Thora estava com medo, o que não era novidade. O estranho era a culpa. Medo lhe era íntimo; culpa, nem tanto. 

    Dessa vez vinham juntos.

    Passara quase toda a viagem em silêncio. Hrafn e Sigrid iam um pouco à frente, conversando de vez em quando, e ela os seguia ao lado. Havia também o rapaz novo, Briorn. Depois de ajudar a salvar Hrafn e Sigrid, ele simplesmente se enfiara no grupo, como se sempre tivesse pertencido a ele. Thora ainda não sabia o que pensar disso.

    O rapaz xingava demais, parecia ter um parafuso solto e falava quase sempre gritando, com uma voz estridente demais para um corpo tão pequeno. Normalmente ela estaria conversando também. Gostava disso. 

    Gostava, sobretudo, de conversar com Sigrid. Via nela uma espécie de irmã mais velha, valente, luminosa, feita daquele tipo raro de fibra que não se dobra fácil. Mas agora falava pouco. Menos até que Hrafn.

    Duas noites antes, estivera apavorada. 

    Ainda se lembrava do caído se lançando sobre Hrafn — a coisa assustadora — e de Sigrid avançando mesmo assim. Lembrava-se também de Briorn, pequeno e berrando, mas avançando. E lembrava-se de si.

    Correndo.

    Claro que correu. Quem não correria? Ela era rápida, era leve, e fez o que sempre fazia quando o medo mostrava os dentes: escondeu-se. Encontrou o espaço mais apertado que pôde sob uma carruagem e encolheu o próprio corpo ali, como se ficar menor pudesse torná-la invisível para o mundo.

    “Não é tão ruim assim”, disse Hrafn, ajeitando os ombros.

    “Você não tem um maldito braço, porra!”, rebateu Briorn.

    Era estranho vê-los discutir. Mais estranho ainda perceber que, de algum modo, se entendiam.

    Hrafn parecia calmo demais para alguém mutilado havia tão pouco tempo. Briorn, irritadiço como era, parecia ofendido em nome dele. Hrafn dissera mais cedo que estava quase feliz por ter perdido o braço. Briorn reagira como se aquilo fosse blasfêmia, e desde então os dois vinham debatendo o absurdo estrada afora.

    Thora não gostava daquela conversa. Não pela discussão em si, mas porque seus olhos sempre acabavam voltando ao ombro de Hrafn, que terminava ali mesmo, sem braço.

    “Com certeza se entendem”, sussurrou Sigrid, surgindo ao lado dela com diversão na voz.

    A presença dela sempre parecia tornar o ar um pouco menos pesado. Havia alguma coisa em Sigrid — uma leveza, talvez, ou só coragem o bastante para dividi-la com os outros.

    “E-eles com certeza estão”, respondeu Thora.

    Tentou brincar, mas a voz saiu trêmula. Seus olhos foram de novo para o lado direito de Hrafn. Queria ir até ele. Queria pedir desculpas. Queria dizer que se arrependia, que devia ter ficado, que talvez, se tivesse lutado também, ele ainda estivesse inteiro.

    Mas não conseguia.

    Tinha medo da resposta. Medo do olhar dele. Vergonha. E havia outra coisa pior: o pedido de desculpas seria mentira. Se pudesse voltar àquela noite, faria tudo de novo. Correria de novo. Se esconderia de novo. Tremendo, chorando baixinho, rezando para que a coisa arrancasse a carne de outra pessoa antes da sua.

    “Não fique assim. Já estamos quase em Sahirid”, disse Sigrid, apertando a mão dela e balançando-a de leve, como se pudesse desalojar dali os maus pensamentos.

    “Sim”, respondeu Thora.

    A ideia de muralhas ajudava. Mesmo assim, a palavra saiu fraca. Ela não compartilhava da empolgação de Sigrid. Não era valente como ela. Nem descarada como Briorn. Nem dura como Hrafn.

    Era só alguém com medo.

    E, mesmo nisso, parecia pior que os outros.

    Hrafn também estava com medo. Thora sabia reconhecer. Passara tempo demais observando o medo dentro de si para não enxergá-lo nos outros. Sabia como ele mexia nos ombros, como ensinava os olhos a nunca pararem quietos, como fazia alguém evitar dar as costas por tempo demais.

    Hrafn fazia tudo isso.

    Mas havia uma diferença entre eles. Ela se dobrava. Ele endurecia.

    Thora mentia quando tinha medo. Mentira para o homem de quem gostava, porque temia ser machucada. Mentira para a mãe, dizendo que fora aceita no boticário logo antes da seleção, porque temia voltar para casa com as mãos vazias. Hrafn mentia também, ela suspeitava.

    Só mentia de outro jeito. Com a postura. Com o silêncio. Com aquele desdém cansado que usava como se fosse armadura.

    “Como vocês acham que vai ser o treinamento?”, perguntou Sigrid, mais por necessidade de mudar de assunto do que por curiosidade real.

    Thora viu o corpo de Hrafn reagir antes da voz dele sair. Um ajuste mínimo nos ombros. Um instante de rigidez. Os olhos correndo um pouco mais depressa.

    “Hm”, disse ele. “Imagino que vá ser doloroso.”

    Thora não gostou da resposta. Tinha medo da dor. Quem não tinha?

    “Ah, que se foda. A gente aguenta”, gabou-se Briorn. “Matamos um maldito caído, não foi?”

    “Sim, mas—”, começou Sigrid.

    “—o bicho era uma coisinha feia”, cortou Briorn, como sempre. “Toda torta. Nojenta. Vocês viram como eu acabei com ele? Eu sou foda pra caralho.”

    O que se seguiu foi uma exibição lamentável. Briorn, menor que todos ali e mais largo de ombros do que parecia razoável, começou a distribuir socos no ar, girando o corpo e chutando inimigos imaginários com um entusiasmo que faria sentido apenas se o mundo inteiro tivesse sido criado para assisti-lo. Sigrid riu. Thora quase riu também.

    Hrafn abriu a boca, talvez para entregar alguma maldade curta, daquelas que pareciam exigir dele menos esforço que gentileza.

    Mas então todos pararam.

    Não apenas os quatro. A caravana inteira desacelerou. 

    Ao longe, enfim, erguiam-se os muros de Sahirid.

    Thora sentiu o corpo enrijecer. Mesmo à distância, a cidade parecia antiga demais, grande demais, severa demais. Os muros não se erguiam apenas contra inimigos; pareciam se erguer contra o próprio mundo. 

    Seu cavalo bateu uma das patas no chão, inquieto, e ela precisou apertar as rédeas.

    O primeiro pensamento que lhe veio não foi alívio.

    Foi medo.

    Que tipo de coisa existia além das fronteiras conhecidas para obrigar a Hird a construir algo assim? Que tipo de horror fazia pedra e sal subirem tão alto?

    Ela ficou olhando para Sahirid como quem encara uma porta fechada, certa de que há algo do outro lado, mas sem saber se deseja mesmo vê-lo. Ali estava seu futuro. Maior do que ela jamais teria ousado imaginar. Maior do que qualquer medo doméstico, qualquer mentira pequena, qualquer vida estreita que deixara para trás.

    Ainda assim, continuou olhando. Já estava naquele caminho. Todos estavam.

    E, dentro daquela cidade imensa, antiga e imponente, talvez houvesse alguma coisa à sua espera. 

    Alguma resposta. 

    Alguma mudança. 

    Talvez um lugar fundo o bastante para enterrar o medo e deixá-lo ali, trancado entre sal e pedra, em vez de seguir carregando-o dentro do peito como se fosse seu nome.

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