Capítulo 61: Jorge do Canhão.
Seus cinco tentáculos seguravam a cabeça do cientista.
— Que coisa mais sem graça — disse o *******. — E pensar que ela queria que eu criasse um portal aqui. Na Base Collins Marciana. No meio de um deserto vermelho.
— Pra quê? Já atacamos daqui. Será que era pra mostrar pra esses idiotas que a gente pode aparecer em qualquer lugar, mesmo um que já usamos? — indagou, balançando o homem no ar, como se ele fosse responsável pelo seu tédio. — Ainda assim, não vejo sentido.
O homem, ainda com as pernas de fora, as balançava freneticamente. Ele sequer poderia usar os braços, pois já estavam no meio da viscosidade bizarra daquele ser. Ele estava claramente berrando, mas aquilo abafava os pedidos de socorro.
— Você é um grande lixo. Um lixo patético. Que grande lixo você é, hein? Nem pra me oferecer alguma diversão.
Com um suspiro, deu a ordem pelos tentáculos, e o homem foi engolido, desaparecendo no meio deles. Nem seus sapatos foram poupados do que quer que existisse no fim daquela coisa repulsiva. Era como se ele nunca tivesse existido.
— Certo.
******* se abaixou, recolhendo os tentáculos de ambos os — que deveriam ser seus — braços, deixando-os num comprimento que não os deixasse tocar o chão. As ventosas eram sensíveis, depois de tudo.
— Seu Rei é quem fala.
Algo no ar mudou.
Como se fosse gelo seco, um vapor azul fluiu de seus tentáculos. A fumaça se condensou no chão, girando em torno de si mesma, até que uma esfera preta e sólida lhe desse lugar. Um orifício se abriu, e esferas menores rolaram dali…
Aos montes. Sem parar.
— Levante-se e lute, minha prole!
As esferas, como se fossem intermináveis bolas de gude, giravam pela plataforma de metal e cresciam de tamanho. Tão rápido quanto surgiram, elas se desenvolveram e viraram…
[Tentaflies.]
Terríveis moscas negras que, ao invés de patas, tinham tentáculos ventosos e gordurosos, que escorriam um líquido fétido e corrosivo.
— Muito bem, próxima tarefa~!
Ele deu alguns passos para trás, ergueu as “mãos”, como se louvasse a um deus maldito, e pronunciou solenemente:
— Abra os olhos, Realidade! Faça com que a sua íris, janela da tua alma, mostre a verdade para nós! ROMPA-TE!
Um som terrível e amplificado, como carne sendo dilacerada repetidas vezes por um açougueiro louco, rompeu pela estação. Se houvesse um humano ali, teria agarrado a própria cabeça, tentando tapar os ouvidos no processo.
Era terrível. Era alto. Bendito era aquele que tinha ouvidos e não ouvia.
O ser abissal, no entanto, se deleitava. Ele ria. Era um mistério saber como aquele diabo ria, pois seu rosto, oculto por um manto, escondia tudo. Seu rosto era sombrio. Era como se não houvesse nada por debaixo do capuz.
Mesmo sem boca, ele ria.
— Eis o banquete, minha prole faminta! BON APPETIT!
— — —
— PEGA ELE!
Um garotinho corria atrás do outro, as perninhas lutando para alcançar o outro menino, que ria enquanto olhava para trás, se certificando de que ainda estava longe.
— Você não me escapa, Mateus!
— Hahaha!
Naquele pátio de areia, entre dois prédios cheios de salas de aula, sete crianças estavam sentadas dentro de um círculo desenhado na areia, este que era “guarnecido” por duas meninas ofegantes. Além delas, um garoto corria atrás desse Mateus, o último que faltava.
— Tartaluca, Tartaluca!
— Não me chama de Tartaluca!
Logo Tartaluca não estaria mais sozinho. As duas meninas, que antes apertavam os joelhos, recuperando o fôlego, já erguiam os corpos e se preparavam para voltar ao trabalho.
— Droga, Mateus! Fica parado!
— Você que é lento! Tartaluca!
— Mateus!
Alguns professores viam a cena se desenrolando no pátio, parados no corredor aberto entre os prédios. Eles tinham sorrisos no rosto. Eram três docentes: um homem idoso de costa curvada, uma mulher de meia-idade e cabelos castanhos e um rapaz de camisa social, que afrouxava a gravata.
— É engraçado — disse a mulher, desfazendo o coque. — Em apenas dez anos, conseguimos nos adaptar ás Invasões.
— Sim — o jovem soltou o ar pelo nariz —, e fomos capazes até de fazê-los recuar. Perdi minha infância e adolescência no processo, mas agora podemos garantir que essas crianças não passem pela mesma coisa.
— Eu perdi meu filho. Ele teria a sua idade, se não fosse essa maldita…
— Essa maldita calamidade — completou o velho, assentindo. — Perdi meu neto, meu filho e minha nora. Todos no mesmo dia.
— O Incidente Vazio da Rua Nove, né? — A mulher estremeceu, esfregando as mãos nos braços. — Eu lembro. Foi de repente, né?
O jovem tossiu. Ele franziu a testa, sentindo a garganta seca. Quando tentou limpá-la com a saliva, sentiu que o ar…
— Quem sobreviveu, disse que a umidade do ar desapareceu, antes do portal se abrir.
— Verdade — concordou o professor idoso. — Eu sou sensível a isso. Meus pulmões já eram falhos naquela época. Quem teria imaginado, né? Lembro do meu filho perguntando se eu trouxe a bombinha de asma.
O jovem molhou os lábios, sentindo certa dificuldade para regular a respiração. Ele era saudável e atlético, já que corria na avenida duas horas por dia, diligentemente, até o horário das sete, quando teria de vir para a escola.
Seu coração não palpitava. Não era problema cardíaco, então. Era como se…
“Chuva?”
A secura do ar antes da precipitação.
Como se respondesse ao seu questionamento, um som maldito cortou o ar. O rosto do velho passou por três estágios: incompreensão, lembrança e desespero. Foi tudo tão, mas tão rápido, que teria sido perdido ou ignorado, como o grito distante de uma mulher.
Mas era o…
— MAS QUE MER…
Como se fossem pálpebras cósmicas, o espaço atrás das crianças, aquelas que estavam no círculo desenhado na areia, se abriu. Dele, terríveis coisas negras e voadoras surgiram. Antes que os pequenos pudessem reagir…
Suas cabeças foram pegas. Não, foram envolvidas por tentáculos viscosos e firmes. No lugar onde deveria estar a cabeças deles, apenas um vazio ficou. O som que disparou pelo pátio, logo em seguida, foi o grito da professora.
Tentaflies voaram na direção de Tartaluca, que estava parado diante de Mateus.
— SOCORRO!
BUM!
Picadinho de mosca abissal voou por todos os lados, e o rosto de Tartaluca se pintou de verde. De verde fétido, grudento e… corrosivo.
— GAAAAAAAH!
Mateus, de olhos arregalados, olhou para a direita. Ao lado dele, o homem que normalmente ficava de vigília nos portões da escola…
Carregava um Canhão de Plasma Portátil.
— Que segunda-feira do caralho, moleque.

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