Capítulo 204 - O Lixo II
Minutos se passaram e, quando finalmente chegaram, a sede do Grupo Valand parecia ainda mais morta do que antes. O depósito abandonado permanecia ali sem alterações — grande, feio e deslocado do resto da cidade. A estrutura de pedra e madeira pesada parecia absorver a pouca luz ao redor. Nenhuma movimentação. Nenhum guarda. Nenhuma sentinela improvisada. Nada.
Tsugumi parou ao lado de Gabe e inclinou a cabeça.
— Hm. Bem menos dramático do que eu esperava.
— Dá tempo de alguém tentar nos matar ainda. — respondeu Gabe.
— É, faz sentido.
Niko não respondeu. Apenas se movimentou até a entrada e empurrou a porta principal. Não viu motivos para entrar silenciosamente como a primeira vez. Já conhecia a força do grupo, estavam em maior número e força, além de que já eram conhecidos — de maus olhos mais conhecidos —, isso com certeza garantiria a segurança do grupo. A porta abriu sem resistência. O rangido foi mais alto do que esperava.
Do outro lado, o corredor os recebeu com escuridão e silêncio. O tipo de silêncio que parecia observar de volta para eles. Niko puxou a lanterna que carregou consigo e a acendeu. O feixe estreito de luz cortou o corredor, revelando poeira suspensa no ar, marcas de passos e a sensação desagradável de um lugar que tinha sido abandonado rápido demais.
O grupo entrou. Primeiro foram ao banheiro. O grande banheiro coletivo continuava tão ofensivo quanto da última vez. Azulejos manchados, cheiro de umidade e toalhas — que não estavam ali quando chegaram. Brigitte abriu a porta, olhou por dois segundos e fechou imediatamente.
— Nada aqui.
Seguiram adiante. O salão de armazenamento estava vazio. Algumas caixas reviradas, algumas quebradas, prateleiras praticamente limpas. O que antes parecia um esconderijo funcional agora era só um esqueleto de operação criminosa. Restavam poucos objetos sem importância — garrafas velhas, ferramentas comuns, pano sujo e madeira. Nada útil.
Por último, o escritório de “Valand”. A porta rangeu menos dessa vez. Lá dentro, o ambiente parecia menor sem a presença dele. A mesa continuava no mesmo lugar, as gavetas abertas, algumas prateleiras vazias. Os documentos da mesa tinham sumido. O sangue havia sido limpo às pressas, mas parte do cheiro pútrido ainda permanecia. E o cadáver horrível que antes decorava o lugar… também havia desaparecido.
Brigitte cruzou os braços, dando um pequeno suspiro de cansaço.
— Sinceramente? Eu preferia quando ele ainda tava aqui. Pelo menos parecia mais informativo.
Matteo passou o olhar pelo ambiente.
— Nunca achei que ouviria essa frase.
Evelyn deslizou os dedos sobre a madeira da mesa.
— Eles limparam tudo.
Niko observou em silêncio. Aquilo obviamente foi uma retirada. Pensada. Rápida. E eficiente. Não havia mais nada ali. Aquele se tornou um local inútil para a investigação.
Quando terminaram, o grupo voltou para fora e parou ao lado do depósito abandonado, ainda sob o ar frio da noite. A cidade parecia distante dali. O festival continuava em algum lugar, mas naquela parte de Daurlúcia só restava vento, pedra e a sensação de atraso.
Brigitte foi a primeira a quebrar o silêncio.
— Certo. Então… pra onde foi todo mundo?
Evelyn deu de ombros, olhando mais uma vez para o prédio.
— Vazaram. E se forem inteligentes, talvez até tenham mudado de base.
Fez uma pequena pausa.
— Isso se o grupo não tiver sido totalmente desmantelado depois daquilo.
Gabe apoiou as mãos na cintura. Tentando marcar presença ou servir de líder do grupo — algo que nunca seria para Niko, Brigitte e Gwen — perguntou:
— Vocês têm alguma informação mais pessoal das pessoas daqui? Endereço residencial, família suspeita, amante secreta, dívida de jogo, qualquer coisa que possa ajudar.
Niko balançou a cabeça.
— O único criminoso da GV que a gente conhece o endereço tá preso agora.
Gabe levou alguns segundos para processar aquilo. Ficou em silêncio, olhando para ele como se estivesse reorganizando mentalmente todas as possibilidades disponíveis. Então assentiu com absoluta naturalidade.
— Então a gente vai ter que invadir uma delegacia.
Brigitte abriu a boca. Ficou assim por um segundo inteiro, como se o cérebro tivesse se recusado a aceitar que aquela frase realmente tinha sido dita em voz alta.
— O quê?!
Ela deu um passo à frente imediatamente, os braços já se movendo com a indignação de alguém pessoalmente ofendida pela existência daquela ideia.
— Não! Mas nem pensar!
Ela deu mais outro passo à frente.
— Isso é uma ideia terrível. Uma ideia criminosa. Uma ideia absurdamente irresponsável e, sinceramente, ofensiva para mim!
Gabe piscou.
— Estamos literalmente investigando um grupo criminoso.
— Sim, e exatamente por isso que nós não vamos fazer algo tão irresponsável quanto isso!
Ela já gesticulava como se estivesse fazendo um discurso para uma plateia invisível.
— Invadir uma delegacia exige planejamento, coragem, preparo, ética, senso de honra e, acima de tudo, a plena consciência de que isso é quase impossível de fazer isso em uma noite sem arrumar confusão com a cidade inteira!
Fez uma pequena pausa e apontou para frente em direção do irresponsável de topete estranhamente charmoso.
— E eu não vou participar disso.
Gabe cruzou os braços. E, como se essa fosse sua arma final, questionou:
— Você tem alguma ideia melhor?
Brigitte abriu a boca. Fechou. Olhou para o chão. Concluiu sua frase. Abriu a boca de novo. E, como alguém que se recusava terminantemente a perder uma discussão, respondeu:
— A gente vai invadir a casa de todos os suspeitos então!
Matteo, que observava a situação com cautela, curiosidade e como um espectador, olhou para ela, confuso.
— Você percebe que isso também é crime, certo?
— É um crime mais elegante!
— Isso não significa absolutamente nada.
— Significa pra mim!
— Sua ideia é péssima. — disse Gabe.
— Olha quem fala.
— Minha ideia pelo menos era objetiva.
— Sua ideia envolvia invadir um local de justiça!
— A sua envolve várias casas e provavelmente cachorros hostis.
— Cachorros são bem fofinhos, pro seu governo!
Evelyn esfregou a testa. Cada palavra que saia daqueles dois era como um circo ao ar livre — e ela nem ao menos pagou a entrada.
— Eu odeio todos vocês.
— Eu também. — respondeu Matteo.
Os dois tinham começado oficialmente uma discussão idiota e, pior, competitiva. Brigitte apontava como se estivesse apresentando provas jurídicas. Gabe respondia com a convicção de um homem que claramente sobrevivia à base de confiança indevida.
Jakob observava em silêncio, como alguém assistindo uma tragédia inevitável. Gwen, ao lado dele, cruzou os braços.
— Eu aposto dez Astrals que a Brigitte vai ganhar a discussão.
— Hum, perdão, mas eu não aposto. — respondeu o velho.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.