Capítulo 74 - A Copia.
Passei um tempo com Itsuki no parque conversando sobre seu período aqui na escola.
Segundo ela, as meninas não suportavam o fato de ela ser tratada de forma diferente pela Ayumi, por isso faziam bullying com ela.
Perguntei-a novamente por que não contava para Ayumi sobre o bullying, mas, assim como na última vez que a indaguei, ela respondeu com o mesmo argumento.
“Elas são do conselho, não tem como.”
De fato, se a presidente do conselho fizesse bullying, não iriam acreditar nisso; teria que haver provas concretas para tal. Porém, Abe Hideki é uma criança astuta e inteligente, ela não seria idiota a ponto de oprimir Itsuki na frente da Ayumi.
Logo, pensei: e se eu armá-la?
“Isso não tem nada a ver com você.”
A voz misteriosa na minha cabeça insistiu nisso.
Mas é óbvio que está errado, isso tem muito a ver comigo.
Itsuki é importante para mim, então, se mexem com ela, estão mexendo comigo.
É imperdoável que tenham feito ela chorar tanto, sofrer tanto.
Mesmo que seja presidente do conselho, eu não me importo, quero fazê-la pagar por isso.
Mas não preciso fazer isso com minhas próprias forças, até porque ela já está pagando por seus pecados aos poucos.
Começando agora pela ameaça de perder seu posto na presidência.
Pelo que Itsuki me contou, os membros do comitê e do conselho estudantil votaram todos, sem exceção, para ter uma nova eleição à presidência do conselho antes do tempo, por conta de uma denúncia anônima e com provas de que Abe estava tendo condutas contraditórias às regras da escola utilizando sua posição.
Por conta desse fato, o conselho votou para que ocorresse uma nova eleição sem contar para a presidente sobre a questão.
Mas, na minha opinião, isso é muito estranho.
Se havia provas, por que Abe ainda está na disputa?
Ela deveria ser deposta e o vice-presidente tomaria o cargo.
Mas isso não está acontecendo.
Rita deve ter feito algo nas sombras para que ocorresse essa nova eleição sem utilizar os métodos convencionais.
E para todos do conselho terem aprovado isso sem a autorização da presidente do conselho, só com a intervenção do diretor.
O que não entra na minha cabeça é o motivo de Abe ainda estar na disputa depois de tudo isso.
Após nossa conversa, levei-a para o quarto da Ayumi.
Queria muito já resolver esse assunto do broche com as duas, mas Ayumi não estava no quarto; pelo que Itsuki disse, ela estava ocupada em alguma reunião.
Como havia uma regra posta pela Ayumi, eu não poderia ficar muito tempo com Itsuki.
Segundo fontes de sua cabeça, eu poderia ser perigoso por ser um menino estando com uma menina sem um adulto por perto, sendo que todos aqui são crianças que convivem entre si, mesmo sendo de sexos opostos. Vai entender…
Agora estou indo para a cachoeira ver aquela belíssima vista.
Me pergunto o que aconteceu com Arushi ultimamente; ele aparecia bem mais para conversar comigo.
Porém, agora ele está tão distante.
Como ele é gentil, deve estar se esforçando ao máximo para pegar os livros para mim.
Meu medo é que ele esteja se cobrando muito caso ainda não tenha conseguido.
Estou pensando muito, preciso acalmar minha mente.
Algumas horas se passaram; fiquei sentado no banco vendo a cachoeira e relembrando quando quase me afoguei.
Foi um momento de reflexão para mim.
Depois voltei para meu dormitório, fiz minhas tarefas domésticas e higiênicas.
Estudei um pouco, revisando a matéria de hoje que aprendi.
Logo depois, deitei para dormir, em um clima bem estável e leve, com um vento fraco vindo do ventilador de teto.
Fechei meus olhos, esperando o sono chegar, pensando no amanhã.
Onde irei resolver logo de vez esse mistério do broche.
A noite passou voando; dessa vez não sonhei com nada.
Meu corpo descansou bem também.
Mas estou ansioso por hoje; vai ser um dia bem interessante.
Depois de algumas horas, fui para o prédio dos professores conversar com Ayumi.
Bati na porta dela, torcendo para que não fosse Itsuki que aparecesse.
Mas, por sorte, foi a própria Ayumi.
— Ué, o que faz aqui tão cedo, garoto?
Ela estava usando uma roupa bem caseira, parecendo mais um pijama do que qualquer outra coisa: uma blusa listrada xadrez e um short curto.
Eu não esperava nunca vê-la dessa forma tão… livre; não é a cara dela.
— Eh… desculpa aparecer assim do nada, professora. Mas, você pode me dar um tempo a sós? Quero conversar algo importante com você.
Uma expressão de curiosidade surgiu em seu rosto; logo em seguida, franziu as sobrancelhas enquanto encarava meus olhos.
— Algo importante?
Seu olhar afiado, seus olhos mexendo em direções pragmáticas, analisando meu rosto.
Eu acenei com a cabeça e mantive minha postura.
— Sim, algo importante! — disse, com um tom sério, franzindo a testa.
Ela olhou para trás, talvez tentando encontrar Itsuki.
Pela sua reação, dá para entender que ela compreendeu o a sós.
— Me espera no parque. Já estou indo.
Ela disse em um tom baixo, enquanto fechava a porta lentamente, me encarando pelo pouco espaço que sobrava.
Saí do prédio dos professores e fui até o parque.
Aguardei um pouco até ela chegar, observando os arbustos que estavam em volta da área.
Aliás, neste lugar até agora não vi nenhum animal.
Onde eu morava era solitário, mas pelo menos eu escutava sons de alguns bichos, via pássaros bem bonitos.
— Por que será que aqui não tem?
— Não tem o quê?
— Ah… Professora Ayumi, você foi rápida.
Ao me virar, Ayumi estava vindo na minha direção, com um vestido vermelho e uma blusa branca com a parte de baixo dentro do vestido.
— Sim! Mas me diga, o que estava falando aí agora?
— É nada não, hehe. Estava só pensando alto mesmo.
Sem graça, fiquei coçando a cabeça enquanto dava um sorriso falso.
Seu olhar descrente discordava disso, mas cruzou os braços fazendo uma expressão de cansaço.
— Entendi. Jovens nessa idade tendem a fazer esse tipo de coisa mesmo. — disse ela, amarrando seu cabelo curto para trás. — Mas enfim, me diga logo o que for?
Chamei ela para sentar ao meu lado no banco, em frente à Fonte Angelical do Medo.
Ela recusou, ficando na minha frente com os braços cruzados.
Com dificuldades para olhar em sua cara, já que tinha que ficar com o pescoço virado para cima, decidi ficar em pé também, mesmo que tivesse que ficar com o pescoço levantado ainda assim era melhor que a distância enquanto sentado.
— Ayumi, eu vou ser direto com você, entendo que não gosta de mim e tem medo de eu fazer algo com Itsuki, mesmo que isso seja impossível de acontecer, eu te entendo.
Ela deu um suspiro profundo, fechando os olhos.
— Você me chamou para dizer isso?
— N-não! Deixa eu terminar de falar!
Seus olhos fechados se abriram, descruzou os braços e sentou no banco.
— Então termina!
— Bem, como eu gosto da Itsuki, queria comprar um broche igual ao dela para eu usar. Mostraria a ela que pode contar comigo, pois estamos juntos no que der e vier.
Um sorriso rápido escapou dela, seus olhos desviaram para os arbustos.
— E por conta disso, perguntei a Itsuki onde conseguiu o broche, e segundo ela, você comprou em uma loja. Certo?
Ela assentiu com a cabeça, enquanto apoiava seu cotovelo no suporte do banco, usando sua mão como apoio para a cabeça.
Com uma expressão de desinteresse.
Vamos ver se vai continuar assim…
— Ontem levei ela no mercado central, e em todas as lojas que fomos, não encontramos este broche. Além de que um dos lojistas me informou que não existe um modelo igual aqui na escola.
Seu rosto desinteressado, despertou; seu jeito atirado no banco rapidamente se recompôs, um olhar afiado surgia agora em seus olhos roxos profundos.
— Entendo. E você está duvidando da Itsuki agora? Pensando que ela é uma mentirosa e por isso veio até aqui me perguntar? É isso?
— Não, não. Espera! Eu não duvido dela. Eu te chamei aqui para justamente me contar onde você comprou o broche, só isso!
Fiz uma pose de preocupado, mas sei que ela não pensa isso de verdade.
A questão é se quem mentiu aqui foi ela ou não.
— Sei. Mas o que ela falou… — disse ela, desviando o olhar para a fonte Angelical. — É verdade. Eu realmente comprei o broche, mas não aqui. Na cidade.
— Na cidade… e você comprou apenas um broche?
Ayumi franziu as sobrancelhas, fechando a cara para mim.
— Isso aqui é um interrogatório, é?
Seu tom de voz ficou mais firme; ela está se sentindo pressionada? Ou preocupada?
— Por favor, me diga.
— Tsc. Afinal, por que quer tanto isso? Se quer demonstrar seu apoio a Itsuki, é só não fazer nada de ruim. Não precisa combinar nada.
Notei que a respiração dela ficou mais rápida, o jeito que gesticula sua mão agora é diferente, um nível maior de movimentos desnecessários.
Além de eu conseguir escutar com precisão sua velocidade cardíaca aumentando.
Realmente ela está incomodada.
— Você não vai entender meus sentimentos e nem os dela! Essas pequenas coisas fazem a diferença.
— E você entende os sentimentos dela? Você conviveu ao lado dela por muito tempo, é? Você não sabe de nada, garoto, não fala merda.
Usar palavras vulgares nesse momento não é do feitio dela.
— Desculpa. Mas posso decidir por mim mesmo que comprou apenas um broche e que apenas a Itsuki tem ele, né?
Continuei a pressionando.
— Sim, garoto! Só ela tem este broche aqui e vai continuar assim. Você não vai ter um igual.
Ela cruzou os braços olhando diretamente para mim.
— Ah, não. Que droga. Mas por que não vou ter um igual? E se eu for para a cidade e pedir alguém para fazer um idêntico?
Ela riu para mim.
— Poderia até fazer um idêntico, mas não seria exatamente igual ao da Itsuki. Como o lojista falou, foi feito exatamente para ela.
Sua expressão de confiança brilhava.
— Mas como sabe que o lojista disse isso? Eu apenas contei que, segundo ele, não existe o modelo aqui na escola. Como sabe que ele disse isso?
Seus olhos arregalaram.
Pensei que ela iria ficar nervosa, mas se acalmou rapidamente.
— Você é esperto, garoto. Eu entendi isso. Dá para dizer logo onde quer chegar? Você está me interrogando aqui, querendo saber de algo, fala logo.
— Eu já disse, quero saber sobre o broche. Se é verídico que apenas ela e mais ninguém tem este broche?
— Droga, garoto, eu lhe falei, só ela tem! É impossível alguém mais ter este broche, e o motivo disso é que foi feito especialmente para ela.
Parece que ela está falando a verdade, mas isso complica as coisas.
E agora? O que eu faço?
Se eu mostrar o broche que tenho aqui, como ela vai reagir?
Nesse caso, teria que contar sobre o caso e que a Itsuki é uma das suspeitas.
— Tá bom, entendi. Então, me responde uma coisa.
Coloquei a mão no bolso, retirando o item metálico azul.
O broche igual ao da Itsuki.
— Se só ela tem este broche azul e foi feito só para ela, então por que tem uma cópia idêntica ao dela?
Ela paralisou, um olhar gélido para o broche.
— Que?
Lentamente, ela mexeu seu braço, levando sua mão trêmula ao broche.
— P-por que você está com o broche dela?
Ayumi ficou girando o broche, analisando os detalhes delicadamente em um ritmo lento.
— Então você admite que Itsuki tem mais de um broche? Ou admite que tem outras pessoas com o mesmo broche que ela?
Sem me responder, ela parou de mover o objeto, com seu olhar fixo em apenas um lado do broche.
— Eu não estou acreditando nisso. O-onde você achou essa coisa? Me diga, garoto, onde?
Ela levantou do banco, me segurando pelos ombros, seu olhar desesperado e tom de voz grosseiro; ela perdeu a cabeça após olhar o broche.
— Se acalme, professora, eu vou explicar tudo, mas calma.
Ficou alguns segundos com ela segurando grosseiramente meus ombros; o toque forte dela é surreal, machucando meus ossos.
Ela perdeu o controle por conta disso; tem algo suspeito por trás.
— Só me diga, onde conseguiu essa cópia?
— C-cópia? Então isso é uma cópia?
Ayumi me soltou se atirando no banco, ainda olhando para o broche.
— Sim… isso aqui é uma cópia! Nunca que isso aqui seria o broche da Itsuki.
— Espera, então esse broche não é dela mesmo sendo cópia?
Ela negou com a cabeça.
— O broche, assim como esse colar em você, foram feitos para ela; não existem no mercado. Por conta desse fato, ter uma cópia tão perfeita me assusta.
Seu tom de voz mudou, de grosso e desesperado para um tom melancólico e preocupado.
— Olha, vou ser sincero com você. Eu suspeitava da Itsuki de ter me empurrado na piscina grande com a intenção de me afogar.
Ayumi ergueu a cabeça rapidamente para mim.
— Você disse o quê, moleque? Como tem a audácia de dizer uma coisa dessas?
— Eu sei, mas calma. Esse broche em suas mãos estava na grama, perto do local das piscinas, exatamente no caminho da entrada. Por conta disso, suspeitei.
— Entendi. Você disse sobre esse broche para alguém? Disse que suspeita dela?
Eu sentei ao lado da Ayumi.
— Não. Não contei, pois acredito que não foi ela. Confio na Itsuki. E por isso, preciso que me conte a verdade, Ayumi.
Ela apertou o broche com a palma da mão.
Seu corpo tremia.
— Não foi ela que fez isso, mesmo você acreditando na Itsuki, eu preciso e devo confirmar isso!
— Como assim?
Ela ergueu sua cabeça para o céu claro e azulado.
— No dia que te levaram para a enfermaria depois de te encontrarem se afogando, eu estava com a Itsuki no laboratório. Então não tem como ser ela.
Um alívio enorme surgiu dentro de mim.
Meu coração, que estava satisfeito por eu acreditar nela, agora parece que tomou um banho quente e confortável de tão leve que está.
— Que… bom! — disse, com um tom melancólico.
Porém, Ayumi estava com uma cara bastante preocupada.
— Professora… o que foi?
— Você disse que encontrou esse broche perto da piscina… né?
— Sim, na terra. Por quê?
— Entendo. Como eu disse, isso aqui é uma cópia do broche dela, pois apenas Itsuki tem aquele broche. E o motivo disso é que foi dado pelo pai dela, feito com as iniciais “SA” em um lugar bem escondido do broche. — disse ela, mostrando o local onde ficam as iniciais. — Mas, como pode ver, este broche não tem as iniciais. Por isso, isso aqui é uma cópia bem feita.
— Mas… não é o original.
— E se isso aqui é uma cópia detalhadamente idêntica ao dela, isso mostra que alguém, aqui neste lugar, teve acesso suficiente para copiar os detalhes do broche.
— Espera, se isso for verdade, precisaria ter ficado com o broche por um bom tempo, mas ela nunca fica sem ele, não é verdade?
Ela assentiu com a cabeça, apoiando a testa em sua mão direita.
— Isso significa que alguém neste lugar tentou incriminar a Itsuki. — disse Ayumi, com uma expressão assustadora no rosto.
Ela apertava tão forte o broche que estava machucando a palma da sua mão, pelo sangue que estava escorrendo.
— Professora… sua mão?!
— Imperdoável… isso eu não vou perdoar…
Agora realmente está me assustando.
Coloquei lentamente minha mão sobre a mão sangrando dela.
— Eu também não vou perdoar quem fez isso. É por isso, Ayumi, que preciso da sua ajuda! Preciso que você me ajude a encontrar quem fez isso, pela Itsuki.
Aproveitei o momento para forçar a ajuda dela.
Como minha mãe me dizia:
“Os fracos são presas fáceis para a manipulação.”
Mas me surpreende isso, porque a professora se preocupa tanto assim com a Itsuki?
Ela se acalmou após meu toque, olhou para mim com um olhar assustador, mas com uma expressão determinada, um tom de voz confiante e esperançoso, disse:
— Você quer minha ajuda, é? Então pode apostar, garoto, que eu vou te ajudar a pegar esse merda!
Arco: Investigação

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