Capítulo 153 - Sem Margem V
A poeira ainda estava densa quando a voz chegou.
— Sabia que você estava mais fraco.
Pausa.
— Mas não imaginei que fosse esse tanto.
Kael saiu da poeira devagar.
As mãos soltas, ao lado do corpo. Roupas de viagem, sem armadura, sem nenhuma das marcas que alguém esperaria ver em alguém que havia acabado de cravar uma lança entre dois homens a distância de execução.
Ele olhou para Ian no chão.
Para o antebraço.
Para o sangue.
Para o ombro.
Para o joelho.
Fez o inventário com a rapidez de quem fez isso antes em pessoas que não haviam sobrevivido para contar.
— Você está péssimo.
— Eu sei.
Kael ficou olhando para ele por um segundo.
Depois estendeu a mão.
Ian olhou para a mão.
— Tem algum lugar seguro aqui perto?
— Não… que eu saiba — Ian respondeu.
— Que situação tu se enfiou hein.
— Pois é…
Ian não se moveu.
Kael ficou com a mão estendida por um momento.
Depois olhou para Aedin.
Para Dan.
Para Eldrik atrás dos dois.
Para os soldados fechando os lados da rua em linha que não deixava rota lateral.
Entendeu.
Recolheu a mão devagar.
— Eles não vão deixar.
— Não…
— E você não consegue andar.
— Também não…
Kael ficou em silêncio por um segundo.
A lança girou uma vez no punho, o movimento automático de quem está calculando enquanto os dedos fazem o que sabem fazer.
— Então fica aqui e junta mana — disse ele. — Vai precisar.
Ian não respondeu.
Mas os olhos fecharam por meio segundo.
A mana ao redor dele começou a se mover de forma diferente, não os pulsos irregulares e desperdiçados de antes, mas algo mais lento, mais controlado.
Kael virou para Aedin e Dan.
— Vocês — disse ele — vão ter que lidar comigo.
Dan olhou para a lança.
Para Kael.
Para a lança de novo.
O sorriso abriu devagar.
— Mais um.
— Mais um — Kael confirmou. — Guardião das Cinzas.
— Nunca ouvi falar.
— Você vai ouvir hoje.
Dan bufou uma risada.
Aedin não disse nada.
Olhou para Eldrik.
O olhar durou menos de um segundo.
Eldrik assentiu.
Ele girou a lança mais uma vez no punho.
— Então vamos lá.
O beco estava mais quieto.
Não silencioso — ainda havia metal, ainda havia respiração pesada, ainda havia o som de pedra sendo pressionada contra pedra quando alguém se movia — mas o ritmo havia mudado.
Os Caçadores restantes haviam recuado para a entrada do beco.
Não fuga.
Reorganização.
Maelis estava de pé no centro, os braços levantados, a mana de fogo menor do que havia sido mas ainda presente. O calor ao redor dela havia formado uma zona de ar quente que o gelo de Lys não conseguia preencher completamente — os dois elementos se cancelando em bordas imprecisas que nenhuma das duas havia conseguido resolver ainda.
Lys estava à esquerda.
Elenys estava à direita de Aisha.
O braço esquerdo descendo de forma que não era natural — não quebrado, mas o cotovelo havia levado o impacto errado quando o Caçador havia descido o braço nela e a articulação estava respondendo com meio segundo de atraso em cada movimento.
Aisha estava no centro.
A espada na mão.
A respiração mais rápida do que o normal mas controlada.
Selindra havia avançado demais.
Maelis viu quando aconteceu, o passo além da linha que havia sido mantida.
A formação dos Caçadores respondeu antes que qualquer uma pudesse gritar.
Dois fecharam ao redor de Selindra pelos flancos com a coordenação de quem havia feito aquilo antes — não para matar, para prender. O braço dela subiu tentando criar distância e o terceiro Caçador entrou pelo ângulo que o movimento havia aberto, a lâmina descendo em arco curto que não buscava o pescoço nem o tronco.
O braço de Selindra caiu no chão do beco.
O som que ela fez não era grito.
Foi mais próximo de um grunhido.
Irren recuou.
O instinto foi certo.
O timing foi errado.
O Caçador do flanco já havia antecipado o recuo, estava posicionado dois passos atrás antes que ela completasse o primeiro, e o braço fechou ao redor do pescoço dela com força suficiente para tirar a base mas não suficiente para matar.
Ainda não.
O Caçador central ficou de pé entre os dois grupos com a expressão de alguém que havia resolvido o problema que precisava resolver.
— Rendam ou as duas morrem agora.
O beco ficou parado por um segundo.
Selindra estava no chão com o coto do braço pressionado contra o peito, os dentes cerrados, os olhos abertos e focados.
Irren estava de pé com o braço do Caçador no pescoço, os pés mal tocando o chão, as mãos nos punhos do homem por reflexo.
Lys olhou para as duas.
Para o espaço entre elas e os Caçadores.
Para o ângulo. Ela tinha uma abertura mas só uma chance.
A mana respondeu antes da decisão terminar de se formar. gelo emergindo das paredes do beco em arco que buscava fechar o espaço entre os Caçadores e as duas mulheres, um domo que ia separar sem machucar, comprar tempo suficiente para—
O gelo chegou irregular.
A exaustão cobrou o preço no momento errado.
O domo nasceu com espessura variável. Grosso de um lado, fino do outro, com uma falha na base que o Caçador que segurava Irren viu antes que Lys pudesse corrigir.
Ele a arrastou pelo buraco antes que fechasse.
— Chega de disso Lysvallis, — Ele puxou uma faca da cintura e jogou Irren no chão com força.
O impacto fez ela bater a cabeça no chão emitindo um estalo seco.
A lâmina entrou pelas costas de Irren que tentava levar a mão a cabeça.
O grito de dor tomou o que restava do beco.
O Caçador a empurrou para o chão, usando o corpo dela para segurar a posição enquanto os outros dois pressionavam Selindra contra a parede do beco.
A raiva nos rostos deles não era performance.
Era real — o tipo que acumula quando você perde companheiros de formação um por um durante horas e finalmente tem uma chance de se vingar.
Lys ficou olhando para Irren no chão.
Para a faca nas costas dela.
Para o ângulo errado do gelo que ela havia criado.
Irren virou o rosto.
Os olhos encontraram os de Lys por um segundo.
Depois foram para Selindra.
Selindra estava olhando para ela.
A mão foi para o pescoço.
Para o cordão que estava lá.
Para o cristal do véu, fosco.
Ela leu o que estava nos olhos de Irren antes de Lys entender.
A cabeça de Selindra se moveu.
Lys entendeu.
— Não sua— .
— Irren—
Irren fechou os olhos.
A explosão fechou o beco em branco.
Não o branco da névoa.
O branco do cristal do Véu de baixa pureza liberando tudo de uma vez em espaço fechado — mana bruta sem direção, sem controle, expandindo em pulso único que não distinguia pedra de carne de armadura.
Lys ergueu um escudo instintivamente.
O impacto chegou mesmo assim — não penetrando, mas empurrando, arrastando, o calor e a força da explosão passando pelo gelo como onda que não precisava quebrar a barreira para fazer o que queria.
Quando o branco fechou e abriu, os Caçadores restantes estavam no chão.
A maioria não se levantaria.
Selindra estava no chão também.
Imóvel.
Com a expressão de alguém que havia morrido sem aceitar.
Lys ficou parada no beco por um momento.
O silêncio tinha textura que ela não havia sentido antes.
O gelo nas paredes — o gelo que ela havia criado com a estrutura errada, que havia deixado o buraco, que havia dado ao Caçador o segundo que precisava — ainda estava lá.
Ela olhou para ele.
Depois olhou para o chão onde Selindra estava.
Maelis se aproximou devagar.
Não disse nada.
Ficou ao lado de Lys por um segundo.
Depois:
— Precisamos sair.
Lys não respondeu imediatamente.
Os olhos ainda em Selindra.
Em Irren.
No gelo irregular que havia decidido tudo.
— Eu sei — disse ela por fim.
A rua estava destruída de uma forma que nenhuma delas havia visto de perto antes.
Fachadas no chão. Carroças viradas. Pedras rachadas e restos de construções bloqueando o caminho.
Elas pararam.
No centro da rua, mais ao sul de Cervalhion, havia movimento.
Uma figura Alta.
Compacta.
A lança na mão.
Em volta dela, oito pessoas.
Dan com o martelo.
Dois cavaleiros da guarda real com espadas longas.
Três magos em posição de suporte.
Eldrik no flanco.
Kael estava no centro de todos.
Desviando dos ataques dos magos, e arrancando faíscas dos embates com os soldados.
Mas Dan era o problema principal.
Cada vez que Kael redirecionava um golpe do martelo, o impacto vinha junto, subindo pelo cabo da lança em vibração que custava mais do que deveria para absorver.
O segundo cavaleiro entrou pelo flanco.
Kael saiu do eixo.
A lança tocou a borda escudo do cavaleiro em um arco que redirecionou o peso para fora, o cavaleiro perdeu o equilíbrio abrindo a guarda. Kael já estava se reposicionando quando Eldrik interviu forçando Kael a realizar um contra ataque.
Eldrik recuou antes que a lança chegasse.
Aedin avançou pelo espaço que Eldrik havia deixado.
Kael virou.
O machado de Aedin e a lança se encontraram em linha que nenhum dos dois havia escolhido completamente.
O impacto foi diferente dos outros.
Aedin não usou força bruta.
Foi o ângulo com peso distribuído, o tipo de pressão que não empurra mas desvia, que não quebra mas redireciona para onde quer que você não queira ir.
Kael sentiu a lança sendo movida para fora da linha central por menos de dois centímetros.
Dois centímetros que abriam o flanco esquerdo.
Dan estava lá.
O martelo veio pelo lado.
Kael abaixou.
O martelo passou por cima e acertou o cavaleiro que havia entrado pelo ângulo oposto, o homem levou no ombro e saiu da linha de combate com o braço pendendo.
Dan ficou olhando para o cavaleiro.
Depois para Kael.
— Eles ficam atrapalhando.
— Concordo — disse Kael.
Dan sorriu.
Mas não diminuiu a pressão.
Aedin avançou pelo espaço que Dan havia deixado.
Kael virou.
O machado e a lança se encontraram em linha curta.
Impacto seco.
Aedin não empurrou de volta, apenas tentou passar, deslocando o peso para o lado.
O suficiente para abrir o flanco.
Kael viu, ele claramente queria chegar até Ian.
Mas Kael não iria deixar.
— Deixa.
O corpo já respondeu antes do pensamento.
A lança desceu para fechar o ângulo—
— Deixa.
A voz veio baixa.
Raspada.
Kael não reagiu.
O movimento continuou.
Travou Aedin.
Empurrou a linha de volta.
— Deixa…
A voz veio mais alta.
— Pode deixar… um passar. — A voz de Ian ecoou atrás de Kael.
Aedin tentou de novo.
Mesmo ângulo.
Mesmo objetivo.
Kael bloqueou.
Kael olhou para Aedin.
Para o estado de Ian.
De volta para Aedin.
Ficou quieto por um momento com a expressão de alguém fazendo um cálculo que não estava fechando.
— Você tem certeza?
— Sim.
Kael olhou para Ian por mais um segundo.
Os olhos varreram o antebraço, o ombro, a posição do corpo no chão, a forma como a mana ao redor ainda pulsava de forma irregular em ondas curtas e desconexas.
Então assentiu.
— Tudo bem.
Virou para Aedin e Dan com a expressão de quem acabou de resolver um problema de logística.
O movimento já estava feito.
Aedin passou.
Entrando na linha que levava direto até Ian.
Kael girou de volta.
— Vocês — disse ele — vão ter que lidar comigo.
Kael redirecionou sem completar o movimento contra Dan. O cabo da lança encontrando o antebraço de Eldrik antes que a espada chegasse ao ângulo que precisava, o impacto tirou a espada das mãos dele.
A lança continuou em um arco que forçou Dan a recuar dois passos. Não o suficiente para criar distância real mas o suficiente para comprar um segundo de reorganização.
Eldrik tentou usar o intervalo.
Kael girou para o flanco direito onde Aedin havia estado agora um soldado tomava sua posição.
Kael ouviu o som dos passos se aproximando.
Não precisou olhar.
A pressão nos flancos diminuiu quando os soldados precisaram redistribuir atenção.
Kael aproveitou para espiar Ian.
Ian não estava no chão onde havia estado.
E Aedin não estava no campo.
Kael ficou parado por menos de um segundo.
Menos de um segundo que Dan usou para avançar com o martelo em arco que Kael desviou tarde — o cabo pegou o ombro em vez do tronco mas o impacto foi suficiente para empurrar dois passos para trás e abrir o ângulo de visão.
A rua além do campo de combate estava vazia.
Poeira.
Destroços.
Nenhum dos dois.
— Merda.
Dan parou.
Olhou para onde Kael estava olhando.
Depois para Kael.
O sorriso voltou — menor, mais quieto.
— Problema?
Kael não respondeu.
Virou para as quatro.
— Lys.
Ela já havia visto.
Os olhos varrendo a rua além, tentando localizar movimento, mana, qualquer sinal de direção.
— Vão — disse Kael. — Ajudem Ian.
— E você?
Ele girou a lança uma vez no punho.
Os olhos voltaram para Dan.
Para Eldrik.
Para os soldados que ainda estavam de pé.
— Tenho que resolver algo antes.

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