Capítulo 8 – Hrafn – Velhas Coisas
Sentia algo no peito. Algo quente, confortável, gentil.
Então vieram os sons do acampamento.
Hrafn abriu os olhos devagar e encontrou a fonte daquele conforto: um homem não muito mais velho que ele, ajoelhado ao seu lado, com ambas as mãos espalmadas sobre seu peito. Um brilho branco e fosco vazava de seus dedos e se derramava por sua carne em ondas mansas, correndo por dentro das costelas.
Ao notar que ele despertara, o sujeito afastou as mãos e assentiu. Hrafn se limitou a acenar de volta. Até preferia assim.
O homem permaneceu ali, inclinando-se um pouco para trás, olhando para ele com uma expressão que parecia pena.
Hrafn não prestou muita atenção. Diziam que os abençoados pelo branco geralmente tinham corações moles. Fazia sentido. Era preciso ter para escolher sentir a dor alheia quando já havia dor suficiente no mundo para qualquer homem honesto.
Levantou a mão esquerda e passou os dedos pelo cabelo, jogando-o para trás. Em seguida levou a direita à cintura, buscando o conforto do punho frio da espada.
Mas ela não estava ali. Nem a espada. Nem a mão. Nem braço algum.
A dor surgiu na nuca e desceu pela espinha feito metal quente, espalhando-se até o vazio onde o membro deveria estar. Um choque bruto, íntimo, absurdo. O grito lhe rasgou a garganta antes que pudesse contê-lo.
A lembrança voltou de uma vez: o primeiro caído tombando sob o hersir, a linha firme dos voroirs, a floresta fechada, o cheiro de sangue, a quebra. E o preço.
Sim, tivera de escolher entre ser empalado no peito, ou ser empalado no ombro. Mas, tendo voroirs por perto, achara que ainda poderia manter o membro. Que algum branco o costuraria de volta à carne, que a Hird arrancaria algum milagre das costelas do Véu e o devolveria inteiro. Se tivesse sorte suficiente
Mas quando foi que eu tive o maldito suficiente de sorte?
“Não tente mover o braço perdido, irmão”, pontuou o voroir ao lado. Sua voz tinha uma pena polida que Hrafn já detestava antes mesmo de ouvi-la por inteiro. “Sua mente ainda não entende a perda. Sempre que tentar mexê-lo sentirá agonia.’’
A megin dele derramou alívio sobre a carne ferida, abafando um pouco o incêndio que corria pelos nervos. ‘’Mas, com treino e com tempo, será capaz de se acostumar.”
A, que bom, bem simples não e imbecil, e so se acostumar.
“Vou manter isso em mente”, respondeu Hrafn, depois de alguns momentos.
O voroir assentiu, satisfeito.
Hrafn odiava gente que despejava o peso nos outros para abafar a própria angústia. Aquele tipo de gentileza sempre lhe parecera mais um consolo para quem a oferecia do que para quem a recebia. Ainda assim, mordeu a irritação. O homem era um voroir. E, dado o que era, talvez um dia ainda acabasse mais miserável do que ele.
Tornou a se deitar e respirou fundo. O ar tinha cheiro de terra, suor velho, pano encharcado e sangue. Muito sangue.
A megin do voroir aliviava, mas não apagava. Cada impulso de sua mente em direção ao braço ausente trazia nova agonia, como se o corpo se recusasse a aceitar a perda.
Tentou pensar em outra coisa.
Olhar pelo lado bom sempre fora uma das suas melhores habilidades. Ou, ao menos, fingir que olhara.
Logo lhe ocorreram algumas.
Não teria mais de encarar a cara maldita do empregador do cais.
Agora era um nobre.
Um nobre sem braço, é verdade, mas ainda assim um nobre.
E havia também suas novas capacidades.
Isso quase lhe arrancou um sorriso.
Quase, porque até sorrir doía.
“Não se sinta tão mal”, declarou o jovem voroir, aparentemente entendendo algo errado. “Há muito que um voroir pode alcançar só com um membro. A cor inclina a megin, mas não define tudo. Já vi irmãos lutarem com uma mão, com um olho, com costelas quebradas. Já vi—”
Hrafn deixou a voz escorrer para o fundo do mundo.
Sentia-se uma desgraça? Sem dúvida.
Resignado? Nem perto.
Quanto mais pensava na própria situação e quanto mais algum vestígio torto de sorriso lhe escapava, mais apressada a voz do voroir se tornava. O sujeito passou a listar tudo o que ainda se podia fazer sem um braço.
Deixou que falasse sozinho e afundou outra vez nas memórias da batalha.
A lembrança de ter sentido tanto ainda o perturbava, mas também o fascinava.
Até onde sabia, os abençoados pelo verde eram quase como os do branco em sua natureza estranha. A diferença era que o branco tocava carne e dor, enquanto o verde parecia afundar os dedos em coisas mais antigas. Mais fundas.
Todo voroir já era mais forte que um homem comum. Mas alguns eram menos moldados para a guerra que outros.
Naquele mundo, isso quase era pecado.
Ainda assim, o que o atravessara naquela noite não parecera fraqueza.
Pelo contrário.
Ao se lembrar do estado em que estivera, do cheiro de sangue, não parecia ter sido apenas com as narinas que o sentira.
Não parecia nem mesmo cheiro.
Era como se o próprio sangue escorresse sobre ele.
Como se tudo tivesse peso, calor e direção próprios. Como se o sangue do mundo inteiro soubesse exatamente para onde queria correr, e por um instante ele soubesse também.
O sentimento veio de novo com a ideia, apesar de mais fraco.
Ainda estando na barraca, mesmo sem ver, percebeu que o acampamento estava desperto ao redor. Toldos improvisados de lona escura tremiam ao vento. Alguns feridos gemiam baixo. Outros já não gemiam nada. Homens andavam entre fogueiras pequenas, armaduras sujas, panos amarrados a cotos, coxas e torsos.
E tudo aquilo lhe chegava estranho.
O vento não soprava apenas contra sua pele. Vinha de muitos lados, de muitos lugares, de formas demais. Havia o sopro alto nas copas. Havia o rastejar entre as tendas. Havia o movimento miúdo rente ao chão, passando por entre raízes enterradas e pedras frias.
Hrafn franziu o cenho. Sob a terra, havia mais: umidade, raízes, a matéria escura do chão abraçando tudo que caía nele.
E aquilo lhe trouxe, sem aviso, uma lembrança da história de Saga.
A Ruína Verde.
Seus corpos tornavam-se parte do solo.
A frase surgiu nítida em sua cabeça, e com ela veio uma sensação. Era proximidade. Como se enfim entendesse, ainda que por um dedo de distância, o que havia de errado e sagrado naquela velha história.
Parte do solo.
Olhou além do curandeiro branco e sentiu, a um bocado de passos, uma faixa de terra revolvida onde sangue escuro havia sido absorvido. Havia ali uma voracidade silenciosa que ele não saberia nomear. O chão bebia. Sem pressa.
E o mais perturbador era que aquilo não lhe pareceu monstruoso.
Apenas antigo. Natural. Como se a floresta, a terra e o sangue mantivessem entre si uma conversa muito velha para que homens a chamassem de crueldade.
Um calafrio percorreu sua nuca. Quase como se, por um momento, ele também fizesse parte daquilo. Um fio entre fios, um membro de algo maior e silencioso.
A sensação foi embora tão rápido quanto veio, mas deixou um rastro. Hrafn respirou mais fundo.
“Está sentindo algo?”, perguntou o voroir branco, talvez enfim notando que ele não o escutava fazia algum tempo.
Hrafn levou um momento até responder.
“Fome”, mentiu.
O outro soltou uma pequena risada, talvez aliviado por ouvir algo banal.
“Isso é bom. Significa que o corpo quer continuar.”
Hrafn não respondeu. Olhou através da abertura na barraca, para a linha escura das árvores onde a floresta começava. Sob a luz, os troncos pareciam colunas antigas de um salão sem teto.
E talvez fosse exatamente isso.
Talvez sua percepção do tempo tivesse se aproximado da deles por um breve instante. Não do tempo dos homens, contado em respirações, medos e pequenas urgências, mas do tempo daquilo que permanece parado enquanto tudo ao redor nasce, apodrece e afunda.
O pensamento deveria tê-lo assustado mais. Em vez disso, trouxe um conforto torto.
Havia perdido um braço, mas despertara para outra coisa. Uma coisa estranha, antiga, talvez horrível, talvez útil, talvez as duas.
Moveu o ombro de leve por reflexo e a dor fantasma voltou, feroz, arrancando-lhe o ar. Fechou os olhos e esperou a onda passar, o maxilar travado com tanta força que achou que partiria um dente.
Quando a agonia recuou, restou-lhe apenas o cansaço e aquela percepção nova, funda, incômoda, à espreita sob a pele.
Um braço ainda era um preço alto.
Mas começava a parecer menos absurdo.
Obrigado por ler, caro leitor.

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