Índice de Capítulo

    Voltar para a criação não era muito diferente de sair.

    Com um pensamento, uma fenda de luz se abriu e Renato passou por ela, deixando para trás aquele microcosmo criado por ele.

    O ar frio beijou seu rosto antes que os olhos pudessem distinguir alguma visão. Os pés tocaram o chão escorregadio do palácio de gelo.

    — Renatooooo! — Irina saltou sobre ele, fazendo os dois caírem de maneira ridícula no chão.

    — Ai, bati a cabeça…

    — Ãh, foi mal! Foi mal, Rê! — Irina saiu de cima de Renato.

    O garoto também se levantou, massageando as têmporas.

    Clara revirou os olhos.

    — Ai, meu Satã!

    — Tá dando certo! — disse Mical, com alegria na voz. Estava de cócoras ao lado da desmaiada Lírica. Uma fadinha do tamanho de um bem-te-vi voava em volta da cabeça dela, como se estivesse orbitando. — Os ferimentos dela estão… estão se curando finalmente!

    — Graças a… — O garoto se aproximou e se abaixou, e tocou o rosto da demi-humana.

    — Graças a quem, Renato? — perguntou Clara, erguendo uma sobrancelha e com um tempero de sarcasmo na voz.

    O garoto nem deu bolas. Já estava acostumado ao jeito da demônia.

    — Você conseguiu. Derrotou aquela coisa. — Mical lhe lançou um olhar de admiração.

    — É óbvio que conseguiu — se aproximou Tâmara. — O Renato consegue qualquer coisa. Não existe impossível pra ele! Até mesmo a mim… — Ela parou a frase na metade. Fechou o punho diante do peito, como se quisesse esmagar algo dentro do coração.

    — Quanta fé! — O anão Ryon se aproximou, guardando aquele machado enorme na cintura. O outro anão, carregando o martelo, lhe acompanhava. — E não é que a garota-gato está se curando mesmo? — Ryon pôs a mão sobre o ombro de Renato. — Deveria ir à Montanha de Grot qualquer dia desses, homenzinho! Beberemos tanta cerveja que ficaremos bêbados por uma semana inteira! — Ergueu o queixo e assentiu, orgulhoso.

    Renato notou um corte superficial no rosto dele.

    — Está ferido. Temos uma curand…

    — Não! Deixa disso. Isso não é nada! Só mais uma cicatriz pra coleção! — riu ele. — Minha senhora adora! Acha sexy, se é que me entende? — Gargalhou com a voz grave e rouca, como a de um fumante de derby vermelho.

    A alguns metros dali, Jéssica observava tudo com olhos neutros. Seu fuzil estava repousado ao seu lado, com a alça ainda presa ao pescoço. Não deixaria transparecer o que estava sentindo. Mas a ansiedade escapava pelas ponta dos dedos, e ela movia-os avidamente, contra o chão gelado. Apertou o punho.

    — Fui completamente inútil… — sussurrou ela. — Eu deveria ter… deveria…

    — Não se cobre tanto, garotinha — Clara sussurrou em seu ouvido, fazendo Jéssica se assustar repentinamente, mas logo recobrar a compostura. Clara riu do susto da menina. — Assustada?

    — Não — respondeu Jéssica, mal encarada. — Nada me assusta.

    — Assusta sim. — Clara sentou-se ao lado dela. — Quer saber um segredo?

    Jéssica não respondeu, mas olhou para ela com o canto dos olhos. Clara interpretou isso como um “sim”, então continuou falando:

    — Às vezes eu fico assustada também. Principalmente quando se trata do Renato, sabe? A primeira vez que eu vi ele derrotando um demônio de alto nível no Inferno, caramba, fiquei toda arrepiada! Parte daquilo era tesão, é verdade, mas parte também era… um pouco de medo…

    — Medo de quê?

    Clara ficou um tempo pensando na resposta.. Levou a mão ao queixo.

    — De não ser a mais forte, eu acho. De não ser a mais… útil. A mais importante. Meio narcisista, não acha?

    Jéssica sorriu.

    — Compatível com um demônio, eu acho.

    Clara sorriu também.

    — É. Deve ser.

    — Lírica! — Renato a abraçou, pressionando-a contra seu corpo, assim que a demi-humana recobrou a consciência. — Eu deveria ter te protegido! Deveria ter…

    — Não! Eu… tô bem.

    — Você matou aquela coisa, não matou, homenzinho? — perguntou o anão do martelo. Acabou com aquela criatura! E pensar que o pobre do K’alpak queria te enfrentar! Coitadinho, ia ser aniquilado! — Ele gargalhou, levantando o chifre cheio de cerveja.

    Strausun não gostou nada das risadinhas dos demais seres feéricos, principalmente o de seus companheiros de espécie, mas tudo o que fez foi resmungar.

    — Que bom que estão se divertindo e comemorando! — Lua caiu do buraco no teto, pousando no meio do salão. Segurava, em seus braços, o cadáver de sua mãe. Os olhos de lua brilhavam tristes e as lágrimas congelaram em seu rosto, formando caminhos ramificados em sua pele fria.

    Soll surgiu logo depois, ao lado dela.

    Ryon foi o primeiro a se aproximar. Ele baixou a cabeça respeitosamente.

    — Senhorita Lua. Comemoramos a vitória sobre o inimigo, mas lamentamos a perda que sofremos. Sua mãe era uma marquesa inestimável, assim como você também será. Tu és, agora, a nova marquesa destas terras, e tens meu profundo respeito, e também minha lealdade, e a de todo o Povo Sob a Montanha de Grot!

    Lua ficou em silêncio. Se abaixou e pousou o corpo de sua mãe no chão.

    — Ela terá um sepultamento feérico tradicional. Tenho certeza de que é isso que ela gostaria. Mesmo que me aperte o peito! Sua matéria se desmanchará e se tornará outra coisa. O gelo de seu corpo se tornará orvalho sobre as plantas das fadas, e depois será a água que dará a vida aos cogumelos dos gnomos. Seus olhos serão tomados pela lua e transformados em luz de prata. Seus dentes serão a rocha que os anões escavarão e encontrarão ouro e oricalco. E seu sangue… seu sangue viverá em mim. Eternamente. 

    — Em nós. — Soll pôs a mão sobre o ombro da irmã.

    — Sim. Em nós. — Lua se levantou finalmente. E seus olhos cinzentos encontraram os do do garoto.

    — Renato. Eu sei que a vingança por minha mãe veio de suas mãos. Mas não pude deixar de notar que foi como se aquela coisa conhecesse você. Poderia me explicar?

    Renato relaxou os ombros e suspirou, resignado. Ela tinha o direito de saber. Ele explicou quem eram os cavaleiros e o que queriam, mas omitiu um certo detalhe relacionado a sua culpa de eles estarem soltos.

    Lua ouviu em silêncio. Todos ouviram. No fim, a elemental assentiu. Olhou mais uma vez o cadáver de sua mãe. Depois olhou sua irmã. Todos ali esperavam uma resposta. Ela era a marquesa agora. Precisava de mais informações.

    — Pelo que diz, será uma luta difícil.

    — Bastante.

    — Mas você derrotou esta… Besta que Subiu da Terra… e o Peste também.

    — Eu os enfrentei sozinhos. E derrotei por causa de situações muito específicas. Sinceramente, tive sorte, e muita ajuda. Mas não vai acabar até derrotar todos eles. E eles têm um exército sem fim de zumbis putrefatos. E tem aqueles dois…

    — Sim. Guerra e Morte. São os mais preocupantes, pelo que disse.

    — Por isso eu preciso fazer uma coisa impossível.

    — Minha mãe costumava dizer que uma coisa impossível, quando se tem ajuda, se torna apenas quase impossível.

    — É um belo conselho.

    Mais uma vez ela olhou pra sua irmã. Tanto ressentimento num olhar. Tanta tristeza. Tanta raiva.

    Eram iguais, afinal.

    — Eu vou com você. E toda essa Marca Elemental de Gelo irá com você. Eles têm um exército, não têm? Nós também temos. Vamos mostrar pra eles o quão frio pode ser nosso ódio.

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