Capítulo 20 - Retorno ao Inferno
O estrondo colossal do portão de ferro negro desabando contra a terra batida selou o mundo dos vivos.
Lancrey desapareceu. As engrenagens uivaram uma última vez antes do silêncio absoluto engolir os arredores. A neblina espessa e cadavérica das Terras Exímias abraçou os cinco guerreiros instantaneamente, como um oceano de cinzas faminto por novas almas.
O ar além das muralhas não possuía a mesma textura da cidade. Respirar no Fronte exigia esforço. A atmosfera fedia a ozônio queimado, sangue envelhecido e rocha moída. A temperatura despencou brutalmente, ameaçando congelar o suor na pele, mas a genialidade da forja de Regiz provou seu valor no primeiro milésimo de segundo. As escamas de Zecreo, a malha lunar e a obsidiana rejeitaram o frio primordial, mantendo o calor vital preso aos corpos do esquadrão.
Gravios ergueu a mão direita revestida pela Manopla do Crepúsculo Inerte. Um gesto simples. Dois dedos apontados para a frente.
A formação de abate nasceu na névoa.
Vorn assumiu a vanguarda. O gigante fincou as botas pesadas na cinza fofa, o imenso Escudo de Obsidiana erguido na altura do peito, formando um muro negro e móvel. Cada passo do colosso esmagava ossos esquecidos sob a sujeira, triturando a história de Lancrey, mas a postura da lenda permanecia impenetrável. A couraça de vidro vulcânico absorvia a pouca luz do amanhecer, transformando o veterano numa verdadeira montanha de escuridão caminhante.
Mirel separou-se do grupo principal, evaporando no flanco esquerdo. A Malha de Prata Lunar provou ser um milagre tático. O metal sagrado não emitia um único tilintar. A garota deslizava por entre rochedos pontiagudos e pilares de pedra desmoronados como um espectro solto no mundo físico. As pontas dos dedos roçavam os cabos curvos das Adagas de Rubro Lunar, aguardando o momento de provar o primeiro sangue inimigo.
No flanco direito, a silhueta rubra de Trok escalou os destroços de uma antiga torre de cerco tombada. A armadura cor-de-ferrugem mesclou-se perfeitamente aos escombros oxidados. O atirador apoiou a besta de repetição na alvenaria rachada e varreu o horizonte através da mira mecânica. O dedo indicador do batedor repousava perigosamente perto do gatilho, pronto para disparar um virote de carvão negro ao menor sinal de anomalia.
Caelan assumiu a retaguarda central, cobrindo as costas de Gravios. O garoto ajustou as alças do peitoral. O couro rústico e as escamas cinza-esverdeadas flexionavam em sintonia perfeita com a musculatura tensionada, oferecendo uma liberdade de movimento assustadora. Contudo, a Espada Longa de Ruptura pesava transversalmente em suas costas. A massa brutal de aço negro servia como um lembrete físico e constante da violência exigida pelo abismo.
Os cinco quilômetros iniciais representavam o Fronte Verdadeiro. A trincheira de abate desenhada nos pergaminhos da Torre dos Arquivistas.
O terreno descortinava um cemitério a céu aberto. Crateras enormes, escavadas por explosivos de gerações passadas, marcavam a planície cinzenta. Pedaços de estandartes apodrecidos balançavam presos a lanças fincadas no solo. Carcaças secas e retorcidas de Xemios Menores adornavam as beiradas do caminho, desidratadas pelo vento implacável.
Entretanto, um detalhe mórbido e arrepiante dominava a paisagem.
O silêncio.
Não havia o som rastejante de garras na pedra. Faltavam os grunhidos distantes de matilhas selvagens disputando carne podre. Até mesmo as sombras fugazes dos Zecreos — as bestas covardes famosas por infestar os arredores da muralha — sumiram. O ecossistema inteiro recuara. A fauna corrompida, movida por puro instinto de preservação, havia abandonado o quintal de Lancrey.
Caelan estreitou os olhos, sentindo um arrepio gélido subir pela espinha. A mente do recruta uniu as peças.
— A planície está vazia — sussurrou o garoto, a voz rouca não passando de um sopro rasgado. O treinamento de Vorn ensinara a ler o ambiente, e o ambiente gritava perigo.
Gravios não diminuiu o ritmo da marcha. O General cravou as botas na terra morta, os olhos azuis varrendo a neblina espessa à frente. A cicatriz no rosto do veterano latejou sutilmente.
— O pânico esvaziou as trincheiras — respondeu Gravios, o tom baixo carregando o peso de uma constatação letal. — As feras menores fugiram. O Alfa reivindicou este território inteiro como zona de caça particular, e o intelecto roubado dele sabe reconhecer a ameaça das nossas forjas.
O General parou de caminhar. Gravios não alcançou bainha alguma. Ele simplesmente ergueu os braços e fechou os dois punhos com violência brutal.
O estalo metálico ressoou como um trovão abafado. O metal arroxeado das Manoplas do Crepúsculo Inerte reagiu à força do comandante. As placas ajustaram-se sobre os ossos dos dedos, e uma energia surda e vibrante pulsou através das juntas da arma, emitindo um zumbido grave que fez a própria névoa ao redor recuar milímetros. O ar tremeu sob a pressão esmagadora contida naqueles punhos.
Nenhuma lâmina era necessária. As mãos de Gravios haviam se tornado martelos de cerco.
— Mantenham os olhos nas sombras e a respiração controlada — ordenou a Lenda, os punhos cerrados brilhando com a promessa de ossos triturados. — A Cratera de Ashfall aguarda logo adiante. O inferno sabe da nossa chegada, e nós não viemos bater na porta. Viemos derrubá-la.
A marcha adentrou o coração cinzento do Fronte Verdadeiro. A neblina espessa limitou a visão a parcos metros e isolou o esquadrão em uma bolha de tensão palpável. Vorn assumiu a vanguarda e triturou ossos fossilizados sob as botas pesadas a cada passo. Trok e Gravios vigiaram os extremos da formação com olhos letais.
Mirel reduziu a distância, emparelhando os passos com os de Caelan. A batedora movia-se sem produzir um único ruído. A Malha de Prata Lunar abafou todo o atrito do couro. A garota tornou-se um mero espectro prateado sob a sujeira.
— O silêncio consegue ser pior do que os rugidos — sussurrou Mirel, a voz macia mal furando o sopro contínuo do vento gélido.
Caelan manteve os olhos fixos na cortina de fumaça à frente. Os ombros do garoto acompanharam o balanço ritmado da Espada de Ruptura presa às costas.
— O silêncio significa preparo — respondeu o recruta, apertando os dedos ao redor das tiras da armadura de Zecreo. — Da última vez, corríamos feito ratos cegos nestes destroços. Agora… parece um velório antecipado.
A recruta lançou um olhar analítico para o irmão de criação. O pavor, outrora estampado no rosto dele, cedera lugar a uma concentração gélida.
— Acha mesmo suficiente? — questionou Mirel, os dedos roçando as empunhaduras escarlates das adagas gêmeas. — Regiz forjou milagres debaixo da terra, mas a besta rouba almas, Caelan. Rouba intelecto. Nós vestimos prata e obsidiana, porém a mente do Alfa possui milênios de vantagem. Ele sabe ler o nosso medo.
Caelan virou o rosto. A menção ao horror psicológico da anomalia fez a velha cicatriz em seu ombro formigar. Contudo, o garoto recordou-se do pátio de terra, dos virotes implacáveis de Trok e dos golpes esmagadores de Vorn. A promessa silenciosa no escuro da arena trouxe calor às mãos congeladas.
— O aço de Regiz apenas nos mantém vivos para o primeiro golpe — ponderou Caelan, o tom carregando uma maturidade moldada a sangue e hematomas. — A vantagem da besta morre no exato instante em que nós esquecemos o medo. Ela devora memórias e desespero, Mirel. Se entrarmos na cratera apavorados, o Alfa nos jantará antes mesmo de Gravios erguer os punhos. Precisamos ancorar a mente no motivo do retorno.
A garota piscou. Os olhos escuros brilharam sob a luz opaca e cinzenta das Terras Exímias. A dura lição do treinamento retornou com força absoluta. A lama forjou a espada capaz de proteger o pergaminho.
— Torre dos Arquivistas — murmurou a batedora. As bochechas coraram levemente, aquecidas pelo frio cortante e pela confissão íntima sussurrada na fronteira do fim do mundo. — Sobreviveremos à descida. O velho Silas terá um infarto no dia em que eu cruzar as portas daquela ala restrita, mas nós voltaremos para buscá-la. Juntos.
Um sorriso torto e exausto repuxou o canto da boca de Caelan.
— Liriel provavelmente já mapeou nossa rota de fuga pelos esgotos do castelo caso a guarda real tente nos impedir — gracejou o garoto. A lembrança da irmã trouxe um conforto absurdo em meio ao purgatório. — Apenas certifique-se de não encravar essas adagas lunares em alguma parede de pedra. Regiz nos mataria muito antes do monstro.
Mirel riu baixinho. O som genuíno durou apenas uma fração de segundo, engolido prontamente pela vastidão vazia da morte. A promessa dividida entre ambos solidificou a sanidade do flanco esquerdo. A âncora emocional cravou-se fundo na rocha. Não marchavam por dever militar ou por lordes covardes. Marchavam por amor, e o abismo não poderia roubar isso.
Os quilômetros finais da trincheira escorreram sob as solas de aço do esquadrão. A paisagem distorceu-se de forma abrupta. O solo plano cedeu lugar a fendas verticais irregulares. A neblina rasteira assumiu um tom alaranjado doentio, iluminada pela própria energia estagnada e corrompida do subsolo.
Gravios ergueu a mão direita e cravou as botas na beirada de um precipício monumental.
Vorn parou de imediato. Trok ajoelhou-se sobre uma rocha próxima e engatilhou a besta de repetição. O clique metálico sinistro cortou a névoa. Mirel e Caelan silenciaram as palavras, tensionando os músculos em alerta máximo.
Diante deles, o chão abriu-se em uma bocarra titânica.
A Cratera de Ashfall expôs as próprias entranhas. Pilares de sustentação estilhaçados apontaram para o céu fechado como os dedos expostos de um cadáver enterrado raso. Muito abaixo da superfície, as ruínas da catedral gótica e das praças da cidade soterrada jaziam imersas em uma escuridão sufocante.
O ar quente, carregado de enxofre e memórias queimadas, subiu das profundezas e chicoteou o rosto dos guerreiros.
Do fundo absoluto daquele abismo de pedra, um ruído cadenciado arranhou a audição da equipe. Não um urro selvagem. Não um rosnado instintivo. Tratava-se do som inatural de algo colossal raspando deliberadamente garras ósseas contra o chão de alvenaria. Um tique-taque macabro e consciente.
O dono da casa aguardava as visitas. E sabia exatamente quem estava na porta.

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