O silêncio durou só um instante.

    — Quem está aí? — perguntou Arthur, a voz baixa e firme. 

    Manteve a arma à frente do peito, os olhos varrendo a vegetação em busca de qualquer movimento. Mas só havia o crepitar do incêndio ao longe e os gritos dispersos dos goblins fugindo pelo pasto. Então, uma figura surgiu devagar da mata, as mãos erguidas na altura dos ombros.

    — Calma — disse o homem. — Sou eu.

    Ele se aproximou mais, e Arthur o reconheceu. Era Marcos. Estava coberto de poeira, com a roupa rasgada e arranhões espalhados pelos braços. O cabelo comprido e desgrenhado grudava no rosto suado, e a barba malfeita reforçava ainda mais a aparência de alguém que havia acabado de sair de dentro de um matagal.

    — Você está vivo.

    Marcos soltou um riso curto, sem humor.

    — Por pouco.

    Arthur observou o homem por mais um instante antes de baixar a lâmina.

    — Achei que os montados tivessem te alcançado. 

    — Quase — respondeu Marcos, olhando para trás por reflexo. — Consegui me enfiar em um trecho mais fechado da mata. Os ratos não passaram bem entre as árvores.

    Arthur não respondeu de imediato.

    — Aquele brilho no morro… — disse Marcos. — Foi você tentando avisar a gente, não foi? 

    — Achei que não tivesse entendido.

    — Não entendi na hora — Marcos admitiu. — Vi alguma coisa piscando nessa direção, mas não sabia o que era. Quando o cavalo reagiu e os goblins começaram a sair dos lados da estrada, tudo fez sentido.

    Ele olhou para a fazenda, agora parcialmente encoberta pela fumaça. Arthur acompanhou o olhar por um instante. A frente da propriedade ainda estava tomada por gritos distantes, fumaça e sombras correndo em direções diferentes. 

    — O que aconteceu com os outros? — perguntou Marcos.

    Arthur não tentou suavizar.

    — Morreram.

    O rosto de Marcos endureceu. Por um momento, ele permaneceu imóvel, os punhos se fechando devagar. A mandíbula tremeu uma vez, como se ele tivesse engolido alguma coisa difícil. Seus olhos pareciam úmidos, mas nenhuma lágrima caiu.

    — Entendi.

    A resposta veio baixa.

    Arthur ficou em silêncio. Não havia muito a dizer. Também não tinha certeza de que queria dizer alguma coisa. Marcos respirou fundo e passou a mão pelo rosto, espalhando poeira junto ao suor.

    — Eu tentei avisar. Quando percebi que era uma emboscada, gritei pra todo mundo recuar. Mas ninguém quis ouvir.

    Arthur olhou de novo para ele.

    — Ainda assim, você fugiu.

    Marcos sustentou o olhar por um instante. Depois desviou.

    — Fugi.

    A palavra ficou entre os dois. Não soou como desculpa nem como confissão. Arthur não poderia julgar. Talvez, em outro momento, julgasse. Mas ele também estava vivo porque tinha ficado escondido no morro enquanto o pelotão era esmagado. Não havia muita superioridade moral em sua posição.

    Marcos ergueu o olhar para a fazenda.

    — Eu vi o que você fez com o fogo. Espantou os goblins comuns.

    Arthur não respondeu.

    — Você vai entrar lá, não vai?

    Arthur ficou alguns segundos em silêncio.

    — Há três hobgoblins dentro da casa principal — disse, por fim. — O resto fugiu ou se espalhou pelo pasto. É a melhor chance de eliminar os líderes antes que eles reorganizem a horda.

    — Então me deixa ajudar.

    — Você acabou de escapar vivo de lá.

    — Eu sei.

    — E quer voltar?

    Marcos apertou a lança com força.

    — Quero fazer alguma coisa…

    A resposta saiu firme, mas havia um tremor sutil por baixo. Medo, raiva ou culpa. Talvez os três. Arthur observou o homem com atenção. Seu corpo parecia tenso, mas não parecia inútil. A lança estava firme nas mãos, os pés bem posicionados sobre o terreno irregular. Não parecia alguém que desabaria no primeiro golpe. Ele se lembrava de que Marcos havia alcançado o nível 4, o bastante para ser útil.

    — Nível quatro… — murmurou Arthur.

    Marcos pareceu surpreso, mas só por um instante. 

    — Você consegue ver isso?

    — Consigo.

    Marcos respirou fundo.

    — Então sabe que eu posso ajudar.

    Arthur não gostou da resposta rápida. Também não gostou de precisar concordar com ela. Se aqueles hobgoblins realmente fossem suficientes para fazê-lo subir de nível, dividir a luta diminuiria bastante o lucro. Ainda assim, experiência não serviria de nada se ele morresse antes de recebê-la. Sozinho, enfrentar três hobgoblins dentro de uma casa era uma ideia péssima. Com Marcos, continuava sendo uma ideia ruim, mas havia alguma chance de dar certo.

    — Tudo bem — disse Arthur. — Mas não espere que eu fique para te salvar. 

    — Não estou pedindo isso.

    Arthur avaliou o rosto dele por mais alguns segundos. Havia algo ali, uma tensão difícil de nomear, mas não o bastante para justificar uma recusa. Então passou por Marcos e começou a descer o morro em direção à fazenda. 

    — Vamos antes que eles entendam o que está acontecendo.

    Marcos o seguiu alguns passos atrás.

    A fumaça ajudava a esconder a aproximação. Arthur e Marcos atravessaram o jardim baixo, passaram pela lateral do salão e alcançaram o pátio de convivência. O luxo abandonado parecia ainda mais estranho de perto. Mesas tombadas, cadeiras quebradas, marcas de sangue no piso claro.

    A porta da casa principal permanecia aberta. Arthur parou a poucos metros dela.

    — Alguma coisa? — perguntou Marcos.

    — Eles podem estar esperando atrás da porta.

    Marcos engoliu em seco. Arthur percebeu o movimento e franziu levemente o cenho.

    — Eu vou na frente — disse Arthur. — Fique atento aos lados.

    Marcos assentiu.

    Arthur respirou fundo e segurou o sabre com as duas mãos. Avançou e chutou a porta entreaberta, jogando-a contra a parede interna com um estrondo seco. Por um instante, permaneceu parado na entrada, esperando o primeiro movimento vindo da escuridão. 

    Nada aconteceu.

    Ele entrou devagar, o sabre erguido, os olhos se ajustando aos poucos à penumbra. A sala estava destruída. Móveis virados, quadros partidos e pedaços de tecido espalhados pelo chão. No centro, onde antes provavelmente havia um tapete caro, o piso tinha sido arrebentado. Um buraco largo descia para a terra, escavado de forma irregular. As bordas estavam quebradas, misturando concreto partido e terra escura.

    Marcos parou atrás dele.

    — Essas coisas desceram por aí?

    Arthur encarou o buraco. O som que vinha de dentro era baixo e incompreensível.

    — Parece que sim.

    Marcos apertou a lança com as duas mãos.

    — E agora?

    Arthur ficou alguns segundos em silêncio.

    — Agora a gente desce.

    O buraco descia em uma inclinação irregular.

    Arthur foi primeiro, com o sabre à frente do corpo e uma das mãos próxima à parede para manter o equilíbrio. A terra cedia em alguns pontos sob seus pés, fazendo pequenos torrões rolarem pela passagem. Atrás dele, Marcos descia em silêncio, a ponta da lança voltada para baixo.

    O túnel era mais largo do que parecia visto de cima. Tinha altura suficiente para um hobgoblin passar sem se curvar, e as paredes, embora ásperas, não pareciam naturais. Havia marcas por toda parte. Riscos curtos, fundos em alguns pontos, repetidos centenas de vezes na terra endurecida e nas partes mais moles da rocha.

    Arthur passou os dedos por uma dessas marcas. Eram cortes. Pequenos demais para terem sido feitos por picaretas. Irregulares demais para qualquer ferramenta de verdade.

    — Eles cavaram isso — murmurou Marcos atrás dele.

    Arthur não respondeu, mas pensou a mesma coisa.

    O ar ficava pior a cada passo. Mais úmido, mais pesado, tomado pelo cheiro de terra molhada. Em alguns trechos, raízes atravessavam o teto baixo como veias grossas, e gotas escuras escorriam pelas paredes antes de desaparecer na terra. O som dos passos parecia preso ali dentro, abafado pela passagem.

    Depois de alguns minutos, o túnel terminou. Arthur parou antes de sair. 

    À frente, a passagem se abria em um salão subterrâneo grande demais para ter sido escavado por aquelas criaturas. O teto subia alto, perdido nas sombras, e as paredes eram irregulares como uma caverna natural. Os cortes pequenos e repetidos do túnel desapareciam ali, embora alguns trechos da entrada parecessem ter sido alargados à força.

    No centro do salão havia uma estrutura retangular feita de vinhas entrelaçadas. Elas se prendiam umas às outras como cordas vivas, grossas e retorcidas, formando uma espécie de altar. No meio dele, um cristal vermelho pulsava em intervalos lentos, banhando a terra ao redor com uma luz fraca.

    Os três hobgoblins estavam ali. Um deles permanecia à esquerda da estrutura, com a clava apoiada no ombro. Outro ficava mais atrás, perto de uma abertura menor na parede. O terceiro estava de frente para o túnel, como se já soubesse que alguém viria.

    Arthur prendeu a respiração por um instante ao notar uma quarta criatura.

    Ela era menor que os hobgoblins, magra e curvada, mas havia algo nela que fazia os outros parecerem quase simples. Usava um manto escuro feito de tecido velho e couro mal costurado, com um capuz baixo sobre o rosto. Em uma das mãos, segurava um cajado torto, encimado por um crânio pequeno de ave. Penas secas e ossos finos pendiam da madeira, balançando de leve mesmo sem vento.

    Arthur ativou a Inspeção.

    Goblin Xamã — Nível 5

    O xamã ergueu o rosto escondido sob o capuz. Dois olhos amarelados brilharam na sombra, fixos em Arthur. O cristal vermelho pulsou outra vez, e os três hobgoblins se moveram ao mesmo tempo, fechando espaço ao redor da estrutura.

    Marcos apertou a lança atrás dele.

    — Isso não estava no plano — sussurrou.

    Arthur manteve o sabre erguido.

    — Vamos recuar.

    Marcos não respondeu.

    Por um instante, Arthur achou que ele tivesse entendido. Era óbvio demais para ser discutido. Quatro criaturas. Três hobgoblins, um xamã, todos posicionados no centro de um salão subterrâneo que eles mal conheciam. Recuar era a única opção. Ainda assim, Marcos avançou.

    A lança desceu em direção ao hobgoblin mais próximo, mas a criatura já se movia antes mesmo de o golpe chegar. A ponta raspou no ombro grosso do monstro, arrancando sangue escuro, e o hobgoblin respondeu com um rugido, erguendo a clava.

    — Marcos!

    Arthur apertou os dentes. Marcos tinha avançado por conta própria. Não era problema dele. Uma parte dele queria simplesmente se virar e ir embora. Por um segundo, quase deixou que ele lidasse com a própria estupidez. Mas o pensamento não durou tempo suficiente. Seus pés já estavam se movendo.

    — Droga.

    Arthur avançou.

    A clava do hobgoblin desceu contra Marcos, mas Arthur chegou a tempo de bater o sabre contra o cabo da arma e desviar parte do golpe. O choque atravessou seus braços como uma pancada seca, fazendo seus pés arrastarem na terra. Marcos recuou um passo, ofegante, como se só agora tivesse percebido o tamanho da besteira.

    Não havia tempo para pensar. O xamã ergueu o cajado e uma esfera de fumaça negra se formou diante do crânio de ave. No instante seguinte, a esfera veio contra eles. Arthur empurrou Marcos pelo ombro, e os dois se jogaram para lados opostos. A fumaça acertou o chão entre eles e se espalhou em uma nuvem baixa, sem deixar marca na terra.

    O hobgoblin avançou de novo, a clava baixa, arrastando a ponta pelo chão antes de erguê-la em um golpe pesado. Arthur esquivou para o lado e tentou golpear a lateral da criatura com o sabre, mas uma segunda clava veio pela direita, obrigando-o a interromper o ataque e recuar. 

    Outro hobgoblin havia se aproximado. Os dois se moveram quase ao mesmo tempo, um atacando alto, o outro fechando o espaço pela lateral. Arthur foi forçado a ceder terreno, passo após passo, afastando-se do centro do salão. 

    Marcos ficou com o terceiro. A lança dele se moveu melhor do que Arthur esperava. Primeiro um avanço curto, só o bastante para fazer o hobgoblin reagir. Depois uma finta para cima e um golpe baixo, rápido, buscando o joelho da criatura. O hobgoblin recuou com um rugido irritado, e Marcos deixou escapar um sorriso breve.

    Arthur viu aquilo de relance. Outra esfera de fumaça veio em sua direção.

    Ele girou o corpo. A névoa passou rente ao rosto e se desfez contra a parede, deixando um gosto amargo na garganta. Arthur tossiu uma vez, mas não parou. O hobgoblin da esquerda ergueu a clava e desceu com força. Arthur desviou por pouco. A pancada levantou terra e fragmentos de pedra.

    Por um instante, os dois hobgoblins ficaram fora de posição. Arthur avançou, tentando passar entre eles e alcançar o xamã, mas não conseguiu. As criaturas fecharam o espaço antes que chegasse perto. 

    Arthur recuou, analisando a situação. O xamã não estava apenas atacando. Estava mantendo distância e usando os hobgoblins como parede. E eles obedeciam com uma precisão que não parecia instinto. Enquanto aquela criatura continuasse de pé, eles não conseguiriam quebrar a formação.

    [Você foi amaldiçoado.]

    [Sua agilidade foi temporariamente reduzida.]

    Arthur sentiu na mesma hora. O corpo ficou pesado. Não como cansaço. Seus movimentos ainda obedeciam, mas vinham atrasados, como se o mundo tivesse ganhado uma camada espessa entre a intenção e a ação. 

    Um hobgoblin atacou e Arthur tentou recuar do golpe, mas o corpo respondeu tarde. A clava passou perto do ombro e arrancou um pedaço de tecido da jaqueta. Ele mal teve tempo de ajustar os pés antes que o segundo hobgoblin viesse pela lateral. Dessa vez, precisou bloquear.

    O impacto subiu pelo cabo do sabre e explodiu na mão direita. Arthur prendeu o ar entre os dentes. Sob a bandagem, alguma coisa úmida escorreu até os dedos. A lâmina de osso estalou enquanto uma rachadura fina cortou o sabre desde a base.

    — Droga.

    Os hobgoblins não pareciam afetados. Arthur continuou a se afastar, mas cada passo parecia menor do que deveria. A pressão aumentou. Uma clava veio da esquerda, outra da direita, e ele só escapou porque se deixou cair para trás, rolando pela terra úmida antes de se levantar com dificuldade.

    Marcos ainda lutava contra o terceiro hobgoblin. A lança mantinha a criatura afastada, mas havia algo errado na forma como ele conduzia a luta. Ele recuava quando podia avançar. Avançava quando devia se proteger. Arthur não conseguiu olhar por mais tempo.

    Os dois hobgoblins o empurraram contra a lateral do salão, até a parede rochosa aparecer às suas costas. Continuar esquivando não era mais uma opção. Cada recuo o deixava com menos espaço, e o sabre não aguentaria muitos bloqueios. O hobgoblin da frente ergueu a clava. O segundo veio meio passo atrás, pronto para cobrir a esquiva. Arthur cerrou os dentes, mas não tentou escapar. Em vez disso, avançou para dentro do golpe.

    A clava desceu contra o sabre e o choque atravessou os braços de Arthur, quase arrancando a arma de sua mão. Antes que pudesse recuperar o equilíbrio, o segundo hobgoblin atacou. Arthur saltou para trás e colocou a lâmina à frente do corpo. 

    O sabre de osso se partiu com um estalo seco, espalhando fragmentos brancos pelo ar. Alguns rasgaram o rosto de Arthur. Outros se cravaram em seu ombro e no braço direito. A força do golpe o arremessou para trás, mas foi exatamente na direção que ele queria.

    O xamã estava logo atrás. Arthur caiu com os pés raspando na terra, mas não perdeu o movimento. Antes que o goblin encapuzado pudesse recuar, sua mão esquerda puxou a faca da cintura. O xamã ergueu o cajado, mas foi tarde demais. Arthur avançou o último passo e cravou a faca no peito da criatura, enterrando a lâmina até o cabo sob o manto escuro. 

    Ele torceu a faca e uma mensagem surgiu à sua frente.

    Você acertou um golpe crítico.

    O cajado caiu no chão e a fumaça ao redor começou a se dissipar. O crânio preso à madeira torta rachou com o impacto, liberando um pulso escuro que se espalhou pelo chão em um lampejo breve.

    A umidade desapareceu de uma vez. A terra molhada se contraiu, perdeu o brilho e ficou seca, como se todo o salão tivesse sido drenado em silêncio. No centro da estrutura de vinhas, o cristal vermelho pulsou uma última vez e se desfez junto com a onda escura, sem deixar qualquer sinal de que estivera ali. 

    [Você derrotou um Goblin Xamã.]

    [Você ganhou experiência.]

    [A maldição foi cancelada. Sua agilidade foi restaurada.]

    Arthur puxou a faca de volta, ofegante. O corpo voltou a responder, mas o alívio durou menos de um segundo.

    Um grito ecoou pelo salão. Arthur virou a cabeça a tempo de ver o hobgoblin que enfrentava Marcos cair de lado, com a lança cravada em um dos olhos. Marcos também caiu, batendo as costas contra a parede da caverna. Parecia ter apagado. 

    Os dois hobgoblins restantes rugiram ao mesmo tempo e um deles avançou contra Marcos. Arthur tentou bloquear o caminho da criatura, mas o hobgoblin tomado pela raiva ergueu a clava e atacou. Arthur saltou para trás no último instante. A arma passou diante dele e atingiu o chão com força, levantando terra e poeira. 

    A criatura puxou a clava de volta, pronta para atacar novamente. Antes que desse o primeiro passo, uma lança rasgou a cortina de poeira. 

    A ponta entrou no pescoço do hobgoblin com um som úmido, afundando até fazer a criatura travar no lugar. Por um instante, ela permaneceu de pé, os dedos ainda fechados ao redor da clava. Logo o sangue escorreu pela garganta, e o corpo pesado caiu de joelhos. 

    Do outro lado da poeira, Arthur estava ofegante ao lado do hobgoblin morto por Marcos. Sua jaqueta estava rasgada em vários pontos, encharcada pelo sangue que descia do braço e pingava dos dedos. 

    [Você derrotou um Hobgoblin.]

    [Você ganhou experiência.]

    O último hobgoblin ficou imóvel por um instante. A poeira ainda se espalhava pelo salão, escondendo parte do corpo caído à sua frente. Três companheiros mortos.

    Arthur caminhou até a clava caída ao lado de um dos hobgoblins mortos e a segurou com as duas mãos. O peso quase o fez perder o equilíbrio. Era grande demais, feita para uma criatura com braços mais longos. Não era uma arma que ele pudesse manejar bem, mas era melhor do que nada. Resistindo à dor, ele avançou em direção ao hobgoblin. 

    Correu com o que restava de força, arrastando a clava pelo chão. O hobgoblin também veio em sua direção. Mas Arthur não tentou golpear. Usou o impulso da corrida e arremessou a arma contra a criatura, deixando o peso fazer o trabalho. O hobgoblin bloqueou por reflexo, mas o golpe o fez vacilar, os pés afundando na terra. Por um segundo, a criatura perdeu Arthur de vista atrás da própria defesa. 

    Era tudo o que ele precisava. Arthur passou pela lateral. A dor no braço fez sua visão escurecer por um instante, mas ele forçou o corpo adiante. Quando o hobgoblin tentou girar, Arthur já estava atrás dele. Chutou a parte de trás do joelho da criatura. A perna cedeu e o hobgoblin caiu de joelhos, rugindo. 

    Arthur se lançou nas costas da criatura e fechou os braços ao redor de seu pescoço. O hobgoblin soltou a clava na mesma hora. As mãos imensas foram direto para o braço de Arthur, tentando arrancá-lo dali, mas os dedos escorregaram na jaqueta encharcada de sangue. A criatura rugia, torcia o corpo e jogava o peso para os lados. Cada movimento rasgava dor pelo braço ferido de Arthur, mas ele apertou mesmo assim. 

    O rugido do hobgoblin começou a falhar. O corpo enorme tombou para frente, levando Arthur junto. Ele caiu sobre a criatura, ainda com os braços presos ao pescoço dela, e só soltou quando sentiu que os músculos sob ele tinham parado de reagir. 

    Por um momento, ficou apoiado ali, respirando mal, o rosto próximo demais da pele quente e fedida do monstro. Ele se afastou devagar e ficou de joelhos, os braços tremendo. Ainda assim, não podia arriscar. Arthur levou a mão à cintura, puxou a faca e se inclinou sobre o hobgoblin. Com o pouco de força que restava, passou a lâmina pelo pescoço da criatura.

    O corpo estremeceu uma última vez.

    [Você derrotou um Hobgoblin.]

    [Você ganhou experiência.]

    [Você subiu um nível.]

    Arthur ficou parado, ainda ajoelhado ao lado do corpo, respirando com dificuldade. A mensagem brilhava diante de seus olhos, insistente, quase provocadora. Em outro momento, teria aberto o status na mesma hora. Queria saber quanto aquela luta tinha rendido. Mas não conseguiu.

    O sabre estava destruído, o braço latejava sob a jaqueta encharcada, e cada respiração parecia arranhar o peito por dentro. O salão subterrâneo, antes úmido e vivo, agora estava seco e silencioso. Onde o cristal vermelho estivera, restava apenas a estrutura vazia de vinhas retorcidas.


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