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    O clima estava tenso. O olhar delas agora era vazio, suas expressões, traumatizadas. O que aconteceu com toda aquela energia de antes?

    As duas meninas que estavam ao lado olhavam para a do meio, esperando que ela reagisse, que fizesse algo para revidar.

    Mas, pela sua postura e expressão, não parecia que faria mais nada.

    Já perdi muito tempo aqui… preciso acabar logo com isso.

    Dei um suspiro de desdém, como se estivesse cansado da conversa.

    — Enfim, já cansei de falar com vocês. Eu já mandei chamar o diretor quando vi vocês correndo, e toda essa discussão foi só uma forma de ganhar tempo até ele chegar e ver o que está acontecendo! — disse, com um sorriso de quem tinha o controle da situação.

    Foi uma boa mentira. Como elas estavam emocionalmente abaladas, não pensariam na possibilidade de um blefe.

    — QUÊ?! O DIRETOR?! O QUE A GENTE VAI FAZER?! — exclamou a garota da direita, o rosto tomado pelo pânico.

    A menina do meio, por outro lado, estava furiosa. O olhar dela parecia querer me devorar vivo.

    Já a da esquerda apenas suspirou, ajeitando o cabelo.

    — Eu preciso terminar minhas unhas. Melhor irmos logo, então.

    A garota do meio gritou, tomada pela raiva:

    — Você vai me pagar, seu moleque! Vai me pagar por isso!

    Ela se virou, marchando como se fosse a líder de um exército, e as outras duas a seguiram como súditas de uma rainha.

    Patético… Essa escola está cheia de crianças que se acham superiores. Mas por quê?

    Ao menos, isso acabou por enquanto. Cheguei a pensar que elas iriam se juntar para me bater. Por sorte, acertei meu palpite: não eram agressivas a ponto de usar força física.

    Olhei para a garota indefesa no chão. Era estranho… por que ela não fugiu?

    Estava sentada, escondendo o rosto entre os joelhos, como se aquilo pudesse protegê-la.

    Ela devia estar em choque.

    Bom, vou ver se está bem.

    Caminhei até ela, lentamente. Cada passo fazia o som leve das folhas se mexendo.

    Mas, mesmo assim, a menina não se moveu, nem um músculo sequer.

    Será que está traumatizada…?

    Abaixei-me, deixando meu joelho direito encostar no chão, de modo a ficar na mesma altura que ela.

    — Está tudo bem agora… não precisa ter medo, elas já foram embora.

    Nenhuma reação. Nem uma palavra.

    — Olha, eu sei que não foi fácil… mas você não pode continuar assim. Isso só vai machucar ainda mais.

    Toquei sua cabeça, tentando transmitir tranquilidade. Seu cabelo completamente rosa e ondulado, estava exaurindo um cheiro forte de morango, talvez seja algum produto de cabelo. Mas graças a esse meu gesto, ela ergueu seu rosto.

    Seus olhos… azuis, cheios de inocência, mas também de solidão, dor e lágrimas.

    Meus olhos começaram a marejar junto com os dela, sem que eu entendesse o motivo. Apenas sentia.

    Logo depois, ela abaixou a cabeça de novo.

    Limpei minhas lágrimas discretamente. Eu não podia deixar isso acontecer, não podia deixá-la se afundar naquele momento.

    — Ei, não chora. Você está segura agora. Eu estou aqui com você. — tentei acalmá-la.

    Ela continuava em silêncio.

    Seus braços estavam cruzados, abraçando as pernas. Segurei uma de suas mãos, para transmitir segurança.

    O estranho era a sensação. Quando a toquei, parecia que eu conseguia sentir o que ela sentia, como se estivéssemos conectados. Seria apenas uma sensação… ou loucura?

    — Por que… você fez isso?

    Finalmente, uma voz baixa, mas audível.

    Ainda segurando sua mão doce e macia, respondi:

    — Porque era necessário. Ninguém merece algo tão covarde.

    — Mas… você não me conhece. E eu… não conheço você. — disse, a voz melancólica.

    Ela soltou minha mão após falar isso.

    — Bom, você tem razão… a gente não se conhece. Mas agora nos conhecemos! Entendeu?

    Tentei animá-la, forçando um sorriso alegre.

    — A melhor forma de começar é com os nomes. Eu sou Yuki Hikaru . E você?

    Ela levantou o rosto outra vez. Os olhos, antes tomados pelo medo, agora pareciam mais centrados. Seu rosto, vermelho pelo choro, ainda transmitia fragilidade.

    — Por que você está sendo legal comigo? Eu não sou ninguém nessa escola… Por que está falando comigo? — perguntou, com a voz rouca.

    Sorri, tentando mostrar confiança.

    — Que coisa pra se dizer, hein? Se eu te protegi, é porque você é alguém sim. Pelo menos, pra mim.

    Ela me olhou, como se tentasse compreender minhas palavras. Mas logo a dúvida tomou seus olhos.

    — Você só diz isso porque não me conhece.

    Suspirei e me inclinei um pouco mais perto.

    — Justamente por isso quero te conhecer. Quero descobrir por mim mesmo quem você é. Tenho certeza de que é alguém incrível. Se não fosse, estaria lá com aquelas meninas patéticas, não acha? — falei, tentando fazê-la rir.

    Ela parecia perdida em pensamentos, mas percebi um pequeno brilho de esperança em seus olhos.

    — Elas são muito irritantes… mas eu não sei o que fazer para elas pararem de zombar de mim.

    Dei uma risada curta.

    — São mesmo, né? Péssimas pessoas. — pisquei. — Mas só tem um jeito de pará-las: não deixar que façam o que querem.

    Ela assentiu, mas logo abaixou a cabeça de novo.

    — Eu não consigo… — murmurou.

    — Entendi… Não se preocupe com isso. — respondi, levantando-me.

    Estendi minha mão para ela, um gesto sincero.

    — Olha, eu estou aqui. Prometo ficar ao seu lado até você conseguir. Olhe pra mim!

    Ela hesitou, olhando para minha mão como se não soubesse se podia confiar.

    — Vamos ser amigos? — perguntei, animado.

    Seus olhos brilharam, de uma forma diferente dessa vez.

    — Você… quer ser meu amigo? Mesmo sem saber nada sobre mim?

    — Claro que sim! — respondi com um sorriso caloroso. — Vamos ser melhores amigos. Vamos conversar todo dia, brincar todo dia, fazer tudo o que amigos fazem… e eu vou te proteger de todos!

    Eu não entendia bem o motivo de estar dizendo aquilo. Apenas sentia que era o certo. Desde que a toquei, parecia que eu podia sentir suas emoções. E isso me motivava a ficar ao lado dela.

    Ela me olhou e, pela primeira vez, vi esperança em seu rosto.

    Ela sorriu. Um sorriso simples, mas suficiente para me mostrar que havia feito a coisa certa.

    Ela segurou minha mão com força, e dessa vez, senti algo diferente: felicidade.

    Segurava tão forte que parecia ainda ter medo, como se eu fosse sua única defesa.

    — Me chamo… Itsuki. — disse ela, agora com uma expressão mais leve.

    — Prazer, Itsuki. Estou feliz de ver seu rosto mais calmo.

    — Obrigada… por isso. — respondeu, corando levemente.

    — Ah, tudo bem. Bom… pelo visto você gostou de segurar minha mão. Então, que tal voltarmos ao mercado? Aliás, você gosta de sorvete?

    — Gosto… gosto muito.

    — Ótimo! Vamos tomar, então. Eu estava com um antes de vir pra cá… mas acho que já derreteu todo, haha.

    Ela sorriu, agora de forma sincera. Seu humor começava a se recuperar.

    Surpresa, mas animada com a ideia, assentiu.

    Enquanto caminhávamos de volta ao mercado, percebi que ela não soltava minha mão de jeito nenhum.

    Por quê?

    Não falei nada… nem soltei. Melhor deixá-la perceber sozinha.

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