“A Ruína Verde

    Conta-se que, há muito, muito tempo atrás, vagava pelo mundo um Grænfadir — soberano do verde. Chamavam-no de O Caminhante Verde, pois por onde passava a vida florescia.

    Seu caminhar era aparentemente simples. Ainda assim, bastava que cruzasse uma terra estéril para que ela despertasse. A relva brotava sob seus passos, árvores erguiam-se onde antes havia poeira, e rios claros surgiam onde o solo havia sido seco por gerações. Campos outrora mortos tornavam-se paraísos de verde profundo, repletos de flores, frutos e vida abundante.

    Com o passar dos anos, o nome do Caminhante Verde espalhou-se por todo o continente de Óbygdheim. E assim as histórias de seus milagres chegaram aos ouvidos do grande soberano do oeste — o governante das areias, conhecido entre seu povo como o Grande Sol do Deserto.

    Esse soberano, cansado das guerras incessantes travadas por seus povos na disputa pelos raros oásis, acreditou ter encontrado a resposta para seu sofrimento. Se o Caminhante Verde pudesse trazer vida às areias, pensou ele, o deserto conheceria finalmente a paz e a prosperidade.

    Movido por essa esperança, o Grande Sol partiu pessoalmente em busca do Grænfadir.

    Quando finalmente o encontrou, ajoelhou-se diante dele e implorou sua ajuda.

    Mas o Caminhante Verde recusou.

    Disse que não era seu dever interferir nos assuntos do deserto. Disse também que cada terra carrega seu próprio destino.

    O soberano retornou no dia seguinte. 

    E no outro.

    Abandonando o orgulho, passou a seguir o Caminhante por estradas, colinas e vales. Dia após dia renovava seu pedido, implorando que levasse vida às areias.

    Assim continuou por muito tempo.

    Até que, por fim, cansado de ouvir as súplicas do Grande Sol — e talvez tocado pela persistência daquele homem — o Caminhante Verde cedeu.

    E ele caminhou até o deserto.

    E onde seus pés tocaram a areia, milagres nasceram.

    As dunas tornaram-se rios. Florestas coloriram os horizontes, antes vazios de vida e preenchidos por oceanos de areia.

    O lugar que outrora fora chamado de Deserto da Morte passou a ser conhecido como Terra da Vida.

    E entre o Caminhante e o Grande Sol nasceu uma amizade verdadeira.

    Por um tempo, o deserto prosperou.

    Mas o coração humano raramente conhece a medida de suas próprias ambições.

    Livre da fome e da sede, os homens logo encontraram novas razões para lutar. As pequenas disputas por oásis tornaram-se guerras por poder, territórios e tronos.

    Os rios foram banhados em sangue e envenenados. A relva preenchida com ossos. As árvores foram derrubadas e queimadas para erguer muralhas e máquinas de guerra.

    E no meio desse caos, o Grande Sol foi traído.

    Assassinado.

    Quando o Caminhante Verde soube de sua morte, algo dentro dele se partiu.

    O coração que antes espalhava vida tornou-se pesado e sombrio.

    Assim, ele retirou do deserto tudo aquilo que havia concedido.

    Os rios secaram.

    As flores morreram.

    E o verde voltou a ser areia.

    No lugar onde o Grande Sol fora enterrado, o Caminhante ergueu um último oásis.

    Ali infundiu sua própria megin.

    Era um túmulo.

    Um túmulo vivo, dedicado ao único amigo que havia encontrado em sua longa jornada.

    O Caminhante Verde jamais deixou aquele lugar.

    E aqueles que, movidos pela ganância ou pela curiosidade, se aproximavam do oásis em busca de suas águas encontravam apenas a morte.

    Seus corpos tornavam-se parte do solo.

    E assim alimentavam eternamente o túmulo do Sol.

    Com o passar das gerações, o belo oásis intocado recebeu um novo nome entre os povos do deserto:

    A Ruína Verde.”

    * * *

    Seus corpos tornavam-se parte do solo…

    A frase permaneceu pairando na mente de Hrafn por um tempo.

    Talvez a natureza pudesse servir para algo além de simples curas com ervas, cataplasmas e raízes mastigadas até virarem pasta. Talvez houvesse mais sob a terra do que barro, vermes e sementes. 

    Ou talvez seja apenas fábula.

    Com um suspiro cansado, Hrafn fechou o livro e deixou a ponta dos dedos repousar por um instante sobre a capa gasta.

    As páginas ainda guardavam um cheiro antigo de poeira, chá e fumaça. Coisas de Saga. Por um breve instante, Hrafn teve a impressão absurda de que ela poderia arrancar o livro de suas mãos, chamá-lo de burro e dizer que ele não enxergava. Que nenhuma história séria devia ser lida com aquela cara de condenado. E talvez houvesse verdade nisso.

    Mas esperança?

    Disso ele tinha pouco.

    Dói a bunda.

    Já estavam havia dois dias sobre cavalos, e Hrafn começava a suspeitar que a sela tinha sido inventada por alguém que odiava gente pobre. Os ricos iam em pequenas carruagens, cercados de servos, bagagem e, às vezes, familiares. Os outros recebiam um cavalo da Hird, poeira na cara e a estrada pela frente.

    Talvez no destino final lhe atribuíssem alguns servos.

    Talvez.

    E isso seria tudo.

    Ele também havia comprado por conta própria uma espada. O peso dela era honesto. Quando sua mão tocava o pomo, algo dentro dele se aquietava. Não muito. O suficiente.

    Mas bastava olhar para trás, para a estrada de sal que ficava cada vez mais distante, para o aperto voltar.

    “Voroirs!”, chamou o mesmo hersir presente na cerimônia, aquele que Hrafn agora sabia ser um hersir, graças a Sigrid. A voz do homem tinha o mesmo grave profundo. Não soava como um grito, mas viajava como um; havia nela uma dureza treinada, uma autoridade que parecia feita de hábito, não de esforço. “Pararemos aqui por hoje.”

    Os voroirs e seus servos se moveram com uma eficiência metódica, como pessoas que haviam repetido aquele mesmo cenário centenas de vezes. Sacos de sal foram abertos, barracas erguidas, fogueiras preparadas. Logo o acampamento inteiro já estava praticamente montado e disposto de um modo que Hrafn diria ser militar.

    Depois traçaram, para além da estrada, um círculo fino de sal rosado. O anel cercou o acampamento inteiro como uma muralha aparentemente simbólica, baixa e frágil aos olhos.

    Havia conforto em vê-lo. E preocupação também. Bastava uma faixa rosada sobre a terra para lembrar a todos ali que, fora das muralhas, a diferença entre ordem e carnificina às vezes tinha a largura de um dedo.

    Hrafn observou o processo por algum tempo antes de finalmente se oferecer para ajudar, quando julgou ter entendido o suficiente do ritmo para que sua “ajuda” não se tornasse apenas uma inconveniência bem-intencionada. Carregou o que lhe mandaram carregar, fixou o que lhe mandaram fixar, ouviu mais do que falou. Recebeu alguns acenos de cabeça e sorrisos discretos dos voroirs, sinais pequenos, porém honestos.

    Quando tudo ficou pronto, os voroirs se retiraram para as extremidades do acampamento e assumiram seus postos de vigia. Os iniciados e boa parte dos servos permaneceram mais ao centro, reunidos em torno das fogueiras..

    “Estamos condenados.”

    A voz veio de um dos iniciados próximos. Hrafn reconheceu o rapaz. Era um dos que haviam cavalgado à frente do grupo quando partiram, cheio de sorrisos, peito estufado de orgulho e andando sempre adiante como se já tivesse vencido alguma coisa. 

    Agora parecia prestes a vomitar o próprio medo.

    Parece que alguém finalmente entendeu.

    Hrafn tomou um gole da sopa que lhe haviam servido e inclinou levemente a cabeça, curioso para ver como seu agora irmão fylkirn desenvolveria aquela súbita iluminação.

    “Não precisa de tanto desespero, meu caro companheiro. Alguns de nós certamente teremos tempos difíceis, devo admitir.”

    Quem respondeu foi outro jovem, sentado com a postura relaxada de quem passara a vida inteira sendo ensinado a parecer importante. Havia algo no modo como mantinha os ombros, as costas retas e o queixo alto. Algo estudado. Algo caro.

    Um nobre ou algo próximo disso.

    “Mas, antes de tudo”, disse ele, “como se chama?”

    “Briorn”, respondeu o rapaz, engolindo em seco e lançando olhares nervosos para além das fogueiras.

    “Veja bem… os bem-abençoados como nós”, continuou o outro, abrindo um sorriso confiante, “nos sairemos melhor que a maioria, meu amigo Briorn.”

    “Sim!”, acrescentou uma garota sardenta, depressa demais, como se temesse que a própria coragem evaporasse caso pensasse muito. “Olhe ao redor. Nunca vi tantos voroirs juntos, e somos fylkirns!”

    Murmúrios de concordância se espalharam aqui e ali, frágeis e apressados, menos porque acreditavam naquilo e mais porque precisavam acreditar em alguma coisa.

    “Talvez”, respondeu o suposto nobre, deixando o olhar vaguear pelo grupo com um desdém tão leve quanto evidente, como se a palavra digno não lhe caísse bem para todos ali.

    Então seus olhos pousaram em Hrafn.

    Algo pareceu lhe ocorrer, levantou-se e caminhou até ele.

    “Você aí, rapaz. Não seria você aquele primeiro… o verde, se não me engano?”

    A voz saiu alta demais, estimada demais, feita sob medida para ser ouvida por todos em volta. Hrafn apenas assentiu e tomou mais uma colherada da sopa, como se a gordura na superfície do caldo fosse mais digna de sua atenção do que o homem à sua frente.

    “Durante a minha educação”, anunciou, fazendo a palavra educação soar como se fosse um título, “aprendi muitas coisas que talvez você não saiba.”

    Hrafn continuou comendo.

    E o silêncio parecia incomodar o outro.

    “E sinto que talvez eu não tenha boas notícias para você, irmão.”

    Nada.

    Hrafn não estava surpreso. Ele sabia. Não tivera o luxo de ser formalmente educado, mas sua família — principalmente Saga — alimentava uma predileção quase fanática por histórias. Ouvi-las fora, durante anos, uma tradição diária e inevitável, e muitas daquelas histórias ensinavam mais do que mestres pagos a peso de prata. O mundo podia mudar de roupa, mas seus padrões quase nunca mudavam de ossos.

    “Bom… verde, não é?”, insistiu o jovem, e o sorriso falso começava a rachar nas bordas. “Apenas tente não morrer de um jeito vergonhoso antes de ficar maduro.”

    Ele riu. Uma risada organizada, ensaiada, moldada para provocar reação.

    Hrafn ergueu os olhos por fim e o encarou de frente. O rapaz não era alto nem baixo. Tinha a pele macia de alguém que jamais levantara nada mais pesado que um tinteiro, e clara demais. Isso se tornava ainda mais evidente ao lado da pele de Hrafn, que o sol, o trabalho e o sal haviam curtido até lhe dar um tom áspero e queimado. O cabelo do sujeito estava mais arrumado do que o de muitas mulheres que Hrafn se lembrava de ter visto nas docas. Já suas roupas exibiam tantas cores que quase feriam os olhos.

    “Hm”, murmurou Hrafn.

    Então retirou a espada da cintura, ainda embainhada, e a lançou na direção do rapaz.

    “Aqui. Pegue.”

    O outro tentou segurá-la no ar por reflexo.

    Foi um erro.

    O peso inesperado da arma o arrancou do equilíbrio quase no mesmo instante. Ele cambaleou, perdeu os pés sob si e caiu sentado no chão, duro e ridículo, com a espada escorregando de suas mãos como se o tivesse rejeitado.

    As risadas se espalharam pelo acampamento, primeiro em golfadas contidas, depois mais abertas, até mesmo alguns servos precisando disfarçar.

    Uma espada como essa normalmente pesava cerca de um quilo e meio.

    A de Hrafn pesava quase quatro com bainha.

    Mandara fazê-la assim de propósito, pois não sabia lutar bonito. Nunca tivera treino em esgrima, jamais aprendera posturas, cortes elegantes ou floreios de salão. Se um dia precisasse lutar, confiaria muito mais na força bruta de seus ombros.

    O rapaz levou alguns segundos para perceber toda a extensão do ridículo em que se encontrava. Quando compreendeu, seu rosto de porcelana ficou vermelho como sangue. Ele ergueu os olhos para Hrafn com puro desgosto, mas a presença dos voroirs por perto o impedia de ordenar que seus servos fizessem qualquer coisa.

    Filho de um comerciante rico, concluiu Hrafn.

    Um nobre de verdade teria sido treinado.

    Não que faça muita diferença. Para ele, ambos são problemas.

    Decidindo que aquilo já havia consumido tempo demais de sua vida, Hrafn voltou à sopa. Se o rapaz fosse realmente nobre, talvez aquilo tivesse sido uma questão alguns dias antes, quando ainda se encontrava num mundo em que nomes de família podiam alcançar um homem antes do punho. Agora, contudo, ele estava a caminho da Sahirid sob a tutela da Hird. O resto importava menos.

    Dois servos se apressaram em limpar as roupas do sujeito, enquanto um terceiro, maior e mais largo, provavelmente um guarda pessoal, lançou a Hrafn um olhar impregnado de maldade muda.

    Depois disso, não houve mais intrigas. A tensão que pairava sobre todos era grande demais para permitir que pequenas vaidades florescessem por muito tempo. A maioria ali jamais estivera realmente fora dos muros. Quando muito, haviam feito pequenas excursões de curiosidade, passeios curtos o bastante para que o medo ainda não tivesse tempo de criar raízes.

    Hrafn não era diferente.

    Depois de terminar a refeição, improvisou um lugar para dormir e se deitou, mas o sono não vinha. Sempre que fitava a escuridão trazida pela ausência da Estrela, tinha a sensação estranha e desagradável de que algo, lá dentro, o fitava de volta. 

    Por fim, desistiu de descansar e decidiu caminhar pelo acampamento. Alguns jovens ainda permaneciam acordados perto das fogueiras, falando baixo demais ou alto demais, conforme o medo os tornava tagarelas ou mudos. Nas extremidades, os voroirs de guarda eram mais presença do que figura, quase engolidos pelas sombras, elmos e lanças recortados pelo brilho instável do fogo

    A cada passo, seus olhos tentavam inventar formas nas sombras para além do sal. Troncos viravam membros. Pedras se tornavam dorsos agachados. Nada estava ali – e justamente por isso o medo piorava. O escuro sempre encontrava jeitos mais eficientes de mastigar a coragem.

    Foi então que encontrou a figura familiar que procurava, conversando com alguém que lhe parecia vagamente conhecido.

    Sigrid estava sentada ao lado da outra moça, perto de uma das fogueiras, ambas observando as chamas dançarem como se nelas houvesse respostas. O sorriso que quase sempre iluminava o rosto de Sigrid havia desaparecido. Sua testa estava levemente franzida, e algo em sua expressão dizia que ela estava longe dali, perdida em pensamentos.

    “Sigrid?”, chamou Hrafn, aproximando-se.

    Antes que qualquer resposta chegasse, um grito rasgou a noite — alto, súbito.

    “Voroirs!”, ouviu-se o rugir. Aquela voz já lhe era familiar.

    A urgência nela não.  Então o trompete soou.

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