Formas indistintas se dobravam e se abriam no campo de visão de Arthur, enquanto o espaço inteiro ondulava como a superfície da água atingida por uma pedra. Seu corpo parecia não ter peso. Flutuava dentro daquele vazio sem som, sem eco, sem sequer aquele ruído surdo que ambientes fechados costumam guardar. Nada além de silêncio absoluto.

    A vertigem explodiu no centro de sua cabeça. Arthur não sabia dizer se vinha da perda de sangue, do que quer que Charles tivesse colocado na faca, ou daquele espaço impossível tentando esmagar sua mente com formas que não deveriam existir. A visão vinha em pedaços, escura nas bordas, como se alguém tivesse deixado apenas uma fresta aberta entre ele e o mundo. 

    Uma luz azulada atravessou essa fresta e feriu seus olhos. Arthur piscou várias vezes, tentando recuperar o foco. Aos poucos, o mundo ao redor começou a ganhar forma. Estava num salão enorme. Paredes de rocha bruta subiam dos dois lados até se perderem em algum ponto acima, além do alcance da claridade. O chão era irregular, coberto por pedras soltas e musgo escuro que amortecia o peso de seu corpo. Ele não soube dizer em que momento havia chegado ali. A transição tinha sido abrupta demais. Num instante, existia apenas aquele espaço distorcido. No seguinte, estava sobre a pedra úmida, respirando com dificuldade. 

    O sangue ainda escorria pelo tecido rasgado da camisa, quente contra a pele fria. Cada respiração movia o tórax o suficiente para fazer a dor se abrir de novo, como se a lâmina continuasse presa dentro dele. Arthur apertou a mandíbula, lutando contra a fraqueza que tornava seu corpo cada vez mais pesado, e convocou a janela de status. Não havia tempo para pensar. Distribuiu todos os pontos restantes em constituição antes que sua consciência se esvaísse. Ainda tentou manter os olhos abertos por mais um instante, mas a força abandonou seu corpo de uma vez.

    Quando voltou a si, a primeira coisa que sentiu foi o frio da pedra contra o rosto. Não sabia quanto tempo havia se passado. Podiam ter sido minutos. Podiam ter sido horas. Naquele lugar, a noção de tempo parecia tão instável quanto o espaço que o trouxera até ali. Arthur levou a mão ao peito com cuidado e afastou o tecido rasgado da camisa. O sangue havia endurecido ao redor da ferida, formando uma crosta escura e irregular. O corte não parecia tão profundo quanto havia imaginado. Ainda doía, mas as bordas já haviam começado a se fechar. 

    Mas algo espetava sob sua pele. Ele passou os dedos ao redor da ferida com cuidado, sentindo a pele latejar sob o sangue seco. Quando tocou o ponto certo, a fisgada veio tão aguda que sua mandíbula travou.  Havia alguma coisa ali dentro. A lembrança do sabre de ossos se partindo voltou de uma vez. Na hora, com Charles diante dele e a faca entrando em seu peito, aquilo tinha virado apenas mais uma dor no meio de todas as outras. Agora, sozinho naquele salão frio, era impossível ignorar. 

    — Perfeito… agora isso. 

    Arthur puxou a faca da cintura e ficou olhando para ela. A ideia de enfiar a lâmina na própria pele fez seu estômago revirar, mas deixar aqueles cacos ali dentro parecia pior. Ele respirou fundo, prendeu o ar e encostou a ponta da faca no ponto onde o fragmento se alojava. Tentou ser cuidadoso. Tentou mesmo. Ainda assim, no instante em que pressionou a lâmina, a dor subiu pelo peito até a garganta. Seu corpo inteiro se contraiu, afastando-se da própria mão antes que ele conseguisse impedir. 

    — Merda… 

    A faca tremeu entre seus dedos. Arthur ficou ali, curvado sobre si mesmo, respirando pelo nariz e encarando a ferida. Não dava para fazer aquilo daquele jeito. Ele puxou a manga rasgada da jaqueta com os dentes e terminou de arrancá-la com a mão livre. O tecido se soltou com um rasgo seco e revelou pequenas saliências sob a pele perto do antebraço, quase escondidas entre arranhões e manchas de sangue seco. Arthur ergueu o braço devagar, sentindo o estômago afundar. Mais fragmentos. 

    Fechou os olhos por um instante e respirou fundo pelo nariz. Depois dobrou a manga de qualquer jeito e a colocou entre os dentes, mordendo com força. Se não conseguia remover o fragmento do peito de primeira, começaria pelos mais fáceis. 

    Arthur voltou os olhos para o braço e encostou a ponta da faca na pele. Um gemido abafado escapou contra o tecido enquanto ele mordia com mais força, tentando impedir que o som saísse mais alto. A lâmina abriu a pele devagar, seguindo a saliência dura sob a carne, e Arthur sentiu os olhos arderem enquanto forçava a mão a continuar firme. 

    Quando a ponta tocou o fragmento, ele inclinou a faca com cuidado e puxou. O caco saiu grudado no sangue, preso à ponta da lâmina. Arthur o observou, respirando pesado pelo nariz. Era pequeno. Ridiculamente pequeno para doer tanto. Então girou a faca para o lado e deixou o fragmento cair sobre a pedra úmida.

    Os outros fragmentos vieram com menos hesitação, mas não com menos dor. Arthur arrancou um a um, primeiro do braço, depois do peito, até que não sentisse mais nada sob a pele. Quando terminou, sua respiração estava pesada e gotas de suor escorriam por seu corpo. Ele puxou o tecido da boca, limpou nele a lâmina ensanguentada e guardou a faca na cintura. Os braços ainda tremiam, mas ao menos não havia mais nada preso dentro dele.

    Arthur encarou a própria mão manchada de vermelho. Por muito pouco não havia morrido. E teria morrido por confiar na pessoa errada. Aquele desgraçado não tinha apenas tentado matá-lo. Tinha falado com a tranquilidade de quem já o considerava morto. Por um instante, teve vontade de gritar. De golpear alguma coisa. De encontrar Charles e arrancar dele aquele ar de superioridade. Mas não havia ninguém ali. Apenas o salão, a luz fria e o silêncio. 

    Arthur respirou fundo. Não podia se perder nisso agora. Charles teria que esperar. Com algum esforço, apoiou uma das mãos no chão e se levantou. O corpo respondeu melhor do que esperava. Ainda havia dor, mas a fraqueza quase paralisante de antes havia diminuído bastante. Não importava; estava vivo. 

    Só então Arthur observou o salão com mais atenção. A luz azulada vinha de cristais fixados nas paredes de rocha. Eles estavam distribuídos de maneira organizada demais para parecerem naturais, mas ao mesmo tempo se encaixavam tão bem na pedra que davam a impressão de sempre terem pertencido àquele lugar. 

    À sua frente, no extremo oposto do salão, estava um portão. As duas folhas de pedra se erguiam até desaparecerem na escuridão acima. Linhas profundas cortavam sua superfície em padrões que Arthur não compreendia, e, mesmo à distância, ele sentiu a pele arrepiar. Não era apenas medo. Era aquela sensação instintiva de perigo que fazia o corpo inteiro querer recuar.

    Além do portão, havia apenas um corredor na direção contrária, estreito e parcialmente tomado pela mesma luz azulada dos cristais. Não parecia exatamente seguro, mas também não emanava aquela pressão sufocante que vinha do portão à sua frente. 

    Arthur soltou o ar devagar.

    — Certo… caminho assustador ou caminho menos assustador.

    A própria voz soou estranha dentro daquele lugar. 

    Ele apertou a mão contra o peito, certificando-se de que a ferida não havia voltado a sangrar, e começou a caminhar em direção ao corredor. O silêncio era quebrado apenas pelo som de seus passos sobre a pedra úmida. A passagem não era longa. Depois de alguns metros, uma luz diferente do brilho dos cristais cortou a escuridão. Era mais quente, mais intensa, e revelava as pequenas partículas de poeira que flutuavam no ar. Ao alcançar o fim do caminho, parou.

    A saída estava a poucos metros. Do lado de fora, a luz do sol banhava uma floresta verdejante, densa e viva, tão diferente da frieza azulada daquele lugar que por um instante pareceu irreal. Folhas balançavam suavemente ao vento, e feixes dourados atravessavam as copas das árvores, tocando o chão coberto por raízes e vegetação baixa. Ainda assim, Arthur não conseguiu sentir alívio. 

    Entre Arthur e a saída, estavam cerca de vinte hobgoblins. As criaturas estavam espalhadas diante da entrada da caverna, armadas com clavas e lanças. Seus olhos frios permaneciam fixos nele. Nenhum rosnido escapava de suas bocas, mas a tensão em seus corpos deixava claro que todos queriam avançar. Arthur deu meio passo para trás, pronto para se virar e correr de volta pelo corredor. Contra tantos, seria massacrado em segundos. Mas algo chamou sua atenção. Os hobgoblins o encaravam com fúria, alguns apertando as armas com tanta força que os músculos dos braços saltavam sob a pele esverdeada, mas nenhum deles avançou. Permaneciam do lado de fora, imóveis. 

    Arthur se abaixou devagar, sem tirar os olhos das criaturas, e pegou uma pedra. Os hobgoblins acompanharam o movimento em silêncio. Ele a arremessou, mas, antes que alcançasse os monstros, um brilho azulado se espalhou pelo ar e revelou uma superfície translúcida. A pedra ricocheteou e rolou pelo chão da caverna até parar aos pés de Arthur. 

    Ele ativou Inspeção e a barreira se tornou mais clara aos seus olhos. Não era exatamente uma parede, mas um campo de força transparente estendido sobre a entrada da caverna. A luz ondulava suavemente, como se respondesse à presença dos monstros do lado de fora. 

    Os hobgoblins reagiram à provocação com rugidos furiosos. Um deles avançou e golpeou a barreira com a clava, fazendo a superfície azulada brilhar com intensidade. No instante seguinte, a força do golpe voltou contra ele. O hobgoblin foi arremessado para trás e colidiu com outros dois, provocando um tumulto. Alguns recuaram, outros rosnaram ainda mais alto, mas nenhum ousou avançar. 

    Aos poucos, os rosnados cessaram. Um peso diferente tomou o ar e as criaturas abriram espaço quase ao mesmo tempo. Uma figura surgiu entre elas, maior do que qualquer hobgoblin que ele já havia enfrentado. A pele esverdeada era mais escura, marcada por cicatrizes fundas que atravessavam o peito, os braços e parte do rosto. Os músculos grossos deformavam sua silhueta, dando ao corpo uma aparência pesada e brutal. Em uma das mãos, carregava um machado, a lâmina larga manchada de sangue escuro. Os hobgoblins, que até segundos antes pareciam ameaçadores, agora pareciam pequenos ao seu lado. A criatura parou diante da barreira. Seus olhos encontraram os de Arthur.

    [General Goblin

    Descrição: Principal comandante dos exércitos goblins. Generais Goblins evoluem após sobreviver a rituais brutais e lideram grupos de criaturas inferiores em ataques organizados.

    Nível: 1

    Rank: F]

    Arthur sentiu a garganta secar. Era a primeira vez que via uma criatura ranqueada. O nível era baixo, mas aquilo não o tranquilizava nem um pouco. A pressão que emanava do General Goblin tinha outro peso. Apenas estar diante dele fazia o ar parecer difícil de respirar. Enquanto observava o General, duas figuras surgiram atrás dele. A primeira era uma goblin de pele esverdeada e cabelos vermelhos, longos e desgrenhados, que caíam sobre os ombros como fios de sangue seco. Ao lado dela, parcialmente escondida atrás de sua perna, havia uma criança.

    A goblin fêmea encarava Arthur com raiva, os lábios repuxados em uma expressão feroz, mas havia algo diferente no olhar da criança. Ela não rosnava. Não tentava avançar. Apenas tremia, agarrada à mulher, com os olhos arregalados fixos nele. Aquilo o fez hesitar. A forma como aquela criança o olhava o atingiu de um jeito que ele não esperava. Aquele olhar estava carregado de medo. Medo dele. Os goblins haviam invadido seu mundo. Haviam massacrado pessoas. Ainda assim, aquela criança o olhava como se ele fosse a ameaça. Arthur cuspiu no chão. Sem dizer nada, virou-se e começou a caminhar de volta pelo corredor. 

    O som de seus passos voltou a preencher o silêncio úmido da caverna, mas a imagem da criança não desapareceu. Pelo contrário. Quanto mais se afastava, mais aquele olhar parecia se prender à sua mente. Os olhos arregalados. O corpo pequeno escondido. O medo puro, desesperado. Sua mão se fechou antes que ele percebesse. 

    Ele já tinha visto aquele mesmo pavor antes. No rosto do fazendeiro que havia enterrado. Nos rostos das pessoas ajoelhadas na praça. Nos olhos dos que morreram sem entender o motivo. Nos gritos que ainda pareciam ecoar em sua memória sempre que o silêncio se estendia. Agora aquelas criaturas o olhavam daquele jeito? Como se fossem vítimas? 

    Por um instante, o brilho azul dos cristais pareceu mais forte nas paredes úmidas do corredor. Arthur piscou, incomodado. A lembrança das palavras de Charles surgiu em sua mente. 

    Monstros não são pessoas… Até quando?

    Arthur apertou os dentes. 

    Até aparecer um monstro que fale? Até aparecer uma criatura que implore? Até o mundo chamar alguém de inimigo e te recompensar por cortar a garganta dele?

    — Cala a boca… — murmurou.

    A voz saiu baixa, quase engolida pelo corredor. Mas Charles continuava ali, em sua cabeça, com aquele maldito tom calmo, como se já tivesse previsto cada rachadura em sua certeza. 

    Me diga onde está a linha. Eu quero ouvir. A verdade é que você não tem linha nenhuma. Você mata para continuar vivo. Igual a qualquer animal encurralado. Igual a mim.

    — Eu não sou igual a você.

    Arthur golpeou a parede com o punho fechado. A dor atravessou seus dedos, mas não foi suficiente para aliviar o fogo que queimava em seu peito. Pequenos fragmentos de pedra se soltaram e caíram no chão úmido. Ele permaneceu ali, respirando pesado, com a ferida latejando sob a camisa rasgada. Charles estava errado. 

    Tinha que estar.

    Ele matava porque precisava sobreviver. Porque aquelas criaturas haviam invadido seu mundo. Porque, se hesitasse, sua família morreria, seus amigos morreriam, qualquer pessoa que dependesse dele morreria. Não matava por prazer. Não sorria enquanto alguém sangrava diante dele. Não transformava dor em brincadeira. Não era a mesma coisa. Não podia ser a mesma coisa. 

    Quando percebeu, já estava novamente diante do portão gigantesco no salão azul. Arthur ergueu os olhos para a imensidão de pedra que desaparecia na escuridão acima. A pressão sufocante ainda vinha de trás daquela estrutura. Ele inspirou devagar, tentando se acalmar.

    A saída estava bloqueada. 

    Restava o portão.


    [ Nova Missão Desbloqueada ]

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    Mais uma vez, muito obrigado por acompanhar Zona de Conflito.

    Sério, cada comentário, curtida, favorito e mensagem faz uma diferença enorme. Escrever uma história às vezes parece uma maratona, e saber que tem gente caminhando junto deixa tudo muito mais leve.

    Quero aproveitar para contar uma novidade. Pretendo criar um servidor no Discord em breve, para que a gente possa conversar mais de perto sobre a obra, trocar teorias, responder perguntas, compartilhar artes e acompanhar as novidades. Confesso que sou completamente leigo nessa parte e ainda estou aprendendo como criar e organizar tudo (então tenham um pouquinho de paciência comigo kkkkk), mas a ideia é montar um espaço legal para todo mundo.

    E, por fim… espero que vocês estejam com fôlego.

    Porque essa história está só começando.

    Sem exagero, eu já tenho material planejado para mais de mil capítulos. É claro que muita coisa ainda vai mudar durante a escrita — personagens crescem, ideias evoluem e o próprio mundo acaba surpreendendo o autor —, mas a espinha dorsal da história já existe há bastante tempo, e ainda há muita coisa que quero mostrar para vocês.

    Espero, de coração, que continuem nessa jornada comigo.

    Nos vemos no próximo capítulo.

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