Índice de Capítulo

    — Nós ainda tínhamos cinquenta anos, não é mesmo? — Celyn indagou, seus dentes cerrados e as têmporas pulsando. — Por quê? Por que a Árvore enviou alguém para perto d’Ele?

    Ela voava em disparada por sobre a floresta; suas asas quase nem se viam, de tão rápido que batiam, e os cabelos pareciam tentáculos ao vento.

    Seu coração martelava frenético, por pouco não conseguindo segurar tamanho desespero. Pela primeira vez em séculos, a mais amada pela natureza voltava a sentir aquela emoção que lutava para consumir sua vontade.

    Seu corpo todo tremia, gotículas de seu suor eram levadas pelo vento e a respiração já saía do seu controle.

    O medo era, realmente, algo que ela odiava sentir.

    — Foi praticamente ontem a última manutenção no selo… — Ela ofegava a cada palavra e a mandíbula tremia, chocando os dentes em sons rítmicos de pavor. — Ele não devia já estar corroido a esse ponto, não é mesmo?

    A restrição mencionada por ela fora lançada sobre a Árvore dos Espíritos, mas não contra ela. Era um bloqueio que acorrentava um certo Espírito nas profundezas do Mundo dos Espíritos, impedindo sua conexão com toda e qualquer criatura que acessasse aquele mundo.

    Tal barreira não era definitiva, já que a entidade mencionada sempre lutava para se libertar, corroendo a marca uma e outra vez; por conta disso, a cada século, a Hosikati e seus Hayim eram responsáveis pela manutenção daquele lacre.

    Ao longo dos anos, por muitas vezes o ser quase se libertou, mas a rainha era rápida em consertar a corrosão e impedir o desastre que viria com a libertação daquela entidade.

    Contudo, algo parecia ter mudado daquela vez, já que fazia apenas cinquenta anos que a Celyn consertou o selo, mas ele já mostrava sinais de corrosão avançada.

    — Hunf! Hunf! Hunf! — Ela já tinha perdido completamente o controle sobre a respiração. O pavor era praticamente uma emoção nova para ela, algo sobre o qual ela não tinha controle algum. — PORRA!!! Cadê o Arzel quando ele é necessário!!!?

    > Você precisa se acalmar.

    Múltiplas vozes soaram sussurradas ao seu lado, ela olhou naquela direção e seus nove Hayim flutuavam ao seu redor, suas faces derretidas tentando confortá-la.

    — Eu… — Sua voz foi cortada pelas arfadas. Lembrando de dois milênios atrás, da calamidade que aquele Espírito Corrompido tinha causado, de como quase perdeu tudo e todos, o horror em seu peito só aumentava. — Estou com medo… e se aquilo se repetir? Eu não quero ver vocês sofrendo… de novo.

    > Haaa. Eu sabia.

    O Hayim com o símbolo da água estampado em seu pequeno rosto suspirou, observando cada um dos seus semelhantes, “apreciando” aquelas suas versões distorcidas e horripilantes. No fim, voltou a olhar para a rainha Lihyf, que já tinha lágrimas manchando sua face, antes de serem carregadas pela brisa.

    > Você ainda se culpa por isso.

    Sob os “olhares” de seus Hayim, Celyn nada respondeu, se limitando a apenas baixar a cabeça

    > Criança.

    A Lihyf ergueu a cabeça, era o Hayim da flora a chamando. Fixou o olhar naquela marca sobre o rosto da pequena criatura e…

    Após sete milênios naquele mundo, se tornava estranho ser chamada daquele jeito.

    > Você é a mais amada pela natureza.

    No mesmo instante em que aquela fala terminou, vários pássaros dispararam em sua direção como uma erupção vinda da floresta, batendo as asas em sintonia com seus cânticos.

    > Você está isenta de toda e qualquer culpa pela nossa decisão naquele tempo…

    — Se eu apenas tivesse…

    > Não existe “se”. Aconteceu daquele jeito e ponto final; agora, a vida que segue. Porém, não tem como a tua vida seguir se ainda estiver ancorada naqueles tempos.

    Os pássaros tinham se amontoado ao redor da Hosikati, voando junto com ela, suas canções acalmando seu coração.

    — Certo! — Passou as mãos pelo rosto e limpou as lágrimas. — Vamos fazer is…

    Sua voz travou, assim como as cantorias dos pássaros.

    — A Árvore…

    As folhas da grande Árvore dos Espíritos perdiam lentamente o seu magnífico brilho dourado, que era substituído por um carmesim vivo e vibrante; não se sabia se era uma ilusão de ótica, mas as folhas tomadas por aquele vermelho denso logo se tornavam líquidas como sangue.

    Celyn voltou a se tornar um borrão, deixando os pássaros para trás. Como o Hayim da flora tinha dito, ela precisava deixar o passado e focar-se em salvar o presente.

    Quando a Árvore dos Espíritos estava perto, se lançou como um jato para baixo e, mesmo sem nenhuma ação dela, os vegetais no caminho curvaram seus galhos para os lados, formando um túnel onde ela pôde passar sem nenhuma dificuldade.

    Seus pés rastejaram sobre as folhas caídas, quando ela pousou em alta velocidade. Ainda levada pela inércia do voo, passou pela parede de vinhas verdes e folhas douradas; o impulso foi tanto que ela deu um giro antes de parar por completo, virada para o tronco curvado em “S”, os olhos afiados sobre o “berço”.

    — Quem…? — Nalgum momento, talvez por hábito, Celyn assumiu aquela faceta rígida e sua voz soou como os ventos trazidos pelo inverno perpétuo do Mar Nevasco. Todos os presentes, que já estavam em silêncio e temerosos por conta da aura que começava a afetar aquele lugar, arregalaram os olhos, ainda mais preocupados, quando viram lanças incontáveis, feitas de todos os elementos possíveis, se formarem apontando para o “berço” da árvore. — I mani loyi a nga kwalaho? (Quem está aí)?


    [Mundo dos Espíritos]

    Hiryn olhava com estranheza para o cenário diante dos seus olhos.

    Com o sobrolho franzido e os olhos afiados, com alguma faísca de confusão, ela permanecia imóvel, olhando para as nove colossais ilhas lá na frente.

    Ela não entendia ao certo o que havia se passado, só sabia que, de um segundo para o outro, escutou um sussurro e, então, já estava ali.

    Aquelas nove ilhas não eram meras ilhas comuns flutuantes, cada uma era feita de um dos elementos que os Lihyfs podiam manipular.

    Água, Fogo, Terra, Vento, Gelo, Raio, Metal e Flora; aquelas ilhas eram feitas daqueles elementos, formando um círculo.

    Havia até uma ilha feita de ruídos… uma ilha feita de Som.

    Todas aquelas nove ilhas tinham símbolos místicos em toda a sua superfície, agora similares às Runas, mas que não eram exatamente aquilo, assim como as correntes que saíam delas.

    Nove correntes enormes, maiores que aquelas usadas para prender dragões, se extinguiam de cada ilha, oitenta e uma correntes no total, feitas dos mesmos elementos das ilhas, e se enroscavam no que deixava a Hiryn um tanto confusa, sem saber se ficava fascinada ou assustada.

    Era uma gigantesca água-viva tingida de um vermelho sanguinário, com, pelo menos, meio quilômetro de altura e incontáveis tentáculos.

    A jovem Lihyf não sabia se era culpa daquela criatura, mas as correntes estavam quase todas manchadas de sangue; inclusive, ela só conseguia ver as correntes de Som justamente por estarem quase que totalmente cobertas por aquele sangue.

    Naquele lugar, com seus 2,57 metros de altura, Hiryn parecia um pequeno ponto perdido diante de tudo aquilo.

    “Oh! Já faz tempo que a Árvore não envia ninguém aqui.” — Os olhos dela escancararam-se. Aquela voz grossa, rouca e cansada soava diretamente em sua mente, e, por alguma razão que desconhecia, sentia que era a voz daquela água-viva colossal. — “Olha só, esse seu tom de pele… então você é uma daquelas que foram criadas para rivalizar com as Hermês.”

    Hiryn ficou estática. Aquele sobrenome… não era o mesmo mencionado pela sua capitã?

    “Bem, é claro que o resultado foi uma falha, afinal, não têm como replivar a criação do Soberano, né não?” — A voz deu indícios de rir. — “Devo dizer, a Mãe realmente se passou na vossa criação.”

    O corpo da Lihyf tremeu de leve. Ela não conseguia entender o que aquela criatura queria dizer, mas de uma coisa ela tinha certeza: existia apenas um ser ao qual os Espíritos se referiam como “Mãe”

    … Aquela que tinha como Títulos Honrosos [Deusa Mãe], [Senhora da Fertilidade] e outros…

    A Deusa que há muito os Lihyfs adoravam, aquela que acabou como um dos cinco deuses corrompidos no fim da grande Guerra dos Mil Anos…

    A [Mãe Natureza].

    Hi wena… hi wena mani (Quem… quem é você)? — Ela finalmente teve coragem de perguntar.

    “Oh! Mina (Eu)?” — A voz soava na mente da Lihyf, mas a criatura não movia sequer um tentáculo. — “Ndzi ntsena loyi a lavaka ku va ni munghana hakunene (Apenas alguém querendo muito ter um amigo).”

    Hiryn ainda não sabia o peso daquelas palavras. Não tinha como saber.

    Wena-ke? Wa swi lava ku va munghana wa mina (E você? Quer ser minha amiga)?”


    [Mundo Real]

    O choque inicial causado pela chegada da rainha se desfez no milissegundo seguinte e todos os presentes se prepararam para qualquer situação, imbuindo Ehne em suas armas de madeira e escudos de pele. Afinal, excluindo o Santo e a Hosikati, todas ali eram Lihyfs negras; eram guerreiras, com zero capacidade de usar elementos.

    Todas posicionaram as armas elementais e se protegeram com os escudos, aproximando-se lentamente do “berço” da Árvore.

    Ninguém ali tinha mais de trezentos anos, então não sabiam ao certo o que estava acontecendo, mas sabiam que a rainha não agiria daquele jeito por qualquer coisa.

    Não se preocuparam em proteger a Celyn, afinal de contas, o objetivo de todas já tinha sido indicado. O pensamento das guerreiras era o mesmo:

    “A Hosikati não é de agir assim… algo está muito errado.”

    Ninguém disse e Celyn sequer notou, mas a tremedeira da sua pálpebra direita e do canto da boca denunciava o seu nervosismo e preocupação.

    Para aqueles acostumados a nunca detectar emoção alguma naquela mulher, aquilo era um claro sinal de que algo não estava bem.

    Celyn se tornou a vanguarda, seus olhos travados no “berço” da Árvore e as lanças de diferentes elementos apontados para aquele lugar. As guerreiras eram a unidade de ataque, prontas para dar a vida pelo seu povo. E, na retaguarda, o Santo estava com o seu cajado com símbolos místicos entalhados, pronto para dar suporte a todas.

    Glub.

    Uma das lâminas vegetais no “berço” se transformou num líquido denso e carmesim, manchando todas as outras. Ao mesmo tempo, sem ter sido necessário um movimento sequer da Hosikati, as armas elementais se aproximaram do “berço” e as guerreiras deram um passo adiante, firmando os pés e segurando as lanças e escudos com firmeza.

    Quando o líquido escarlate manchou as outras folhas, um efeito dominó se deu início e, uma a uma, as lâminas vegetais foram se transformando em plasma, até que não sobrou nenhuma única ali.

    Sobrava apenas um berço de sangue.

    Glub.

    Quando viram o sangue borbulhar, algumas das guerreiras mais velhas lembraram-se de alguns contos e lendas sobre um certo Espírito que fora corrompido durante a Guerra dos Mil Anos, um Espírito que fora seduzido por um dos sete Primordiais. O dito Espírito era apenas um Espírito da água infantil que, após a corrupção, nem mesmo os nove Reis Espíritos da Hosikati conseguiam vencer, precisando mantê-lo selado.

    Antigamente, entre aqueles que tiveram o azar de se deparar com aquela criatura, muitos diziam que o Espírito era o Rei entre os Reis… O Rei do Sangue.

    Glub.

    O fluido no “berço” começava a transbordar e escorrer pelo tronco. Quando aquele líquido carmesim tocava as folhas espalhadas pelo chão, todas elas viravam sangue. Instantes depois, um lago escarlate cobria metade dos tornozelos de todos ali.

    Mas ninguém se desesperou, mesmo já sabendo, mais ou menos, o que acontecia. As guerreiras em especial, sequer demonstravam indícios de medo; tinham aprendido que o medo era um sinal de sanidade, algo que era muito bom, e que existia apenas um jeito de vencer o medo

    … Lutando contra ele.

    Não era por acaso que, mesmo sendo um dos mais poderosos entre os Lihyfs, Arzel tinha dificuldade contra as guerreiras.

    O sangue explodiu como um vulcão em erupção, mas, diferente da lava, o sangue não sofreu a ação da gravidade e, de pouco em pouco, foi modelando uma silhueta.

    Sabendo que ataques seriam inúteis naquele instante, todos apenas aguardaram. Segundos mais tarde, já dava para se ver os grossos e compridos chifres que apontavam para os céus e um pequeno chifre laminado entre eles.

    Não foi surpresa para ninguém quando a imagem da Hiryn se formou, depois de sugar todo o sangue por ali.

    Na retaguarda, o Santo olhou para as folhas na Árvore. Todas tinham se transformado naquele líquido escarlate, formando uma espécie de cascata de sangue, mas nenhuma se desprendeu da árvore para reconstruir a Hiryn após o renascimento.

    Quando a renascida Lihyf abriu os olhos, mostrando as escleras tingidas de vermelho e o trevo prateado que tinha perdido o seu lago dourado, marcas em vermelho vivo surgiram nas costas das mãos dela; pareciam o desenho da vista de cima de uma rosa com um olho no centro.

    Celyn conhecia bem aquele Emblema Profano.

    — Oh. Vejam se não é a mais amada pela natureza. — A voz que saiu quando Hiryn abriu a boca era duplicada, uma mistura caótica da voz dela e do Rei do Sangue. — Pelos vistos, você já está preparada para me enxotar… outra vez.

    — Deixe ela!!! — Celyn imperou, posicionando suas lanças de elementos a centímetros da Hiryn.

    — Eu não quero. — Hiryn não se moveu, apenas mantinha o olhar fixo na Hosikati. — E acho que ela também não vai querer. Ela aceitou ser minha amiga, acredita?

    A rainha Lihyf arregalou os olhos e as lanças tremeram, como se seu ponto de apoio tivesse sido agitado.

    — Isso…

    — Parece um sonho, né não? — A voz duplicada perguntou e um sorriso se alargou na face da Hiryn. — Não precisa se preocupar, não tenho planos contra os seus… e espero que você não tenha planos contra os meus.

    Mesmo que aquelas palavras fossem ditas durante um sorriso, Celyn não era boba, captou perfeitamente a ameaça contida ali.

    — Bem, vinha só para dar um oi. — Levantou a mão e estalou os dedos, transformando todas as lanças da Celyn em lanças de sangue, só para mostrar superioridade. — Até uma próxima oportunidade.

    Depois daquelas palavras, as lanças de sangue se tornaram parte da Hiryn e o Rei do Sangue parou de manipular seu corpo.

    Quando as folhas da Árvore dos Espíritos voltaram ao seu icônico dourado, Hiryn caiu inconsciente.


    Depois de sabe-se lá quanto tempo, Hiryn finalmente abriu os olhos, sentindo a cabeça pulsar de dor e confusão.

    Estava numa cama, onde se sentou e chacoalhou a cabeça, logo antes de olhar para o lado e se esquecer de respirar. Seu coração fez uma pausa e o sangue gelou.

    — Ma-ma-majestade? — Rapidamente levantou-se do colchão e se curvou diante daquela que estava sentada num pequeno sofá ao lado da cama onde estivera. — Ndza ku xeweta Hosikati (Saúdo a Vossa Majestade).

    — Sua Missão de Maioridade…

    A voz da Celyn soou com indiferença, mesmo quando os olhos mantinham uma intensa atenção a todas as ações da mais nova.

    “Minha missão de maioridade?” — Entre os Lihyfs, ser maior de idade não garantia respeito; apenas aqueles que concluíam as suas Missões de Maioridade é que ganhavam respeito e o direito de serem chamados adultos. Todos aqueles que completavam duzentos anos recebiam uma missão daquelas, preparada pelos conselheiros da rainha e entregues pelos responsáveis dos aspirantes a adultos. — “Ela que me dará a missão pessoalmente?”

    Não devia ser sua capitã?

    — Existe uma profecia e, até onde se sabe, essa menciona duas crianças… — Celyn deu uma breve introdução, então foi direto ao ponto. — Ache as crianças da profecia! Esta é a sua Missão de Maioridade.

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