de se camuflar novamente. Com o chão aberto em uma profundidade considerável, ela começou a cair. Porém, sua fúria era tamanha que permaneceu agarrada ao punho de Yukino, que estava sustentada pelas vinhas.

    — VOCÊ VEM COMIGO! — gritou, puxando Yukino para baixo.

    Enquanto a mão direita de Yukino estava sendo puxada por Heidi, a esquerda se encontrava livre. Yukino congelou a mão de sua oponente, que ainda estava na forma líquida.

    — NÃO FOI INTELIGENTE! MINHA MÃO AGORA ESTÁ GRUDADA EM VOCÊ. — provocou Heidi.

    O alerta da mulher era real, Yukino acabara de atar-se à sua inimiga. Não seria mais possível se soltarem de maneira normal e o gelo demoraria demais para derreter, o que poderia trazer resultados negativos para a batalha.

    Mas o que se revelou foi que Yukino não pretendia se soltar de maneira convencional. Ela levantou sua perna esquerda com velocidade e acertou com tudo na mão congelada de Heidi.

    O som agudo e cristalino do gelo quebrando se alastrou por todo o pátio. A mão de Heidi, que estava congelada, se fez em pedaços, sobrando apenas seu pulso. Sem ter mais como se agarrar, Heidi caiu, se perdendo na escuridão do abismo que havia sido formado por Seki.

    Yukino finalmente pôde se agarrar nos cantos do buraco e subir de volta ao pátio. O conflito com Heidi havia cessado.

    Durante esse tempo, Yesenia continuava presa dentro da bolha de água. Seu corpo se debatia de forma involuntária, se contorcendo, olhos se revirando em uma dor interna intensa. 

    Os gritos cessaram e o silêncio tomou todo o pátio, tudo o que restava era o som das gotas d’água. O corpo de Yesenia agora já não respondia mais e entrava em repouso. Sua mente estava limpa e a dor havia deixado de existir. Suas mãos, que se moviam em agonia, agora repousavam.

    A bolha se desfez delicadamente e o corpo de Yesenia foi depositado ao chão, imóvel. Adonis, que havia descido as escadas com pressa, ao chegar no pátio se deparou com o cadáver de sua conterrânea.

    “Não… não tem pulso”, confirmou. Ele percebeu que ela não tinha sobrevivido, mas uma ponta de esperança fazia com que ele procurasse um sinal dos batimentos cardíacos, mas foi em vão.

    Agora ele estava ali, ajoelhado, sem reação. Não saíam lágrimas de seu rosto, mas seu coração sentia um aperto. 

    — Adonis… Você tava no colégio ainda… — disse Hikaru, que também havia descido até o térreo, viu seu amigo e se abaixou para ficar mais perto do amigo.

    Fora da zona de perigo, Yukino estava de joelhos no chão, recuperando suas forças.

    — Yukino, tá melhor? Tá bem? — perguntava Akiko, fazendo massagem nas costas de sua amiga. Yukino tossia e respirava fundo, mas já estava melhor que antes.

    Pouco a pouco a tensão foi se dissipando, e todos foram se reencontrando.

    — Acabou? — perguntou Aino, que havia ficado no pátio todo esse tempo sem saber como reagir. Ao seu lado, Minami olhava com tristeza para a situação.

    Exausta e com ferimentos leves de queimadura e arranhões, Naoko estava no chão com a cabeça baixa.

    — Naoko… — chamou Seki, que se colocou na mesma altura que a dela, verificando seu estado.

    — Tô… melhor… — respondeu Naoko, sua voz cansada denunciava que havia perdido uma grande quantidade de energia na batalha.

    Miyu estava apenas observando em silêncio, assustada com tudo o que havia acontecido. Mas ao ver Adonis, seu coração se entristeceu, ela nunca havia visto o rapaz com aquela expressão.

    — Adonis — chamou ao longe, mesmo sabendo que ele não escutaria.

    Hikaru conseguiu fazer com que Adonis se levantasse. Os momentos pareciam passar mais devagar para todos, que haviam acabado de passar por uma situação inesperada.

    — Vem, vamos ali pra frente… — convidou Hikaru, conduzindo a saída.

    — Tá, tá… — concordou Adonis, que, desnorteado, se permitiu ser conduzido.

    Enquanto os dois rapazes seguiam para o portão da escola, questionamentos tomavam conta do coração de Aino, que olhava a situação de seus colegas.

    — Ela… morreu? Isso era necessário? — ela verbalizou seus pensamentos.

    Escutando aquelas palavras, Naoko ergueu seu rosto cansado e olhou para Aino.

    — Aino… Essa é a mesma que atacou Megumi. Ela ataca pra matar… — explicou Naoko, com a voz falhando.

    — MAS QUAL A DIFERENÇA ENTRE O QUE ELA FEZ E O QUE VOCÊS FIZERAM? — Aino interrompeu a fala de Naoko, suas palavras eram duras, mas não carregavam raiva, seus sentimentos estavam confusos e ela tentava ao máximo segurar suas lágrimas. — VOCÊ É SEMPRE ASSIM, NAOKO! AGRESSIVA! EU NÃO ENTENDO ESSA SUA POSTURA.

    — AINO! — chamou Yukino.

    Ao escutar a voz severa de sua prima, Aino cessou imediatamente sua fala e engoliu seco. Yukino então se colocou a falar:

    — A diferença é que só respondemos o ataque… Elas só não mataram a escola inteira porque você, Minami e Akiko foram rápidas em levar todas para fora. Os andares estavam em chamas. — cada palavra de Yukino carregava o peso de seu incômodo. 

    Em alto e bom tom, como um comando, Yukino mostrava para sua colega que as coisas não eram simples como Aino pensava.

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