Hrafn não estava confortável.

    Seu novo mordomo — agora carinhosamente rebatizado de Ed — também não ajudava. Havia muitas coisas desconfortáveis num homem que conseguira permanecer perto dele por tanto tempo sem ser notado, especialmente agora, com a bênção queimando em seus sentidos. Hrafn preferia não pensar demais nisso. A culpa, decidiu, era do servo que o guiara até ali. Como todos os outros servos da Hird, o sujeito parecia nutrir uma devoção quase religiosa pelo silêncio, o que, em circunstâncias normais, ele aprovaria. 

    Ainda assim, uma apresentação adequada de um idoso muito bem vestido, que não fazia um movimento inútil e parecia metodicamente ameaçador em tudo o que fazia, teria sido um gesto mínimo de educação.

    Mas um bom servo era um bom servo. E de graça, ainda por cima. E o que seria Hrafn, se não um homem disposto a se adaptar quando a adaptação viesse bem vestida e sem custo?

    “Então, Ed”, disse. “Por onde agora?”

    Ali fora ele se sentia um pouco melhor. E um pouco pior. Melhor porque havia mais coisas às quais se agarrar do que dentro de um quarto que possuía matéria inanimada apenas. Pior porque, bem, havia mais coisas às quais se agarrar.

    “Senhor, eu—”

    “Esquerda”, interrompeu Hrafn, já sentindo os caminhos com a bênção antes mesmo de olhar direito para eles.

    Fez uma nota mental para pôr mais flores, plantas e qualquer outra coisa menos domesticada em seus aposentos. Seria bom também para os olhos. Havia algo de ofensivo em viver cercado de superfícies que pareciam ter sido polidas para agradar gente melhor do que ele.

    O edifício em que agora estava era vasto. Não um palácio, não exatamente, mas grande o bastante para rivalizar com um pequeno castelo. Não lhe haviam dado o lugar inteiro só para si, o que era sensato. Se tivessem feito isso, ele desconfiaria na hora. Passaria o resto do dia se perguntando de que maneira supostamente nobre esperavam vê-lo morrer para lhe conceder tanto privilégio.

    Não. Aquilo era um complexo amplo, aberto em ferradura, com estruturas menores espalhadas entre canais estreitos e ligados por pequenas pontes de pedra. Dali, entre colunas e telhados, era possível ver a grande catedral do círculo interno elevando-se acima da cidade como se o resto tivesse sido construído apenas para justificar sua existência.

    “Me diga, Ed”, disse Hrafn, caminhando pelas pedras espaçadas com cuidado estudado, os olhos vagando pelos jardins talhados em excesso, pela água limpa demais, pelas fachadas que pareciam jamais ter conhecido fuligem, lama ou o toque do tempo. Aquilo era outro mundo. Não apenas mais rico. Não apenas mais ordenado. Não era natural.

    Ele deu a Edvard tempo suficiente para que se recuperasse do primeiro tique nos nervos antes de lhe oferecer o segundo.

    “Que arma serviria melhor a um aleijado?”

    A pergunta saiu sincera. Talvez por isso mesmo o pequeno tremor nos olhos do mordomo tenha sido ainda mais visível. Quase nada. Um tique. Um repuxo mínimo nos nervos de um homem que provavelmente passara a vida inteira aprendendo a esconder qualquer reação que pudesse ser usada contra ele. Ali fora era mais fácil perceber essas coisas. Ali fora era mais fácil perceber tudo.

    Movimento, acima de tudo, como se esperava de Sahirid. Mas não o movimento dos anéis externos, feito de empurrões, pressa, gritos, carroças e necessidade ordenada. O movimento ali obedecia. Servos cruzavam os pátios com bacias, baús, mantas, feixes de correias, tudo nos braços, tudo no tempo certo. Iniciados passavam em grupos pequenos, falando pouco. Criadas baixavam os olhos ao cruzar com voroirs. Ninguém corria. Ninguém parava no lugar errado. Ninguém parecia pertencer a si mesmo por inteiro. Até o silêncio parecia treinado.

    “Devido às bênçãos”, respondeu Edvard, “quase todas as armas podem ser adequadas a um voroir em sua situação, meu senhor. Há o machado de guerra, por exemplo, uma arma de peso, de impacto, que—”

    Hrafn deixou o restante escorrer para o fundo da mente. Notou um iniciado que não conhecia — outro das cidades do reino, talvez — distribuindo ordens a um servo com a naturalidade de quem nunca precisou pensar sobre o peso da própria voz. 

    Sentiu uma moça se aproximando por trás, reunindo coragem para falar com ele, até ser contida por um toque discreto no braço. Outra criada, mais velha, corrigiu-lhe a postura com delicadeza e indicou, com um movimento curto do queixo, outro rapaz sem braço, como se dissesse: aquele é o seu aleijado.

    Havia correção em tudo. Como se o lugar não tivesse sido erguido apenas para abrigar corpos, mas para moldá-los aos poucos, até que cada gesto, cada palavra e cada silêncio soubessem o seu lugar. Hrafn detestou cada detalhe.

    “Quando falamos em versatilidade, a espada apresenta qualidades bastante ideais para um homem de sua condição, uma vez que—”

    Ele já entendera. Ser um voroir significava força suficiente para empunhar quase qualquer arma ainda que lhe faltasse um braço. Esse era o lado piedoso da resposta. O outro era mais simples, mais feio, mais verdadeiro: nada seria realmente o bastante. Nada apagaria o que faltava.

    “Entendo”, disse Hrafn, interrompendo-o.

    Em parte porque havia entendido o essencial. Em parte porque, naquele mesmo instante, viu Edvard corrigir outro servo apenas com os olhos, sem sequer quebrar o fluxo da própria fala, e achou que seria divertido feri-lo um pouco. Virou o rosto para ele com o tom mais sinceramente inocente que conseguiu fingir.

    “Todas servirão igualmente mal a um aleijado. Então não faz diferença.”

    “Meu senhor, eu não tive a intenção de insinuar—”

    “Sim, Ed”, disse Hrafn. Parou diante de uma porta alta, larga, pesada demais para servir a qualquer propósito prático. “Imagino.”

    Era, claro, a armaria.

    A surpresa que vazou do mordomo foi pequena, mas real. Hrafn já começava a apreciar esses vazamentos. Eram como rachaduras num vaso muito caro. Ao longo do caminho ele já notara outras entradas daquele tamanho. Talvez fossem feitas para visitas estrangeiras. Talvez para alguma raça maior do sul.

    “Posso perguntar”, disse Edvard, ajustando o monóculo com cuidado cirúrgico, “como o senhor sabia?”

    “Imagine, Ed.” Hrafn sorriu. Então abriu a porta com o pé antes que o homem pudesse se apressar para servi-lo. “Seja criativo.”

    A porta cedeu.

    E, por mais que tivesse acabado de recomendar criatividade ao mordomo, Hrafn não teria conseguido imaginar aquilo. Já sentira antes o espaço aberto além da madeira, graças à vida que havia ali — metal, couro, suor, oco de passos, tensão contida —, mas até então não estivera prestando a devida atenção. Agora estava.

    A armaria se abria para um grande pátio de treino, vivo de aço e disciplina. Servos carregavam feixes de lanças e varas de prática. Iniciados erguiam espadas, machados, lanças curtas, experimentando peso, distância, equilíbrio. Armadores observavam tudo com a paciência seca de homens que já tinham visto muitos jovens confundirem desejo com talento. Havia vozes, metal batendo em metal, passos sobre pedra, couro rangendo, ordens curtas. 

    Mas não foi isso que prendeu Hrafn.

    Foi um rapaz alto. Alto seria pouco até. O sujeito tinha facilmente dois metros, talvez mais, ombros largos, corpo de quem parecera crescer para cima e para os lados ao mesmo tempo, como se o mundo tivesse decidido exagerar numa única pessoa e depois parado por cansaço. E, ainda assim, não era ele o centro da cena.

    Era o que estava ao lado dele.

    A coisa. A criatura. A massa de pelos negros e músculos densos que, por um instante, fez a própria armaria parecer pequena. Tinha uns três metros de altura, se não mais. Hrafn ouvira falar de camelos nas histórias de Nanna. O povo do oeste, segundo ela, gostava bastante das criaturas. Aquilo lembrava essas descrições só o bastante para tornar todo o resto mais estranho.

    Erguia-se sobre duas pernas curtas, dobradas de modo estranho, sustentada por pés em que apenas os dedos tocavam o chão. O tronco pendia levemente para a frente, pesado, pronto, como se a criatura jamais tivesse relaxado um músculo na vida. Os braços eram longos demais, quase o dobro das pernas, e terminavam em três dedos abertos, grossos. A pelagem marrom era curta, cerrada, espessa como uma segunda couraça. A face se projetava para a frente com algo de equino, mas mais seca, mais dura, mais errada — como se um cavalo tivesse sido refeito por mãos que conheciam apenas a ideia vaga de um cavalo.

    E algo havia nos olhos. Não a esperteza de um animal treinado. Não o cálculo simples de um predador. Inteligência. Consciência. Uma atenção funda e desagradável, serena demais, antiga demais, quase injusta dentro de um corpo que parecia talhado para guerra.

    Hrafn ficou imóvel por um instante.

    Porque aquilo, mais do que grande, era impossível.

    Era um gigante.

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