CAPÍTULO 37 - ESCUDO DE FORÇA
Os dias haviam seguido com uma regularidade que Oliver começava a apreciar.
De manhã, aulas com Orson na floresta. À tarde, partidas de Regnum com Erina. Uma vez por semana, uma visita à casa dos Venn.
Com Orson, ele não aprendera nenhuma magia nova desde a Armadura Arcana. O velho decidiu que, antes de qualquer outra coisa, Oliver precisava aprender dracônico de verdade. Não bastava pronunciar cânticos decorados. Ele precisava ler, escrever e falar a língua com fluência suficiente para não cometer erros de pronúncia que desperdiçassem mana.
Oliver reclamou internamente durante os primeiros dois dias. Depois desistiu, porque Orson tinha razão, e era difícil argumentar contra alguém que estava claramente certo.
O dracônico tinha uma lógica própria. Não era tão distante do universal quanto o élfico, mas possuía uma estrutura gutural e rítmica que exigia movimentos pouco naturais da boca de quem crescera falando outra língua. Oliver não conseguia evitar a comparação mental com o mandarim de sua vida anterior.
O dia da aula com Archibald chegou.
Oliver caminhou até a casa dos Venn com o caderno de anotações debaixo do braço, o único material que estava autorizado a levar para casa, e entrou pela porta que Sebastian abriu antes mesmo que ele batesse. O mordomo não disse nada. Nunca dizia.
Para sua sorte, ou talvez azar, ele nunca tinha voltado a ver o serviçal que batera em sua mãe, nem mesmo o dono da casa Venn, Balthazar Venn.
Jonathan já estava sentado quando Oliver entrou na sala de estudos. Assim que o viu, lançou-lhe um olhar intenso. Oliver observou a alma dele por reflexo e encontrou ali um fervor competitivo quase incômodo. Assentiu levemente em resposta e se sentou.
Archibald estava de costas para os dois, examinando algo em uma das prateleiras.
Havia algo diferente no mago naquela manhã. Uma quietude que não era o tédio habitual. Oliver lançou um olhar rápido para sua alma e viu um roxo discreto, concentração misturada com algo que levou um instante para identificar.
Preocupação.
Archibald se virou antes que Oliver pudesse observar mais.
“Bom. Hoje vamos aprender algo prático.” Ele caminhou até o centro da sala e bateu o cajado no chão uma única vez. “Escudo de Força.”
“15 pontos de mana.”
O número ainda circulava na mente de Archibald como uma moeda que se recusava a parar de girar.
Ele passara dias tentando encontrar uma explicação razoável. Elfos com reservas elevadas existiam, e Oliver carregava sangue élfico nas veias, mas 15 pontos no 1º ciclo eram o dobro do que qualquer registro que consultara indicava como possível.
Havia duas interpretações.
A primeira: aquilo era uma anomalia. Algo estava errado com Oliver de uma forma que Archibald não conseguia categorizar. Talvez o coração de mana do garoto fosse estruturalmente diferente.
Talvez ser um meio-elfo da alma produzisse efeitos que ninguém jamais documentara, mas, claro, Archibald nem sequer sabia exatamente o que era um elfo da alma.
A segunda: aquilo era uma bênção absurda. Um talento que surgia uma vez em muitas gerações, sem explicação e sem causa identificável.
Archibald decidiu adotar a segunda interpretação.
Não porque acreditasse nela, mas porque a primeira levantava perguntas que ele não queria responder a ninguém. Um garoto de 7 anos com uma reserva de mana anômala em Corval era exatamente o tipo de informação capaz de atrair atenção indesejada.
Archibald não sabia o que Oliver era, mas sabia muito bem o que acontecia com pessoas que chamavam atenção demais.
O prego que se destaca é martelado.
Então, para todos os efeitos, aqueles 15 pontos de mana seriam tratados como uma bênção extraordinária, e ponto final.
“Escudo de Força é uma magia de 1º ciclo.” Archibald começou a andar pela sala com o ritmo de sempre. “Defensiva. Ela cria uma barreira de força concentrada que elimina completamente o impacto de um ataque. Depois disso, se dissolve.”
Jonathan tomava notas com atenção. Oliver, por sua vez, observava.
Archibald ergueu um dedo.
“O custo é de 1 ponto de mana por uso. O que a torna valiosa não é o poder, e sim a velocidade. Diferente da maioria das magias, o Escudo de Força pode ser conjurado quase instantaneamente. Um único componente somático, um único componente verbal, e a barreira aparece.”
Sem levantar os olhos do caderno, Jonathan perguntou:
“Qual é o componente verbal?”
“Uma única palavra em universal.” Archibald então olhou para Oliver. “Você. Levante.”
Oliver se levantou.
“Conjure seu relâmpago contra mim.”
A sala mergulhou em silêncio por um segundo.
“Mestre Archibald…”
“Eu disse que conjure.” O tom não admitia discussão. “Use o que você criou contra o orc. Quero que conjure com a intenção de me causar dano real.”
Oliver sustentou o olhar de Archibald por um instante. A alma do mago estava calma, dourada de confiança. Ele sabia exatamente o que estava fazendo.
Então Oliver estendeu a mão.
A carga começou a se acumular em sua palma. O estalo veio antes que ele estivesse pronto, mas ele segurou, adicionou mais energia e deixou a tensão crescer até o ponto em que sentiu que, se mantivesse aquilo por mais um segundo, perderia o controle.
Então soltou.
O relâmpago cortou o ar entre os dois com um som seco e violento.
Archibald fez um único movimento com a mão direita e pronunciou uma palavra.
A barreira surgiu na fração de segundo anterior ao impacto.
O relâmpago atingiu o Escudo de Força e simplesmente parou. Não foi absorvido. Não foi desviado. Foi cancelado. A energia se dissipou sem deixar vestígios, e a sala voltou ao silêncio como se nada tivesse acontecido.
Archibald abaixou a mão com tranquilidade.
“Assim.” Ele falou com absoluta naturalidade. “É isso que a magia faz.”
Jonathan havia largado a pena sem perceber.
Oliver continuou olhando para o ponto onde o relâmpago desaparecera.
Um único gesto, uma única palavra, e o relâmpago havia sido completamente anulado.
Havia algo ao mesmo tempo fascinante e perturbador naquilo. O relâmpago que mandara o orc voando, que chamuscara a pele de uma artista marcial de Rank 1, fora cancelado por uma magia de 1º ciclo conjurada em um instante.
Archibald voltou para o centro da sala.
“A velocidade de conjuração é tudo nessa magia. Um Escudo de Força conjurado devagar é inútil. O ataque chega antes da barreira existir. O gesto precisa ser executado numa velocidade específica, com uma mão só e sem margem para erro.” Ele olhou para os dois. “Vamos praticar.”
…
Os três seguiram para o campo de treinamento atrás da casa dos Venn.
O gesto era mais difícil do que parecia.
Archibald demonstrou várias vezes. Era um único movimento de pulso, com os dedos em uma posição específica, executado numa velocidade que parecia automática só porque ele o repetira centenas de vezes ao longo da vida. Oliver tentou imitar e não produziu nada. Tentou outra vez. Nada.
A dificuldade não estava exatamente na velocidade, mas na precisão dentro dela. Fazer o gesto devagar era simples. Fazer o gesto rápido destruía a forma. Fazer o gesto rápido e manter a forma correta era outra coisa completamente diferente.
Jonathan também tentava reproduzir o movimento, com a testa franzida na concentração de quem realmente estava se esforçando.
Nas primeiras tentativas, nenhum dos dois chegou perto de conjurar. Archibald corrigia, demonstrava novamente, corrigia de novo.
A primeira falha custosa de Oliver veio quando ele estava convencido de que tinha acertado o gesto. Sentiu a mana se mover, sentiu o processo começar, mas o escudo não surgiu. Ainda assim, a mana foi consumida.
Ele apenas piscou.
“Tão perto.” Archibald não parecia satisfeito nem insatisfeito. “O pulso dobrou rápido demais no final. Tente de novo.”
Oliver tentou novamente.
Do outro lado, Jonathan também falhara algumas vezes e, com apenas três pontos de mana, cada erro custava caro. Oliver conseguia ver a tensão crescendo no garoto a cada tentativa frustrada. Sua alma oscilava entre laranja de ansiedade e vermelho de frustração.
A queda de Jonathan aconteceu repentinamente.
Ele estava no meio de uma tentativa quando simplesmente parou. Os olhos se fecharam, o corpo inclinou, e ele teria desabado no chão se Archibald não estivesse perto o bastante para segurá-lo pelo ombro.
Exaustão de mana.
Archibald o deitou em uma cadeira com eficiência, tirou do bolso do robe um pequeno frasco de líquido roxo e o abriu. O cheiro que escapou era amargo e levemente metálico. Em seguida, levantou um pouco a cabeça de Jonathan e encostou o frasco em seus lábios.
Jonathan bebeu sem ter plena consciência disso. A cor voltou ao seu rosto em poucos segundos, mas ele permaneceu desacordado.
Archibald se levantou e olhou para Oliver.
“Continue.”
Então levou Jonathan para dentro.
Oliver ficou sozinho no campo de treinamento.
Tentou novamente.
Havia algo diferente em praticar sem ninguém observando. Menos pressão para acertar rápido, mais espaço para prestar atenção no que estava errando. Oliver começou a desacelerar mentalmente o processo, tentando identificar o ponto exato em que o gesto perdia a forma.
Era o pulso. Archibald já havia dito isso. No momento em que a velocidade aumentava, o pulso compensava com um movimento desnecessário, quebrando a precisão da posição dos dedos.
Oliver tentou corrigir apenas esse detalhe.
Falhou. A mana foi consumida.
Tentou de novo.
Dessa vez, o escudo surgiu.
Foi breve. A barreira existiu por menos de um segundo antes de se dissolver. Também parecia menor do que a que Archibald conjurara, mas foi o bastante para que Oliver sentisse sua estrutura: a forma como a mana se organizava, onde a barreira surgia, como o gesto e a palavra se conectavam para produzir aquele efeito específico.
Ele repetiu.
O escudo surgiu novamente, um pouco mais rápido.
Alguns minutos depois, Archibald voltou ao campo de treinamento e ficou parado na entrada, observando Oliver praticar sem interrompê-lo.
“15 pontos de mana,” ele pensou outra vez, involuntariamente. Ele ainda está de pé depois de horas praticando.
Oliver conjurou o escudo pela quinta vez consecutiva sem falhar.
Uma bênção extraordinária, era isso, tinha que ser.
Archibald entrou no campo.
“Bom.” Parou ao lado de Oliver. “Continue praticando.”
E saiu sem acrescentar mais nada.
Oliver voltou a ficar sozinho.
“Será que o mestre Archibald sabe que conjurar em dracônico aumenta o efeito das magias em 10%? Todas as magias que ele ensinou até agora eram em universal.”
Ele se perdeu nesse pensamento enquanto conjurava o escudo mais uma vez. Ainda tinha mana suficiente para algumas tentativas antes de desmaiar.
Essa era a diferença entre ter uma grande reserva e ter uma pequena. Jonathan já havia desmaiado antes mesmo de conseguir praticar mais.

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