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    Akane andava agachada, à procura de soldados. Encontrou dois, conversando próximos ao muro. Respirou fundo, criou duas flechas e as disparou. Elas cortaram o vento e, no meio do caminho, sumiram. Segundos depois, ambos caíram desmaiados.

    — Ufa… — ela respirou aliviada e prosseguiu.

    O local dispunha de uma quietude incômoda. Mal se ouvia passos, conversas e outros sons. Somente após avançar mais vinte metros que começou a ouvir vozes e gargalhadas. Aproveitou uma fenda no muro para espiar.

    — Estão todos no refeitório? Isso facilita tudo. — murmurou.

    Mas precisava ser rápida. Assim que Raya destruísse a sala de comunicação, aquele acampamento entraria em estado de alerta máximo.

    Enquanto isso, as outras equipes entraram no local para sabotar outros pontos. E conforme os avanços ficaram nítidos, uma sensação estranha afligiu a garota: estava fácil demais. Ela sentia cada gota de suor. Era seu instinto avisando-a sobre algo, ou o trauma causado pela última missão? Lutando contra esse estranhamento, Akane incapacitou os inimigos que encontrou e retornou ao encontro dos aliados. Restava apenas a explosão da sala de comunicações. No entanto, nada acontecia.

    — Por que Raya está demorando tanto? — Ryn sussurrou.

    — Não sei. Nos separamos há alguns minutos. Será que ela só não está sendo cautelosa? — Akane analisava o acampamento.

    — Será que aconteceu alguma coisa? Ela nunca se atrasa. — Ryn engoliu seco.

    — Tenha calma, Ryn. Raya já passou por problemas maiores. — pontuou Capuz.

    Por isso Akane se sentia estranha há pouco? Algo lhe dizia para agir.

    — Eu vou verificar a—

    Os alarmes dispararam — sem nenhuma explosão.

    Numa fração de segundo, os soldados saíram do refeitório enquanto um homem com uma máscara se aproximava de onde o grupo estava.

    — Bem que eu senti o fedor de ratos no meu acampamento. A julgar pela aparência, tenho certeza de que foram vocês que capturaram Sora e quase mataram Haythan. Estou correto? — perguntou um homem, arrastando Raya pelo cabelo. A têmpora direita estava vermelha e o olhar um tanto perdido. Foi nocauteada há pouco.

    Aquele rosto… Akane sabia quem era aquele homem. Ele estava com Haythan quando a escola foi atacada. Era o Manifestador de cuspe ácido, Igner.

    — Vejam só quem está aqui! Akane Yagami, um dos interesses do Imperador. Veio aqui se entregar? Cadê seu amigo Kamito Takeda? Pensei que ele estaria com você, já que vocês nunca se desgrudam.

    — Por que quer saber? — Akane lhe apontou uma flecha e seu arco se dividiu, adotando a forma de um X. — Você já deve saber o que houve com o Kamito. Agora, terei a oportunidade de me vingar pelo que você e os outros fizeram à escola. Eu não pretendo ter piedade!

    Ela deu um passo à frente. Apesar da hesitação, não podia perder a oportunidade.

    — Solte-a. Isso é entre você e eu! Ou você precisa de todos esses homens para cuidar de seis intrusos? — ela esboçou um sorriso atrevido. — Tanto faz, eles não são o bastante. Temos um truque na manga, sabia? Nós somos só a distração.

    — Homens! Matem todos os soldados! Vamos manda-los para os deuses da morte! Hoje, o Extra-Mundo expurgará o Império!

    A comoção fez o chão tremer. Duncan surgiu erguendo uma espada, e dezenas de rebeldes atacaram os soldados por trás. Não houve escapatória.

    — Malditos! — Igner retirou a máscara e ameaçou morder o pescoço de Raya. — Ainda tenho um refém, e a matarei se vocês se aproximarem! Rendam-se!

    Apesar do desespero no olhar do inimigo e do grande risco de vida que Raya corria, Akane ainda mirava na direção de Igner.

    — Você não se importa com sua amiga?! Vai sacrificá-la para vingar uma escola estúpida?! — ele forçou um sorriso, tentando parecer forte. — Se fosse o Kamito, ele não faria nada. Estaria tremendo de medo igual à última vez!

    — Eu não vou perder mais ninguém! — Akane puxou a corda do arco com todas as forças e soltou. Ouviu-se um barulho estranho, mas nenhuma flecha foi disparada. — E não fale do Kamito como se ele fosse um covarde! Você não sabe nada sobre ele nem sobre covardia. Se tem um covarde nessa história, é você que está usando uma mulher como refém e denegrindo a imagem da melhor pessoa que eu já conheci!

    Assim, ela desfez o arco e baixou os braços.

    — Acabou. Você não merecia o dom que possuía, então eu te livrei do seu fardo.

    — Do que está falando? Ficou louca?! Eu me cansei de você! Vou matá-la agora! — ele se preparou para morder Raya, mas seu corpo todo estremeceu.

    Igner soltou a refém, colocou as mãos no peito e caiu de joelhos.

    — O que você fez comigo? O que você fez comigo?! — ele olhava para Akane com pavor. — Eu… Eu não consigo usar minha Manifestação! Eu não sinto nada, eu não consigo sentir minha energia! Devolva a minha Manifestação agora mesmo!!!

    — Cale a boca. Já estou cansado de te ouvir gritar como uma criança que deixou o doce cair! Há um segundo você se achava superior, agora acha que teremos pena?! — Capuz lançou um de seus buracos negros e fez o inimigo desaparecer. Ele sorriu e se aproximou de Raya. — Você está bem? Como você foi pega por aquele idiota?

    — Inacreditável… — disse Lília, impressionada, enquanto Ryn corria até a amiga. — Akane, isso que você fez foi aquela mesma técnica que o Kamito usava? Como se chamava…? Blue Flame Sickle?

    Lília se aproximou, parecendo já suspeitar que técnica realmente era aquela, mas ainda incapaz de acreditar que Akane pudesse usá-la.

    — Não — Akane limpou as mãos. — Aquele ataque, mesmo fora da variação das chamas do Kamito, teria destruído o alvo. Essa técnica foi limpa e imperceptível.

    — O que fez, então? — insistiu Lília. — Como você e ele têm esse tipo de poder?

    — “Arrow of the Last Sigh”. — ela desviou o olhar. — Você deve conhecer como “Manifestation Reaper Shooting”. Essa é a minha variação desse golpe. Raishi disse que não era preciso matar todos os Manifestadores que enfrentássemos, por isso ele me ensinou essa técnica. Nem ele acreditou que a minha variação era assim.

    Ela suspirou ao contemplar o semblante assustado da amiga.

    — Sei dos riscos de usar um golpe como esse e que só devo usá-lo como último recurso, mas o que aquele homem falando do Kamito me tirou do sério. — Akane então esboçou uma feição serena. — Não se preocupe. Eu não pretendo usá-lo o tempo todo. Sei quais são as consequências.

    — Pelos deuses, que bagunça vocês fizeram! — disse Duncan, se aproximando empolgado. — Se não fosse pelo aviso da Camaleão, não teríamos tempo de chegar.

    Ao ver Lília, ele sentiu vergonha e desviou o olhar para o local.

    — Aquelas armas e equipamentos serão de grande utilidade para os rebeldes e para o povo. — ele disfarçou. — Onde está o restante do grupo? Dos que estão aqui, só conheço a Camaleão e a Hiena. Onde está o homem sério e o rapaz com cara de psicopata? E quem são os outros ali? É um prazer conhecê-los, sou Duncan Walter.

    — Eles logo estarão aqui. — Lília indicou o trio mais distante. — Aqueles três são Raya, Ryn e Capuz Negro, todos membros da Emota. É a eles que você deve a sua vida, correto? A garota aqui se chama Borboleta.

    Ela explicava com naturalidade, porém ainda não parecia contente em saber que Akane possuía aquele tipo de poder, especialmente por causa do seu estado mental atual. Akane poderia ser uma ameaça no futuro?

    — Quando criaram esse cerco? Nossas informações foram vazadas e a posição foi comprometida, por isso viemos. Precisávamos saber se vocês estavam vivos.

    — Eu imaginei que isso fosse acontecer. — Duncan a fitou com seriedade. — Tive a certeza quando eles apareceram aqui há dois dias. E o político? Conseguiram pegá-lo? Espero que essa confusão tenha valido a pena, pois perdi alguns homens.

    Enquanto isso, na entrada principal do cerco, chegava o restante do grupo.

    — Finalmente poderei conhecer o restante do grupo e o líder. — disse Duncan, animado. — Estou animado para trabalhar com vocês de novo. Vamos com tudo!

    O dia terminava com um clima de paz. Os rebeldes foram salvos e se juntavam ao grupo principal. Faltava um novo esconderijo para extrair as informações de Sora.

    Akane estava sentada no chão, a sós. Abraçava os joelhos e olhava seu pingente.

    — Quando tudo isso acabar, serei digna de colocá-lo de volta no meu pescoço. — ela murmurou Akane, admirando cada detalhe do acessório.

    — A-Akane — Raya se aproximava com timidez, e um curativo na cabeça. — Eu gostaria de te agradecer. Você me salvou.

    — Não precisa me agradecer. — Akane baixos os braços. — Você faria o mesmo por mim. Afinal, somos um time, não é mesmo?

    — Tem razão. Mesmo assim, obrigada. — Raya sorriu e estendeu a mão.

    Akane retribuiu o sorriso sincero e aceitou a ajuda para se levantar. Ergueu-se se sentindo uma mulher diferente. Não carregava mais seu lado choroso e dependente. O trancafiou nas profundezas de seu coração, para talvez nunca mais reencontrá-lo. O novo rumo de Akane teve seu batismo de fogo, podendo abrir caminho para ela se tornar uma peça-chave da Ordem dos Cavaleiros Brancos — e do destino da guerra.

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