Arthur ficou parado por mais alguns segundos, ainda ajoelhado diante do hobgoblin morto. A mensagem de nível desapareceu aos poucos, mas ele não abriu a janela de status. O corpo inteiro doía, e o silêncio do salão parecia pesar sobre seus ombros. Respirou fundo, tentando se convencer a levantar, quando algo chamou sua atenção perto da cintura da criatura.

    Preso a uma tira de couro grosseira, meio escondido sob a pele grossa do hobgoblin, havia uma pequena pedra vermelha. Não parecia uma esfera como as outras que havia encontrado dentro das criaturas. Era achatada, irregular, marcada por runas minúsculas que se cruzavam em desenhos complexos. Ao redor dela, vinhas escuras se entrelaçavam como uma moldura viva, lembrando a ornamentação bizarra da estrutura no centro do salão.

    Arthur puxou o item com cuidado. As vinhas estavam secas e rígidas, mas se soltaram da cintura do hobgoblin como se esperassem por aquilo. Assim que a pedra tocou sua mão, uma sensação estranha subiu por seus dedos.

    Arthur ativou a Inspeção.

    [Chave da Masmorra

    Descrição: Uma chave mística capaz de transportar o portador para uma masmorra misteriosa.

    Rank: Não ranqueado.] 

    Ele olhou para a janela. 

    — Masmorra…

    No instante em que se concentrou na chave, algo se abriu em sua mente. Não uma imagem clara, mas uma direção. Um ponto exato, próximo à estrutura de vinhas no centro do salão. Arthur olhou para lá. Onde o cristal vermelho estivera, restava apenas o altar vazio, retorcido e silencioso. 

    Ele fechou os dedos ao redor da pedra. Podia ser a origem daquele lugar, ou só mais uma armadilha. De qualquer jeito, não ia deixar para trás. 

    — Cof, cof…

    A tosse seca ecoou perto da parede e Arthur virou o rosto.

    Marcos estava caído onde havia batido as costas contra a rocha. Mexia-se com dificuldade, uma das mãos apoiada no chão, a outra contra o próprio abdômen. O rosto estava contraído, e a respiração saía pesada. Por um instante, Arthur quase esqueceu a chave. Guardou a pedra vermelha no bolso e se levantou. As pernas responderam mal, mas responderam. 

    — Está vivo? — Arthur perguntou.

    Marcos ergueu a cabeça devagar.

    — Acho que sim…

    A voz saiu fraca.

    Arthur se aproximou, mas algo naquela cena não encaixava. A dor estava ali. O hematoma também. Havia sangue na roupa, poeira grudada no rosto e marcas da pancada contra a parede. Mesmo assim, o olhar de Marcos não acompanhava o resto. Não havia pânico. Não havia confusão. Nem a urgência de quem tinha acabado de quase morrer.

    Era pouco para chamar de certeza, mas o corpo de Arthur reagiu antes da mente. Uma sensação fria atravessou sua nuca e ele saltou para trás. Uma lâmina passou onde seu peito estava um instante antes. Mesmo assim, não escapou por completo. A faca rasgou sua camisa e abriu um corte vertical em seu peito, da clavícula até perto das costelas. O sangue jorrou quente, escorrendo de imediato pela pele e manchando o tecido já rasgado. 

    Arthur arregalou os olhos. Por um segundo, não entendeu. Marcos estava de pé. Não cambaleava, nem tentava se equilibrar. A mão que antes parecia pressionar o abdômen segurava uma faca estreita, quase sem reflexo. A expressão de dor havia desaparecido de seu rosto com uma facilidade absurda.

    Arthur tentou firmar os pés, mas o corpo não respondeu direito. A força sumiu das pernas de uma vez e ele caiu sentado na terra seca.

    Marcos inclinou a cabeça enquanto sorria.

    — Você ainda conseguiu evitar.

    A voz não parecia fraca. Não havia cansaço nela, nem dor, nem o menor vestígio da dificuldade que ele parecia sentir momentos antes.

    Arthur pressionou a mão contra o corte no peito, tentando conter o sangue. A ardência atravessava sua pele em ondas quentes, mas havia outra coisa junto. Uma dormência pesada se espalhava por seus braços e pernas. Ele tentou se levantar, mas o corpo mal respondeu. O máximo que conseguiu foi apoiar uma das mãos na terra e se empurrar alguns centímetros para trás.

    Marcos observou o movimento com o mesmo sorriso.

    — Impressionante — disse ele, erguendo a faca diante dos próprios olhos, como se avaliasse o corte. — Eu mirei no coração. 

    — Por que está fazendo isso? — Arthur perguntou. 

    — Por quê? — Marcos repetiu, quase decepcionado. — Essa é sempre a primeira pergunta, não é? Como se existisse uma resposta que deixasse tudo mais confortável.

    Marcos deu um passo à frente e Arthur recuou outro palmo, disfarçando a tensão no rosto. A terra raspou contra sua roupa e grudou no sangue que escorria por sua jaqueta rasgada. 

    — Não olha para mim desse jeito, Arthur. Você entende conveniência muito melhor do que finge. Eu vi o jeito que você olhou para o capitão naquele dia. Vi sua mão fechar. Vi seus olhos. 

    Arthur franziu o cenho.

    — Eu não fiz nada.

    — Não. — Marcos sorriu um pouco mais. — Porque tinha gente olhando. Porque alguém, em algum momento, ensinou que certas coisas não se fazem. Porque você ainda precisa acreditar que é diferente de mim.

    Arthur se afastou mais uma vez e Marcos inclinou a cabeça, acompanhando cada movimento. 

    — Cuidado. Quanto mais você força o corpo, mais rápido isso se espalha. E seria uma pena acabar a conversa antes da parte interessante. 

    — Não tem conversa.

    — Tem, sim. Você só não gosta do assunto.

    Marcos começou a caminhar de lado, sem pressa. A faca permanecia solta em sua mão, quase esquecida. Ele não parecia ansioso para terminar. Parecia aproveitar cada momento. 

    — Você lembra o que aconteceu quando disseram que os presos tinham morrido? — perguntou ele. — Eu estava perto. Vi os rostos. Poucos comemoraram em voz alta, claro. Ainda temos educação para fingir pesar. Mas os ombros relaxaram e as pessoas respiraram melhor. Você não foi exceção.

    Arthur permaneceu em silêncio enquanto continuava a se afastar. A cada recuo, jogava o corpo em direção ao altar do centro. Os dedos da mão livre deslizaram até o bolso, procurando a pedra vermelha sob o tecido encharcado de sangue.

    — Engraçado, não é? — Marcos continuou. — Um monte de gente morta, devorada por monstros, e todos ficaram aliviados. Porque eram criminosos. Porque davam medo. Porque talvez fossem se tornar um problema. Então tudo bem. A morte deles virou uma boa notícia.

    — Isso não tem nada… a ver com matar pessoas. — As palavras saíram espremidas entre os dentes. 

    Marcos riu, mas sem som. Apenas um sopro pelo nariz.

    — Tem tudo a ver. 

    Ele se agachou diante de Arthur por um instante, perto o bastante para que o cheiro de sangue em sua roupa se misturasse ao cheiro de terra da caverna. A faca pendia entre os dedos. 

    — Mas tem uma parte da história que eles contaram errado.

    Arthur não respondeu. O sorriso de Marcos aumentou devagar.

    — Não foram as criaturas.

    O corpo de Arthur ficou imóvel. Por um segundo, até a dor pareceu diminuir.

    — O quê?

    — Os presos — disse ele, como se explicasse algo simples. — Não foram os monstros que mataram todos eles. 

    Arthur sentiu a mão afundar na terra. O ponto indicado pela chave estava logo atrás, mas seus olhos permaneceram presos ao homem diante dele. Marcos passou o polegar pela lateral da faca, limpando uma mancha escura que já havia secado na lâmina.

    — Fui eu. 

    — Você…

    — Charles — ele disse. 

    Arthur ficou imóvel. O nome demorou pouco para encaixar. Charles. O irmão do Carniceiro. Transferido para o presídio de Guanambi pouco antes do surgimento das janelas. O homem que o povo da cidade queria ver morto, e que todos acreditavam ter morrido, devorado pelas criaturas junto com os outros presos. Marcos sorriu ao perceber que ele havia entendido, mas agora havia algo diferente naquele sorriso. 

    — Marcos serviu enquanto precisava servir. Mas você pode me chamar de Charles. É mais honesto.

    Arthur apertou os dentes.

    — Seu doente.

    Charles inclinou a cabeça, quase curioso.

    — Viu? É isso que eu acho bonito em você. Você ofende rápido, mas pensa devagar. Aquelas pessoas morreram e a cidade respirou aliviada. Então me diga, Arthur, onde está o crime? No resultado que todos aceitaram ou no fato de eu não ter esperado uma criatura fazer o trabalho sujo?

    Arthur não respondeu.

    — A diferença é que algumas pessoas precisam esperar os monstros fazerem o serviço para manterem as mãos limpas — Charles continuou. — Eu só parei de terceirizar. 

    Charles abriu um sorriso pequeno.

    — Você acha que eu sou louco?

    — Eu acho que você é um desgraçado.

    — Melhor. Mais honesto.

    Charles parou. Seus olhos ficaram mais vivos, como se saboreasse a palavra. O sorriso diminuiu, mas não desapareceu. 

    — Sabe qual foi a primeira coisa que eu entendi quando tudo começou? Não foram os níveis. Nem as habilidades. Foi uma coisa muito mais simples. As regras caíram. Tudo o que segurava as pessoas no lugar sumiu de uma vez. Lei, polícia, reputação… tudo. Agora todos podem mostrar quem verdadeiramente são. 

    Charles se levantou e deu outro passo, a faca girando em sua mão.

    — E tem mais. Não são só monstros.

    O sorriso voltou a crescer em seu rosto.

    — Você também descobriu, não foi? Ou ainda não? Pessoas também dão experiência. Menos que algumas criaturas, mais que outras. Depende do valor que o mundo reconhece nelas. — Ele girou a lâmina entre os dedos. — É uma boa notícia. Não é?

    Arthur sentiu a boca ficar amarga.

    — Boa notícia?

    — Claro. Pense bem. Antes, um homem fraco podia passar a vida inteira obedecendo a homens piores do que ele. Mas agora qualquer um pode tomar poder com as próprias mãos. Não precisa de sobrenome. Não precisa de cargo. Basta ter coragem de fazer o que é preciso.

    — Você só está usando o fim do mundo como desculpa.

    A faca parou de girar.

    — E você não?

    Arthur não respondeu. Charles se aproximou um passo, agora sem o mesmo ar despreocupado.

    — Você matou quantas criaturas desde que isso começou? Dezenas? Centenas? E não venha me dizer que foi só para proteger alguém. Eu vi você lutar. Vi o jeito que seus olhos mudam quando vence. Você gosta da sensação. Gosta de ver os números subindo. Gosta de saber que não é mais aquele homem fraco.

    — Monstros não são pessoas.

    — Até quando? — Charles perguntou de imediato. — Até aparecer um monstro que fale? Até aparecer uma criatura que implore? Até o mundo chamar alguém de inimigo e te recompensar por cortar a garganta dele? Me diga onde está a linha. Eu quero ouvir.

    Arthur manteve a boca fechada. Charles apontou a faca para ele.

    — A verdade é que você não tem linha nenhuma. Você mata para continuar vivo. Igual a qualquer animal encurralado. Igual a mim. A diferença é que você coloca nomes bonitos no caminho para dormir melhor. 

    — Se todo mundo vai morrer — Charles continuou, a voz ficando mais baixa — qual o sentido de se prender a uma moralidade feita para um mundo que não existe mais? O universo inteiro foi jogado em meio ao caos. Os deuses, ou seja lá o que estiver por trás disso, não perguntaram se queríamos participar. Só abriram os portões e colocaram as recompensas. E você quer me dizer que a resposta certa é continuar fingindo civilidade?

    Arthur ergueu os olhos para ele.

    — Ainda dá para escolher não ser um lixo.

    Charles apenas encarou Arthur. A tranquilidade começou a rachar em seu rosto, primeiro nos olhos, depois na boca. O sorriso se desfez lentamente, deixando à mostra uma expressão mais crua.

    — Você é decepcionante.

    Arthur não desviou o olhar enquanto Charles se aproximou.

    — Eu realmente achei que você entenderia. — A voz dele ganhou um tom mais duro. — O mundo está arrancando você da sua vidinha patética e colocando algo maior nas suas mãos, e você ainda quer se ajoelhar diante das mesmas correntes.

    Arthur sentiu o sangue escorrendo pelo pulso. A palma estava molhada, escorregadia, mas seus dedos se fecharam ao redor da chave. 

    — Você fala demais.

    Charles ficou imóvel. Por um instante, Arthur achou que ele fosse rir. Mas Charles apenas apertou a faca.

    — E você continua fingindo. Então não há por que continuar a conversa.

    A distância entre eles começou a diminuir. Charles avançou sem pressa, um passo de cada vez, enquanto batia a lateral da lâmina contra a palma da mão. O sorriso puxava o canto de sua boca, mas ele parecia se obrigar a contê-lo. Respirava fundo pelo nariz, devagar. A faca subia e descia contra sua pele, marcando o ritmo dos passos. 

    — Acho que está na hora da parte divertida. Se você se esforçar um pouco, talvez aguente bastante tempo.

    Ele ergueu a faca devagar, como se escolhesse por onde começar.

    — E, se aguentar até o fim, eu posso te mostrar como você é por dentro. 

    Arthur não respondeu. Apertou a chave da masmorra com toda a força.

    A sombra se abriu atrás de Arthur como uma boca escura. Por uma fração de segundo, ele viu o rosto de Charles distorcido pela surpresa. Depois, a terra sob seu corpo desapareceu. O chão, a caverna e a lâmina diante de seus olhos se partiram em formas escuras. O corpo de Arthur foi puxado para trás, como se afundasse em água gelada. 

    A última coisa que ouviu foi a faca batendo contra a mão de Charles, antes que a escuridão engolisse tudo. 


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