Prólogo – Eirik – O Grasnar Dos Corvos
Com Eirik, eram quatro. Pouco, muito pouco.
Havia também os cavalos, mas não serviriam de grande ajuda, presos à carruagem como estavam, mais úteis ao peso da carga do que a qualquer fuga.
“O quão certo você está sobre esse caminho?”, perguntou Eirik.
Tentou soar só irritado, a ansiedade vazou mesmo assim.
“Se eu digo que este é o caminho”, respondeu Yrsa, sem olhar para trás, “então este é o caminho.”
“Covarde”, disse Sten, pigarreando no alto da carga. “Talvez, se você falasse menos, não arrastasse azar atrás de si.”
Haldor soltou um ruído de aprovação lá na frente, mãos firmes nas rédeas.
Mas Eirik não se sentia melhor. Coisas demais tinham dado errado.
“Maldita seja a Hird”, resmungou Haldor. “Com a moeda que cobram pelo uso das estradas, que lucro sobra?”
Todos partilhavam da mesma raiva. Foi por isso que aceitaram Yrsa quando ela falou de um caminho de contrabando. Velho, esquecido, seguro o bastante. Sem taxa, sem fiscalização, sem sal.
Um risco bom, tinham achado, bom demais.
Tinham se empolgado com a ideia a ponto de encher duas carruagens de mercadoria. Barris, tecidos, ferramentas, metal barato, tudo o que valeria o dobro em Vardheim.
Ataram uma atrás da outra e abarrotaram ambas até o limite. A carga ficou tão alta que Eirik e Sten precisaram se empoleirar em cima, enquanto Yrsa e Haldor guiavam os cavalos.
Yrsa jurara que era um caminho velho. Terra morta, dissera ela. Pouca vida, pouca coisa para a noite se interessar.
Seria seguro.
Eirik já não tinha tanta certeza.
A ganância cobrava seu preço. O encaixe entre as carruagens se partira no meio do caminho, e eles perderam o dia improvisando um reparo. Agora avançavam noite adentro, quando já deviam ter chegado .
“Menos língua e mais foco”, disse Yrsa. “O escuro nos ronda.”
Ela tinha razão. Havia um limite para o quão baixo alguém podia falar e ainda ser ouvido. Mas Haldor não gostou do tom. Em parte porque gostava de muita pouca coisa. Em parte porque acreditava que ordens deviam sair dele.
Por alguns segundos, os dois se encaram em silêncio duro.
No fim, Haldor abaixou a cabeça, rendido mais pela necessidade do que pela obediência.
Nas horas que se seguiram, houve apenas o som oco do couro batendo contra couro.
A origem era Eirik.
Nervoso como estava, batera os dedos no cinto, nas tiras, nas bainhas, em qualquer pedaço de couro ao alcance. O ruído o distraía, trazia algum alívio.
Não era sua primeira viagem. Mas nunca saíra dos muros com um grupo tão pequeno, nem deixara as estradas sagradas para trás.
Ele era um homem de sorte. A noite nunca lhe mostrara os dentes.
Ainda assim, crescera ouvindo histórias sobre as criaturas que viviam no escuro, coisas antigas, coisas famintas.
“Porra, para com isso, imbecil”, rosnou Haldor, virando meio corpo. “Vai chamar a mata toda.”
Eirik sabia que o sujeito nunca gostara dele. Nenhum deles gostava, na verdade, mas ele precisava da moeda.
Pensou em responder, em xingar de volta, mandar Haldor se foder.
Mas então viu, no horizonte, os primeiros indícios da Estrela nascendo, ainda levaria tempo, mas nasceria.
O alívio foi tão grande que ele engoliu a resposta.
“C-corvos”, murmurou Sten. O tom em sua voz arrancou a paz recém-conquistada de Eirik.
“Fala direito”, disse Haldor, irritado por não ter ouvido. “Homem frouxo.”
“Armas”, ordenou Yrsa.
Haldor puxou as machadinhas sem hesitar, sem sequer perguntar por quê. Era por isso que o aceitavam; quando o assunto era violência, ele sabia o que fazia.
Eirik não era tão decidido.
Virou-se primeiro para onde Sten olhava.
Havia um bando de corvos entre as árvores, acompanhando o grupo pela lateral. Mais chegavam a cada instante, pousando nos galhos sem fazer barulho, cruzando o ar sem um bater de asas que se ouvisse.
Um pressentimento ruim se enroscou dentro dele.
Os cavalos pararam. Yrsa tentou forçá-los adiante, em direção à luz que nasceria.
O animal não respondeu.
“Mas que—”
“Quieto”, advertiu Yrsa, descendo da carruagem.
Ela olhava para a mata como se temesse que o escuro pudesse ouvi-la.
“Andem devagar e não façam barulho.” Então acrescentou: “A Estrela está nascendo.”
A lembrança trouxe algum alívio ao grupo. Yrsa sempre soubera o que dizer aos seus.
“Você sabe o que são?”, sussurrou Sten para Haldor.
“Com certeza não são só corvos”, ele respondeu.
Ninguém ouvia nada além dos passos cautelosos, do sopro frio do fim da noite e do som dos próprios corações martelando nas costelas.
Eles engoliam seco a cada passo. As mãos estavam frias. O suor escorria pelas testas, pelas costas, pelas espinhas.
Observavam os corvos, mas as aves não pareciam interessadas neles. Apenas assistiam, imóveis, esperando.
Então o movimento veio.
Mas não dos corvos.
“Eu… eu sinto muito”, balbuciou Sten.
Antes que Eirik entendesse o que estava ouvindo, Sten enterrou a adaga na garganta de Haldor por trás.
“Eu sinto muito”, repetiu, a voz já desfeita.
Haldor caiu de joelhos agarrando o próprio pescoço, o sangue vazando por entre os dedos. Tentou falar alguma coisa, mas o gargarejo borbulhante do sangue não deixou.
“Mas que mer—”, tentou dizer Eirik, ainda preso ao choque.
A lâmina de Yrsa atravessou suas entranhas pelas costas antes que ele terminasse.
A dor foi tão funda que quase não pareceu dor. Primeiro veio o choque, um calor brutal se abrindo dentro dele. Depois a sensação da espada sendo puxada num movimento lateral, rasgando-lhe as entranhas, derramando sua vida na terra fria.
O que veio depois o aterrorizaria mesmo na morte.
Caído entre a lama e o próprio sangue, Eirik viu Yrsa passar a espada devagar pelo próprio pescoço, sorrindo enquanto o fazia.
Sten cravou a adaga em si mesmo. No ventre. De novo. E de novo. E de novo. Como se quisesse cavar alguma coisa para fora do corpo. Continuou entre sons sufocados, cada golpe mais fraco que o anterior, até o braço perder força e a mão ficar lenta, escura, encharcada do próprio sangue.
E o silêncio que se seguiu ao fim deles foi preenchido pelo grasnar dos corvos.
O som encheu a mata, áspero, jubiloso, quase humano na crueldade.
Como se rissem deles e de sua miséria.
Olá, querido leitor,
Aqui começa a nossa jornada pelo mundo dos Três Milagres, e eu espero que você goste tanto dela quanto eu.
Os capítulos serão postados diariamente! A partir deste momento, a obra seguirá com capítulos diários, mesmo nos maus dias. Já nos bons dias, nos dias em que você, meu caro leitor, puder me dar um vislumbre de sua moeda mais valiosa — seu tempo —, seja comentando, curtindo ou avaliando, então este, caro leitor, será para mim um dia feliz, um dia com mais capítulos ate.
Gaste seu tempo como quiser, e claro. Se não enxerga como poderia ajudar, ora pois, atrapalhe: discuta no chat, incomode alguém, participe, querido leitor — e isso já será honesto o bastante.
Será suficiente.
Meus mais sinceros agradecimentos,
Jhonata R. Jordan

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