Capítulo 25: 3-C
Vance atravessou os portões junto com a multidão, sendo carregado pelo mesmo fluxo que parecia conhecer exatamente para onde ir.
Os caminhos de pedra clara se espalhavam em diversas direções entre jardins impecavelmente cuidados, fontes ornamentadas e edifícios que misturavam arquitetura clássica com estruturas modernas de vidro e metal. Estudantes cruzavam os corredores externos aos montes, alguns caminhando apressados enquanto equilibravam pilhas de livros, outros ocupando bancos espalhados sob as árvores ou discutindo assuntos que ele não compreendia. Em poucos minutos o garoto percebeu que tentar acompanhar tudo ao mesmo tempo era impossível.
A carta recebida naquela manhã continha instruções detalhadas para os novos alunos. Depois de consultar o documento pela terceira vez apenas para ter certeza de que não estava seguindo na direção errada, Vance encontrou o prédio administrativo responsável pelo registro dos estudantes recém-chegados. A construção ocupava uma praça inteira, cercada por colunas de pedra branca que sustentavam uma cobertura alta o suficiente para fazer o interior parecer uma pequena estação ferroviária. Centenas de jovens ocupavam filas organizadas diante de balcões eletrônicos enquanto funcionários uniformizados orientavam aqueles que pareciam tão perdidos quanto ele.
O processo aconteceu extremamente rápido para alguém acostumado à burocracia lenta da Cidade-Ilha 31. Um funcionário escaneou seu cartão estudantil, conferiu algumas informações em uma tela luminosa, entregou um dispositivo retangular que funcionava como identificação acadêmica e apontou para um painel onde apareciam os números das turmas designadas para aquele ano letivo.
Seu cartão retangular, chamado simplesmente de “documento estudantil”, continha vários números, números para todo lado que visse.
Antes que Vance pudesse formular metade das perguntas que tinha em mente, já estava novamente do lado de fora segurando uma pequena pasta contendo horários, mapas, informações sobre disciplinas e a localização de sua sala.
Foi durante o trajeto até o prédio principal que ele começou a notar algo curioso.
As pessoas.
Não a quantidade delas, mas a variedade.
Durante toda sua vida, a maioria das pessoas que conheceu possuía histórias parecidas. Moravam na mesma cidade, estudavam nas mesmas escolas, cresciam ouvindo as mesmas histórias e olhando para o mesmo horizonte. Ali era diferente. Bastava prestar atenção às conversas para perceber. Alguns estudantes falavam sobre cidades costeiras que ficavam a milhares de quilômetros dali. Outros mencionavam colônias marítimas, plataformas oceânicas, territórios de exploração ou regiões que Vance jamais tinha visto sequer citadas no manual de Aster. Alguns carregavam sotaques diferentes. Outros utilizavam expressões que ele nunca ouvira antes.
E além disso alguns ainda eram completamente diferentes no visual, existiam os mais diversos tipos de cabelo, olho, corpo e incrivelmente até no uniforme já padronizado.
Pela primeira vez desde que chegou ao continente, ele teve a sensação concreta de estar diante de algo verdadeiramente continental.
A Academia Central não reunia apenas jovens de Nova Aster.
Ela reunia jovens de Aster, de todo o continente.
O prédio de sua turma ocupava uma das áreas centrais do campus. A construção possuía vários andares conectados por passarelas abertas e enormes janelas que permitiam a entrada constante da luz natural. O corredor principal estava tomado por estudantes procurando salas, comparando horários e tentando descobrir onde deveriam estar. A cena trouxe um certo alívio para Vance. Pela primeira vez naquele dia, ele não parecia ser o único perdido.
Depois de subir dois andares e atravessar um corredor repleto de portas numeradas, finalmente encontrou a sala indicada em seu registro.
Turma 3-C.
Vance permaneceu parado diante da entrada durante alguns segundos.
O som das conversas escapava pela porta aberta.
Risos.
Discussões.
Cadeiras sendo arrastadas.
O tipo de barulho comum em qualquer sala de aula do mundo.
Ainda assim, seu coração acelerou um pouco.
Com um pequeno ajuste na mochila, Vance atravessou a entrada.
A sala era maior do que qualquer sala de aula que já tinha visto. Fileiras de mesas se distribuíam em semicírculo ao redor de uma área central onde o professor aparentemente conduziria as aulas. As janelas ocupavam quase toda a parede lateral e permitiam uma vista parcial da cidade ao longe. Cerca de trinta alunos já estavam presentes.
Alguns conversavam em grupos.
Outros permaneciam sozinhos.
Alguns pareciam completamente à vontade.
Outros exibiam exatamente a mesma expressão que Vance sentia no próprio rosto.
Confusão, medo…
Pessoas tentando descobrir onde se encaixavam.
Seus olhos percorreram rapidamente o ambiente em busca de um lugar vazio quando algo chamou sua atenção.
Na última fileira, próximo à janela, um garoto de cabelos loiros dormia profundamente sobre a própria mesa, completamente indiferente ao barulho ao redor.
Duas cadeiras ao lado dele, uma garota folheava um livro grosso sem demonstrar o menor interesse nas conversas da sala.
E na primeira fileira, um rapaz de postura impecavelmente ereta parecia revisar anotações como se as aulas já tivessem começado há horas.
Vance observou os três por alguns segundos.
Então escolheu uma mesa vazia ao fundo próximo do garoto de cabelos loiros.
Vance caminhou até a última fileira tentando parecer mais confiante do que realmente se sentia. O som das conversas preenchia o ambiente de forma constante, criando aquele ruído caótico típico de lugares onde dezenas de pessoas falavam ao mesmo tempo. Conforme avançava entre as mesas, percebeu que boa parte dos alunos já havia formado pequenos grupos. Alguns claramente se conheciam havia anos. Outros pareciam ter acabado de se apresentar. Em qualquer caso, todos davam a impressão de pertencer àquele lugar muito mais do que ele.
A mochila deslizou de seus ombros quando finalmente alcançou a mesa vazia próxima à janela. O garoto loiro continuava completamente apagado sobre a carteira, usando os próprios braços como travesseiro enquanto ignorava todo o barulho ao redor. Nem mesmo o movimento constante dos alunos parecia perturbá-lo. Seu uniforme estava levemente amassado, os cabelos espalhados sobre a mesa e uma pequena poça de baba ameaçava alcançar um dos cadernos fechados diante dele.
Vance observou a cena por alguns segundos.
Então sentou.
A cadeira produziu um ruído discreto.
E então um som diferente percorreu a sala.
Era uma sequência curta de notas metálicas que ecoou por todo o ambiente.
Imediatamente as conversas começaram a diminuir.
Grupos foram se desfazendo.
Alunos retornaram às próprias mesas.
O volume da sala caiu gradualmente até se transformar em um murmúrio.
Vance observou a mudança com curiosidade.
Nem mesmo os professores tinham aparecido ainda.
Mesmo assim, todos sabiam exatamente o que fazer.
A porta da sala se abriu.
Um homem alto entrou carregando uma pasta fina debaixo do braço.
Instantaneamente o restante das conversas desapareceu.

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