Capítulo 20 – Curandeiro
Will era um curandeiro e, como curandeiro, tinha o dever de manter a integridade física de seus companheiros. Para realizar essa tarefa, porém, antes ele precisava restaurar sua própria integridade física.
Seu tipo de magia não era tão raro, mas era de valor inquestionável para a Cidade do Sol.
Will podia interferir no funcionamento interno de um corpo ao espalhar sua magia por ele. A forma usual de usar esse poder era guiando e acelerando a cura que o próprio corpo do ser afetado pela magia tinha capacidade de produzir.
Dessa forma, até feridas muito graves podiam ser curadas ao guiar toda a energia do corpo para tal finalidade, com a condição de que o indivíduo tivesse vitalidade suficiente para suportar o processo.
Fora graças a essa magia que Viktor pudera sobreviver ao ferimento mortal causado pela espectro soldado na noite da partida.
Will era mais competente do que aparentava. Sua magia era, na verdade, uma das mais fortes já descobertas na Cidade do Sol, e seu treinamento em medicina começara em tenra idade, mas ele tinha a tendência de subestimar suas próprias capacidades e de se esconder atrás de sua covardia.
Ainda assim, até o momento, ele nunca falhara em seu dever, ao menos não no dever de curandeiro. O dever de herói, por outro lado, poderia ser seriamente discutido.
Ele pretendia continuar entregando um bom serviço de curandeiro, então agilizou sua própria recuperação ao máximo e em cerca de cinco minutos seu corpo estava quase como novo, apenas um pouco fatigado.
Seu corpo fora quase inteiramente afetado por pequenas lesões, mas, como nenhuma delas era grave, sua magia fora muito eficaz em acelerar a recuperação para o espaço de minutos, com o preço de algum cansaço extra. Isso também se devia ao fato de que sua magia era mais efetiva em seu próprio corpo.
Will conseguiu levantar e se dirigiu primeiramente para Viktor, que estava mais severamente ferido.
“Sujeito azarado, mas isso que dá virar herói só para seguir uma mulher… Bem, se eu estivesse apaixonado provavelmente faria o mesmo. Força, camarada”
Luna e Elicia poderiam esperar um pouco mais. Elas estavam ambas caídas no chão de forma desajeitada como se fossem bonecas jogadas em um canto depois de uma criança cansar de brincar com elas. Mas aquele era o preço do aumento de capacidades físicas por magia: Uma paralisia temporária seguida de fortes dores musculares que poderiam se tornar até mesmo incapacitantes a depender da dosagem de magia utilizada. Will esperava que elas tivessem se contido nesse sentido.
Apesar do forte efeito rebote, elas não corriam risco de vida.
Viktor, a essa altura, também estava caído, mas ainda consciente.
Will o carregou para dentro da floresta, onde o chão não estava coberto de destroços, deitou-o, tocou o peito de VIktor e espalhou sua magia, fazendo uma varredura e um relatório mental de danos. O pulmão estava danificado pelo impacto e haviam algumas costelas quebradas, além de alguns outros pequenos danos nos outros órgãos internos.
“Caramba, foi uma batida e tanto! Que bom que eu não sou você…”
Ele então começou a trabalhar.
Ignorando todos os ferimentos externos superficiais, como arranhões e hematomas, ele guiou a energia do paciente a restaurar primeiro o pulmão, depois os outros órgãos internos e por fim as costelas, estas não completamente reparadas, pois os ossos sempre demoravam mais a se curar, demandando mais energia vital para acelerar o processo.
Will podia também sentir os níveis de vitalidade de uma pessoa.
No caso de Viktor, Will poderia acelerar a recuperação mais além, mas isso deixaria Viktor com uma reserva mais baixa de energia do que precisaria para ter forças para a luta premeditada contra os espectros que muito provavelmente invadiriam a Floresta Morta em breve.
O paciente teria que lidar com o restante do processo de cura. A dor atrapalharia menos do que a falta de vitalidade.
Por falar em dor, Viktor gemera angustiadamente durante toda a hora que levara para Will terminar o trabalho. Ele não sabia, pois estava desacordado da última vez que Will usara sua magia nele, que acelerar o processo de cura fazia o corpo sentir a dor do tempo natural de cura toda de uma vez enquanto a magia estava sendo utilizada.
Com o alívio que sentira depois de Will retirar sua magia, Viktor sequer se importava com a dor das costelas apenas parcialmente curadas.
Meia hora depois de Will começar a tratar Viktor, Luna e Elicia já conseguiam se mover, e arrastadamente aproximaram-se dos dois. Ambas sentiam-se como se tivessem sido pisoteadas por gado.
Ao verem o efeito do poder de Will em Viktor, elas suaram frio, sofrendo por antecipação.
Inevitavelmente chegou a vez delas.
— Quem vai ser primeiro?
Luna olhou para o Viktor ofegante à frente e engoliu em seco. Ela empurrou as costas de Elicia com a mão do braço intacto.
Elicia sentiu-se traída. Ela suspirou e sentou-se em um toco de árvore petrificada diante de Will.
— P-pode começar.
Elicia rangeu os dentes por quinze minutos. Quando a sessão de cura acabou, seus músculos ainda estavam doloridos, mas não de uma forma que impedisse ou sequer atrapalhasse seus movimentos em uma luta.
Agora era a vez de Luna.
Quando Will a tocou, seus olhos se arregalaram por um momento.
Sua reação se devia ao fato de que Luna possuía uma quantidade verdadeiramente assombrosa de vitalidade, se ele estimasse, seria cerca de nove vezes a de um herói normal, e os heróis já tinham uma vitalidade muito superior à de um humano comum.
Ele já ouvira falar sobre pessoas com quantias maiores de vitalidade, ele mesmo era uma dessas pessoas, possuindo o dobro do normal, mas aquilo era absurdo demais para qualquer registro.
Notando a reação estranha de Will, Luna indagou:
— O que foi? Por que essa cara?
— Ah, nada. Quer dizer, eu apenas não esperava que você tivesse tanta vitalidade.
— Ah… isso… Minha avó disse que eu tive sorte de nascer assim, só isso. — Ela olhou para os próprios pés parecendo um tanto desconfortável.
— Bem, que sorte em. Desculpe por isso, vou começar.
Luna assentiu.
Ao ver o desconforto dela à menção do assunto, Will resolveu guardar os detalhes para si. Não era um momento apropriado para aquela discussão, de qualquer forma.
O processo foi tão desagradável para ela quanto fora para Elicia. A vitalidade não interferia nas regras do processo, apenas em quanto do processo o paciente poderia aguentar, então a imensa reserva de Luna em nada ajudou para aliviar a dor. O ombro deslocado fora colocado no lugar apenas com força bruta, e com mais um pouco da magia de Will, estava completamente funcional novamente.
Assim que todos estavam suficientemente recuperados e um pouco descansados da batalha, eles começaram a revirar os escombros da ruína.
Eles procuravam pelo artefato de barreira portátil, com sorte ele ainda estaria inteiro o suficiente para que Viktor pudesse consertá-lo. Quando o encontraram, os danos abençoadamente não eram irreversíveis.
Viktor começou a trabalhar no conserto imediatamente. Os heróis necessitariam muito daquele artefato se suas previsões se provassem corretas.
Enquanto isso, os outros verificaram nos arredores se havia mais algo que pudesse ser útil.
Elicia encontrou algo.
Não era algo necessariamente útil, mas muito interessante.
Ela encontrara uma laje de pedra com inscrições curiosas. Se tratava de uma lápide.

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