A manhã passou mais rápido do que Vance esperava. 

    Entre encontrar roupas adequadas, tentar entender metade dos equipamentos da casa sem causar outro desastre e ouvir Alice repetir três vezes que ele precisava causar uma impressão minimamente aceitável no primeiro dia, o horário de saída chegou antes que tivesse tempo de pensar muito sobre isso. 

    O uniforme aguardava dobrado sobre a cama desde a noite anterior. 

    A jaqueta escura possuía cortes simples, mas o tecido era muito diferente de qualquer coisa que ele já havia usado. Leve, resistente, perfeitamente ajustado ao corpo e com alguns botões dourados que lhe permitiam abrir ou fechar a jaqueta. Ela carregava o símbolo da Academia Central, basicamente uma estrela, bordado sobre o peito em fios prateados. A camisa branca por baixo permanecia impecável. As calças seguiam o mesmo padrão elegante que parecia comum em Nova Aster. 

    Vance encarou tudo aquilo por alguns segundos. 

    Na Cidade-Ilha 31, ele nem sabia o que era um uniforme. 

    Aquilo parecia a roupa de alguém importante. 

    Quando finalmente desceu para o andar principal, encontrou Alice terminando uma xícara de chá próximo às janelas. 

    Ela ergueu os olhos, observou o uniforme e depois assentiu. 

    — Menos pior do que eu esperava. 

    — Obrigado…? 

    — Não. 

    Vance suspirou. 

    Alice sorriu pela primeira vez naquela manhã. 

    Pouco depois os dois deixaram a residência. 

    A brisa marítima atravessava a Costa de Velastra carregando o cheiro familiar de sal enquanto caminhavam pelas ruas inclinadas do bairro. O movimento ainda era pequeno naquela região da cidade. Alguns moradores cuidavam dos jardins. Outros conversavam próximos aos portões das residências. O som das ondas continuava subindo das falésias muito abaixo, acompanhando cada passo deles até alcançarem uma das estações de transporte indicadas no mapa enviado pela academia. 

    O trem elevado atravessava a cidade sobre trilhos suspensos dezenas de metros acima do solo, correndo entre estruturas metálicas que pareciam ter sido construídas muito acima da escala humana. De tempos em tempos a linha desaparecia entre edifícios gigantescos e só voltava a surgir muito mais à frente, como uma costura invisível ligando bairros inteiros através do horizonte. Quando as portas se abriram em uma das estações de Velastra, uma corrente constante de estudantes entrou nos vagões, preenchendo rapidamente os espaços vazios. A maioria usava uniformes parecidos com o seu, embora pequenos detalhes nos brasões, nas cores das gravatas ou nos cortes das jaquetas diferenciassem uma instituição da outra. Alguns carregavam pilhas de livros, outros conversavam animadamente sobre provas e atividades, enquanto vários simplesmente observavam a paisagem pela janela com a expressão cansada de quem repetia aquele trajeto todos os dias. 

    Vance demorou apenas alguns minutos para perceber que a Academia Central estava longe de ser a única escola importante de Nova Aster. A cada parada surgiam novos grupos vestindo uniformes diferentes, representando academias, institutos técnicos, centros de formação científica e escolas especializadas que ele nunca tinha ouvido mencionar. O simples fato de existirem tantas instituições já era difícil de compreender. Em sua antiga cidade, praticamente todos os jovens estudavam no mesmo lugar. Aqui, parecia existir uma cidade inteira dedicada apenas à educação. 

    O trem acelerou gradualmente, e a paisagem começou a mudar diante das janelas. Velastra desapareceu aos poucos atrás deles, levando consigo as encostas tranquilas, os jardins espalhados pelas colinas e a vista constante do oceano. Em seu lugar surgiram bairros cada vez mais densos, ruas movimentadas e avenidas largas que se estendiam entre quarteirões intermináveis. Depois vieram os distritos comerciais. Torres de vidro refletiam a luz da manhã em centenas de direções diferentes, fachadas luminosas cobriam edifícios inteiros e passarelas suspensas conectavam estruturas tão altas que algumas pareciam tocar as nuvens baixas que pairavam sobre a cidade. Veículos percorriam ruas em diferentes níveis, plataformas elevadas cruzavam avenidas congestionadas e, em mais de uma ocasião, Vance simplesmente desistiu de tentar acompanhar tudo o que passava diante dos seus olhos. Cada vez que acreditava ter encontrado o prédio mais alto da região, outro ainda maior surgia logo adiante. 

    A cada estação novas pessoas embarcavam. A cada quilômetro a cidade parecia crescer novamente. Quando finalmente deixaram o trem próximo ao centro, a sensação foi parecida com atravessar uma fronteira invisível. O fluxo de pessoas aumentou imediatamente. As calçadas estavam tomadas por trabalhadores, comerciantes, estudantes e funcionários que se moviam em todas as direções sem jamais interromper o ritmo da cidade. Telas luminosas ocupavam fachadas inteiras, exibindo anúncios, informações públicas e notícias em constante movimento. Acima deles, estruturas metálicas cruzavam o céu entre os arranha-céus, formando uma rede tão complexa que Vance sequer conseguia imaginar onde começava ou terminava. 

    Ele precisou inclinar a cabeça para trás para tentar enxergar o topo de alguns edifícios. Em vários casos não conseguiu. As construções desapareciam muito acima do seu campo de visão, transformando o céu em uma série de recortes estreitos entre concreto, aço e vidro. 

    — Como alguém se acostuma com isso? — murmurou. 

    Continuaram caminhando. Pouco a pouco os grandes centros comerciais começaram a desaparecer, embora o movimento permanecesse intenso. A diferença era que agora quase todas as pessoas ao redor pareciam estudantes. Uniformes surgiam por toda parte. Alguns caminhavam sozinhos, outros em grupos numerosos. Mochilas, livros e dispositivos eletrônicos apareciam em praticamente todas as mãos. O próprio ambiente parecia mais jovem, mais agitado, dominado por conversas, risadas e discussões que se misturavam ao ruído constante da cidade. 

    Então Vance viu a Academia Central de Nova Aster. 

    Durante alguns segundos ele acreditou estar olhando para um bairro inteiro e não para uma única instituição. Muros de pedra clara delimitavam uma área tão extensa que era impossível enxergar seu fim a partir dos portões principais. Torres acadêmicas surgiam espalhadas pelo campus, conectadas por pontes suspensas e passarelas elevadas. Jardins ocupavam enormes áreas entre os edifícios, fontes decoravam praças abertas e ruas internas desapareciam entre construções que mais pareciam pequenos centros urbanos independentes. O prédio principal dominava a paisagem ao fundo, mas mesmo ele parecia dividido em múltiplas estruturas conectadas umas às outras, formando um complexo tão vasto que Vance não conseguia imaginar quantas pessoas estudavam ali. 

    E havia estudantes por toda parte. 

    Milhares deles. 

    Entrando pelos portões, saindo dos edifícios, atravessando praças, ocupando bancos, correndo entre aulas, conversando próximos às fontes ou simplesmente caminhando pelos corredores externos como se aquele lugar fosse uma pequena cidade construída exclusivamente para eles. 

    Vance permaneceu imóvel diante da entrada por alguns segundos. O peso da mochila pareceu aumentar sobre seus ombros enquanto observava aquele movimento constante. Pela primeira vez desde que chegaram a Nova Aster, a realidade finalmente começou a alcançá-lo. A Cidade-Ilha 31 havia desaparecido. O Leviatã havia desaparecido. A viagem terminara. Não existia mais nenhum oceano entre ele e o futuro. 

    Aquilo era sua vida agora. 

    Alice percebeu o silêncio e apoiou uma mão em seu ombro. 

    — Nervoso? 

    — Um pouco. 

    — Ótimo. 

    Vance virou o rosto. 

    — Ótimo? 

    — Significa que você finalmente percebeu o tamanho da encrenca. 

    Uma risada curta escapou antes que ele pudesse evitar. Alice aproveitou para retirar um pequeno cartão do bolso e entregá-lo. 

    — Seu registro estudantil. 

    Vance guardou o objeto. 

    — Você vai ficar por aqui? 

    — Tenho algumas coisas para resolver na cidade. 

    — E se eu me perder? 

    — Então espero que essa escola também ensine geografia. 

    Antes que ele pudesse responder, Alice já estava atravessando a calçada e desaparecendo gradualmente entre a multidão. Vance observou sua figura diminuir até ser engolida pelo fluxo constante de pessoas. Quando finalmente voltou os olhos para os portões da Academia Central, centenas de estudantes continuavam entrando sem sequer diminuir o passo. 

    Para eles aquilo era apenas mais uma manhã comum. 

    Para ele parecia o primeiro passo em direção a um mundo completamente novo. 

    Respirou fundo, ajustou a mochila sobre o ombro e começou a caminhar. 

    Desta vez sem olhar para trás. 

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