Capítulo 53: Inferno 365-2.
Laio di Zela, Sari Laida e Bombo Rin entraram no portal ao mesmo tempo. No entanto, quando Rin viu o outro lado, percebeu que estava só. Seus novos amigos não estavam diante dele, nem em lugar algum.
Afinal, a “sala” era um campo aberto. Grama por todos os cantos, com uma única árvore à nordeste dele. Mesmo com aquela estranha sensação de estar sozinho, não estava. Diante dele, um homem de cabelos curtos e barba por fazer, distraído, mascava alguma coisa, em posição de lótus.
Seus olhos eram fundos. Olheiras negras pintavam os arredores deles, num tom quase de obsidia. Não havia luz em suas pupilas. Era como se não houvesse uma alma ali. Além disso, era pequeno, talvez até da mesma altura que Rin.
Ele vestia uma camisa simples, tão básica que parecia uma peça de pijama. Era cinza, sem qualquer entalhe em suas frentes ou costas. As calças de pano fino contribuíam para a imagem sonolenta, quiçá de preguiça, do homem.
Estava descalço. Os dedos eram longos.
Sua pele era morena, enquanto seus cabelos… negros? Engraçado. Quando olhou de primeira, pensou serem brancos.
— É como você viu. Realmente sou um ancião.
— O-o-o quê?!
Ele devia estar brincando. Com aquela cara de moleque, um ancião?!
— Heheh, imagino que você deva ser meu colega.
— Não, eu sou seu professor. Definitivamente. Irrefutavelmente.
Ele tinha cara de adolescente. Um adolescente bem cansado, Rin podia dizer. Era um jovem, com certeza. Não havia qualquer aura de professor em sua imagem, muito menos de ancião. Percebendo o ceticismo do garoto, o “adolescente” bocejou e desfez a pose.
Tentou se levantar, mas…
Crack!
Um estalo horrível escapou de suas costas.
“Ele realmente é um velho!” Pensou Bombo, correndo para amparar o jovem senhor.
— Isso definitivamente é lamentável.
— Eu acredito no senhor. Agora, por favor, sente — O garoto estava surpreso.
— Certo… faremos disso a sua primeira aula, certamente.
— Primeira aula…?
O adolescente ancião sorriu, com os olhos fechados, em uma expressão um tanto quanto marota.
— Senhor?
— Cure minhas costas.
— …O quê?
— Você ouviu. Cure minhas costas.
— Tudo bem… — murmurou Rin, derrotado.
Ele ajudou o velho a deitar de costas.
— E como farei isso?
— Siga minhas instruções…
— — —
Enquanto isso, em outro lugar…
— Rin? Laio? Onde vocês estão?
Sari estava diante de um longo corredor, cujo piso reluzia os candelabros acima de sua cabeça. Direita e esquerda, estante cheias de livros se estendiam para frente e para trás. Ela odiava essa coisa asquerosa que chamavam de “livros”.
Quando conheceu os dois patetas, soube que Rin gostava muito deles. Ela odiava só a ideia de ter que gastar tempo vendo “imagens”, “desenhos pequenos que representam as palavras que dizemos”. Detestava ler.
Mesmo sendo de origem mercadora, ler não era um hábito estimulado por seus pais. Seu pai ergueu um lucrativo negócio de tecidos, mesmo sendo analfabeto! Sua mãe negociava roupas com as madames mais ricas do reino, mesmo sem instrução!
Ler era coisa de religioso. Conhecia uma Devota de Riada, uma das deusas cultuadas naquele mundo, e soube, por meio dela, que as meninas passavam horas e horas com os narizes cheirando o mofo de páginas velhas de grimórios mais velhos ainda.
Tédio, puro tédio.
— Que nojo.
E andou. Andou, andou e andou. Minutos tiveram de morrer para que, em algum momento, chegasse num espaço amplo. Fileiras de estantes se erguiam em todas as direções, mas o centro, diante dela, era reservado a uma grande mesa redonda, vazada no centro.
Em um banco feito de pedra, uma garota rabiscava alguma coisa em um caderno. Usava óculos de lentes grossas e gigantes, deixando seus olhos quase esbugalhados. Seus cabelos eram desgrenhados e, pelo que parecia, secos como palha de vassoura.
Nerd. Blergh.
— Tá rabiscando o quê, aí? — disse Sari, arrancando o caderno das mãos dela.
— De-de-de-de-devolva! — suplicou a menina, desesperada.
Ela era baixinha, e Sari realmente era maior que as outras garotas.
— “Vaga, vaporoso…”
Um coração febril
A procura de um porto,
Peito gentil
— Poesia?
— Devolva! — pedia a garota, os olhos marejando.
Os mares
Navegados
Foram esquecidos,
Enterrados
Por ondas
E mais ondas
De puro tédio
Calculado
E o céu,
Em seu desejo
Ébrio
Fazia da linha
Do horizonte
Muralha cinza
Cheiro férreo
Cortina
Que golpeava
A proa
Como louca
A cada segundo
Fazendo
Do meu mundo
Um trêmulo
Presságio
De algo
Guardado
Que emergiu
Do esquecimento
— Tá, que porra isso deveria dizer?
— Devolve!
— Tá bom, tá bom… olha, eu não entendo de poesia, então não sei o que dizer — confessou Sari, sendo fuzilada por um olhar choroso. — É pra alguém?
— Não! — disse a menina, apertando o caderno contra o peito.
— Então é… um sarau? Não sei como se chama isso.
— Não!
— Tá, já entendi.
“Ela claramente me odeia.” Concluiu Sari em pensamento.
— Eu sou Sari, e você?
— Liara — respondeu a garota dos óculos gigantes, na defensiva.
— Ceeeeerto… — Sari levou as mãos às costas, girando os os calcanhares. — Isso aqui é uma biblioteca.
— Não. É a sala da senhora Maine.
Finalmente um nome.
— Você deve ser a Estrela da Manhã que a senhora Maine disse que viria… — murmurou Liara, ajeitando suas lentes. — Esperava alguém mais… — olhou de cima a baixo, crítica. — Elegante?
— Desculpa se não vim de batom e vestido bordado, senhorita rata de biblioteca — falou Sari, tentando não se sentir ofendida. — Mas sim, eu sou a Estrela.
— Que pena.
— É mesmo, que pena.
“Não vou com a cara dela.” Pensaram ao mesmo tempo.
— — —
O cheiro de metal pairava em todo o lugar.
Laio via espadas, maças, alabardas, arcos, martelos, tudo pendurado ou jogado pelos cantos. Um boneco de madeira, movendo-se sozinho, balançava um porrete de um lado para o outro, enquanto outro limpava a lâmina de uma cimitarra.
“Eu vou adorar esse lugar.”
— Fala, carne fresca!
Ele virou de costas, e lá estava uma mulher alta, talvez mais alta que o pai de Laio. Ela erguia o corpo usando os braços, em uma barra suspensa três metros acima do chão.
— Estrela da manhã, né?
— Isso aí!
— Cinco séries de cinquenta polichinelos, depois cinco séries de vinte flexões! Agora!
“Eu vou adorar esse lugar!”

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