Leif estava grato.

    Dadas as circunstâncias, aquilo talvez parecesse loucura. O braço esquerdo pendia quebrado ao lado do corpo. Costelas fora do lugar mordiam sua carne a cada respiração mais funda. O olho esquerdo, agora cego, roubava-lhe metade da noite e tornava o retorno ao acampamento mais lento do que deveria ter sido.

    Ainda assim, estava grato.

    Grato por ser um hersir. Grato por ser forte. Grato por estar vivo. Grato por ter estado ali naquela noite.

    Porque tudo naquilo estava errado.

    Não deveria haver tantos óhreinn tão adentro do reino sagrado. Tão perto da estrada. Tão perto do sangue novo.

    Por isso avançava com a respiração curta e o corpo quebrado, sentindo a dor como uma sucessão de marteladas secas sob a pele, mas sem permitir que ela ocupasse mais espaço do que devia. A profanação que fizera aquilo com ele estava morta. Isso bastava para manter os pés em movimento.

    Um sacrílego maior.

    Uma das coisas mais imundas que a noite podia cuspir.

    A luta contra a criatura fora uma desgraça. De ver, se alguém a tivesse visto. De participar, ainda mais. Fora dente e aço, heresia e milagre, brutalidade crua de ambos os lados. A besta era rápida demais para o próprio tamanho e forte demais para aquilo ter sido permitido pelo mundo. Ainda assim, tombara.

    Leif vivera.

    E por isso estava satisfeito.

    Seus homens viveriam, os comuns viveriam, o sangue novo viveria, e assim.

    A Hird permanece.

    Logo avistou o acampamento.

    Mesmo de longe, com a visão falha e a noite comendo as formas, viu o bastante para saber que o trabalho não terminara. Alguns caídos ainda corriam soltos.

    Entrou de volta no acampamento sem desacelerar. Ele era Leif.

    E não cessaria até que cada imundície fosse lavada da terra do senhor.

    Sua chegada foi marcada por violência. Direta. Veloz. Sangrenta.

    O primeiro caído mal teve tempo de virar a cabeça. Leif o alcançou por trás e o machado atravessou coluna e peito num único golpe curto. O segundo tentou lançar a cauda em ponta contra ele. Leif girou o tronco, deixando a estaca raspar em ferro e couro, e esmagou a base do pescoço da criatura com a lâmina larga. O terceiro veio maior, erguendo-se sobre as patas traseiras como uma deformação de urso e cão. Leif deu um passo para dentro do bote e abriu a garganta da coisa de uma lateral à outra.

    O sangue negro caiu.

    A presença dele bastou para reacender o que restava da ordem.

    Os voroirs, que um instante antes lutavam com o desespero de quem segura uma porta cedendo, encontraram novo fôlego ao vê-lo. Não por milagre. Por hábito. Porque a visão do hersir ainda de pé, ainda matando, ainda avançando apesar do estado em que voltara, lembrava-lhes o que eram.

    “A Hird permanece!”, bradou Leif, alto quanto o pulmão ferido permitia.

    “O Véu guarda!”, responderam os voroirs.

    A resposta veio junto do som de metal entrando em carne.

    Leif não perdeu tempo com perguntas. A formação voltava a se estabilizar sob o peso da sua presença e do ânimo novo que ela arrastava consigo. Isso bastava. O resto podia ser entendido depois.

    Avançou mais fundo pelo acampamento.

    O lugar era uma carnificina. Corpos estavam espalhados entre rodas de carroça, barracas rasgados, armas caídas e manchas de sangue que brilhavam negras à luz vacilante do fogo. Se a Estrela fosse permissiva, pensou, pouco daquele sangue seria fylkirn.

    Era um pensamento mórbido.

    Também era um pensamento prático.

    Leif não se permitia o luxo de mentir para si mesmo. Comuns eram muitos. Voroirs, poucos. O peso das perdas não era igual, mesmo quando a morte fosse a mesma. Ainda assim, cada corpo no chão exigia cobrança. Cada falha da linha seria cobrada.

    Foi então que ele o viu.

    Um rapaz alto, atlético, ainda verde no corpo apesar do porte, preso no exato instante entre viver e morrer.

    Uma estaca óssea, maior que o próprio braço do menino, vinha em direção ao peito dele.

    Leif calculou a distância de imediato.

    Mesmo reunindo o máximo do pouco que lhe restava, não chegaria a tempo para esse. Talvez salvasse os outros dois ao redor. Talvez limpasse a área antes que mais um caído entrasse. Mas aquele estava fadado.

    Então notou algo estranho.

    Os olhos do rapaz se moviam de forma errada dentro das órbitas. Não em pânico cego. Não como os de quem procura saída. Giravam depressa demais, captando tudo num ritmo que não pertencia a um corpo comum.

    Leif estreitou o único olho útil.

    O garoto então se moveu.

    Não rápido.

    Leif conhecia velocidade. Vira e usara velocidade de verdade mais vezes do que podia contar. Aquilo não era isso.

    Era outra coisa.

    O movimento do rapaz foi lento o bastante para parecer falho, mas preciso num grau absurdo. Ridículo. O tipo de precisão que nem muito voroir treinado teria sob pressão, muito menos um iniciado sem experiência de campo. Mesmo assim, o corpo dele encontrou o único espaço possível entre morte e permanência.

    Saiu vivo.

    Pagando por isso.

    O braço direito foi arrancado quase da omoplata quando o garoto torceu o corpo para escapar do golpe principal e, ao mesmo tempo, enterrou a espada na criatura. Não a matou. Não chegaria perto disso. Mas atrasou a besta o bastante.

    Foi o que bastou para Leif.

    Pisou uma vez e cortou metade da distância.

    Pisou outra e já estava sobre a criatura.

    O machado desceu num arco brutal e a partiu ao meio.

    O corpo aberto tombou em duas metades desiguais no sal e na lama.

    Leif observou o que sobrara do caído por um instante. Depois deixou o olhar ficar um momento a mais sobre o rapaz mutilado. Não por piedade. Por registro. Pela estranheza do que acabara de ver.

    Promissor.

    Mas havia mais óhreinn para matar e mais sangue para preservar.

    Voltou-se de novo ao que importava.

    Com ele ali, as lutas restantes perderam o fôlego depressa. O que antes era um combate sangrento e mal contido virou limpeza. Restavam caídos espalhados, feridos, isolados ou sem direção. Ainda perigosos. Mas já condenados.

    Um voroir esmagou o crânio de um dos menores contra a roda de uma carroça. Outro enterrou uma espada curta sob a mandíbula de uma besta que tentava arrastar uma mulher pelo tornozelo. Leif abateu mais dois com golpes secos, sem permitir que nenhum deles se aproximasse das pilhas de feridos.

    “Pela Hird!”, bradaram alguns voroirs quando a última resistência começou a quebrar.

    Leif admirava o espírito deles.

    Não compartilhava o triunfo.

    Havia corpos demais no chão para que aquela vitória tivesse gosto limpo.

    Comuns. fylkirns. voroirs.

    O que se seguiu foi o trabalho frio do depois

    O sangue ficava ainda mais evidente ao escorrer sobre o branco santo do sal de aço da estrada larga, abrindo riscos escuros sobre a pureza. A visão lhe desagradou mais do que qualquer grito daquela noite.

    Viu uma mulher caída perto de uma fogueira apagada, tão morta quanto às chamas.

    Abençoada pelo azul.

    Leif a reconheceu.

    O corpo estava quebrado no meio, mutilado em partes. Ela terminara o treinamento de voroir havia um ano. Servira sob seu comando desde então. Jovem ainda, promissora, firme em campo.

    Morrera salvando cinco comuns.

    Uma boa mulher, uma morte tola.

    Valia por cem daqueles que salvara. Talvez por mais. Poderia vir a valer ainda muito mais, se a Estrela permitisse tempo. Agora isso já não importava.

    Leif segurou o pensamento só o bastante para reconhecê-lo. Depois o empurrou para baixo.

    “Queimem os corpos. Deem o devido descanso a eles”, ordenou. “E me tragam um relatório de perdas.”

    Não havia utilidade em se demorar no que não podia ser revertido.

    Aqueles que morreram, morreram com honra.

    Morreram pela única causa que, no entendimento de Leif, valia suas vidas.

    Corpos — ou o que restara deles — começaram a ser reunidos. Foram arrastados pelo sal, pela lama e pelo frio da noite até um ponto comum. As armaduras foram removidas com cuidado quando ainda havia o que remover. Os mortos foram dispostos na posição mais honrosa que a situação permitia. 

    Quanto aos caídos, a luz da Estrela cuidaria deles ao amanhecer. Lavaria sua existência blasfema da terra, dando aquilo que há de bom no mundo fôlego para se firmar sob as vinte horas da sua benção.

    “Relatório!”, chamou um voroir, aproximando-se.

    O homem tentou não olhar para o corpo quebrado do hersir mais do que a educação permitia. Ele mesmo não estava inteiro. Havia buracos novos onde não deveria haver buracos. Ainda assim, permanecia de pé.

    “Prossiga”, respondeu Leif. A voz continuava grave. Forte. Só um pouco mais arrastada do que seria.

    “Sim, elevado hersir. As mortes chegam a dezenas. A maioria, no centro, eram comuns sem treinamento. Destes, morreram vinte e três ao todo, dos comuns guerreiros tivemos quinze baixas. Assim como três elevados fylkirn e… dois voroirs.”

    A última parte saiu mais pesada. 

    Leif apertou a mandíbula.

    Assentiu uma vez.

    Olhou ao redor do acampamento, agora reduzido a fogo, corpos, sal e sobreviventes em choque.

    “Isso é tudo, irmão”, disse.

    Dispensou o homem com um gesto curto.

    Não havia muito mais o que elaborar. Entendia o bastante do que acontecera. Não valia lamentar os mortos em voz alta. Os mortos descansavam. 

    E a vergonha de perder tanto não seria lavada com lamento.

    Só com força.

    Sendo melhor. Sendo mais poderoso. Guardando o sangue novo como era seu papel. Até o dia em que estivesse quebrado demais para exercê-lo.

    Ou até o dia em que eles próprios estivessem prontos para guardar alguma coisa por si.

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