Capítulo 93 - Poder Emprestado
Acordar tinha sido a parte menos dolorosa para Fenrir. Logo depois, qualquer movimento se revertia em uma sofrimento diferente. Os olhos ardiam, o joelho rangia, a cabeça não parava de incomodar. E, devido a isso, os pensamentos mais profundos da batalha contra Elchor ficaram para depois, pois ele sequer conseguia conter as dores.
O ceifador queria tomar fluido de oração, mas Heitor não permitiu.
— Ao menos por enquanto — advertiu. — Você quase morreu.
Essa frase se repetiria em loop na mente de Fenrir muito depois.
— Precisa dar um tempo para seu corpo se recuperar sozinho.
O problema era que, na percepção dele, seu corpo não estava se recuperando. E foi ainda pior quando Anayê trouxe um pedaço de pão e queijo para comer. A comida não tinha gosto, as paredes da boca tinham várias pequenas feridas e passar qualquer alimento pela garganta era um esforço hercúleo. Fenrir ficou empapado de suor para comer um pedaço de pão do tamanho de um ovo de galinha e, tão logo terminou, caiu novamente na escuridão que se tornara mais aconchegante e tranquila.
— Ele conseguiu comer? — Heitor perguntou.
Anayê assentiu, um pouco preocupada.
— Grande garoto — o ceifador falou. — Ele é mais forte do que eu imaginava.
— Sim, isso é verdade.
Eles organizaram suas coisas, colocaram Fenrir no cavalo com muito mais cuidado do que antes e partiram pela estrada.
O sol iluminava a estrada enquanto os cavalos avançavam num trote constante.
Anayê continuou seu treinamento mesmo montada na sela do cavalo. Heitor havia ensinado para não usar energia demais e ficaria tudo bem. Porém, mesmo assim, ela foi lançada para fora da sela mais de uma vez, embora não tivesse se machucado. Sua preocupação era machucar Juno, a sua égua, por acidente.
Quando era meio dia, todos os ovos tinham acabado e a ceifadora sequer chegara perto de um resultado decente. Ou a energia era pequena e curta ou era estrondosa e potente, e em ambos os casos, as cascas quebravam.
Ainda assim, Heitor conseguiu aproveitar os ovos e fez um excelente omelete utilizando a sua técnica das chamas dançantes nos dedos.
— Foi mal por isso — Anayê se desculpou enquanto comia um pedaço de seu omelete.
— Desculpas desnecessárias — Heitor comentou. — Todo o professor espera erros de seu aluno. A grande questão é: você tem resiliência para insistir?
Anayê assentiu.
— Ótimo.
O ceifador escalou algumas árvores e encontrou três ovos para o treinamento.
— Só tente… ir com mais calma dessa vez — ele pediu.
Ela terminou sua refeição rapidamente, ansiosa para tentar de novo.
E quando o objeto repousou na sua palma e ela direcionou sua energia espiritual com leveza, a casca partiu mesmo sem resquício de poder.
Anayê coçou a cabeça e observou Heitor com um olhar constrangido.
— Bem… — ele falou. — Talvez seja melhor procurar mais ovos.
***
A estrada seguiu sinuosa, rodeada por uma imensa e incrível floresta cheia de troncos largos e galhos tão densos que transformavam a estrada num corredor escuro. Alguns lagos refletiam a luz do entardecer entre as raízes e pedras, mas a maior parte do caminho já estava mergulhada nas sombras dos galhos. Seguiram iluminados por uma tocha que Heitor também roubara do vilarejo.
Anayê suava e ofegava. A testa molhada, os olhos concentrados, uma leve dor na lombar. Tinha destruído os três ovos encontrados por Heitor, e depois mais três recolhidos pelo caminho, mas sequer chegara perto de um resultado parcial. E isso a deixava irritada.
Aos seus olhos, era como retornar para o quarto do ceifador e ser uma mera iniciante. Parece que eu não aprendi nada nesses últimos meses, pensava consigo por várias vezes. Essa conclusão somada com lapsos de memória da vitória amarga contra Elchor fazia suas pálpebras tremerem e prejudicava o seu foco.
Entretanto, quando a lua ocupou seu espaço no céu e derramou sua luz opaca sobre eles, Heitor a interrompeu, tomando o ovo de sua mão com rapidez.
— Nós vamos parar — ele disse apontando para frente. — Há uma estalagem próxima.
Anayê não gostou da ideia.
— Parar? Nós já descansamos de manhã.
— Sim, e iremos descansar essa noite também.
Ela enxugou a testa molhada com a blusa.
— Mas as crianças…
— Eu sei, eu sei, eu sei — Heitor interrompeu levantando a mão. — Você pode me dar a desculpa que quiser, mas eu não vou aceitar.
Anayê abaixou a cabeça, contrariada.
— Gosto da sua empolgação, menina — o ceifador continuou. — Mas, se você não cuidar de si mesma, isso vai te matar ou destruir a sua mente.
Um vento frio e pouco amistoso cortou o ar.
— Um ceifador também precisa saber a hora de parar — Heitor disse, sério. — Isso é tão importante quanto vencer aberrações.
Anayê nunca ouvira a voz dele tão séria.
— E o Fenrir necessita de uma cama por uma noite.
Ela lançou um olhar sobre o corpo inconsciente no cavalo guiado por Heitor. Então, concordou com a cabeça.
***
Pela primeira vez desde o vilarejo, dormiram sem cheiro de fumaça ou sangue no ar. Na manhã seguinte, Heitor tentou pedir algumas moedas emprestadas para pagar a hospedagem.
— Considere um investimento num mestre excelente.
Anayê pagou a conta sozinha e se recusou a receber dinheiro dele.
Compraram algum estoque de comida e, quando foi buscar Fenrir, Anayê encontrou-o acordado, massageando os pés.
— Você… se sente melhor?
— Quando parece que enfiaram agulhas nos seus pés, não sei se melhor é a palavra certa — ele respondeu, devagar.
Anayê curvou os lábios.
— Isso não tem graça.
— Ei! — era Heitor. — Bom dia, dorminhocos.
Fenrir franziu o cenho.
— E quem é você?
Anayê explicou resumidamente a chegada de Heitor no vilarejo e a reviravolta com os moradores. Fenrir não comentou o acontecido, mas seu semblante falou muito. Porém, o que estava em debate nos seus pensamentos ninguém conseguiu adivinhar. Eu quase morri… sem razão, pensou.
Comeram e partiram. Fenrir nunca sentira tanta dor para montar numa sela e tudo em seu corpo parecia deslocado quando o cavalo começou a trotar.
— Eu consegui mais ovos para seu treinamento — Heitor revelou tomando um gole do seu odre.
Anayê balançou a cabeça.
— Peraí — Fenrir interrompeu. — Que treinamento?
— Eu te explico depois — a ceifadora respondeu.
***
Eles precisaram fazer diversas pausas por conta de Fenrir. Em certos momentos, ele berrava de dor, suando e tremendo muito. Seus dedos da mão ficavam muito inchados e roxos e seu rosto tão vermelho quanto um tomate. Durante o processo, vomitou toda a refeição da manhã.
Anayê estava preocupada, embora Heitor garantisse que era normal.
— Lembre-se, ele quase morreu.
E isso a deixava menos aflita, porém, prejudicava seu foco no treinamento. A ceifadora começara o dia animada e, conforme o sol avançava no céu, sua animação se transformava em frustração. Desde o início já tinha quebrado mais de duas dúzias de ovos.
Depois do almoço, enquanto Fenrir descansava à sombra de uma árvore, ela se dirigiu poucos passos à frente para treinar.
Quando a energia fluiu para a sua mão, o ovo tremulou e ela comprimiu os lábios.
Crack.
A casca rachou outra vez.
Anayê fechou os olhos com irritação.
— Droga…
— É melhor parar — Heitor comentou se aproximando com seu odre na mão.
Seus olhos estavam vermelhos e seus passos levemente tortos, mas essa informação passou pela cabeça de Anayê e se evaporou depressa, retornando ao foco do treinamento.
— Não! — ela retrucou. — Eu consigo!
— Está tudo errado — o ceifador disse.
Anayê ergueu os braços como alguém em rendição.
— Fiz tudo o que…
Heitor levantou o dedo e tocou a testa dela.
— Está tudo errado aqui — E desceu o dedo até a mão da ceifadora. — E não aqui.
Anayê franziu o cenho.
— Seu problema não é manipular a energia — ele explicou. — E sim que sua mente está em todos os lugares do mundo, menos aqui.
Ela não discordou.
— Fenrir, Elchor, Bretna, crianças sequestradas… Você sente que falhou com eles.
Sem perceber, ela começou a bater o pé repetidamente.
— E quanto mais pensa nisso, mais desesperada fica para acertar.
Ele pegou o ovo rachado da mão dela.
— Então você força demais.
O ovo esmagou entre os dedos dele. Anayê abaixou os olhos.
Heitor retirou um frasco com fluido de oração do bolso e mostrou-o.
— O que isso significa para você?
Anayê franziu o cenho.
— Como assim?
— Quando você toma o fluido e sente o poder percorrendo seu corpo, o que isso te lembra?
Ela refletiu por um momento e respondeu:
— Que o meu poder é emprestado.
— Boa garota!
Heitor guardou o frasco e a segurou pelos ombros com tranquilidade.
— Recupere a fé em quem te emprestou esse poder, Anayê.
A ceifadora viu um brilho familiar relampejar nos olhos dele, aquela esperança inabalável que enxergava em Boyak. Sentiu saudades do ceifador por um instante, mas também foi tomada por uma certeza esquecida depois da última batalha.
— Obrigada.
Heitor sorriu e se afastou alguns passos.
— Opa… acabei sujando sua roupa com o ovo esmagado — ele falou, retirando um pano do bolso da calça para limpar.
Em seguida, Anayê fechou os olhos, suspirou, movimentou o fluido no corpo, mantendo em mente o semblante esperançoso do ceifador que salvara sua vida várias vezes. Então, abriu os olhos e a energia girou na palma da mão. Uma brisa circular surgiu, seguida por outra.
E então aconteceu.
Era como se um pequenino ciclone de vento estivesse acontecendo na palma de sua mão. O ovo começou a levitar, trêmulo e lento.
O rosto de Anayê brilhou.
Ela tinha conseguido.

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