Capítulo 93 - A Arena Infernal
[ Meses depois, Arena Principal Miyazaki ]
A arena estava lotada.
Membros da família ocupavam as arquibancadas em fileiras disciplinadas, ombro a ombro com convidados de clãs aliados e representantes do governo asahiano que compareceram sob pretexto oficial, mas carregavam nos olhos a mesma curiosidade que todos os demais: a estrangeira de fato desafiaria a Matriarca Miyazaki num duelo formal?
O espaço central era imenso. O piso polido refletia os lustres pendurados nas vigas superiores, e as paredes de pedregulho escuro absorviam a luz dourada o suficiente para que fossem vistas com clareza.
Sem decoração excessiva ou ornamentos desnecessários, o espaço silencioso representava um ritual de sucessão que valia o grandioso título de matriarca, cujo qual já estava presente.
Sachiko Miyazaki aguardava no centro.
Seus cinquenta anos não pesavam nas costas. Os cabelos negros sem um fio branco estavam presos severamente num kanzashi1 em formato de chama, puxando as linhas do rosto já afiado. O kimono cerimonial amarelo com dragões dourados bordados nas mangas escondia as mãos unidas e absolutamente rígidas atrás da cintura.
Quem nunca a vira em combate atentava-se à estabilidade daquele silêncio; e quem já a apreciara lutando, sabia que era exatamente naquela imobilidade disciplinada onde residia o perigo…
As portas duplas de ouro abriram-se.
Naomi entrou.
O kimono vermelho de flores escuras seguia harmonioso aos cabelos soltos. A postura trazia a mesma calma que desenvolvera nos anos de treino em sua terra natal: ombros alinhados, passo firme e olhar direto.
Masaru, que a acompanhava atrás com Hiromi recém-nascida dormindo no colo, parou do lado da entrada.
Todos os olhos voltaram-se às novas chegadas.
A três metros de Sachiko, Naomi curvou-se em respeito obrigatório. — Matriarca Sachiko Miyazaki. Conforme o protocolo, apresento minha filha, Hiromi Miyazaki, e formalmente desafio sua liderança. Pelo direito de sangue, força e convicção, reivindico o título de líder da Família Ígnea.
Risos suaves e conversas abafadas passaram pelas arquibancadas.
Avaliando a situação, Sachiko olhou ao longe, onde Masaru amparava o sono da pequena. — Meu filho… gerou uma filha! Algo que eu nunca consegui… — exaltou à si mesma, amargurada — tive dois filhos homens, ambos inaptos para sucessão matriarcal. Passei décadas tentando uma herdeira direta, uma mulher que pudesse continuar a linhagem Miyazaki com o meu sangue e nenhuma mácula!
Com a raiva vazada, a matriarca encarou Naomi diretamente.
— Agora, uma estrangeira meiliana e traidora usa meu DNA para me desafiar… — Em passos calmos ecoados, ela deixou a boca próxima ao ouvido da desafiante. — Reconheço sua força, garota. Mas se vencer, será a primeira vez em que o Matriarcado Miyazaki não será puramente asahiano. Achas que permitirei isso? Que deixarei uma refugiada destruir séculos de tradição?
Naomi não recuou. — Tradição sem propósito é apenas um orgulho vazio, e orgulho mata mais do que qualquer batalha. Conheço seu tipo, és o egoísmo em pessoa que precisa ser doutrinado. Se entendesse minhas palavras, teria medo de seguir o embate.
Sachiko segurou os próprios movimentos. Apenas os olhos negros analisavam devagar, de Naomi para Masaru, de Masaru para a bebê que dormia.
A decisão veio em brasas:
— Sendo assim… prove-me!
Uma cortina de chamas douradas explodiu das mãos de Sachiko e dominou todo o chão polido em menos de um segundo, tornando-o um tapete incandescente. O calor atingiu as primeiras fileiras da arquibancada antes que qualquer um compreendesse o que acontecia, os espectadores recuaram em grunhidos de susto.
Naomi ignorou o toque do fogaréu rasteiro e procurou Masaru com os olhos.
Ele estava pendurado com uma mão firme no suporte de umas das tochas na parede de pedra escura, suspenso com a filha no colo. O caos próximo e sem escapatória o mantinha alerta. Se aquelas chamas o alcançassem, queimaduras incicatrizáveis tomariam seu corpo… a bebê então, corria mais que o dobro do perigo.
Naomi afrontou a matriarca. — Covarde! Sua família está presente e mesmo assim a deixa refém das próprias chamas!?
Sachiko contradisse o calor do ambiente com a frieza da voz. — Uma matriarca deve estar pronta para defender os seus em qualquer circunstância. Se não consegue proteger sua família sem que o oponente lhe peça permissão para atacar, nunca será capaz de ser ao menos uma simples mãe… quem dirá minha sucessora.
As chamas rasteiras cresceram. O que antes era um tapete dourado transformou-se em um inferno organizado.
A líder Miyazaki esticou o braço adiante, e redirecionando todas as chamas do chão para a palma de sua mão, disparou uma torrente incandescente; não em direção a Naomi: em direção ao próprio filho pendurado e indefeso com a neta no colo.
O tempo desacelerou.
Naomi via os fragmentos lentos: o brilho dourado cruzando o ar, o braço de Masaru apertando Hiromi numa proteção insuficiente…
A distância entre a torrente e os alvos media metros que encolhiam em frações de segundos estendidos, possibilitando que o corpo de Naomi respondesse sem que qualquer pensamento ordenasse.
Chamas envolveram-na num ciclo completo, o semblante humano desapareceu, e a forma ígnea que assumiu o lugar avançou como um meteoro escarlate, rematerializada no espaço aéreo à frente de Masaru antes que a torrente de Sachiko completasse o trajeto. Com o bloqueio frontal dos braços em cruz, Naomi absorveu todo o ataque, consumindo o impacto como se bebesse o poder da matriarca pelo corpo ardente.
O calor intenso que atravessou a arena rachou as pedras das paredes laterais.
Masaru caiu em pé do suporte de tochas, e no piso livre de apuros, recuou cautelosamente em direção às portas duplas semiabertas por onde entrara, protegendo a filha que dormia sem noção de nada.
Vislumbrando a forma de fogo, Sachiko foi atingida por uma felicidade perturbadora demais para um rosto comumente cínico. A curiosidade que misturava a satisfação de caçadora e fascínio intelectual denunciavam um sentimento de conquista inicial.
O chão flamejante vibrou junto à animação, e as chamas das mãos percorreram os antebraços em rugidos altos.
“Então é verdade,” os olhos negros diziam sem palavras. “Finalmente consegui encontrá-la.”
Todas as desafiantes anteriores haviam sucumbido naquele mesmo instante: quando Sachiko descartava convenções e persistia a brutalidade que a fizera matriarca por três décadas. O choque paralisava, o medo desarmava, e a covardia que ela chamava de “disciplina” sempre encerrava os duelos antes que ficassem interessantes.
Mas a estrangeira não recuava; a aura eterna a impedia, e era aquilo o que a matriarca procurava…
Com as chamas rivais neutralizadas, Naomi aterrissou os pés no chão polido num movimento de sua arte marcial finalizado com os braços estendidos à frente; as mãos espalmadas em garras criaram um novo torrente de fogo que ganhou comprimento, massa, e mandíbula, formando um dragão lendário à caça de Sachiko.
A soberana, maravilhada com sua descoberta, não desviou: abriu os braços.
A mordida do dragão envolveu-a por completo e manteve-a sob a pressão do contra-ataque duradouro.
Naquele momento em que a figura da matriarca sumia perante a potência de uma aura eterna, todos entenderam que a desafiante estava apta à disputa do cargo supremo da Família Miyazaki…
Nas arquibancadas superiores, dois observadores assistiam com reações distintas:
O primeiro era um jovem de vinte e cinco anos em uniforme militar vermelho, cabelos pretos penteados para trás e uma barba rala que não decidia se cresceria de verdade. Seus braços estavam cruzados desde o começo da cerimônia, e sua expressão neutra era de quem assistira aquela cena repetidas vezes até que o espanto morresse.
Seu nome… era Katsuro Miyazaki, irmão de Masaru, e conhecido como o Shihai que subira de sargento a oficial mais rápido entre todos os formandos da ASA.
Ao lado dele, uma moça ruiva de elegantes vestes escuras e também recém-formada acompanhava a luta com um ânimo incontrolável. Seus olhos reluziam um interesse que tinha pouca disciplina e muito deleite pelo caos que se desenhava. — Katsuro — chamou, focada na arena — sua mãe está sendo coberta por uma corrente de aura eterna. Isso não te preocupa?
— Não.
— Fufufu, mas aquela garota parece promissora de verdade, não é?
— Sim — confirmou, amargo.
Sabendo que Katsuro escondia seu nervosismo, a risonha espiou de soslaio e esperou por mais declarações. Os olhos inquietos analisaram de cima a baixo, porém, não encontraram nada a mais no ceticista.
Ela bufou e retornou sua atenção à luta…
Vagarosamente, a corrente ígnea de Naomi foi cessada, permitindo a dissipação gradual das chamas em espirais crepitantes ao som específico de fogo intenso se apagando, ecoado pela arena com uma clareza que comunicava a violência e veracidade do contra-ataque.
Pensando em danos previsíveis, a plateia aguardava as consequências…
Surpreendentemente, Sachiko ressurgiu intacta das cinzas remanescentes, seus braços abertos carregavam as chamas amplificadas enquanto sua confiança saboreava o fim do ataque.
Mesmo suspeitando de que não venceria tão fácil, Naomi impressionou-se com a integridade da oponente e reergueu a guarda.
— Não se assuste, foi um bom golpe — provocou a matriarca — canalizar meu ataque em um bloqueio corporal e devolver na mesma medida exige um controle que poucos possuem.
De pé na arquibancada e com a filha no colo, Masaru observava a arena enquanto sua mente vagava em outra direção.
“Por que as chamas de Naomi não atravessaram a defesa dela?”
A questão não era simples. A aura eterna ígnea, por tudo que os registros acadêmicos descreviam, consumia apenas o que o portador permitia e sempre ignorava os efeitos de qualquer fonte não eterna. Nenhuma natureza comum a apagava. Ou seja, em tese, um áurico comum coberto por chamas eternas seria rapidamente incinerado.
Mas Sachiko as retraiu.
Masaru conhecia bem o tipo áurico da mãe: retratora ígnea, categoria rara, portadora da capacidade de engolir as chamas de adversários e convertê-las em força própria, dom que a tornou matriarca décadas atrás, derrubando desafiantes após desafiantes no exato momento em que apostavam alto no volume de fogo.
“Se ela consegue retrair auras eternas…”
A conclusão era incômoda.
Se Sachiko realmente absorveu e armazenou o fogo de Naomi, a equação do duelo mudaria totalmente. Quanto mais Naomi investisse em poder bruto, mais Sachiko se fortaleceria, e ao contrário de um retrator comum, que eventualmente atingia limites de absorção, ninguém, nem os próprios registros Miyazaki, mapearia o teto de força da matriarca.
Temendo secretamente o futuro incerto de sua família, Masaru olhou para a filha em repouso. “Teremos sérios problemas…”
Com as chamas ondulando nos braços, Sachiko anunciou à oponente: — Devo confessar-te uma coisa. Sonhei com este momento há anos: lutar contra uma aura eterna, sentir a real força deste poder. Asahi despende fortunas tentando cultivar ou importar eternos, e raramente tem sucesso.
Ela ergueu o queixo e apontou um dedo; a imponência do gesto reacendeu o piso de fogo.
— Você, refugiada, apareceu no meu caminho como presente do destino. Seria um desperdício encerrar isso rápido… Porém, aproveite. Será uma luta de descobertas, para você, e para mim. Inevitavelmente ultrapassaremos tudo o que conhecemos de nós mesmas nesta batalha, tudo pelo bem da Família Miyazaki!
Embora soubesse que aquele bem mencionado seria às custas dos inocentes, Naomi em forma de chamas sustentou calada o olhar desafiador da matriarca. Sua concentração inibia distrações a mais e sobressaia sua força perante aquela tirania. O objetivo era um só: a posse da soberania Miyazaki.
Com as combatentes apostos, o verdadeiro duelo estava preparado…
- acessório tradicional de cabelo utilizado para embelezamento de penteados e indicação de status social, idade ou estação do ano.[↩]

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