Capítulo 154 - Kenzaru.
Ah sim, essa definitivamente não tinha sido uma boa ideia.
Aedin parou a três passos.
Ficou olhando para mim no chão com a expressão de quem já tomou a decisão e está apenas escolhendo o momento certo de executá-la.
Eu estava encostado no que restava de uma parede.
O braço esquerdo caído ao lado do corpo.
O direito sustentando parte do peso contra a pedra rachada.
O joelho dobrado na única posição que não fazia a dor subir constante pela perna inteira.
Não estava tentando levantar.
Não havia ponto nisso.
Eu precisava enrolar.
Cada segundo que ele passasse me ouvindo era um segundo de mana chegando.
Devagar.
Pouca.
Mas chegando.
— Você matou meu conselheiro — disse ele.
— Não matei ninguém do seu castelo.
— Ele apareceu na minha sala do trono. — A voz saiu firme. Controlada demais. — Disse que você havia conseguido.
Não havia uma emoção clara em seu rosto.
Olhei para os olhos dele.
A íris primeiro.
Depois as bordas.
Os filamentos estavam lá.
Finos.
Veias roxas circulando na extremidade da íris em pulsos lentos que acompanhavam a respiração dele.
Os mesmos padrões.
Os mesmos resíduos.
Igual Maelis durante o ataque.
O estômago afundou um pouco.
Então era isso.
— Quem mais viu esse conselheiro? — perguntei.
Aedin não respondeu imediatamente.
O machado continuou baixo.
Mas o movimento lateral parou por meio segundo.
— O que isso importa?
— Responde.
A mandíbula dele tensionou.
Pouco.
Mas tensionou.
— Eu o vi. É suficiente.
Não era resposta.
Era defesa.
E ele sabia disso.
Os filamentos pulsaram mais forte por um instante antes de desacelerarem outra vez.
— Sempre sozinho? — perguntei.
Silêncio.
O som da luta ao longe atravessou a rua destruída.
Metal.
Impacto.
A vibração pesada do martelo de Dan chegando pelo chão em intervalos irregulares.
Kael ainda estava vivo.
Bom.
Precisava de mais tempo.
— Ele aparecia nas sombras, não aparecia? — continuei. — Nunca perto dos outros. Nunca quando alguém podia confirmar que ele estava lá.
Aedin voltou a andar devagar.
Um passo.
Depois outro.
— Você está delirando.
— Pode ser.
Minha respiração falhou no meio da frase.
Sangue subiu pela garganta.
Engoli de volta antes de continuar.
— Mas responde assim mesmo.
Ele não respondeu.
Só continuou vindo.
O machado ainda baixo.
A postura firme.
Execução.
Não tinha raiva.
Isso era o pior.
Se ele estivesse com raiva eu conseguiria quebrar o ritmo.
Mas Aedin acreditava no que estava fazendo.
Os filamentos pulsaram outra vez.
Mais rápido agora.
A mana residual ainda estava dentro dele.
Não suficiente para dominar.
Mas devia ser o suficiente para distorcer.
Empurrar.
Amplificar.
— Ele não mentia pra você — falei. — Esse é o problema.
Aedin parou de novo.
Dessa vez por mais tempo.
— Chega.
— Ele mostrava coisas reais. Coisas que você já suspeitava. Pessoas com medo de mim. Nobres pressionando você. O reino instável. Tudo verdade.
Aedin apertou o cabo do machado.
— Você está tentando ganhar tempo.
— Estou.
Pausa.
— E também estou dizendo a verdade.
O silêncio ficou entre nós por um momento.
Aedin me olhou de cima.
Para o braço inutilizado.
Para o sangue.
Para o estado do meu corpo contra a parede.
Calculando.
Era um cálculo justo.
Eu estaria fazendo o mesmo.
Porque do lado dele a lógica era simples.
Um Guardião.
Instável.
Forte demais para ser parado se resolvesse atravessar a linha.
Não importava se eu estava certo sobre o conselheiro.
No fim, eu ainda continuava sendo o problema maior.
— Mesmo que seja verdade — disse ele — você continua sendo o que é.
A ponta do machado ergueu alguns centímetros.
— Forte demais.
Mais um pouco.
— Instável demais.
A mana respondeu ao movimento.
Lenta.
Pesada.
Se acumulando no ambiente em ondas pequenas que subiam pela pele como estática.
Pedra raspando contra pedra.
Poeira vibrando no chão.
O ar ficando denso.
— Mais forte do que qualquer rei consegue controlar.
Sorri sem humor.
Doía até isso.
— Isso não é motivo pra me matar.
— Pra mim é suficiente.
O machado subiu.
Alinhando.
Os filamentos roxos pulsaram outra vez na borda da íris.
Não iam desaparecer com conversa.
Nem com lógica.
Nem comigo naquele estado.
A mana continuava chegando.
Pouca.
Fragmentada.
Mas já não vazava como antes.
Eu conseguia sentir ela acumulando outra vez nos circuitos destruídos, preenchendo rachaduras internas que o corpo não conseguia mais sustentar sozinho.
Kenzaru.
O pensamento veio calmo dessa vez.
Sem resistência.
Sem negação.
Eu não tinha mana suficiente para vencer Aedin de forma consciente.
Muito menos o resto.
Mas talvez ainda tivesse o bastante para virar outra coisa por alguns minutos e ganhar tempo pro Kael terminar aquilo.
A visão escureceu por um instante.
Voltou desalinhada.
A rua pareceu distante.
O som do próprio coração veio abafado.
Lento.
Pesado.
Como se estivesse batendo dentro de água.
Soltei o ar devagar.
Os ombros relaxaram primeiro.
Depois o peito.
Depois a pressão constante que eu vinha mantendo sobre a mana desde antes da luta começar.
Parei de segurar.
A resposta veio imediatamente.
Não refinada.
Não controlada.
A mana rompeu de dentro pra fora com a violência de algo que havia ficado preso tempo demais esperando permissão pra existir.
Senti os circuitos queimarem.
A respiração travou no meio.
O coração perdeu uma batida.
Depois outra.
O braço esquerdo parou de doer.
Não porque melhorou.
Porque começou a deixar de parecer meu.
A pressão subiu pelas costas.
Pesada.
Densa.
A primeira cauda emergiu atrás de mim em explosão irregular de mana branca.
A pedra da rua rachou instantaneamente.
O impacto espalhou pequenas fissuras ao redor do corpo.
Aedin recuou um passo.
O machado mudou de posição no mesmo instante.
Em preparação.
Os sons da rua desaceleraram.
Não literalmente.
Meu cérebro que estava começando a processar diferente.
O sangue no chão tinha cheiro forte demais.
A poeira.
O ferro.
O suor.
Consegui sentir tudo entrando nos pulmões de uma vez só.
A segunda cauda surgiu logo depois.
Mais violenta.
A mana ao redor perdeu estabilidade junto comigo.
As pedras começaram a vibrar.
Destroços deslizando milímetros contra o chão.
O ar ficando pesado demais pra respirar normalmente.
Aedin percebeu.
Vi no olhar.
Ele finalmente entendeu que aquilo não era uma ativação comum.
Era perda de controle.
O coração bateu outra vez.
Mais distante.
Mais lento.
Como se estivesse ficando longe de mim.
A terceira começou a nascer.
E com ela o mundo ao meu redor ficou branco.

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