Capítulo 661 - Mentiras e Verdades
1kg de Cristal de Delgnor eram equivalentes a cerca de 10 moedas de ouro! Porém, esse era apenas o valor de mercado, para aqueles que trabalhavam na compra e revenda de coisas no submundo. Eles poderiam conseguir duas ou três vezes esse valor, talvez até mais!
Ouvindo tal absurdo, Deran até pensou que o efeito da sua Poção havia acabado e o rapaz estava apenas cuspindo mentiras, mas isso simplesmente era impossível. Ela deveria durar no mínimo uma hora.
A mulher de olhos verdes também tinha uma expressão estranha, mas imediatamente ficou interessada.
“Seu grupo realmente possui isso?” perguntou, sendo enfática quanto a posse.
“Sim.” Fernando reafirmou.
Com a confirmação, a mulher pareceu ficar pensativa.
“Algo está estranho nessa situação.” Deran falou, desconfiado. “A mulher que estava com você, quem ela é?” indagou, imaginando se aquela pessoa poderia ser poderosa.
“Capitã Lerona, conhecida como Lança Boreal, também dos Leões Dourados.” O rapaz pálido respondeu prontamente, tomando cuidado para não dizer que ela era sua guarda pessoal e chamar atenção para si.
“Dois Capitães e um Tenente? Gente como vocês jamais deveriam possuir algo desse valor.” falou, então olhou para a mulher. “Se esse sujeito realmente tem isso, não precisamos negociar. Podemos apenas matar todos eles.”
Ouvindo isso, as sobrancelhas de Fernando se uniram ligeiramente. Assim como ele havia imaginado, eles preferiam saquear a negociar. Sendo assim, sentiu que não tinha escolha, se não usar uma de suas cartas na manga.
“Eu não recomendaria fazer isso.”
Deran se sentiu atiçado ao ouvir isso, quando pisou sobre o peito do rapaz.
“E por que não, Fernando? O que você vai fazer sobre isso?”
O jovem Tenente o olhou de forma fria, mas se conteve, irritar o sujeito ainda mais, não parecia uma boa ideia.
“Eu? Sou só um mero Tenente, o que eu faria?” indagou, de forma levemente provocativa. “Mas saiba que temos relações próximas com um Cavaleiro e um possível futuro Grande Mago. Pode ser que eles investiguem, caso desapareçamos.”
Não somente Deran, até mesmo a mulher de olhos verdes arregalou os olhos ao ouvir a declaração do rapaz.
A verdade é que Fernando realmente tinha um relacionamento próximo com Ferman, um Cavaleiro, tendo salvado sua vida, e de sua perspectiva Zado tinha grandes chances de se tornar um Grande Mago, sendo assim, ele não estava realmente mentindo, apenas distorcendo um pouco a situação. Ele também não tinha certeza se qualquer um deles realmente o procurariam caso ele morresse, mas a resposta para isso era: muito provavelmente não.
Fernando sabia que tanto Ferman quanto Zado valorizavam suas capacidades, mas se ele morresse, nada disso importaria mais. Além disso, o Cavaleiro Branco talvez sequer lembrasse mais dele. Mesmo assim, ele nunca afirmou que o vingariam ou o procurariam, apenas sugeriu que isso poderia acontecer, mesmo que as possibilidades fossem remotas, de certa forma, essa sugestão era um tipo de ‘verdade’.
“Q-querida, a Poção, ela realmente ainda está funcionando?” O sujeito perguntou, levemente em pânico.
‘Querida’? Parece que eles realmente tem algum tipo de relacionamento próximo. Ao menos nessa parte não mentiram. O rapaz pálido concluiu.
A Eterna Viajante agachou-se ao lado de Fernando, então colocou ambas as mãos em seu rosto e aproximou-se dele. Seus grandes olhos verdes observaram os seus, como se estivesse tentando ver algo.
De repente, o rapaz pálido sentiu algo em sua pele. Era um mana estranho, parecia extremamente familiar, mas, ao mesmo tempo, levemente diferente do que ele conhecia.
Fernando não sabia exatamente porque, mas ao ser observado tão de perto por ela e sentindo isso, uma única pessoa veio em sua mente: Theodora.
Essa pessoa, ela é…
“Medusa.” O jovem pálido falou, de forma involuntária.
Assim que essas palavras foram pronunciadas, as mãos da mulher tremeram, quando ela o olhou de forma aterrorizada.
Rapidamente a garota caiu para trás, de bunda no chão, quando se afastou apressadamente, como se tivesse visto um fantasma.
Deran também tinha um olhar de medo em seus olhos, não entendendo o que estava acontecendo ou porque do rapaz ter dito isso.
Vendo a reação dos dois, Fernando imediatamente engoliu em seco.
Merda… pensou, tendo certeza que havia dito algo que não deveria.
Logo um estranho silêncio caiu no quarto, quando nenhum dos três parecia querer dizer algo.
Após algum tempo, a mulher de olhos verdes, que respirava pesadamente, pareceu se acalmar um pouco.
“C-como? Como você soube?” perguntou, com sua voz trêmula, mas levemente agressiva, parecendo infinitamente mais abalada do que quando o rapaz descobriu sua identidade como Eterna Viajante. Logo seus olhos verdes mudaram de tonalidade, assumindo uma coloração de cor prateada brilhante.
Nesse momento, Fernando soube que estava certo. A pessoa a sua frente não era uma Humana, mas uma Medusa!
Ele imediatamente sentiu seu corpo enrijecer levemente, quando parte de suas mãos e armadura começaram a se encher de uma fina camada de pó branco. Ele estava começando a ser petrificado! Isso era claramente uma ameaça.
“Eu…” O rapaz pálido não sabia o que fazer, sua mente trabalhou rapidamente, mas não importa o que pensasse, não havia como escapar de tal pergunta! No fim, se resignou a responder sinceramente. “E-eu conheço uma Medusa e seu mana me lembrou um pouco o dela.”
Os olhos da mulher se abriram fracamente, parecendo chocada, mas ela parecia querer confirmar algo.
“Você matou ela?” indagou, com uma voz gelada. “Ou fez algum mal a ela?!”
Não era totalmente impossível que Humanos se deparassem com Medusas, porém, geralmente, elas quase sempre seriam imediatamente mortas. Em outros casos, seriam capturadas, abusadas ou vendidas, recebendo um destino pior que a morte.
“Não!” O rapaz respondeu prontamente.
“Por que não?” A mulher perguntou, ainda o encarando.
Fernando sentiu-se estranho em ser perguntado sobre isso. De forma lógica, como parte de uma legião e da Humanidade, era seu dever denunciar Theodora ou mesmo lidar com ela quando a descobriu. Porém, mesmo após descobrir a respeito, ele simplesmente não conseguiu se importar com isso.
A seu ver, Theodora não era uma Medusa, mas fazia parte de seus companheiros.
“Porque… ela é minha subordinada, alguém importante para mim.” O jovem pálido respondeu honestamente.
Quando ouviu a resposta, a mulher parecia estar completamente atônita, como se não entendesse o significado de suas palavras.
“Você é um Humano, um Tenente de uma Legião, mas está dizendo que tem uma Medusa entre suas tropas? E que ela é importante para você? Isso não faz sentido!” exclamou, nervosamente, enquanto o prateado em seus olhos parecia aumentar e diminuir de intensidade, como se estivesse fora de controle.
“Q-querida, acalme-se!” Deran falou, apoiando-a, preocupado.
Vendo a reação exagerada dela, o jovem Tenente ficou em silêncio por um momento imaginando o que a humanidade poderia ter feito com a Eterna Viajante para ela pensar assim.
“Que diferença isso faz?” perguntou, com um olhar calmo. “Não me importa se ela é uma Medusa, uma Humana ou qualquer outra coisa. Tenho certeza que ela daria a sua vida por mim e eu faria o mesmo por ela! Isso é tudo que eu sei e tudo que me interessa!”
De repente, Fernando percebeu que havia falado demais sem pensar novamente. Felizmente, ele não havia dado nenhuma outra informação sensível. O menor descuido de sua parte e a Poção da Verdade definitivamente o faria entregar todos os seus segredos.
“V-você…” A Eterna Viajante olhou para o rapaz com uma expressão estranha. Uma mistura de incredulidade e dúvida pairava em seu rosto.
“Ele está falando bobagens, claramente aquela poção era defeituosa!” O sujeito baixinho exclamou, parecendo furioso.
Ao contrário dele, a mulher pareceu se acalmar e logo seus olhos prateados diminuíram de intensidade, lentamente retornando ao verde-claro de antes.
“Deran, solte-o.” ordenou.
“O quê? Do que você está falando?!”
“Ele continua sob o efeito da poção. Eu pessoalmente chequei isso.”
O sujeito baixinho pareceu surpreso com a afirmação dela. Então pensou no que o rapaz havia dito. Sobre ele e seu grupo estarem relacionados a um Cavaleiro e um futuro Grande Mago, além da oferta de 1kg de Cristal de Sangue de Delgnor.
Sem opções, Deran bateu com seu pé no chão, então Fernando, que estava imerso no solo, sentiu tudo ao seu redor amolecer e começou lentamente a ser empurrado para cima pelo próprio chão. Em instantes, ele se viu livre, com todo o solo acinzentado desgrudando-se completamente de seu corpo.
O que está acontecendo? pensou, em dúvida.
Apesar de não entender o porquê dela ordenar que o libertasse tão facilmente, não hesitou, levantando-se.
“Nos encontre aqui amanhã a noite às 20:00h e traga a mercadoria!” Após dizer isso, indicou com o rosto a direção da porta do quarto.
Fernando franziu levemente a testa, mas não hesitou, quando disparou em direção à saída. Independente do que os tivesse feito mudar de ideia, ele precisava aproveitar essa oportunidade!
Bam!
Quando o rapaz pálido deixou o local, Deran imediatamente se voltou para ela, com apreensão.
“Querida, por quê? Isso é um risco! Você sabe que aquelas pessoas estão nos rastreando, se deixarmos pontas soltas…”
“Eu sei!” A mulher exclamou, quando puxou seu cabelo levemente para trás, expondo uma de suas orelhas, que, apesar de aparentar ser normal, parecia ter leves sinais de cicatrizes de cirurgia. “Esse garoto tem o paradeiro de mais uma criança.”
O sujeito baixinho a olhou com um olhar estranho e levemente melancólico.
“Você sabe que não podemos salvar todas, esses desgraçados, eles…”
“Não é isso! Ele disse que a Medusa serve a ele nos Leões Dourados. Então é alguém que está profundamente envolvida na sociedade Humana. Se ela consegue se passar por um deles ao ponto de servir sobre uma Legião, então… nós precisamos dela!” afirmou, cheia de convicção. “Além disso, o que ele falou sobre o Cavaleiro e o futuro Grande Mago me preocupa. É melhor não fazermos pessoas a qual não podemos enfrentar como inimigos.”
O sujeito baixinho com topete ouviu tudo com atenção e pareceu entender o que ela queria dizer.
“Tudo bem, eu entendi. Vamos seguir com isso por enquanto. Se surgir algo, lidaremos com isso, como sempre fizemos.” falou, com confiança.
Em resposta a isso, a mulher, de olhos verdes, que parecia apática quase o tempo todo, desabrochou em um leve sorriso. Então, sendo mais alta que ele, inclinou-se levemente para frente, beijando-o.
“Você, definitivamente, é meu Anão preferido.” falou com uma voz melosa, quando seus dedos passaram pela lateral de seu cabelo, exibindo uma orelha levemente deformada, semelhante a sua própria.

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