Capítulo 96 - A Nova Matriarca
[ Dias depois, Distrito Miyazaki, Toryu ]
A divisão foi imediata e barulhenta. Não que ninguém a esperasse, qualquer resultado de duelo matriarcal produzia camadas de opinião, e os Miyazaki eram uma família que nunca teve o costume de guardar opiniões para si.
Porém, a escala e a intensidade do que se seguiu à vitória de Naomi superaram qualquer paralelo nos registros familiares.
Nenhuma vitória anterior fora tão absoluta na técnica e tão perturbadora na implicação. Sachiko, transformada em algo entre humano e fenômeno, dominou a luta em maior parte da duração… e ainda assim perdeu. A adversária compreendeu o fogo melhor do que ela.
Os que veneravam Naomi encontraram o que procuravam: uma matriarca que entendia o poder como responsabilidade. Eram os mais jovens da família em sua maioria, os que cresceram frustrados com a rigidez de Sachiko, os que cansaram de ver a família servir ao governo como instrumento de conquista. Para eles, aquela estrangeira que arriscara o próprio limite para evitar uma incineração completa na arena não era simplesmente mais forte que a antecessora, era heroica numa dimensão além do mero poder.
Já os que a odiavam, faziam-no com a convicção silenciosa. A crença de que o mundo só funcionaria com ordens primárias alimentavam o ego do conservadorismo Miyazaki, cuja a identidade dos integrantes estava tão fundida com o sangue da família que a ideia de uma estrangeira comandando aquele sangue causava repulsa. Não importava os feitos de Naomi, não importava as vidas salvas. Eles sabiam que se tratava de uma meiliana, e no entendimento daqueles membros, a continuidade legítima de uma linhagem exigia continuidade de origem.
Entre esses dois extremos, a maioria silenciosa aguardava o que a nova matriarca faria com o poder que conquistara.
Naomi lhes deu uma resposta rápida.
A primeira reunião formal como matriarca aconteceu três dias após o duelo, no salão principal da Mansão de Chamas, mesmo espaço onde Sachiko conduziu décadas de estratégias expansionistas e movimentou peças num tabuleiro sem imaginar que elas sangram.
Sem o kimono cerimonial, Naomi chegou em vestes militares pretas com bordados mínimos. Masaru manteve-se próximo como assessor, de óculos substituídos por um par novo e registros já organizados sob o braço.
Cinco membros ouvintes da família se sentaram nas mesas contadas. Dois não compareceram, mas tiveram seus nomes anotados mentalmente por Naomi.
— A partir de hoje, os Miyazaki não participarão de operações militares em territórios de outras nações. Defenderemos o solo asahiano, protegeremos os civis, e recusaremos quaisquer missões de conquista e de supressão colonial.
O silêncio trouxe maus pressentimentos aos ouvintes.
Entre dois veteranos, um ancião ergueu a cabeça com sua voz rasgada e amargurada. — A família tem obrigações com o governo desde a Primeira Ascensão Miyazaki. Romper isso agora significaria-
— Renegociar — cortou Masaru, sem que elevasse o tom — a Família Miyazaki tem influência suficiente para exigir novas medidas e parar de se submeter. Isso soa bonito para você?
A observação de Masaru semeou uma hesitação desconfortável na mente dos mais velhos.
Havia lógica em suas palavras. Se os Miyazaki conseguissem impor uma revisão dos acordos firmados com o governo, o feito serviria como demonstração inequívoca da força e da autonomia da família diante de Asahi.
Entretanto, o verdadeiro problema permanecia intocado no centro da mesa.
Renegociar privilégios era uma coisa; recusar-se a participar das campanhas de expansão externa era outra completamente diferente. Como uma sociedade acostumada a glorificar conquistas e vitórias militares reagiria a uma família caracterizada pelo poder de expansão sendo limitada a não sair do país? E mais importante: até que ponto o governo asahiano toleraria que alguém, quem quer que fosse, desafiasse uma política que sustentava eras de ambições nacionais?
Outra voz masculina e mais jovem questionou. Era Katsuro, acompanhado do ânimo da jovem ruiva que sempre o seguia. — E se o governo recusar?
Naomi encontrou os olhos do homem. — Então aprenderão que uma família disposta a defender sua terra natal vale muito mais do que o nada. As Grandes Nobres existem porque o governo precisa delas, não o inverso. Eles sentiriam a nossa falta.
A reunião durou uma hora. Quando terminou, os três veteranos saíram com a resistência visível. Os outros dois jovens saíram com certa esperança no olhar.
Um recomeço estava próximo, e nada indicava impedimentos. Nenhuma integrante da família cogitava contestar sequer as decisões de Naomi. O motivo não era medo, mas respeito à força que ela representava. Poucos no mundo seriam capazes de enfrentá-la, e naquele momento, ninguém em Asahi demonstrava disposição para desafiar diretamente um poder cuja real extensão permanecia desconhecida.
A compreensão sobre o que Naomi herdou após sua vitória no duelo matriarcal necessitava primeiro do entendimento da estrutura pela qual os Miyazaki exerciam seu papel dentro do governo asahiano.
Asahi organizava suas decisões militares e políticas através de um sistema que mantinha formalmente separadas as figuras do Imperador, do Conselho Supremo de Guerra e das famílias nobres.
Mas tal separação era, na prática, uma ficção administrativa.
As Grandes Nobres, entre elas os Miyazaki, sustentavam os regimentos mais poderosos do exército, forneciam os shihais mais avançados e controlavam redes de influência que atravessavam ministérios, academias e estruturas de inteligência. Um general do exército regular podia ser tecnicamente superior em patente a uma matriarca Miyazaki, mas nenhum general com juízo desconheceria a verdade.
O poder da família ígnea era incontestável, e se manifestava em três camadas.
A primeira era direta e visível: a presença de membros Miyazaki em postos militares de alto escalão, na ASA, e em missões de prestígio que fortaleciam a reputação do nome.
A segunda era consultiva: a matriarca tinha acesso garantido por tradição a reuniões do Conselho Supremo de Guerra, onde participava sem voto formal, mas com o peso implícito de quem poderia, em teoria, retirar os regimentos Miyazaki de qualquer campanha.
A terceira camada era a mais silenciosa, porém também, a mais poderosa: a rede de informação construída ao longo de gerações, em que parentes, aliados, e devedores de favor espalhados por todo o aparato estatal, garantia que os Miyazaki raramente fossem surpreendidos por decisões que os afetassem.
Usando tal sistema, Sachiko serviu fielmente ao projeto expansionista do governo asahiano. Com Naomi, o mesmo sistema foi herdado para intenções opostas.
Masaru, que havia passado os anos anteriores como estagiário científico e depois pesquisador da ASA, foi nomeado Cientista Sênior e Líder de Investigações do Primeiro Regimento Áurico com a influência política que seu casamento conferiu-lhe automaticamente.
O cargo existia há anos como uma posição técnica de certa irrelevância comparada à infantaria, mas Masaru transformou-o em uma ferramenta de descobertas, coletando registros de batalhas, analisando relatórios de campo, catalogando discrepâncias entre versões oficiais de operações e o que testemunhas sobreviventes relatavam em correspondências privadas.
O casal investigava com paciência, levando consigo um antigo ditado meiliano:
“Mais vale um passo seguro do que cem apressados.”
[ 1904 – 1910: A Ascensão e as Guerras ]
A Guerra contra Medved chegou em 1904, e com ela, o teste mais difícil que Naomi enfrentou nos primeiros anos de matriarcado.
O conflito foi anunciado internamente como necessidade de defesa dos interesses asahianos na região de Seorim, argumento apresentado com tanta convicção pelo governo asahiano que até soou como verdade entre os civis.
Contudo, a verdade era mais simples: Asahi queria Seorim como território extra e ponto de expansão continental, Medved queria a mesma coisa, e os seorinos não queriam nenhum dos dois, porém, não tinham poder suficiente para que impusessem a preferência.
Naomi recusou enviar os regimentos Miyazaki em posições ofensivas no norte de Seorim.
A carta privada que enviou ao Conselho Supremo de Guerra era um exercício de diplomacia que agradecia a confiança depositada na família, reafirmava o compromisso Miyazaki com a defesa do território asahiano, e gentilmente declinava participação em operações cujo objetivo era conquista territorial em detrimento de uma população civil que não representava ameaça. Em troca, oferecia os regimentos Miyazaki para a proteção das linhas de abastecimento asahianas e defesa das bases costeiras, posições genuinamente necessárias mas que não exigiam atravessar fronteiras.
O Conselho aceitou, irritado e sem alternativa imediata.
Naquele mesmo período, Masaru, isolado em uma sala escura do Primeiro Regimento, recebia correspondências anônimas de fontes dentro do aparato administrativo que supervisionava Seorim. Os relatos descreviam a supressão sistemática de instituições políticas seorinas, a dissolução de assembleias locais, a imposição de censura a publicações em língua seorina, e a repressão de qualquer movimento que articulasse uma identidade nacional independente.
Cada correspondência era cuidadosamente catalogada, copiada, e guardada em cofres escondidos por Masaru naquela mesma sala…
A vitória asahiana sobre Medved em 1905 transformou Seorim em um protetorado formal. Em 1910, a anexação foi completada. Naomi assistiu o processo de dentro das reuniões do Conselho com o rosto que havia aprendido a manter absolutamente legível para quem a conhecia e completamente opaco aos indesejados. Enquanto membros do governo comemoravam a expansão, a Matriarca tomava notas…

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.