Capítulo 151 - Vou me lembrar daquele orc
O sol se move no horizonte de Cahjia, tingindo de laranja as casas recém-erguidas e a floresta ao redor.
Pela cidade edificada em pedra, tudo está sereno e monótono. Os orcs seguem em seus afazeres. Uns preparam comida, outros se ocupam com tarefas manuais ou apenas cruzam as ruas sem pressa.
Em algumas partes do muro, guerreiros se preparam para ficar de guarda pela noite que se aproxima. Os caçadores, aos poucos, voltam da mata e entram pelos portões, trazendo consigo os espólios do seu dia.
Dentro do primeiro andar da torre no centro, Rubi assiste a tudo por uma janela.
A diaba está sentada em um dos degraus da longa escadaria espiral que percorre a sala. Seu arco e sua espada, depositados no degrau acima.
No chão, alguns degraus abaixo, há algumas caixas lacradas, mas a sala, como um todo, ainda está bem vazia.
Rubi respira fundo, sentindo tranquilidade no ar. Mais um dia quieto e tranquilo, ela constata. Daqui a pouco já vai dar a hora de ir.
Observando a cidade ao entardecer, algo em particular como a chamar sua atenção.
Dentre os orcs que caminham entre as construções, Mindinho se destaca ao seguir na direção da torre. Em uma das mãos, carrega um saquinho.
Ele de novo, Rubi pensa.
O orc vai até a porta da torre, parando a alguns passos diante dela.
Em silêncio, Mindinho admira a construção, correndo o olhar de cima para baixo durante alguns segundos.
Momentos depois, ele deixa o saco no chão, dá meia-volta e deixa o lugar.
Outro presente. Acho que já é o quarto, pensa a diaba, vendo o orc afastar-se.
Ela se levanta e começa a descer pela escadaria, até sair do primeiro andar e chegar ao térreo.
No grande hall, há mais duas caixas encostadas no canto de uma parede. A luz do sol atravessa as janelas e ilumina o lugar. A entrada que leva à parte subterrânea está aberta, com a pedra que serve como tampa colocada de lado.
Próxima à porta, abaixo da pequena árvore, Yrah descansa, despreocupada. Os passos da diaba descendo os degraus ecoam suavemente, e as orelhas da raposa se erguem em resposta.
Yrah abre os olhos, ergue a cabeça e olha para Rubi. “Não ia sair?”, pergunta ela.
“Ainda é muito cedo. Se eu sair agora, vou ser vista com toda certeza”, responde a succubus. “Além do mais, aquele orc deixou outro presente lá fora. Acho que você vai querer.”
A raposa se levanta por completo, com a cauda balançando rapidamente. “É mesmo? Não vai ter problema?”, ela pergunta, ansiosa.
“Não. Pode pegar. Está bem diante da porta”, responde Rubi, suspirando em sequência. “Você já pegou das outras vezes.”
Provavelmente não faz mais diferença. Aquele cara é esperto. Já sabe que tem alguém para aceitar os presentes dele, pensa ela. Não é à toa que ele é o braço direito do Brok.
Yrah, animada, coloca uma pata no caule da pequena árvore e se concentra.
Do lado de fora da torre, próximo à sacola, uma raiz fina marrom brota do chão, deslizando pela grama como uma serpente. Ela envolve o saco e o arrasta para o buraco de onde a raiz veio.
Momento depois, a mesma raiz brota no pé da pequena árvore, trazendo consigo a sacola, já soltando-a diante de Yrah e enterrando-se logo em seguida.
“Você tem que me ensinar a fazer isso”, Rubi comenta, vendo a cena, com a própria cauda balançando lentamente atrás.
“Se eu consigo, você consegue também”, diz a raposa. “Foi você que me deu a permissão.”
Não sei se é tão intuitivo quando você faz parecer que é, pensa a diaba.
Sem perder tempo, Yrah enfia a cabeça dentro da sacola, verificando o conteúdo.
Sua cauda balança ainda mais. “Tem frutinhas vermelhas aqui!”, ela constata. “Você quer?”
“Não, vou passar dessa vez”, responde a diaba. “Não me dou bem com coisas doces.”
“Mais para mim, então”, Yrah comemora.
A diaba observa a raposa comendo e enfiando-se cada vez mais sacola adentro. Um sorriso sutil se dobra em seus lábios.
Mesmo que eu prefira ficar mais escondida, não consigo negar que é um gesto bem legal daquele cara, divaga ela.
Alguns minutos se passam e o sol some no horizonte, dando lugar à noite. Aos poucos, tochas começam a se acender pela cidade, iluminando as casas e as passagens.
Rubi começa a subir a escadaria da torre. No caminho, coleta o arco e a espada e vai até o topo.
Comparado ao restante das construções da cidade, o terraço, assim como o restante da torre, é bem escuro. Apenas o brilho natural da lua e das estrelas o alcança.
Uma brisa fresca atravessa o lugar, balançando o casaco e os cabelos rosados da succubus.
A diaba se concentra e suas asas misticamente se abrem, saindo pela parte de trás da camisa. Antes de alçar voo, ela as move um pouco, em uma rápida checagem.
Chegou a hora de ir, pensa Rubi, sentindo segurança.
Com um movimento veloz, a succubus bate as asas para baixo e se alça para cima.
No alto, Rubi fica oculta na noite, tal qual um morcego, imperceptível aos orcs na cidade abaixo.
Sem demora, ela voa para o norte, deixando os domínios de Cahjia para trás.
É muito bom poder sair assim, Rubi pensa.
Após avançar por um tempo, um ponto alaranjado em meio à floresta escura surge adiante.
É ele, constata a diaba.
Rubi reduz sua velocidade e começa a voar em direção ao chão.
Quando se aproxima, logo vê Brok, sentado sobre uma grande pedra, segurando e acenando uma tocha para o alto.
O orc avista a succubus, se levanta e salta da rocha ao chão. “Veio… sozinha?”, ele pergunta.
Rubi pousa no chão, ao lado de Brok. “Yrah não quis vir e o Byron está por aí caçando”, responde ela.
“Ah… entendo.”
Rubi olha para as próprias costas e recolhe as asas. “Demorei muito?”, ela questiona.
“Não. Nenhum pouco”, responde o orc, prontamente.
“Seu amigo deixou outro presente na torre”, a diaba comenta.
O orc franze os olhos por um instante. “Eu não… sabia que ele ia fazer isso de novo.”
“Aconteceu mais vezes do que você pensa”, a succubus acrescenta.
Brok fica pensativo por um instante e deixa escapar um rosnado baixo. “Vou falar com o Mindinho… Te garanto que ele não sabe nada de vocês”, explica ele. “Ele só… pensa demais… e…”
Rubi ergue a palma da mão na direção do orc, interrompendo-o. “Não precisa. Está tudo bem”, afirma ela. “Muita coisa aconteceu para ninguém desconfiar de nada. Ainda mais dos que são mais próximos a você.”
O orc respira aliviado. “Então.. tudo bem, não é?”
“Sim”, responde Rubi. “A Yrah está fazendo bom proveito daquelas oferendas.”
E até que eu gosto disso, ela pensa.
Apesar de ser a Yrah quem mais faz proveito das coisas que ele traz, ela ressalta.
Brok acena. “Ele… é muito grato ao que você fez por nós”, comenta ele.
“Percebi isso.”
“Bem. Se estiver bom para você, já… podemos ir até o elfo”, diz o orc. “O novo lugar dele não é longe daqui.”
“Pode ir na frente.”
O orc toma a dianteira, seguindo pela mata, e Rubi o acompanha, alguns passos atrás, descontraída.
“Você chama aquele orc de Mindinho, não é?”, a diaba pergunta, enquanto anda.
“Sim.”
“Certo.”
Vou me lembrar daquele orc, ela pensa.

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