Índice de Capítulo

    Calixto conduziu Plutarco por uma alameda estreita de colunas quebradas.

    Ele acompanhava os passos firmes da guerreira com a bolsa de pergaminhos apertada contra o peito. O assentamento pulsava ao redor deles com vozes baixas e o crepitar de fogueiras, mas o escriba mantinha os olhos fixos nas costas dela.

    Pararam diante de uma tenda de couro grosso e linho remendado, erguida sobre uma plataforma de madeira elevada. Calixto afastou a aba da entrada e indicou o interior com uma mão.

    — Este será o seu lugar por enquanto. Não é um palácio, mas mantém o vento lá fora e o chão seco.

    Plutarco entrou. Um catre de palha limpa ocupava um canto. Um baú baixo de madeira e um pequeno banco completavam o mobiliário. Depositou a bolsa sobre o baú com cuidado e começou a organizar os rolos de pergaminho, um por um, como se cada um guardasse um pedaço frágil de si mesmo.

    A preocupação marcava uma ruga fina entre suas sobrancelhas.

    Calixto permaneceu na entrada com os braços cruzados sobre o peitoral de couro escuro.

    — Quando conheceu o garoto?

    Plutarco parou com um rolo na mão e ergueu o olhar.

    — Fazem alguns bons meses. Se quiser posso buscar em minhas anotações o dia em que nossos caminhos se cruzaram.

    — Tem isso anotado?

    — Certamente. Assim como tenho anotado o dia em que a conheci. Não é todo dia que se encontra valorosas figuras dignas de nota como são vocês.

    A guerreira deu de ombros.

    — E você?

    Plutarco inclinou a cabeça para o lado, em dúvida sobre a natureza da questão.

    Tendo percebido que não fora compreendida, Calixto suspirou e caminhou para o centro do quarto, onde puxou um banco e se sentou.

    — Você, Plutarco. Companheiro de viagem de Teseu. O homem que desafiou o Leão de Neméia com uma pedra de estrada.

    Ela o fitou e sorriu provocativamente.

    — Não é um homem digno de nota?

    O escriba mostrou um sorriso sincero para a provocação da mulher, então caminhou em direção ao catre e se sentou de frente para ela.

    — Seria de imenso mal gosto escrever sobre minhas próprias façanhas.

    Calixto riu e revirou os olhos antes de se levantar.

    — Nosso pequeno interrogatório já acabou? — perguntou o homem, também se pondo de pé.

    — Não. Talvez eu volte outra hora para fazer mais algumas perguntas a você.

    O homem assentiu.

    — E isso não foi um interrogatório. Eu só precisava saber que tipo de gente acompanha o pequeno Teseu.

    Plutarco soltou um riso curto e sem graça e ajeitou a túnica puída.

    — Pode ficar tranquila quanto a isso. Não sou o mais forte nem o mais bravo dos homens. Minhas mãos nunca seguraram uma espada com firmeza.

    O olhar caiu para o pergaminho em suas mãos, antes que estas se fechassem sobre ele.

    — Mas desejo o melhor para o jovem herói. Sempre desejei. Escrevo para registrar seus feitos, sim, mas também para que o mundo saiba que ele existe e luta por algo maior do que si mesmo.

    Calixto assentiu devagar. O silêncio se estendeu por alguns instantes entre eles, quebrado apenas pelo crepitar distante de uma fogueira.

    — E você não vai tirar essa roupa? — perguntou ela de repente.

    Plutarco arregalou os olhos e cruzou os braços sobre o peito num gesto protetor e gaguejou:

    — Co-co-como é?

    Calixto inclinou a cabeça, confusa. Então compreendeu.

    Um riso genuíno escapou de sua garganta. Ela levou a mão à boca, mas não conseguiu conter o som.

    — Pelos deuses. Estou falando das suas vestes de viagem. Estão sujas e cheiram a estrada. Não planeja trocá-las?

    O escriba ficou vermelho até a raiz dos cabelos. Baixou os braços e pigarreou, mortificado.

    — Ah- Sim, claro, claro. Farei isso assim que você sair.

    Calixto balançou a cabeça, ainda com o sorriso nos lábios, e deu um passo para fora da tenda. Antes de soltar a aba, parou e olhou por cima do ombro.

    O sorriso curto voltou, desta vez carregado de algo próximo a aprovação.

    A aba da tenda caiu atrás dela. Plutarco ficou sozinho com o rubor ainda quente no rosto e o eco baixo da risada da guerreira na memória.

    Ele soltou o ar devagar, sentou-se no catre e passou a mão pelo rosto. Depois de um instante, voltou a organizar os pergaminhos com movimentos mais calmos. O assentamento de Nova Arcádia seguia seu ritmo lá fora, alheio ao peso das preocupações que cada recém-chegado carregava consigo.


    O metal negro da couraça atingiu o chão com um baque surdo. Theo soltou os fechos das braçadeiras e deixou que o suor escorresse pelo rosto. 

    O sol se escondia atrás das montanhas de Arcádia, e o silêncio da noite começava a disputar espaço com os últimos ecos do treinamento.

    Após um longo suspiro, o enorme guerreiro varreu a arena com os olhos, até que estes encontraram uma figura estranha.

    Licaão ocupava um banco de pedra bruta ao canto, relaxado e imóvel como uma estátua de mármore. Seus olhos seguiam cada movimento do comandante com irrritação.

    Theo chutou a armadura de bronze negro na direção do estranho. O equipamento parou aos pés de Licaão. 

    — O ferreiro terminou esta peça hoje — Theo disse. Ele limpou o rosto com o antebraço. — É resistente e leve. Ela servirá bem no seu torso.

    Licaão encarou o metal escuro por um instante. Um sorriso de puro desdém surgiu em seus lábios.

    — Confio mais na minha pele e na minha agilidade do que no trabalho feito pelas mãos de um escravo.

    Theo examinou o homem com o olhar.

    — Talvez você prefira o traje dos batedores. O couro é mais maleável e permite movimentos rápidos. — Theo parou e balançou a cabeça de forma negativa. — Mas não. Pelos seus ombros, nenhum deles caberia em você.

    Licaão soltou uma risada seca.

    — Seus batedores parecem tão frágeis quanto o restante do seu exército, gigante. Esses camponeses e ex-escravos teriam mais chances de sobreviver empunhando picaretas e enxadas.

    Theo desamarrou o protetor de peito e o colocou sobre o banco de madeira. Então, encarou-o com uma calma que parecia irritar o homem à sua frente. 

    — Você tem razão. — Theo admitiu, antes de mostrar um sorriso jocoso. — Com enxadas e picaretas eles guiaram uma revolução contra guardas armados e treinados. Mas penso que espadas fazem mais estrago.

    Licaão manteve o silêncio e estreitou o olhar.

    — Eles não são os mais fortes — Theo olhou para a própria mão direita e a fechou em um punho firme. — Não são os mais bravos ou de origem mais nobre. Mas são unidos. Este povo nasceu de laços forjados na dor. Mesmo nos momentos mais sombrios, sob o chicote e a fome, eles permaneceram juntos. 

    Theo retirou a última parte de sua armadura de comandante e a depositou ao lado das outras peças. Ele ficou apenas com a túnica de linho, revelando as cicatrizes antigas que marcavam seus braços, pescoço e pernas.

    — Existem muitos reis de sangue azul que não derramariam uma única gota de suor por seu povo.

    O comandante não se deixou intimidar pelos dentes crivados que Licaão mostrava.

    — Já aqueles homens lá fora, de sangue vermelho e sujo, cederiam as próprias vidas sem hesitação por qualquer pessoa neste acampamento.

    Theo deu as costas ao rei e caminhou em direção à bacia de água limpa no centro da área de descanso.

    — Acho que se chama Licaão, não é? — O gigante perguntou, mas não aguardou uma resposta. — Prefiro perder mil batalhas ao lado deles, do que ganhar uma ao lado de um rei bastardo.

    O silêncio voltou a dominar o pátio. Licaão permaneceu sentado, com o olhar fixo na armadura de bronze negro que brilhava sob a luz pálida da lua. 

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