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    Inicialmente, Theodora pensou em esconder tudo que havia acontecido. Se Fernando não havia dito nada a Zado, por que ela deveria?

    No entanto, ao ver os olhos arregalados do velho homem, soube que não tinha escolha. Se os membros do Batalhão Zero fossem publicamente punidos, isso afetaria diretamente a reputação de seu Tenente.

    Além disso, apesar de ser alguém rígido e até estranho, Zado havia assinado um Contrato de Sigilo com Fernando e se comprometido a ser seu aliado. Mesmo que ela quisesse lidar com os problemas do Batalhão Zero por si mesma, entendeu que a melhor alternativa seria ceder dessa vez.

    “General, a atual situação é…”

    Logo, Theodora relatou todo o assunto com o assassino enviado pela Família Lopes, que visava a vida de Fernando. Também contou a ele sobre a recente tentativa que o rapaz havia sofrido, bem como o caso com a Guilda Fúria que eles haviam destruído em Belai.

    “Hm, agora entendo o nível do problema”, Zado falou, com uma carranca no rosto.

    Ele havia lido sobre o conflito com a guilda de fachada exterminada em Belai no relatório levantado. Era algo relevante, já que Fernando e o Batalhão Zero haviam sido punidos, tendo sido enviados para as Tropas de Exploração, algo tão perigoso que mesmo para Heitor, um Capitão, foi dada como sua Missão de Trucidação.

    Durante a outra tentativa que Fernando sofreu, o Salão da Recepção havia sido informado e os Generais tomaram medidas, aumentando a vigilância e rigor sobre quem entrava e saía da cidade. Mas aparentemente isso não havia sido suficiente para inibir novos causadores de problemas.

    Esse garoto é realmente problemático. Se esses desgraçados da família Lopes realmente estiverem falando sério sobre matá-lo, vai ser difícil protegê-lo. Felizmente, parece que não estão tão preocupados com esse assunto ainda. Caso contrário…

    Lidar com uma das Grandes Guildas das Trevas era algo extremamente perigoso. Destruir um dos seus ramos, mesmo que pequeno e pouco significativo, era como mexer com um ninho de vespas e Zado sabia muito bem disto. Mesmo ele próprio, um General relativamente poderoso, caso fosse alvo da organização, sabia que não teria muitas chances de sobrevivência. E, obviamente, os Leões Dourados não se atreveriam a declarar guerra contra um dos membros do Grande Senado apenas por causa de um mero General, muito menos por um simples Tenente.

    “Quais foram os danos sofridos?” Zado perguntou.

    “Nove baixas e vinte e um feridos, senhor”, a Subtenente relatou, com a cabeça baixa.

    Colocando a mão no queixo, o velho homem de olhos arregalados ficou pensativo.

    “Tudo bem, se fosse um pouco mais, seria difícil encobrir o incidente sem que Herin notasse, mas com apenas esse nível de estragos eu posso resolver.”

    Ouvindo isso, Theodora e Ilgner se entreolharam, surpresos com a calma com que o General estava lidando com a situação.

    “Prepare dois Pelotões incompletos para uma missão externa. Envie-os para o portão norte ao amanhecer. Vou enviar algumas pessoas de confiança para lidar com os registros de entrada e saída. Vocês estavam realizando uma missão de patrulha expedida por mim e, lamentavelmente, nove homens morreram ao lidar com Carniçais solitários. Entenderam?”

    O bárbaro loiro franziu a testa ao ouvir isso.

    “Eu planejava relatar as baixas como acidentes de treinamento.”

    A expressão de Zado mudou, ficando irritado.

    “Nove homens mortos durante um treinamento? Você ainda tem um cérebro dentro dessa cabeça? Seu idiota! Perder tantos homens fora de batalha vai chamar a atenção da Corregedoria. Por acaso você quer um bando de membros do Salão xeretando por aqui? Eu tive tanto trabalho para lidar com Amélia, se outro Administrador se envolver, eu estarei de mãos atadas!”

    Com o alerta do General, Ilgner rapidamente percebeu que essa realmente era uma possibilidade, ainda mais depois de Fernando ter assassinado uma das subordinadas da Administradora afastada, Amélia Albrechete.

    Vendo a expressão do Subtenente loiro, Zado assentiu.

    “Se entendeu, faça os preparativos!”

    “Sim, senhor!!” Ilgner e Theodora responderam em uníssono.

    Logo Zado se levantou, com imponência.

    “Lembrem disso, não deixem de reportar nada que ocorrer fora do comum por aqui. Vou enviar alguns homens para procurar pelo assassino, mas se ele for esperto, já deve ter deixado a cidade”, o velho homem disse, preparando-se para partir, mas antes disso parou e olhou para Theodora, vendo seu tapa-olho. Lembrando-se do relatório de Fernando sobre o incrível talento da mulher para a Magia das Sombras, pensou em algo. “Você aí, menina. Visite Sanjo e peça que ele dê uma verificada nesse olho. Talvez não seja tarde para recuperar sua visão.”

    A expressão de Theodora mudou, ficando surpresa que Zado estaria preocupado com ela.

    “Sim, senhor! Obrigado!”

    Vendo o velho homem sair, os dois Subtenentes suspiraram.

    “Pelo menos, parece que esse Zado é um pouco mais confiável que o General Dimitri”, Ilgner comentou. Mesmo que odiasse obedecer ordens de pessoas além de Fernando, sentiu que o velho era alguém relativamente capaz.

    Apesar de Dimitri apoiar Fernando de forma quase incondicional, ele havia sido um Major por muito tempo e carecia de experiência no novo cargo. Muitas vezes, deixando a desejar em suas responsabilidades.

    “Parece ser o caso”, Theodora respondeu, de forma desinteressada, seu habitual bom humor não poderia ser visto em lugar algum quando, com seu olho direito, observou a situação do Batalhão pela janela. Após a luta contra o Máscara Branca, ela viu o quão dependentes eram de Fernando, seja por sua força ou liderança. Agora precisariam se apoiar em outra pessoa além dele. Sendo a segunda em comando, aquela que deveria resolver os problemas internos do Batalhão Zero em sua ausência, a Medusa sentiu que não havia correspondido às expectativas de seu Mestre. “Mas não podemos contar com pessoas de fora para sempre, o Líder não gostaria disso.”

    “Faz sentido, mas o que você sugere?”

    “Mande uma mensagem ao Major Silvester. Precisamos iniciar os treinamentos em Magia imediatamente. Também envie alguém até o consultor Alfie, as aulas de Runas devem ser retomadas”, a mulher falou, com uma voz cheia de firmeza.

    Não posso decepcioná-lo de novo! Mesmo que seja só um pouco, farei com que sejamos um pouco mais capazes! Theodora pensou.

    “Entendi. Nesse caso, também vou voltar com o treinamento no Sistema de Habilidades”, Ilgner declarou, compreendendo as intenções da mulher. Mesmo que os membros do Batalhão Zero fossem muito fortes, ainda careciam de experiência em muitas áreas. Se trabalhassem os talentos individuais de cada membro, poderiam aumentar a força geral do batalhão. De repente, o bárbaro loiro lembrou de algo. “Na verdade, pensando bem, você tem alguns pontos de Contribuição e Prestígio acumulados, certo? Lembro que muitos também receberam alguns quando encontramos o acampamento dos Orcs.”

    A Medusa ficou curiosa ao ouvir a pergunta.

    “Sim, eu tenho. O que planeja?”

    “Bem…” O bárbaro loiro sorriu de forma estranha, de forma tão bizarra que fez Theodora achar a visão disso um pouco nojenta. “Acho que precisamos fazer uma visita ao Salão de Recepção.”

    De volta a Yandou, após conseguirem sair com vida do encontro com a Eterna Viajante, era em torno das 22h da noite. Fernando, Lerona e Raul se apressaram de volta à Pousada do Recanto Esquecido. No caminho de volta, enquanto cruzavam as ruas relativamente vazias, com apenas alguns indivíduos suspeitos nas vielas e becos, nenhum dos três disse uma única palavra.

    De certa forma, eles haviam atingido seu objetivo, tendo conseguido a Habilidade Lendária que tanto desejavam. No entanto, os segredos revelados naquela negociação, tanto sobre o Erolder quanto sobre a Medusa, eram simplesmente absurdos demais.

    Mesmo Raul não conseguia evitar olhar para Fernando de forma estranha.

    Ele poderia aceitar que o rapaz tivesse, de alguma forma, ‘domado’ um Erolder por acidente, mas agora uma Medusa? E uma que estava disfarçada de Humana, servindo-o? Isso era simplesmente muito estranho! Se ele não fosse seu mentor e soubesse de tantos segredos sobre o rapaz, acharia que ele era um infiltrado de outras raças!

    “Garoto… Quem é?” O Capitão moreno perguntou, enquanto caminhavam, ao não suportar mais sua curiosidade. De repente, um pensamento passou pela mente do homem. “Espera! Não me diga que é aquela sua esposa…”

    Ouvindo isso, Lerona imediatamente olhou para Fernando, chocada. Ela havia conhecido Karol pessoalmente e a achado uma boa garota. Não conseguia imaginá-la como um monstro!

    “Não é ela”, o jovem Tenente respondeu, suspirando, sabendo que não havia mais como guardar tal segredo. No lugar de manter o suspense, com esse clima pesado, decidiu contar de uma vez. “É a minha segunda em comando, Subtenente Theodora.”

    Raul e Lerona imediatamente ficaram perplexos ao ouvirem isso. Não era uma simples Soldado, mas uma Subtenente!

    “Pivete, você é realmente um maluco desgraçado. Nomear uma Medusa sua Subtenente, ainda mais no momento atual.” De repente, o sujeito moreno lembrou-se de algo. Theodora havia vindo de Vento Amarelo com eles e tinha sido parte da mesma leva de recrutas que o próprio Fernando. “Pode ser que… ela era uma espiã dos Elfos Negros?” exclamou, sem acreditar.

    Theodora havia sido parte da Equipe E77, uma das mais destacadas que havia sido incorporada ao Esquadrão de Fernando. Isso significava que ela havia se infiltrado em Vento Amarelo muito antes de conhecê-lo!

    O jovem Tenente não respondeu imediatamente, mas logo assentiu.

    “Ela servia aos Elfos Negros, mas agora me serve”, declarou, com alguma indiferença, misturada a alguma confiança inabalável em suas palavras.

    Tendo recebido a confirmação, Raul ficou pensativo.

    Se os Elfos Negros podem infiltrar Medusas em larga escala em nossas fileiras, isso é um grande problema! pensou consigo mesmo, preocupado. Normalmente, nenhum inimigo conseguia entrar nas cidades Humanas, sejam Elfos, Orcs ou Criaturas das Trevas, tudo isso devido à Matriz de Defesa, que repelia e alertava quando algo que não fosse um Humano tentasse cruzar seus limiares. Porém, havia um único ser capaz de entrar e sair livremente, um ser que era metade Humano, uma Medusa!

    Esse era um dos motivos pelos quais as Medusas sempre eram perseguidas, já que eram uma ameaça em potencial para as cidades.

    Enquanto andavam pelas ruas quase vazias, o trio passou em frente a um pequeno bar levemente movimentado, onde algumas garotas, com roupas provocativas, acenaram para eles, convidando-os a entrar.

    O Capitão moreno apenas ignorou isso, assim como Lerona e Fernando, que já haviam se acostumado com essa situação.

    “Moleque, eu ac-” Ele estava prestes a dizer algo, quando sentiu uma enorme presença atrás deles.

    Seja Lerona, Raul ou Fernando, nenhum dos três conseguiu reagir a isso, quando uma pesada mão segurou o braço do jovem Tenente, puxando-o com força.

    “Que caralhos você está fazendo nesta cidade, Tenente Fernando?!”

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