Capítulo 3 – Sigrid – O caminho adiante
Sigrid mantinha as mãos entrelaçadas com tanta força que os dedos já doíam. Não tirava os olhos do altar.
A Satasteinn se erguia no centro do salão como um dente arrancado do mundo. As runas espalhadas por sua superfície pareciam adormecidas à distância. Hrafn estava diante dela.
Quando o skjald abriu o corte em sua palma, Sigrid esperou um grito que não veio. Hrafn apenas enrijeceu. Um espasmo curto subiu por seus ombros largos, e então o sangue tocou a pedra.
A estela respondeu.
Aquilo a atingiu com mais força do que esperava. Não o milagre em si — ela já o vira antes, embora poucas vezes. Não era isso. O que a abalava era quem estava sob o milagre.
Hrafn
Hrafn das docas, das ruas úmidas, das piadas ruins ditas no momento errado, dos ombros sempre um pouco tensos.
A luz surgiu devagar. Nasceu fraca, quase tímida, e começou a escorrer pelas fendas da pedra, como se despertasse de um sono muito antigo. Verde, um verde escuro e profundo. Belo.
Um murmúrio correu pelo salão.
“Um fylkirn!”, anunciou o skjald, erguendo o braço de Hrafn. “Novo sangue para a Hird!”
As palavras bateram nas abóbadas altas e voltaram maiores. Ao redor, os presentes responderam com o decoro esperado: cabeças baixas, mãos erguidas, orações, reverência.
“Irmão da Hird”, disse o clérigo.
Hrafn agora era um deles.
Sigrid franziu o cenho. Havia alguma coisa estranha na voz do homem. Não soara errada, soara contida. Como se, por trás da solenidade, houvesse uma nota que não pertencia à celebração. Não medo, não exatamente, algo mais próximo de pena.
Ela já vira gente chorar, rir, desabar de joelhos ou ate mesmo dançar ali mesmo. Outro homem, anos antes, ficara de pé, imóvel, olhando a luz em sua mão como se tivesse sido tocado pela própria Estrela.
Hrafn não fez nada disso.
Apenas assentiu. Foi conduzido pelos degraus com passos rígidos, como se o próprio Salstein houvesse sido posto em suas costas.
Por um instante, ela não viu mais o jovem descendo do altar. Viu dois pirralhos correndo pelas docas, graveto por espada, vassoura roubada por montaria, sal nas botas, vento no rosto, gritando um para o outro que eram voroirs, grandes heróis, qualquer coisa enorme o bastante para não caber na infância.
Naquele tempo, elevação era coisa de saga, coisa que acontecia com nomes antigos, não com gente de carne e osso.
Mas agora…
Quando o verei de novo?
A pergunta a atravessou antes que pudesse contê-la. A partir dali, a vida de alguém deixava de pertencer a si mesma.
Enquanto fosse fylkirn, caberia à Hird decidir seu destino.
Recusar não existia como escolha.
Os mais velhos e perdulários da família às vezes bebiam demais e ganhavam a coragem para contar histórias que circulavam pelas tavernas mais sujas e escuras, onde os ouvidos dos skjalds não estavam presentes — alguns falavam de servidão eterna. Outros, de destinos piores.
Mesmo assim, quase ninguém fugia.
Ser escolhido ainda era glória — era o mesmo para ela.
“Próxima”, chamou o hersir.
A palavra caiu sobre ela como uma pedra. Sigrid ergueu a cabeça, era sua vez.
Subiu os degraus tentando parecer mais firme do que se sentia. O coração obedeceu, os pés, nem tanto.
“Mão”, disse o skjald.
Ela estendeu a esquerda e logo se corrigiu, entregando a direita com pressa demais. O homem nada comentou. Apenas fez o corte.
A dor veio rápida e nítida. Ardeu e arrancou dela um som curto, um pouco vergonhoso. O sangue caiu sobre as runas ao redor da pedra.
Por um segundo, nada aconteceu.
O segundo seguinte pareceu longo demais.
Por favor.
Então as inscrições pulsaram. A luz nasceu de novo, mais célere dessa vez, espalhou-se pelas linhas, correu pela superfície, subiu em veios luminosos.
O salão murmurou outra vez.
O clérigo ao lado dela baixou um pouco a cabeça.
“Dois seguidos…”, disse, quase para si mesmo..
“Uma fylkirn”, anunciou o skjald.
O resto se perdeu um pouco depois disso. Alguém enfaixou sua mão. Alguém a guiou para longe. Viu rostos, ouviu palavras, recebeu olhares. Ainda assim, uma parte dela permaneceu diante da pedra, presa naquele instante em que o milagre sorrira para ela.
Os dias seguintes passaram cheios demais para caber bem na lembrança. Houve abraços, lágrimas, bênçãos, parabéns, recomendações, mãos segurando as suas por tempo demais, olhos demorando-se em seu rosto como se quisessem gravá-lo antes que a estrada o levasse embora.
Orgulho e apreensão caminhavam juntos pela casa. Na família dela sempre fora assim. Quando a mãe falava pouco, era orgulho. Quando arrumava as mesmas dobras várias vezes, era apreensão.
Na manhã da partida, Sigrid a encontrou junto da cama, terminando de apertar as correias da mala.
“Hrafn também foi elevado”, disse a mãe, sem olhá-la de imediato. “Você o conhece desde pequena.”
Sigrid assentiu. A menção ao nome dele aqueceu alguma coisa em seu peito e apertou outra.
“A filha do açougueiro, Thora, também… ela é…” As mãos da mãe pararam sobre o tecido. “Complicada.”
Sigrid sorriu.
“Mas confiável”, concluiu ela, com a voz mais baixa. “Mantenha-se segura.”
Agora os olhos estavam úmidos.
Sigrid sentiu o peso daquilo cair sobre si com mais força do que o da própria bagagem. Até então tudo ainda parecera um sonho, como se a cerimônia houvesse acontecido em outra pessoa e a despedida dissesse respeito a outra casa. Mas não, era ela, era sua mala, era sua mãe tentando não pedir que ficasse.
“Eu vou”, disse Sigrid, tomando-lhe as mãos. “E volto antes que a senhora tenha tempo de sentir minha falta.”
A frase saiu leve, mais leve do que sentia.
A mãe assentiu, mas não sorriu. Apenas ergueu a aba da manta sobre os ombros da filha, alisou o tecido uma vez, depois outra, e então recuou.
Sigrid saiu antes que as duas piorassem aquilo.
A rua já vivia em despedida.
Carroças rangiam sobre a pedra úmida. Homens se apressavam com fardos às costas. Mães abraçavam filhos com força contida. Pais fingiam firmeza e falhavam só nos olhos. Clérigos atravessavam o movimento, conduzindo recém-elevados como pastores.
A caravana parecia imensa quando vista de perto. Voroirs, guardas, servos, iniciados, cavalos, bagagem, mantimentos, estandartes.
Pelos lados, camponeses se apressavam com ferramentas e animais, arrancando do dia tudo o que ainda podiam antes que a Estrela se recolhesse.
Sigrid montou no cavalo que lhe designaram e olhou uma última vez para as muralhas. Os três anéis de pedra cercavam a cidade desde antes de sua avó nascer. A Terceira Muralha era a mais externa, a última.
Cruzar aquele portão sempre lhe despertava uma sensação difícil de nomear, como se estivesse deixando para trás algo.
Quando passou sob o arco, o vento a tocou mais frio. Do outro lado não havia ruas estreitas, nem telhados familiares, nem o conforto de saber onde o mundo terminava.
Havia a estrada de sal de aço, os campos abertos, a linha das florestas e o Véu os guardando alto. Tudo parecia largo demais de repente.
Ela procurou Hrafn entre as fileiras e o encontrou algumas posições adiante. Aproximou o cavalo até ficar ao lado. Ele estava em silêncio, olhando para a estrada como se tentasse enxergar algo muito distante.
Talvez o futuro.
Ou talvez apenas tentasse não olhar para trás.
“Então é isso”, disse ela.
A voz saiu baixa.
Ele virou um pouco a cabeça.
“É.”
Nada mais.
A caravana começou a se mover. O som de rodas, cascos, couro e metal tomou a manhã. Atrás deles, a cidade foi ficando menor a cada passo.
Sigrid sentiu o aperto no estômago voltar. Dentro das muralhas, o mundo sempre parecera sólido, guardado, como se houvesse ordem em tudo, até nas dores.
Fora delas, parecia vasto demais…
Mas o aperto não vinha sozinho. Havia nela também outra coisa — esperança, valentia, talvez até ignorância. Fossem o que fossem, tinham vindo com ela. Como sempre vinham.
Hrafn também seguia ao seu lado.
E isso, pensou Sigrid, já fazia o mundo parecer um pouco menos vasto.

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