Track 33. across the street, cross the waters

No silêncio do pátio da escola, próximo aos bebedouros, a água se agitava dentro dos canos. A pressão estava elevada e rachaduras começaram a surgir, até que o cano se arrebentou. Em sequência, os canos de várias partes da escola foram se arrebentando e causando goteiras e vazamentos.
No primeiro pavimento, uma pequena piscina, ainda imperceptível, se formava aos pés dos estudantes do Terceirão que faziam provas concentrados. Alguns pingos finos caíam do forro, mas não em quantidade relevante, então quase nenhum estudante havia percebido.
Sendo a primeira a terminar a atividade, Haru levantou-se para entregar sua prova para o professor. Mas antes que seguisse caminho, espantou-se com o que viu.
— CARAMBA, O CHÃO TÁ TODO MOLHADO! — gritou, tirando a atenção de todos e fazendo com que olhassem para baixo.
— MAS O QUE? — espantou-se Naoko.
— Naoko, isso deve ser… — disse Seki, interrompendo propositalmente sua fala.
Naoko encarou seu amigo, suas pupilas dilatadas comunicavam que ela havia compreendido o que ele queria dizer e que estava preocupada com a situação.
Sem demora, os dois apressaram o passo até o pátio, na tentativa de descobrir a fonte de toda aquela água, que agora subia rapidamente.
Ao chegar, a piscina que se formara deixou de ser o que mais preocupava Naoko, pois agora estava diante de algo ainda mais preocupante.
— Esse fogo… — exclamou, seu corpo havia travado, o medo havia tomado seu ser. O olhar atônito indicava que ela conhecia o perigo que iriam enfrentar.
O segundo e terceiro pavimentos estavam sendo tomados por cortinas de fogo na cor verde. Não era uma cor comum e ela já havia enfrentado a Potentia que possuía tais capacidades.
Precisando ir utilizar o banheiro, Blake, um dos alunos que estava no laboratório do segundo andar, abriu a porta e acabou se deparando com uma cena estranha.
— Caramba, gente! Olhem isso, parece um fogo verde.
Todos os vãos do corredor pareciam estar tomados por aquele fenômeno estranho.
“Fogo verde?”, pensou Adonis, que começou a suar frio ao escutar o comentário.
De volta ao pátio, os Primeiros e Segundos anos estavam agitados, a água já tomava metade da canela.
— Que tanta água! — comentou Akiko, que veio correndo, espalhando por todos os lados, assustada.
— O que é isso? — perguntou Aino, desconfiada.
— Meninas, isso é Potentia de novo? — disse Minami, verbalizando a preocupação de todas.
Yukino apenas murmurou, estava incomodada observando a situação, procurando uma solução.
— O que é aquilo? — exclamou Miyu, cujos olhos não estavam direcionados à água, mas sim, às labaredas nos andares superiores.
O olhar de todas desviou-se para as chamas.
— Ah não… Esse fogo… — Akiko reconheceu na hora em que viu, seus olhos ficaram marejados, ela sabia que não seria fácil sair daquela situação. — Naoko, são as chamas daquela mulher. O que vamos fazer?
— Eu vi! Prestem atenção em mim. — pediu Naoko, tomando a liderança da situação. — Akiko, Aino e Minami, ajudem os alunos a evacuarem o local. Yukino e Miyu, a água deve ser de uma Potentia também, vocês serão mais úteis aqui.
Elas então entraram em formação. As duas primeiras ajudando a levar todos para fora da escola, indicando o caminho. Enquanto isso, Naoko, Miyu, Yukino e Seki ficaram em estado de alerta, esperando as usuárias daqueles poderes aparecerem.
De volta ao laboratório, Hikaru e Adonis haviam trabalhado em equipe e conseguido conduzir todos que estavam ali a fugir pela escada de emergência próxima ao laboratório. Fazendo com que ninguém precisasse se arriscar nos corredores.
— Valeu Adonis, acho que todo mundo já fugiu pela escada. — agradeceu Hikaru.
— Hikaru, é melhor você ir também. Tem muita fumaça… — sugeriu Adonis.
O suor escorria pelo rosto de ambos, e o ar pesava, fazendo com que respirassem com dificuldade.
— Eu vou ver se precisam de ajuda nos corredores. — disse Hikaru, adentrando a escola.
— HIKARU, NÃO SEJA INCONSEQUENTE! — pediu Adonis, sua preocupação não era comum
Seu chamado de nada adiantou, logo ele perdeu Hikaru de vista. Algo estava estranho naquelas chamas, que se mantinham apenas nos vãos dos andares.
— O fogo não tá avançando… Yesenia deve estar longe ainda… — resmungou Adonis, mostrando conhecer as habilidades de sua companheira de missão.
Já no outro lado do corredor, Hikaru estava ainda mais ofegante. Todas as salas estavam definitivamente verificadas.
— Os corredores… Tão vazios… Vou dar jeito nisso.
Observando as chamas verdes se movimentando, ele ergueu sua mão direita e começou a concentrar energia.
Cristais de gelo se condensaram e em um movimento rápido dos braços, lançou-os em direção ao fogo. De imediato, tudo o que foi tocado se congelou, no entanto, tão rápido quanto, o gelo se derreteu.
“…Descongelou rápido demais… Mas se formaram algumas falhas…”, pensou Hikaru, percebendo pequenas falhas nas cortinas.
Hikaru percebeu que era possível conter aquela ameaça, mas que isso usaria muito de sua condição física.
Próximo à saída do laboratório, Adonis, agora sozinho, olhava seriamente para as chamas.
“Por que esse ataque? Itzel e Koa não falaram nada sobre Yesenia.”, ele estranhava o ataque.
Suas mãos foram colocadas na direção do fogo, que começou a ser absorvido para dentro do corpo do jovem. Procurando não chamar atenção desnecessária, pegava pequenas quantidades por vez.
Quando um vão se formou, ele finalmente foi capaz de ver em direção do portão posterior da escola, que ficava na direção da quadra descoberta. Ele levou um choque ao perceber que não era apenas uma pessoa que estava se aproximando da escola.
Chegando mais perto do local e observando através do portão, estavam Yesenia e Heidi. A primeira encarava com seriedade, seus olhos fixos pareciam pedir por vingança. A segunda se mostrava satisfeita, queria acertar as contas e havia encontrado uma maneira de fazer isso.
— Parece que acertamos mesmo o lugar. — comentou Yesenia.
— Sim! Já encontrei a Potentia de gelo. — afirmou Heidi.
— E eu encontrei a de água… Como não vieram aqui antes? — Yesenia rangia os dentes de raiva.
— É por isso que tem que deixar as coisas para quem resolve mesmo! — completou Heidi.
Nos corredores do primeiro pavimento, Akiko e Minami conduziam com sucesso a última leva de alunos dos corredores até o portão da entrada principal, onde conseguiam sair com segurança.
Os estudantes e funcionários do colégio haviam evacuado o lugar, deixando espaço apenas para os que possuíam Potentia. Agora todos podiam focar no perigo iminente.
No segundo andar, Hikaru estava ofegante. O esforço estava utilizando suas energias ao máximo. Mesmo assim ele continuava a congelar as chamas, que apresentavam falhas, que ficavam maiores a cada ataque.
“Deu pra atrasar bem as chamas. Mas elas voltam, tô exausto…”, pensou enquanto limpava o suor de seu rosto. Ele então apoiou as mãos no joelho e começou a respirar fundo, a fim de recuperar seu fôlego.
“Hikaru… tem Potentia?”, espantou-se Adonis, que havia chegado ao mesmo local que o colega de classe. No entanto, ele preferiu não se revelar e ficou observando seu amigo congelar o fogo, atônito.
No pátio a tensão aumentava. As responsáveis pelo ataque ainda não haviam aparecido. Se perguntavam de onde viriam, os olhares percorriam a área externa da escola.
A área de lanche da escola estava em um nível um pouco mais baixo que a área esportiva. Pensando nisso, a arquitetura da escola já contava com um sistema de drenos, cujas grelhas eram espalhadas em vários pontos. Estranhando que a água não escorria, Yukino foi verificar as saídas de água.
— Os ralos estão vedados. — ela informou para Naoko. Todos os drenos estavam fechados com fitas, revelando que o ataque havia sido premeditado já no dia anterior.
— Se organizaram antes então… — concluiu. — Yukino, a de fogo…
Naoko começava a explicar para Yukino sobre sua já conhecida oponente, mas foi interrompida pelo borbulhar das águas perto dos pés de Yukino. A água rapidamente subiu, envolvendo a jovem.
Ao ver a cena, Naoko se desesperou e correu em direção à jovem, levantando sua mão, pronta para utilizar sua Potentia de água para resolver. Sua movimentação foi cessada por uma labareda de fogo verde, lançada em sua direção. Ela havia sido rápida o suficiente para dar um passo atrás, mas o caminho foi bloqueado.
— VOCÊ É COMIGO! — Yesenia surgiu de surpresa no campo de batalha, aproveitando a rápida distração do grupo.
Naoko ouviu a voz de Yesenia e virou-se em sua direção. Seu olhar carregava a raiva acumulada desde o confronto anterior.
— NÃO VAI SER IGUAL A ANTES! — provocou e logo após lançou sua Potentia de água para apagar o fogo.
Desta vez, apesar da grande dificuldade, era possível ver que aos poucos as chamas vaporizavam. Diferente da vez anterior, que seu poder havia sido completamente inútil. Mas apesar do avanço, ainda estava muito longe de ser o suficiente.
A luta havia começado, e os golpes de fogo e água se chocavam ferozmente, colidindo e criando uma espessa fumaça de vapor.
— Na… Naoko… — exclamou Seki, que estava vendo sua amiga em ação pela primeira vez e não conhecia suas habilidades.
Yukino estava sendo afogada pela massa de água, e as outras meninas estavam sem ação, não sabiam bem como ajudar. A mão da garota começou a tremer, ela estava carregando sua Potentia com o que ainda restava de seu fôlego.
A água acabou por ser congelada em uma parte. Com medo de ter seu corpo completamente transformado em gelo, a massa líquida que cobria Yukino rapidamente a soltou, revelando uma mulher humana.
Tomando distância da menina, a forma humana, que havia se revelado ser Heidi, estava incomodada por ter seu plano pausado.
“Droga… Ela estava quase desmaiando”, pensou, enquanto rangia seus dentes.
“É uma mulher… Uma Potentia… Achei que era apenas manipulação de água à distância…”. Ainda ofegante, Yukino tentava recuperar seu fôlego enquanto procurava entender as diferentes formas de uso que os poderes poderiam ter.
A luta entre Naoko e Yesenia estava frenética. Ambas eram muito habilidosas e mostravam conhecimento nas técnicas de luta. Estava claro que qualquer desvio poderia ser fatal.
Foi então que Yesenia, utilizando sua habilidade estratégica, confundiu Naoko com um golpe fraco, tomando velocidade e lançando outro, desta vez veloz e carregado.
Não havia como, a distância entre Naoko e as chamas era mínima e seria impossível ela desviar.

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