Capítulo 95 - A Posse Matriarcal
Tremor, foi o que Naomi viu.
Distinto do tremor físico das chamas, o que ela identificou era conceitual, o tipo de instabilidade que não aparecia de forma nítida, mas denunciava a integridade comprometida.
Além da característica de sua habilidade, Sachiko controlava a aura absorvida com força de vontade, mas tal técnica não teria o melhor efeito.
“Ela tem minhas chamas dentro de si,” pensava Naomi, sobrevivendo aos golpes da adversária. “Mas o poder não é dela. Nunca foi e nunca será.”
A aura eterna, como o pai dançarino esclarecera no palácio ZhuRong, tinha suas próprias convicções.
“Não tema, minha pequena. A chama eterna jamais se curva a mãos gananciosas. Podem roubá-la por um instante, aprisioná-la, forçá-la ao silêncio, mas ela sempre retorna ao verdadeiro lar, ainda que leve tempo para reacender… Fortes conexões não cedem tão fácil.”
A revelação chegou com a clareza das verdades óbvias depois que são encontradas.
Sachiko não controlava a aura eterna absorvida: a forcejava, e a força de um lado produzia resistência do outro. Todo golpe ígneo desferido pela matriarca gerava, imperceptivelmente, uma resposta contrária no interior da mulher.
A aura eterna de Naomi estava quieta, esperando a saturação suficiente para a reação.
O plano formado dentro das chamas escarlates era simples, e parecia completamente insano.
Naomi precisava dar mais fogo.
Confiante, Sachiko avançou.
Naomi foi de encontro.
Os espectadores se surpreenderam, ninguém na história dos duelos matriarcais Miyazaki fora em direção a Sachiko no momento de desvantagem máxima, sem defesa aparente, com as chamas do próprio corpo fragilizadas.
A tempo de um sorriso, a matriarca leu o gesto como uma rendição disfarçada em ataque. Seu semblante durante a preparação do golpe exalava superioridade.
Em contraponto, a estrangeira seguia focada, e atacou primeiro.
Naomi implodiu chamas para o centro do peito da matriarca ao contato rápido da palma firme, uma transferência ígnea direta ocorreu, maciça e deliberada. Grande parte do poder guardado foi liberado de uma vez no momento do toque, e Sachiko, de guarda propositalmente aberta durante o golpe que planejava, acreditou na absorção automática do próprio corpo, como sempre fez.
A quantidade de aura eterna que entrou naquele instante ultrapassou todas as adaptações graduais construídas no combate. O corpo que aprendera a conviver com gotas recebeu um oceano.
Apesar do poder de fogo como alimento corporal, a explosão do impacto jogou a mulher para longe, rolando-a pelo chão até que parasse rente a parede.
As chamas usurpadas se apagaram.
Todos ficaram calados, aguardando a próxima ação.
Do outro lado, Naomi estava na forma humana, ofegante. Seu kimono vermelho de flores pretas revelou-se totalmente estabanado assim como os cabelos, já os olhos mantinham-se concentrados na oponente.
Sachiko permanecia caída. O tempo se estendia inexoravelmente, dando a inicial impressão de que a luta finalmente obteve um fim.
No entanto, como esperado pela meiliana, a veterana se ergueu.
A reascenção foi rápida e enérgica: as chamas douradas-escarlates retomaram em todo o corpo da mulher. A exuberância do poder foi dobrada, assumindo uma forma ígnea completa, luminosa, e assustadora.
— Extraordinário! — exaltou Sachiko, flutuando no ar como uma chama-humana. — Então era isso que procurava desde o princípio? Fortalecer a mim…! Ou seria… colapsar? — indagou, com o fascínio austero de uma soberana que, após décadas de guerra, finalmente testemunhava uma estratégia digna de respeito. — Que método perverso… alimentar o inimigo além da capacidade de controle. Arriscou a própria eternidade apostando na arrogância de uma velha comandante? — Ela ergueu os olhos de fogo para Naomi, esperando uma resposta que nunca veio. Quando abriu os braços numa postura de recepção absoluta, ironizou: — Bom, quase funcionou. Agora, nosso embate está próximo do fim!
Mas o tremor voltou maior…
Mar em um copo, substância em quantidade que o recipiente não foi construído para.
As chamas douradas de Sachiko apresentavam comportamentos distintos: oscilações descontroladas, rompimentos de flamas nos antebraços, momentos em que a forma de fogo piscava entre o dourado de origem e o escarlate absorvido feito uma lanterna com mau contato.
A mulher abusava do poder, ato que trazia custos a si mesma. — Por que? — questionou entre dentes. Sua honra jamais declararia limite, mas o corpo falhava contra a vontade. Uma mão perdeu firmeza por meio segundo, falha que não passou despercebida.
Masaru viu e analisou. “Ela está rachando por dentro…”
Naomi notou que a abertura estava no momento exato em que a adversária oscilava, o instante breve e repetido em que perdia energia resolvendo o conflito interno. Meio segundo não era nada em termos humanos, mas em termos de combate áurico em alto nível, era uma eternidade… e a meiliana não precisava de mais.
A forma escarlate voltou, distante da garça, tigre, pantera e serpente. A transformação nasceu nos pés e ascendeu pelo corpo, moldando uma postura dominante refinada nas noites silenciosas no palácio ZhuRong e nos dojos Miyazaki.
Escamas ígneas revestiram braços e pernas, garras flamejantes apresentaram ameaça, e chifres vulcânicos surgiam sobre a cabeça como uma coroa ardente. Atrás dela, uma cauda de brasas balançava suavemente. O resto avermelhado era feminino, já o resto do corpo, fundia-se com a forma absoluta do dragão.
Sachiko, em meio ao conflito interno que a desgastava, observava a nova fase da rival. Pela única vez no duelo, seus olhos foram além da obsessão de caçadora. Ela admirava. — Então era essa a forma que não me mostraste… Magnífico!
Naomi lançou-se ao ar em direção a adversária, que de prontidão, fez o mesmo.
Dois incêndios vivos colidiram no espaço entre o piso destroçado e as vigas superiores da arena, e continuaram. Cada colisão produzia ondas de calor, Sachiko confrontava o dragão num duelo de técnica marcial e forças ígneas, contudo, do lado de fora, só via-se uma tempestade de chamas.
A veterana ainda absorvia, mas cada retração era um problema. O escarlate que entrava no corpo da matriarca juntava-se ao que já a desestabilizava por dentro, e o ciclo que fora sua vantagem absoluta transformou-se em uma armadilha de retroalimentação.
Quanto mais absorção, mais poder. Quanto mais poder, mais instabilidade. Quanto mais instabilidade, mais ira. E quanto mais ira, mais absorção…
As garras encontravam falhas na defesa alheia, os socos e chutes do dragão engoliam o ritmo da forma incongruente descontrolada pela raiva, mas que se recusava a desistir.
Era o retrato perfeito da ganância sem limite: a força insaciável ignorava o excesso de calor que mais a consumia do que alimentava.
Katsuro estava apoiado no parapeito, inclinado à frente. A seriedade que construíra como armadura simplesmente cedeu à realidade bruta do que acontecia.
Impressionada, a ruiva comentou: — Sua mãe é orgulhosa demais para parar. Acho que me ficou bem clara a origem da sua ignorância, Katsuro.
O Miyazaki não discordou.
Entre as oscilações, o corpo ígneo de Sachiko se deformava gradualmente. Os movimentos, antes precisos, chegavam atrasados, e as absorções que antes eram reflexo escancararam o esforço.
O conflito interno ficou visível externamente, o que tirou o foco da veterana.
— Não — sibilou, endereçada às próprias chamas tanto quanto à adversária. Os braços dourados forçaram uma onda expansiva e dispersou o dragão temporariamente, criando espaço.
O limite da adaptação foi atingido.
Sachiko sentiu o momento exato em que o controle escapava. Por baixo de sua ferocidade, existia um medo nunca demonstrado: o desespero do sonho sendo perdido.
A respiração descontrolou, os olhos arregalaram, as chamas oscilavam… mas à luta voltaram.
Os golpes contra a defesa dracônica cresciam, explosões de chamas eram criadas ao impacto nas garras de fogo.
Durante bloqueios e desvios, Naomi controlava a luta de maneira que só a forma do dragão permitia. Quando chegou a metros da oponente, clamou algo inútil porém necessário. — Sachiko, pare! Você está no limite!
Concentrada, a matriarca seguia atacando.
— Escute! — implorou Naomi — seu corpo não irá aguentar! A chama eterna pode te destruir, mas você pode sair disso! Ainda há tempo! Desista da luta!
— Tsc — Sachiko irritou-se. A antiga ilusão de sua interminável soberania caiu por terra, sobrando apenas a clareza brutal do que sempre foi verdade. — Desistir? Pra quê, estrangeira? Pra viver sabendo que nasceste com o que passei a vida inteira tentando construir?
Os olhos ardiam, o corpo falhava, mas o orgulho continuava intacto junto ao combate.
— Sempre sonhei com uma família que nunca mais precisaria esperar. Eternos nascem ou não nascem. Sempre foi assim. Mas se eu os transferisse ao nosso sangue, os Miyazaki nunca precisariam de impuros como você! Seríamos autossuficientes na raridade mais absoluta que o mundo áurico já produziu.
Embora ainda lutasse, Sachiko repentinamente teve sua crueldade enfraquecida pela realidade. O núcleo seco e humano que ordenou ambições por décadas preparava um desabafo árduo e baixo com respingos do ódio encarnado.
— Não enxergo esforço nem mérito em um poder que se auto impõe como uma tirania da própria natureza. Ainda assim… reconheço o inevitável. Hoje, você é a áurica ígnea mais poderosa de toda Asahi, alguém sem uma gota do nosso sangue capaz de desafiar a soberania dos que nasceram nesta terra… Jamais te perdoarei por isso.
Então, o último ataque:
Naomi agarrou o punho da oponente. Milésimos após o impacto violento, um forte clarão amarelado alertou a intensidade de um desastre luminoso.
Os espectadores nas arquibancadas cobriram os rostos.
Dentro do corpo de Sachiko, o escarlate contido por força de vontade rompeu todos os limites simultâneamente. Não havia mais adaptação suficiente. A aura eterna de Naomi, aprisionada num corpo que nunca foi seu lar, libertou-se além da contenção:
A energia converteu-se em uma detonação para todos os lados.
Sachiko não gritou. Seus olhos, que duraram o embate inteiro recusando os limites e carregando ambições, encararam Naomi por um instante final, reconhecendo forçadamente a verdade que sempre a aterrorizou.
Depois, a luz…
A explosão escaldante preenchia a arena, a onda de expansão vinda do centro da mulher desintegrada cruzava o horizonte, sem portador, sem intenção, sem controle.
O rumo era em direção às arquibancadas, às pessoas, à família. Todos previam a incineração.
Entretanto, uma salvadora estava entre eles.
Destacando-se como uma figura rubra no centro do véu de chamas, a forma dracônica exausta e parcialmente desestabilizada rapidamente abriu os braços e fez o inverso de tudo que fizera no duelo: retraiu.
Embora o esforço visível acompanhasse as garras tremendo pela força, a aura eterna, mesmo em estado selvagem após a explosão, respondeu de imediato ao toque do portador original:
À metros das arquibancadas, a expansão das chamas incendiárias parou, iluminando os rostos daqueles que as contemplavam enquanto outros desviavam olhares. Seguidamente, elas se retraíram de volta ao ponto de partida, recolhidas pela palma ardente do dragão.
O custo físico apareceu em tempo real. No ar, a forma escarlate oscilava, perdia coerência em pedaços, e os olhos verdes que brilhavam no interior das chamas revelavam que a jovem exercia a última reserva disponível.
Mas segurou.
Cada labareda roubada por Sachiko foi recuperada. A expansão que incineraria a arena e todos dentro dela foi comprimida pela estrangeira, que estática por alguns segundos, flutuava, lampejando entre a forma dracônica e a normal…
Até que se dissipou.
Naomi aterrissou bruscamente, o calor de seu corpo espalhou fumaças negras pelo forte baque no solo. Quando a cortina escura sumiu, surgiu-se a figura humana, imponente e vitoriosa.
A arena aguardava atônita. Até mesmo aqueles que nunca verbalizaram certas compreensões, perceberam-se diante de algo que jamais se repetiria. Apesar do leve tremor nos punhos fechados da meiliana, todos compreenderam:
A Matriarca Sachiko Miyazaki, uma das mais longevas entre todas passadas, foi derrotada.
Masaru apareceu no piso destruído da arena com Hiromi acordada no colo. A bebê observava os arredores com a curiosidade descansada.
No centro, Naomi levou as mãos aos joelhos, marcando no cansaço o nível do combate. Ela olhou para o marido com a filha nos braços, a expressão que chegou ao seu rosto não tinha nome exato, era exaustão e alívio, e uma pequena tristeza que existia separada de tudo, pois a destruição de uma vida, mesmo que precisasse, inevitavelmente deixaria uma mancha específica.
Eliminar adversários jamais seria o princípio de sua arte…
Sem mais palavras, Masaru estendeu Hiromi à mãe.
Naomi pegou a filha, vendo os olhos verdes idênticos totalmente discrepantes ao mármore destroçado e ao peso histórico da ocasião. A pequena colocou os dedinhos na bochecha da mãe, rindo com inocência.
Aliviada, a meiliana fechou os olhos…
Os Miyazaki avaliavam em silêncio o que seus olhos haviam registrado. Àquela altura, muitos encontraram como se sentiam a respeito, alguns precisariam de dias… já outros, jamais entenderiam.
No corredor dos assentos superiores, a moça ruiva colocou as mãos nas grades e baixou o olhar, pensativa. — Matriarca Naomi Miyazaki — imaginou, experimentando o título em voz alta. — Tem uma boa sonoridade.
— … Talvez — concluiu Katsuro, mal escondendo o contento.
No centro da arena, palco de incêndio e história, Naomi compreendeu o momento na alegria da filha. O caminho percorrido desde então, os anos de treinamento, confiança, dor e amor construídos desde um passado distante até a casa modesta do Distrito Miyazaki… tudo valeu a pena…
Os anos seguintes trouxeram reflexão, diversos Miyazaki sim acreditaram que a vitória da jovem não se devia ao valor de suas chamas, mas à sua compreensão do verdadeiro espírito do fogo. Para eles, aquela era a maior força que uma matriarca ígnea poderia ter, mas para outros, adoradores de Sachiko e conservadores de tradições, os argumentos não passavam de justificativas chulas para um evento considerado indigno e vexatório ao legado da família.
Independente das eras, a controvérsia estava longe do fim, e cravaria no resto da vida de Naomi, bem como seus amores, uma mancha que nem mesmo o tempo apagaria por completo…

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