Capítulo 156 | Assentados
Calixto conduziu Plutarco por uma alameda estreita de colunas quebradas.
Ele acompanhava os passos firmes da guerreira com a bolsa de pergaminhos apertada contra o peito. O assentamento pulsava ao redor deles com vozes baixas e o crepitar de fogueiras, mas o escriba mantinha os olhos fixos nas costas dela.
Pararam diante de uma tenda de couro grosso e linho remendado, erguida sobre uma plataforma de madeira elevada. Calixto afastou a aba da entrada e indicou o interior com uma mão.
— Este será o seu lugar por enquanto. Não é um palácio, mas mantém o vento lá fora e o chão seco.
Plutarco entrou. Um catre de palha limpa ocupava um canto. Um baú baixo de madeira e um pequeno banco completavam o mobiliário. Depositou a bolsa sobre o baú com cuidado e começou a organizar os rolos de pergaminho, um por um, como se cada um guardasse um pedaço frágil de si mesmo.
A preocupação marcava uma ruga fina entre suas sobrancelhas.
Calixto permaneceu na entrada com os braços cruzados sobre o peitoral de couro escuro.
— Quando conheceu o garoto?
Plutarco parou com um rolo na mão e ergueu o olhar.
— Fazem alguns bons meses. Se quiser posso buscar em minhas anotações o dia em que nossos caminhos se cruzaram.
— Tem isso anotado?
— Certamente. Assim como tenho anotado o dia em que a conheci. Não é todo dia que se encontra valorosas figuras dignas de nota como são vocês.
A guerreira deu de ombros.
— E você?
Plutarco inclinou a cabeça para o lado, em dúvida sobre a natureza da questão.
Tendo percebido que não fora compreendida, Calixto suspirou e caminhou para o centro do quarto, onde puxou um banco e se sentou.
— Você, Plutarco. Companheiro de viagem de Teseu. O homem que desafiou o Leão de Neméia com uma pedra de estrada.
Ela o fitou e sorriu provocativamente.
— Não é um homem digno de nota?
O escriba mostrou um sorriso sincero para a provocação da mulher, então caminhou em direção ao catre e se sentou de frente para ela.
— Seria de imenso mal gosto escrever sobre minhas próprias façanhas.
Calixto riu e revirou os olhos antes de se levantar.
— Nosso pequeno interrogatório já acabou? — perguntou o homem, também se pondo de pé.
— Não. Talvez eu volte outra hora para fazer mais algumas perguntas a você.
O homem assentiu.
— E isso não foi um interrogatório. Eu só precisava saber que tipo de gente acompanha o pequeno Teseu.
Plutarco soltou um riso curto e sem graça e ajeitou a túnica puída.
— Pode ficar tranquila quanto a isso. Não sou o mais forte nem o mais bravo dos homens. Minhas mãos nunca seguraram uma espada com firmeza.
O olhar caiu para o pergaminho em suas mãos, antes que estas se fechassem sobre ele.
— Mas desejo o melhor para o jovem herói. Sempre desejei. Escrevo para registrar seus feitos, sim, mas também para que o mundo saiba que ele existe e luta por algo maior do que si mesmo.
Calixto assentiu devagar. O silêncio se estendeu por alguns instantes entre eles, quebrado apenas pelo crepitar distante de uma fogueira.
— E você não vai tirar essa roupa? — perguntou ela de repente.
Plutarco arregalou os olhos e cruzou os braços sobre o peito num gesto protetor e gaguejou:
— Co-co-como é?
Calixto inclinou a cabeça, confusa. Então compreendeu.

Um riso genuíno escapou de sua garganta. Ela levou a mão à boca, mas não conseguiu conter o som.
— Pelos deuses. Estou falando das suas vestes de viagem. Estão sujas e cheiram a estrada. Não planeja trocá-las?
O escriba ficou vermelho até a raiz dos cabelos. Baixou os braços e pigarreou, mortificado.
— Ah- Sim, claro, claro. Farei isso assim que você sair.
Calixto balançou a cabeça, ainda com o sorriso nos lábios, e deu um passo para fora da tenda. Antes de soltar a aba, parou e olhou por cima do ombro.
O sorriso curto voltou, desta vez carregado de algo próximo a aprovação.
A aba da tenda caiu atrás dela. Plutarco ficou sozinho com o rubor ainda quente no rosto e o eco baixo da risada da guerreira na memória.
Ele soltou o ar devagar, sentou-se no catre e passou a mão pelo rosto. Depois de um instante, voltou a organizar os pergaminhos com movimentos mais calmos. O assentamento de Nova Arcádia seguia seu ritmo lá fora, alheio ao peso das preocupações que cada recém-chegado carregava consigo.
O metal negro da couraça atingiu o chão com um baque surdo. Theo soltou os fechos das braçadeiras e deixou que o suor escorresse pelo rosto.
O sol se escondia atrás das montanhas de Arcádia, e o silêncio da noite começava a disputar espaço com os últimos ecos do treinamento.
Após um longo suspiro, o enorme guerreiro varreu a arena com os olhos, até que estes encontraram uma figura estranha.
Licaão ocupava um banco de pedra bruta ao canto, relaxado e imóvel como uma estátua de mármore. Seus olhos seguiam cada movimento do comandante com irrritação.
Theo chutou a armadura de bronze negro na direção do estranho. O equipamento parou aos pés de Licaão.
— O ferreiro terminou esta peça hoje — Theo disse. Ele limpou o rosto com o antebraço. — É resistente e leve. Ela servirá bem no seu torso.
Licaão encarou o metal escuro por um instante. Um sorriso de puro desdém surgiu em seus lábios.
— Confio mais na minha pele e na minha agilidade do que no trabalho feito pelas mãos de um escravo.
Theo examinou o homem com o olhar.
— Talvez você prefira o traje dos batedores. O couro é mais maleável e permite movimentos rápidos. — Theo parou e balançou a cabeça de forma negativa. — Mas não. Pelos seus ombros, nenhum deles caberia em você.
Licaão soltou uma risada seca.
— Seus batedores parecem tão frágeis quanto o restante do seu exército, gigante. Esses camponeses e ex-escravos teriam mais chances de sobreviver empunhando picaretas e enxadas.
Theo desamarrou o protetor de peito e o colocou sobre o banco de madeira. Então, encarou-o com uma calma que parecia irritar o homem à sua frente.
— Você tem razão. — Theo admitiu, antes de mostrar um sorriso jocoso. — Com enxadas e picaretas eles guiaram uma revolução contra guardas armados e treinados. Mas penso que espadas fazem mais estrago.

Licaão manteve o silêncio e estreitou o olhar.
— Eles não são os mais fortes — Theo olhou para a própria mão direita e a fechou em um punho firme. — Não são os mais bravos ou de origem mais nobre. Mas são unidos. Este povo nasceu de laços forjados na dor. Mesmo nos momentos mais sombrios, sob o chicote e a fome, eles permaneceram juntos.
Theo retirou a última parte de sua armadura de comandante e a depositou ao lado das outras peças. Ele ficou apenas com a túnica de linho, revelando as cicatrizes antigas que marcavam seus braços, pescoço e pernas.
— Existem muitos reis de sangue azul que não derramariam uma única gota de suor por seu povo.
O comandante não se deixou intimidar pelos dentes crivados que Licaão mostrava.
— Já aqueles homens lá fora, de sangue vermelho e sujo, cederiam as próprias vidas sem hesitação por qualquer pessoa neste acampamento.
Theo deu as costas ao rei e caminhou em direção à bacia de água limpa no centro da área de descanso.
— Acho que se chama Licaão, não é? — O gigante perguntou, mas não aguardou uma resposta. — Prefiro perder mil batalhas ao lado deles, do que ganhar uma ao lado de um rei bastardo.
O silêncio voltou a dominar o pátio. Licaão permaneceu sentado, com o olhar fixo na armadura de bronze negro que brilhava sob a luz pálida da lua.

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