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Capítulo 26. Dedos Dourados 4
No alojamento, as novidades fluíam em voz baixa. O minúsculo quarto que abrigava os amigos há anos acolhia a ansiedade crescente em seus peitos.
— Pelk, é certo que Lorem possui um conversor de mana entre as posses de Hord.
Benk descrevera a experiência na residência da senhora para o colega. Comentou que a quantidade de objetos de mana era abundante. O maior problema seria: como invadir a casa sem ser descoberto. Fracassar? Inadmissível.
— Tem certeza? Pelo que diz, não chegou a ver um!
E ele estava certo. Benk estava deduzindo.
O rapaz refletiu por um momento.
— Tem de ter um! Ela comentou sobre cristais de aquecimento. Eles são grandes e artificiais, por isso não conseguem absorver mana suficiente sozinhos. Hord certamente os recarregava com mana!
Pelk concordou. O comum era substituir os cristais descarregados por novos. O setor de recarga de cristais, um monopólio natural do estado de Palard, possuía uma demanda constante pelos serviços de cristais domésticos, principalmente os de aquecimento. Mas era infinitamente mais barato recarregar por conta própria. Claro, se a pessoa fosse um mago.
A questão que pairava agora era como invadiriam a casa de Lorem, onde estava o conversor e se funcionaria para dar conta de seus planos.
— Vamos devagar, Benk. Tem alguma ideia de como invadiremos a casa da senhora Hord?
— Sim. Precisamos de gatos!
— O que?
…
Durante uma breve pausa no trabalho, usando uma pedra de luz emprestada de Kabar, Benk habilmente entalhou números e letras em tiras de couro.
Cerca de um turno após a visita a Lorem, em um dia combinado antecipadamente, ele e Pelk requisitaram uma folga, gastando uma de suas raras conquistas meritórias neste trabalho insuportável. Benk tinha vinte requisições não utilizadas; Pelk somava dezesseis.
— E se ela não aceitar? — perguntou Pelk. O rapaz estava vestido com a sua melhor roupa. Calças de linho pretas, uma camisa branca bem ajustada e um colete bege recoberto por um casaco de camurça. Tinha o cabelo penteado para o lado, um rosto naturalmente inofensivo com olhos pequenos e gentis.
— Se for o caso, vamos ter que improvisar. Quem sabe alguém do escritório, ou batemos de porta em porta! Mas acredito que vai dar certo! — disse Benk, que bem sabia que mesmo que desejasse cuidar de algum animal, as regras do alojamento não permitiam.
O departamento de manejo animal localizava-se a setenta e duas ampulhetas a leste da câmara forte, perto da margem do grande rio Corgo que cruzava a cidade. Era um prédio antigo de conservação precária. A fachada de madeira puída estava torta, mas a inscrição escavada no letreiro e sua função social estavam intactas.
— Olhe, Benk. O Dragão Dourado está carregando um bloco de pedra.
A estimada criatura em questão estava vinculada à família real de Norgta, sendo o atual cavaleiro, Bontek, um príncipe boa-vida que gostava de peregrinar pelo velho reino multiplicando sua prole.
— Ela está ajudando na construção da grande ponte — informou o escriba.
A grandiosa figura dracônica batia as asas massivas durante aquela calma manhã com o pescoço curto amparando cordas de espessura equivalente a um corpo humano. As escamas arredondadas que ornavam todo o seu corpo refletiam etereamente a luz solar, conferindo ao voo lento um ar de graça sagrada.
A instituição de manejo animal tinha por função abrigar e buscar novos lares para animais de criação dóceis, como felinos e canídeos, ou mesmo equinos, bovinos e galináceos. Na cidade de Om, havia três abrigos mantidos por iniciativa da administração local. Qualquer um de bom coração poderia, mediante uma simbólica contribuição, adotar um dos companheiros ali disponíveis.
Benk inquiriu o atendente enquanto observava o lugar. O homem, com cortesia, guiou os escribas prédio adentro, percorrendo corredores amplos que ecoavam latidos agudos e eufóricos. Cada departamento mantinha áreas de tamanho adequado para comportar os inquilinos domésticos. Quase não havia cavalos ou bovinos, mas cães e gatos se encontravam em número razoável. O homem informou que o fluxo de adoção era constante, mas a captação de novos filhotes, cujos donos não podiam arcar com os cuidados, também era intensa. Gatos, certo? Podem escolher à vontade!
— Benk! — chamou Pelk, com um brilho nos olhos. — Olha para esse jovenzinho.
O rapaz se empolgou demais. Dentro de um gradil, um infante gato cinzento de pelo bufante do tamanho da palma de uma mão cambaleava de um lado para o outro perseguindo um pequeno grão de ração.
— Pelk — disse Benk. E, pela clareza no tom da voz do colega, ele recobrou a postura. — Os gatos não são para nós.
Escolheram três dos filhotes mais bonitos e sociáveis. Colocaram-nos numa grande caixa e seguiram viagem.
— Não foi fácil demais adotar os pequenos? E se alguém desajustado fizesse alguma coisa?
— Se for pego? Boa sorte em lidar com o grupo de fiscalização e segurança animal. Já ouvi que pessoas foram exiladas por isso.
E Benk tinha razão. Uma facção inteira da guarda urbana zelava pelo respeito aos animais de criação.
Enquanto o caminho até a casa de Lorem se desdobrava, sentados ao fundo do carro de fogo, os dedos dourados acertavam os detalhes dos próximos passos. Pelk bem sabia que planos eram esboços imprecisos e frágeis quando confrontados com a realidade.
Colocou as luvas para esconder os dedos manchados de tinta; Benk fez o mesmo.
— Queria resolver isso de outro modo — confessou Pelk, enquanto acariciava um dos frágeis felinos de manchas brancas e pretas.
Benk segurava com firmeza a alça de uma grande sacola de couro costurada. Seu cabelo ondulado estava despenteado. O suor escorria pelo seu rosto tensionado. Sentia um calor abrasador sob as camadas de roupa extra que vestia.
— Não podemos simplesmente pedir emprestado; esse tipo de item só tem um tipo de dono — relatou Benk, controlando a respiração.
Em conversas anteriores, já tinham debatido alternativas, mas nenhuma delas parecia factível. Comprar, só com credenciais de ofício. Extraviar do outro departamento, arriscado ao extremo. Construir por conta própria, sem compreender os mecanismos do aparelho, era altamente improvável. Envolver inocentes e deixar rastros explícitos só mancharia a boa vontade dos envolvidos.
Abaixaram o volume da conversa.
— Nesse horário, se tudo correr bem, poucas pessoas devem estar em suas casas. Espero não chamar muita atenção.
O olhar de Benk revelava uma determinação irredutível.
— Siga o combinado, a parte difícil fica comigo. Mantenha ela afastada de lá o máximo que conseguir.
— Será que vai dar certo?
Benk sequer encarou o amigo.
— Ela tem um bom coração. Se não estiver em casa, reagrupamos e eu ajo sozinho.
Desceram do transporte público e, a partir daquele momento, começaram a caminhar separadamente.
Benk acelerou o passo, orientando Pelk à distância, enquanto seguia o caminho até a residência de Lorem. Adentraram a região residencial. O ar estava calmo e o sol alto, em plena intensidade, fustigava o chão de pedras das ruas estreitas.
Benk colocou um grande chapéu de fibras vegetais entrelaçadas acima da cabeça, manufaturado por ele mesmo, e puxou de dentro da sacola uma grande tesoura metálica de poda, extraviada dois turnos antes do setor de zeladoria urbana enquanto eles trabalhavam nas paisagens arborizadas no parque próximo ao local onde moravam.
Deixou escapar de uma de suas mãos uma pequena pedra embrulhada em papel, enquanto passava em frente à casa de Lorem. Pelk, a uma distância segura, cruzou a rua em direção a um parque arbóreo localizado a poucas ampulhetas da casa da viúva.
Enquanto o escriba, disfarçado de zelador, puxava um lenço para secar o suor do rosto, e começava a circundar a residência, aproximando-se de algumas plantas públicas para podar alguns galhos, Pelk encontrou um lugar adequado, isolado, abaixo de uma árvore e entre arbustos, e ali depositou a caixa com os filhotes no chão. Torcendo para que nenhum curioso se aproximasse e, com certo afobamento, endireitou a postura e caminhou o mais rápido que pôde, mas sem exagerar nos gestos, até a frente da casa da senhora Hord.
Ao longe, Benk coletava os galhos podados e alinhava a aparência acolhedora dos arbustos do bairro. Poucas pessoas, movimentos residenciais mínimos, uma tarde que se espreguiçava na calmaria de mais um dia comum.
As palmas de Pelk mal chamaram a atenção, mas foram suficientes para que Lorem, que estava em casa, descansando após o almoço, o atendesse prontamente.
Benk mal conseguiu ouvir o que conversavam ao portão, e interpretou isso como um bom sinal.
— Encontrei uma caixa com filhotes aqui no parque ao lado — relatou o rapaz à senhora Hord.
A mulher, confusa, não entendeu de imediato.
Pelk explicou.
— Os pequenos têm coleiras com números, e como um deles é idêntico ao da sua casa, imaginei que soubesse de alguma coisa — argumentou o escriba.
Lorem negou, mas Pelk percebeu de imediato a gentileza florescer no rosto da senhora.
— Perdão pela grosseria — desculpou-se o rapaz ao perguntar o nome da mulher.
— Lorem Hord — apresentou-se a viúva.
Pelkdoc, o sagaz, expressou a surpresa ensaiada na mais convincente dissimulação que encenaria em toda a sua vida.
— Nossa! Na coleira de um deles, há letras que batem com o seu nome — disse, abaixando os olhos em sutil constatação.
E, lentamente, concentrou a atenção na senhora, apresentando-se sob o nome de Noew e convidando-a a conhecer os desamparados felinos.
Lorem aceitou a oferta, já dominada pelo afeto curioso e infantil que, mesmo após uma vida inteira, ainda não conseguira, ou sequer desejara, superar.

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