Capítulo 88 - O Abismo
Naki Senrou encarava San Ryoshi com os olhos arregalados. O restante do campo de batalha parecia ter se distanciado de forma bizarra; os sons remanescentes dos confrontos afundavam lentamente em um vazio acústico opressor. Seu coração batia rápido, rápido demais, martelando contra as costelas.
Naki fechou os olhos por uma fração de segundo, forçando a mente a buscar novamente aquela sensação técnica. O Flux. Aqueles olhos vazios. Aquele estado de transe combativo. Aquele poder absoluto.
— Vamos… — sussurrou para si mesmo.
Nada.
— Vamos… — tentou mais uma vez, tencionando os músculos.
Nada. A energia recusava-se a subir.
Então, San Ryoshi deu um passo à frente.
CRAAACK.
O chão abaixo das botas do líder simplesmente explodiu. A pressão de Sen inundou o campo inteiro de uma só vez, pesada como chumbo, e naquele exato instante… Naki sentiu. Não era apenas o nervosismo habitual de uma partida ou a ansiedade de um round decisivo. Era medo. Medo puro, brutal, primitivo. Pela primeira vez desde a sua luta inicial contra Ryuji Arata, Naki experimentou o terror real.
Seu corpo simplesmente se recusava a obedecer aos comandos neurológicos. As pernas pareciam travadas no concreto.
San continuava caminhando de forma cadenciada. Sem correr, sem adotar uma postura de guarda formal, sem demonstrar refinamento. Como se aquilo sequer fosse uma luta de torneio; agia como se estivesse apenas caminhando calmamente em direção à sua próxima refeição.
— Você não consegue usar de novo… — pontuou San, a voz ecoando sem pressa. — Não é?
Naki cerrou os dentes com tanta força que a mandíbula estalou. Raiva, frustração e vergonha explodiram simultaneamente dentro do seu peito. — CALA A BOCA!
BOOOOM.
Chamas ciano comuns explodiram de seu corpo de forma desordenada. Ele forçou as pernas e avançou. Desferiu um soco direto; San desviou com um leve movimento de cabeça. Mandou um chute lateral; San recuou o quadril minimamente, fazendo o golpe cortar apenas o vento. Naki rotacionou o tronco, preparando uma sequência rápida de socos para tentar quebrar o ritmo do oponente, mas San já havia quebrado a distância, materializando-se bem na sua frente.
CRAAACK.
Um único golpe seco foi desferido. O impacto atingiu o braço direito de Naki, deslocando a articulação de forma severa. — AAAAAAARGH! — o garoto gritou, recuando cambaleante.
Antes que ele pudesse esboçar qualquer reação defensiva ou ajustar a postura, o contra-ataque veio do solo. Espinhos ciano-escuros e rígidos brotaram instantaneamente, atravessando a sua perna e cortando os seus pontos de apoio. Naki desabou de joelhos contra o solo rachado, o Sen oscilando de forma caótica.
San o observava de cima, a fisionomia completamente despida de qualquer emoção ou empatia.
— EU AINDA— — Naki tentou forçar os músculos. Tentou levantar o corpo cambaleante, tentou acionar as chamas novamente, tentou avançar, tentou lutar até o limite das forças que lhe restavam.
Mas San simplesmente o segurou de forma firme pela face, anulando a sua movimentação, e o lançou para trás com um movimento contínuo e hercúleo.
BOOOOOOM.
O corpo de Naki cruzou o campo inteiro em uma trajetória horizontal, colidindo contra os destroços e caindo diretamente além da linha limite, na Área de Eliminação.
[Jogador eliminado.]
Silêncio na ala oeste.
Logo em seguida, Tsubasa Hayashi avançou. Seus olhos prateados estavam arregalados em puro choque pela velocidade da queda do companheiro. — NAKI!
BOOOOM.
A velocidade tática do espadachim explodiu ao limite máximo de sua capacidade. Ativando o Senkai, ele utilizou uma movimentação de alta frequência; seu corpo desaparecia e reaparecia por diferentes quadrantes do campo em frações de milissegundos, tentando criar um vetor de ataque imprevisível.
Mas os olhos rachados de San Ryoshi acompanhavam rigorosamente cada frame do deslocamento. Cada passo dado no concreto, cada desvio sutil, cada mudança de ângulo.
Tsubasa sentiu um arrepio térmico correr por sua espinha no meio da corrida. Ele percebeu: San estava vendo tudo. San estava acompanhando a velocidade máxima do Senkai. San estava reagindo a uma velocidade de processamento cognitivo que nenhum competidor normal deveria conseguir alcançar. — …O quê? — balbuciou o espadachim.
San sumiu de sua linha de visão frontal e reapareceu exatamente na sua frente, cortando o momento da corrida.
CRAAACK.
Espinhos de energia ciano-escura irromperam do solo, travando ambos os joelhos de Tsubasa no meio do passo. O impacto interrompeu o fluxo de Sen imediatamente, e o espadachim desabou no solo, sem conseguir manter a velocidade residual, sem conseguir esquivar e sem qualquer rota de fuga viável.
San o agarrou firmemente pelo pescoço, erguendo o corpo do combatente como se ele não pesasse absolutamente nada. Tsubasa ainda tentou reagir, movimentando os braços para desferir um golpe curto ou escapar do aperto mecânico, mas nada funcionou contra a densidade física do líder.
— Você corre rápido — verbalizou San, fazendo uma pausa pesada enquanto sustentava o olhar rachado. — Só isso.
BOOOOOOM.
Tsubasa foi lançado com violência horizontal. Seu corpo cruzou o ar da arena devastada, caindo de forma pesada e definitiva na Área de Eliminação.
[Jogador eliminado.]
Silêncio sufocante.
Agora só restava um único combatente no tabuleiro de Ryuji Arata. Kaede Shizuma. O Leão.
Descargas espessas de raios vermelhos explodiam consecutivamente ao redor de seus músculos tensionados. Seu olhar estava carregado de um ódio focado, as pupilas fixas na figura central do líder inimigo. — Então sobrou só eu… — rosnou Kaede, flexionando os joelhos.
— Parece que sim — respondeu San, mantendo a voz no mesmo tom plano.
Kaede abriu um sorriso torto, selvagem e desafiador. — Ótimo.
BOOOOOOM.
O chão abaixo de suas botas despedaçou-se com a propulsão. Kaede desapareceu em um rastro de eletricidade vermelha, e os dois colidiram com força total no centro geométrico da arena.
SOCÃO. SOCÃO. SOCÃO.
A troca de golpes francos fez o campo inteiro tremer ritmicamente. Raios vermelhos rasgavam o teto simulado do estádio enquanto espinhos ciano-escuras irrompiam do solo destruído para tentar conter o avanço do garoto. Mas, pela primeira vez desde o início daquele massacre unilateral, San Ryoshi foi obrigado a erguer os antebraços e bloquear ativamente os impactos.
Kaede continuava avançando centímetro por centímetro, ignorando a dor dos impactos, ignorando os ferimentos causados pelas agulhas de Sen e blindando a mente contra qualquer desgaste. — VEM! — berrou o Leão.
Mini leões de plasma vermelho explodiram em cascata ao redor de seu braço direito, superaquecendo a atmosfera. Ele desferiu um soco, conectou o segundo, mandou o terceiro em uma rotação de quadril perfeita.
Então—
BOOOOOOM.
Em um movimento de pura persistência mecânica, o punho massivo imbuído em plasma de Kaede conseguiu atravessar a linha de guarda de San Ryoshi. O impacto conectou-se diretamente contra a lateral do rosto do líder.
Silêncio. A cabeça de San virou levemente para o lado sob a força cinética do soco.
O estádio inteiro congelou nas arquibancadas. Ele havia acertado. Kaede Shizuma tinha conseguido conectar o golpe. Foi o primeiro e único ataque realmente eficaz desferido contra San Ryoshi desde a ativação daquele estado perturbador.
Mas a comemoração visual durou apenas um milissegundo.
San Ryoshi voltou lentamente o rosto para a posição original. Seus olhos continuavam com o aspecto rachado, envoltos por aquela fumaça escura e opaca, e o vislumbre de humanidade havia desaparecido por completo. — Entendo — disse San de forma gélida.
CRAAAAAAACK.
Centenas de estacas afiadas de energia ciano brotaram simultaneamente do solo em um raio de curto alcance. Kaede, preso no pós-movimento do soco, mal conseguiu esboçar uma reação de esquiva. As pontas rígidas de Sen atingiram seus braços, ombros e flancos, quebrando totalmente a sua base de sustentação.
Mesmo com o corpo severamente avariado, Kaede ainda tentou forçar um passo à frente, tentou levantar o braço esquerdo para golpear, tentou continuar lutando com o que lhe restava de consciência.
Mas San Ryoshi já estava posicionado diante dele. Aplicou um único toque descendente com a palma da mão espalmada contra o peito do garoto.
BOOOOOOM.
Kaede foi arremessado verticalmente contra o solo com uma força esmagadora. A arena inteira afundou sob o impacto, moldando uma cratera gigantesca e concêntrica que pulverizou o concreto ao redor. Os raios vermelhos de plasma piscaram duas vezes e desapareceram por completo de seu corpo.
O silêncio absoluto tomou conta do estádio de testes. Kaede permanecia caído no centro do recuo, totalmente imóvel e inconsciente.
[Jogador eliminado.]
San Ryoshi permaneceu de pé no centro exato da destruição. Sua respiração vinha de forma lenta, compassada, quase inaudível. Seus olhos rachados passaram metodicamente pelo campo totalmente devastado, observando os perímetros vazios e os oponentes derrotados na área externa.
Ele contemplava, em silêncio, o abismo intransponível que separava a sua existência de todos os outros competidores.
O estádio inteiro estava imerso em um silêncio sepulcral, denso e paralisante. A arena de testes havia sido completamente varrida do mapa, reduzida a um deserto cinzento de crateras sobrepostas, destroços calcinados e sulcos profundos na rocha vitrificada. Salpicos de sangue manchavam o concreto irregular onde, espalhados de forma caótica pelo quadrante, repousavam quatro corpos inertes.
Ryuji Arata, Naki Senrou, Tsubasa Hayashi e Kaede Shizuma. Todos derrotados. Todos levados além de seus limites físicos e mentais.
No centro exato daquela devastação monumental, San Ryoshi permanecia de pé. Imóvel. Ele não exibia cansaço, ferimentos aparentes ou qualquer alteração na postura, assemelhando-se a uma calamidade natural que havia acabado de cruzar o terreno, deixando apenas o vazio em seu rastro.
Do alto das arquibancadas superiores, Daizen Takatora observava o desfecho sem mover um único músculo. Mantinha os braços cruzados sobre o peito largo, mas, ao contrário do round anterior, um sorriso de canto, profundamente satisfeito e irônico, desenhava-se em seus lábios. Ao seu lado, Zenon permanecia em silêncio absoluto. Seus olhos finos e analíticos escaneavam meticulosamente o campo de batalha lá embaixo, pesando o estado de cada combatente caído.
— Viu, Zenon… — quebrou Daizen a estática, a voz reverberando mansa, porém carregada de uma arrogância convicta. — A diferença abismal e incontestável entre o companheirismo… e a ambição.
Silêncio. O vento cortante da altitude passou uivando pelas frestas das arquibancadas de concreto. Zenon continuou observando a cena lá embaixo, sem pressa de interromper.
— Eles lutaram juntos — continuou Daizen, gesticulando levemente com o queixo na direção dos derrotados. — Confiaram uns nos outros. Acreditaram cegamente uns nos outros até o último segundo. E o que eles conseguiram com isso no final das contas? Nada. Absolutamente nada.
O gigante estendeu o indicador robusto, apontando cirurgicamente para o perímetro da cratera. — Olha para eles agora. Todos derrotados. Todos quebrados. Todos fracassaram de forma miserável. E por quê? Porque estavam tentando vencer juntos. Estavam tentando dividir o peso do topo com quem não aguenta o tranco.
Zenon finalmente moveu os lábios, a voz saindo perfeitamente controlada, contrapondo o tom imponente do companheiro. — Você está ignorando um fator crucial, Daizen.
Daizen ergueu uma das sobrancelhas, incitando-o com o olhar.
— O Time do Ryuji venceu um round inteiro — relembrou Zenon, mantendo a postura firme. — Eles conseguiram a façanha de derrubar o San Ryoshi. Conseguiram desmantelar e derrotar aquela equipe perfeita do Time 1. Isso não teria acontecido, sob nenhuma hipótese ou cálculo probabilístico, se não fosse pelo trabalho em equipe deles.
Daizen soltou uma pequena risada anasalada, um som desdenhoso que ecoou pelo camarote privado. — E olha a porra do preço que pagaram o que aconteceu logo em seguida.
Uma pausa pesada se instalou, onde Daizen descruzou os braços e apoiou as duas mãos no parapeito de metal. — O San ficou minimamente irritado. Só isso. Bastou uma fagulha de frustração para que ele fizesse isso.
Zenon permaneceu em silêncio, escutando a lógica do guerreiro.
— Eles comemoraram uma vitória temporária e patética como se tivessem conquistado o mundo — sentenciou Daizen, os olhos estreitando-se. — E o San respondeu simplesmente destruindo e humilhando todos eles em sequência. Essa é a única realidade crua do tabuleiro, Zenon. Companheirismo e contratos só funcionam quando existe uma igualdade de forças na mesa. Mas quando surge alguém verdadeiramente superior na cadeia alimentar… tudo isso vira poeira. Só existe uma engrenagem que importa: a ambição individual.
Zenon desviou os olhos de Daizen e voltou a focar na silhueta isolada de San Ryoshi ao longe. A aura ciano-escura, densa e impregnada por aquela névoa preta e opaca, continuava a emanar de seus poros, distorcendo a percepção visual do ambiente ao redor. Era pesada. Ameaçadora. Monstruosa.
— Então você realmente acredita que o San está certo em sua abordagem? — questionou Zenon, testando a convicção do rival.
— Não — respondeu Daizen de imediato.
Zenon virou o rosto na direção dele de forma abrupta, exibindo uma surpresa genuína pela primeira vez em muito tempo.
— Eu não disse isso — esclareceu Daizen, o tom de voz descendo para uma frequência gélida. — O San Ryoshi não está certo em porra nenhuma. O San Ryoshi é um problema de escala catastrófica.
O sorriso satisfeito desapareceu por completo do rosto de Daizen, sendo substituído por uma expressão rígida, quase sombria. — Olhe bem para ele, Zenon. Ele não luta por companheiros. Não luta por amizades ou laços. Não luta por uma noção boba de honra, e muito menos por sonhos grandiosos. Ele só quer uma coisa: esmagar e apagar qualquer existência que ouse se colocar na frente dele.
Zenon voltou a olhar para a arena devastada. Lá embaixo, San permanecia estático no centro do vazio, com as pupilas rachadas fixas no nada. Parecia uma estátua de gesso cinzento, uma criatura bizarra que claramente não pertencia àquele ecossistema humano.
— E é exatamente isso o que o torna um elemento tão perigoso e imprevisível — concluiu Daizen, a voz pesada como chumbo. — Porque monstros de verdade não precisam de motivos para destruir.
O silêncio absoluto tomou conta de toda a extensão das arquibancadas superiores por longos e tensos segundos. Nenhum dos dois homens voltou a emitir qualquer som, permitindo que a gravidade daquelas palavras se assentasse sobre o camarote.
Até que Zenon quebrou o transe, abrindo um leve e sutil sorriso de canto. — Talvez. — Ele fez uma pausa cadenciada, ajustando a postura contra o vidro protetor. — Mas monstros também podem ser caçados e derrotados, Daizen.
Daizen rotacionou os olhos na direção dele, a fisionomia neutra.
— E quando esse dia inevitavelmente chegar… — continuou Zenon, o brilho em suas pupilas tornando-se afiado. — …eu quero ver bem de perto qual será a sua desculpa filosófica.
Daizen soltou uma risada baixa, um som gutural que continha uma pitada de genuína expectativa de combate. — Então eu espero do fundo do meu coração que alguém realmente consiga a porra da proeza de derrotá-lo.
Os dois homens cessaram o debate e voltaram a observar o horizonte da arena em ruínas.
Lá embaixo, San Ryoshi permanecia completamente sozinho no epicentro de toda aquela destruição artificial. Ele agia como o rei incontestável de um reino transformado em cinzas; como um predador alfa cercado pelas carcaças de suas presas mortas. Como um monstro.
E talvez… o maior, mais letal e descontrolado monstro que o Projeto Fighters World já havia ousado criar em toda a sua história.

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