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    O QG do Exército ocupava o ponto mais alto de Velunthar.

    Não era uma fortaleza como as muralhas de Ga-el ou os bastiões de Yhe-for. Era um retângulo de pedra fechado por muralhas baixas, grosso o bastante para segurar uma invasão pequena e alto o bastante para lembrar a vila de que o Império estava ali. Dentro ficavam o pátio de treino, o depósito de armas, a sala de comando, os alojamentos da guarnição e o prédio comprido onde as crianças de Velunthar passavam pelo colégio militar obrigatório antes de serem enviadas à Academia.

    A única torre subia no canto oeste do muro, o lado voltado para o mar, com três andares de pedra, escada estreita e janelas abertas para o vento salgado.

    De dia, dali se vigiavam barcos, névoa sobre a água e qualquer mancha escura que pudesse se aproximar da costa antes de chegar à praia. Em tempos antigos, talvez tivesse servido mais para invasores marítimos do que para monstros nas ruas.

    Dois soldados já ocupavam o topo quando ele chegou.

    Um vigiava o mar pela abertura oeste, com a lança apoiada junto ao corpo e a capa fechada até o queixo. O outro mantinha atenção sobre a vila, acompanhando as patrulhas que cruzavam as ruas abaixo. Nenhum dos dois reclamou quando Marco apareceu com o telescópio, mas ambos abriram espaço com a rigidez silenciosa de quem não entendia por que alguém subiria ali para olhar estrelas no meio de uma operação.

    Ele escolheu um trecho livre do parapeito e apoiou o telescópio óptico na pedra.

    O instrumento parecia pequeno demais entre muralha, lanças, neve acumulada e vento salgado. Ele ajustou a inclinação com os dedos enrijecidos pelo frio, conferiu a lente e procurou uma faixa limpa do céu.

    As estrelas apareciam em blocos nítidos, separadas por restos de nuvem arrastados pelo vento. A noite estava boa para observar, mas Marco não buscava nada específico. Estava cansado do galpão, das correntes, das ampolas e da sensação de não saber o que fazer.

    Ali em cima, pelo menos, havia estrelas.

    Aquilo ele conhecia. Distância, brilho, repetição, posição no céu. Antes de Taeris, antes de essência, antes de monstros e garotas acorrentadas, aquele tinha sido o território dele.

    Marco aproximou o olho da ocular.

    Lá embaixo, Velunthar continuava acordada.

    Patrulhas cruzavam as ruas em pares ou trios, lanternas baixas para não cegar quem vinha de frente. Soldados mantinham posição nas esquinas, capas fechadas contra o vento, mãos perto das armas. Nas casas, poucas janelas continuavam acesas. A maior parte da vila permanecia trancada, escura e quieta.

    O galpão permanecia iluminado.

    Um impacto leve soou do lado de fora.

    Marco afastou o rosto da ocular no instante em que Lou-reen pousou no parapeito. Ela saltara do pátio até ali, três andares acima, aterrissando com precisão suficiente para só deslocar a neve acumulada na pedra.

    Os dois soldados se viraram no mesmo instante.

    — General.

    Lou-reen olhou primeiro para o mar, depois para a vila, e então para os dois.

    — Desçam por alguns minutos. Bebam algo quente.

    O soldado mais perto da abertura oeste hesitou.

    — General, a vigia—

    — Eu farei isso.

    A resposta encerrou a dúvida e os dois soldados se viraram no mesmo instante e seguiram para a escada. O primeiro desceu sem olhar para trás. O segundo ainda conferiu o mar uma última vez antes de desaparecer pelo vão escuro.

    Marco olhou para a borda por onde ela tinha surgido, depois para a escada atrás de si.

    — A escada funciona.

    — Eu sei.

    Lou-reen passou os olhos pelo telescópio, pelo céu limpo e pela vila acesa em pontos pequenos abaixo.

    — Sabia que estaria aqui.

    Marco voltou a apoiar a mão no instrumento.

    — Era o lugar mais alto. O céu está limpo.

    Lou-reen se aproximou do parapeito, mas não olhou pela lente.

    Primeiro, olhou para o galpão.

    — E o galpão fica à vista.

    Lou-reen continuou em pé ao lado do parapeito. A postura era a mesma de uma reunião de comando: reta, firme, sem descanso real no corpo.

    — Terminamos a terceira varredura.

    Marco deixou o telescópio de lado.

    — Agora?

    — Há pouco.

    Ela apontou com o queixo para as ruas abaixo.

    — Dividi a guarnição por setores — Lou-reen disse. — Colégio, casa da Reinna, casa da Halikah, depósitos, vielas do lado norte, galpões de pesca e saída para o mar.

    Marco olhou para a vila.

    As lanternas se moviam devagar entre as ruas, abrindo manchas pequenas de luz na neve.

    — Com os radares?

    — Em todas as rotas.

    Lou-reen tirou uma luva, esfregou os dedos uma vez para devolver movimento à mão e recolocou o couro.

    — Não encontramos outra fonte. Fora o galpão, Velunthar está limpa para aquele sinal.

    Marco voltou os olhos para o retângulo iluminado abaixo.

    — Então, se há outro lugar sendo usado…

    — Não está emitindo a mesma assinatura — Lou-reen completou. — Ou já foi esvaziado.

    Marco passou a mão pela lateral do telescópio.

    — Ou não fica na vila.

    Lou-reen olhou para ele.

    — Estariam criando essas coisas fora de Velunthar e trazendo para cá?

    — Talvez.

    Marco continuou olhando para o galpão.

    — Mas por que usar pessoas daqui? Por que atacar aqui se a base fica em outro lugar?

    Lou-reen ficou em silêncio por alguns segundos.

    Abaixo, uma patrulha cruzou a rua entre o QG e o galpão.

    — Porque Velunthar é pequena — ela disse. — Rotina previsível, colégio militar perto, estradas ruins, mar de um lado, poucas entradas. Uma criança some e a vila demora a entender se é fuga, acidente, desobediência ou sequestro.

    Marco olhou para as casas escuras.

    — Isso explica os desaparecimentos.

    — Explica o começo deles — Lou-reen disse. — Não explica a noite passada.

    Marco olhou para ela.

    — Reinna?

    Lou-reen manteve o olhar nas ruas abaixo.

    — Se queriam continuar escondidos, soltar Reinna foi um erro. Trouxe o corpo para nós. Confirmou que os desaparecidos ainda estavam ligados à vila. Fez Marlen reconhecer a filha. Fez Halikah ver a amiga daquele jeito.

    Marco voltou os olhos para o galpão. A luz continuava acesa.

    — Então não foi só descuido.

    — Talvez não.

    Lou-reen apoiou as mãos no parapeito.

    — Halikah passou o dia de ontem comigo nas buscas. Ela consegue sentir a diferença entre essência comum e coisa errada no meio da vila.

    — Ela é boa — Marco disse.

    — Boa o bastante para atrapalhar.

    — Você acha que Reinna foi solta por causa disso?

    — Acho que é cedo para cravar qualquer coisa. Mas depois que Halikah começou a ajudar, uma das desaparecidas voltou transformada perto dela. Isso eu não vou tratar como coincidência.

    Marco passou os dedos pela lateral do telescópio.

    — Para alguém reagir tão rápido, precisaria saber que ela estava com você.

    Lou-reen demorou um instante.

    — Ela andou comigo em ruas abertas, cercada de soldados. Muita gente viu.

    — E se não foi só isso?

    Lou-reen olhou para o galpão.

    — Então alguém contou.

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