Capítulo 2 – Hrafn – Cerimônia
Quando se perde alguém, algumas pessoas tiram um tempo para si mesmas, deixam o tempo passar devagar e permitem que a dor encontre seu lugar dentro delas. Hrafn, claro, não estava entre elas.
Indiferente ao seu sofrimento, a rotina nas docas continuou exatamente como antes, ou até mesmo pior.
Carregar sal era um trabalho ingrato. Mesmo através do tecido grosso dos sacos, os grãos finos conseguiam infiltrar-se em tudo. Descamavam e secavam a pele, abriam então pequenas fissuras nela e depois as mordiam como brasas.
Como se isso não bastasse, a chuva também parecia ter decidido instalar residência permanente na cidade, transformando o trabalho nas embarcações em um exercício constante de equilíbrio. As tábuas molhadas ficavam escorregadias, os barcos balançavam contra o cais, e cada passo exigia atenção redobrada.
Hrafn já havia perdido a conta de quantas contusões acumulara naquele período.
De vez em quando, comprava alguma pomada barata no distrito comercial. Não era exatamente um bom tratamento, mas funcionava bem o bastante para permitir que continuasse trabalhando no dia seguinte. Um pequeno agrado para a carne quando a dor ameaçava se tornar inconveniente demais.
“Vamos! Vamos logo com esse sal, preguiçosos!”, berrava o empregador do cais. “Quero tudo em ordem antes que a Estrela se esconda além do Véu!”
Esse bosta.
“Sim, senhor”, respondeu Hrafn.
Não gostava do homem, mas ele pagava o salário.
E orgulho era um luxo reservado àqueles que tinham poder.
Hrafn trabalhou rápido e encerrou sua miséria do dia, antes de seguir para o distrito comercial.
Indo a familiar botica que estava quase vazia.
“Como vai hoje, Hrafn?”, perguntou o vendedor gordo ao vê-lo entrar. O homem abriu um sorriso amplo demais para ser confiável, revelando seus dentes de prata.
É riqueza ou apenas estupidez gastar tanto para ter dentes de metal?
“O de sempre”, respondeu, deixando algumas moedas sobre o balcão enquanto o boticário pegava um pequeno frasco de pomada.
“Taciturno como sempre, hm?”, resmungou, colocando o frasco sobre o balcão.
Hrafn empurrou as moedas um pouco mais para perto dele; o homem as pegou com a agilidade de um comerciante experiente, então puxou a pomada de volta antes que seu cliente tivesse a chance de alcançá-la.
“Você soube das boas novas?”
Hrafn soltou um suspiro cansado, e o homem estalou os lábios com diversão.
“A Hird do Sal adiantou a seleção. Os voroirs chegarão daqui a um mês.”
Logo mordeu uma das moedas e, aparentemente satisfeito com o resultado, empurrou o frasco novamente para frente.
Esse sujeito…
Ainda assim, pensou que a notícia era interessante, para variar.
E inconveniente.
Aquele seria seu ano obrigatório. Ele teria de comparecer à cerimônia de seleção da Hird. Isso significava faltar ao trabalho — e faltar ao trabalho significava menos dinheiro no final do mês.
Ele pegou o frasco, fez um breve aceno de cabeça para agradecer e deixou a loja.
* * *
Ao virar do mês, o inverno deixou de parecer promessa e passou a trabalhar com as próprias mãos.
O frio mordia o rosto e se enfiava pelas costuras da roupa enquanto Hrafn seguia pelas ruas em direção ao Salstein. A cidade respirava neblina e fumaça. Gente passava apressada, ombros erguidos, mãos escondidas dentro das mangas, cada um ocupado demais para olhar muito para os outros.
Hrafn preferia assim.
As portas da catedral estavam abertas o bastante para deixar sair calor e incenso.
Ao cruzá-las, o frio recuou.
O salão já estava cheio. Pequenos grupos se espalhavam pelo local em cochichos reverentes, como se ninguém ali quisesse descobrir o som da própria voz sob aquele teto.
O Salstein fazia isso com as pessoas.
Hrafn ergueu os olhos.
O salão parecia talhado de uma única vontade. Sal endurecido como aço e branco como neve. Nas paredes, murais contavam glórias que ele conhecia mais por repetição do que por fé: milagres, campanhas, mártires, bestas vencidas.
Mais adiante, ao fundo, uma janela monumental tomava a parede inteira e deixava entrar a luz da Estrela em faixas compridas, banhando os presentes com a luz.
A cerimônia parecia exatamente como a última e como todas as anteriores, assim como aquela à qual Nanna o trouxera quando ele ainda era jovem demais para participar, mas velho o suficiente para entender que algo importante acontecia naquele lugar.
Não que ele frequentasse o Salstein.
Não quando podia evitar.
Nunca vira muito sentido em vir ali nos dias comuns, embora mentisse sempre que perguntavam. Aparência era uma forma barata de autopreservação, e Hrafn nunca desprezava coisas baratas.
Ainda assim, naquela manhã comparecera. Em parte porque era obrigatório, em parte porque Nanna deixara claro, desde cedo, que os voroirs sempre sabiam dessas coisas.
Comparecer ou não comparecer também era julgamento.
“A Estrela vê”, murmurou uma voz.
Hrafn sentiu as mãos em seus ombros antes de ver o dono delas.
Virou-se e encontrou um skjald perto demais.
“O… Véu nos guarda”, respondeu, um pouco atrasado, um pouco sem jeito.
“O Sal abre o caminho”, completou o clérigo.
Uma das mãos permaneceu em seu ombro. O outro braço indicou que andasse.
Ele sabe.
Claro que o homem sabia. Não havia uma sombra de dúvida em seu comportamento. Hrafn fora avisado de que seria guiado, observado, pesado por olhos que carregavam milagres. Mas saber disso em teoria não parecia em nada a ser exposto a isto.
Foi conduzido até a área separada para os jovens que enfrentariam o julgamento naquele dia.
Colocaram-no na frente, entre os primeiros.
Virou a cabeça e olhou os outros.
Homens e mulheres de sua idade. Alguns de ombros retos, outros tentando esconder o tremor. Havia nos olhos muitas coisas.
Esperança, ambição, sonhos de glória.
Idiotas.
Voltou-se para a frente.
Os degraus da plataforma cerimonial eram largos demais para serem confortáveis, como se tivessem sido feitos para diminuir quem subisse por eles.
Acima, o teto abobadado se erguia a uma altura absurda. As colunas desciam grossas como carvalhos, cobertas de relevos que escorriam pela pedra clara até morrer perto do altar, onde tudo parecia conduzir o olhar para um ponto só.
A Satasteinn.
Entre dois obeliscos de pedra escura, a estela se erguia antiga e imóvel. Era maior do que ele lembrava. Mais velha também. As escrituras espalhadas por sua superfície não significavam nada para seus olhos, mas ainda assim davam a impressão desagradável de significar demais.
Próximos a ela, alguns voroirs aguardavam. Estáticos, pacientes.
Os elmos traziam relevos de bestas. Bicos recurvos, chifres, presas talhadas no metal fosco. Como se para lembrar aos presentes que a Hird não vestia apenas homens; vestia funções, votos e violências.
O skjald que guiara Hrafn se aproximou de um dos guerreiros e lhe sussurrou.
O oficial deu um passo à frente.
O som das botas de metal bateu na pedra e matou todos os murmúrios de uma vez.
Um vondorodr, talvez.
Talvez um hersir, Hrafn não sabia dizer.
O voroir olhou primeiro para os espectadores. Depois para os jovens adiante. Quando seu olhar passou por Hrafn, ele sentiu uma pressão curta na base do pescoço, como se uma lâmina fria houvesse sido encostada ali por um momento.
“Alegrem-se”, proclamou o guerreiro.
A voz saiu grave, larga, feita para ocupar espaço.
“Pois a Satasteinn é justa. Não se inclina. Não dobra. Não conhece mentira nem truque. Apenas a verdade.”
Olhe só.
Que performático.
Hrafn tinha de reconhecer: o homem sabia trabalhar a própria presença. Ele mesmo não conseguiria soar assim nem que recebesse um texto inteiro e uma semana para ensaiar.
Hm?
Alguma coisa mudou.
O voroir pareceu voltar os olhos diretamente para ele, como se tivesse apanhado o pensamento no ar — e parecia não ter gostado.
“Comecemos.” A ordem caiu curta.
Hrafn avançou porque havia de avançar. O primeiro passo saiu pior do que gostaria, o segundo, menos ruim, o terceiro já tinha alguma firmeza. Continuou, subindo os degraus até a plataforma.
No caminho, observou melhor o oficial.
A armadura parecia impecável à primeira vista, mas não era. Havia um arranhão curto numa placa lateral. Um amassado pequeno perto do quadril. Um tom mais escuro junto ao calcanhar da bota, como se sangue tivesse sido limpo dali com competência, mas não com perfeição.
“Mão”, disse o mesmo skjald anterior.
Hrafn estendeu a palma.
A adaga entrou rápida, precisa, mas apenas o tremor nos ombros denunciou a dor.
Trabalhando muito, hm? Sei como é.
O clérigo virou sua mão e apertou.
O sangue caiu sobre o chão da plataforma, e Hrafn percebeu então as linhas escritas em círculo ao redor da estela, esperando ver o vermelho se acumular nos sulcos delas. Não foi o que aconteceu.
A Satasteinn o bebeu.
A pedra puxou o sangue para dentro de si com avidez, e então o sal estalou.
As letras ganharam vida.
No início foi só um brilho pálido. Depois ele se espalhou pelas ranhuras da estela como tinta correndo, preenchendo escrita após escrita.
O ar ao redor mudou.
Um cheiro mineral, limpo, ergueu-se da pedra.
Murmúrios atravessaram a nave, alguém o parabenizou. Talvez mais de um.
Hrafn mal ouviu
Porra.

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